0

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A denúncia ao feminicídio por Frida Kahlo

frida kahlo feminicidio

Publicado no site Artrianon 

O feminicídio é a perseguição e morte de mulheres apenas pelo fato de serem mulheres. Este é um crime cometido por sentimento de ódio, posse e intolerância ao sexo feminino. “O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte”, diz relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre Violência contra a Mulher.

Neste ano, o México registrou os piores dados de feminicídio: dos 31 estados do país, 12 registraram aumento. De janeiro a abril de 2018, 258 mulheres foram assassinadas, e em 2017 foram 389 casos. A ONG Observatório Nacional Cidadão informa que a cada 16 minutos uma mulher é vítima de feminicídio no México.

No caso do Brasil, a taxa de feminicídio é a quinta maior do mundo. Vivemos uma época onde passou-se a cunhar, finalmente, esse homicídio com o nome certo de assassinato motivado por questões de gênero, e também maior encorajamento para as mulheres abandonarem situações de abuso. Ainda assim, o número cresce, e muitos dos casos ocorrem após o rompimento dos relacionamentos. Em 2017, “foram 4.473 homicídios dolosos, um aumento de 6,5% em relação a 2016. Isso significa que uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil”.

O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres. Em comparação com países desenvolvidos, aqui se mata 48 vezes mais mulheres que o Reino Unido, 24 vezes mais que a Dinamarca e 16 vezes mais que o Japão ou Escócia.

Com estas informações, uma das críticas mais enfáticas ao feminicídio, na história da arte, é o quadro Umas facadinhas de nada (“Unos quantos piquetitos!”), da pintora mexicana Frida Kahlo. Em 1934, Frida leu no jornal uma história sobre um homem que assassinou sua mulher em um ataque de raiva. Embriagado, esfaqueou a esposa diversas vezes após alegar uma suposta infidelidade. Diante do juiz, ele se justificou dizendo: “Mas tudo o que eu fiz com ela foi dar umas facadinhas de nada!”. Com isso, Frida transforma em ironia mordaz as “facadinhas” do criminoso, espalhando sangue pela tela, e mostrando o verdadeiro cenário cruel e horrível do assassinato.

Deitado na cama, está o corpo disforme da mulher esfaqueada. Ao seu lado, o assassino com a faca na mão. Acima de sua cabeça a fala criminosa é transformada no título da obra. Há um terrível contraste, na pintura: Frida pontua o espaço do quarto por tons delicados de rosa e azul, junto com uma pomba branca acima da vítima. Os tons leves, nas paredes do quarto, remetem à segurança, delicadeza e tranquilidade que o lar deveriam significar para a mulher. E o pássaro preto, no canto direito, coincide com o chapéu do homem, representando a sua presença como mau agouro no lar.

O sangue se espalha para fora da pintura e marca, com dedos, a tela. Frida perfura a madeira da mesma forma que a mulher foi ferida. Tela e corpo feminino se tornam o mesmo, nesta representação. E, assim, a artista espalha a responsabilidade pelo crime para o observador. Pois o observador está na posição de voyeur nessa cena dolorosamente cotidiana: pessoas assistem abusos, sabem de histórias de maridos violentos, gostam de ver programas de televisão sangrentos, onde o que mais se fala e se expõe é o feminicídio. E se dizem lamentar apenas quando mais uma mulher morre. Por uma história repetida, diariamente. Somos transformadas em mero espetáculo para as massas. E, ainda assim, continuam assistindo, como testemunha ocular, a um crime que só cresce contra o corpo e a liberdade da mulher. Um crime com um nome muito específico e que precisa sempre ser reiterado até que a palavra comece a ecoar sentido. Feminicídio.

Referências bibliográficas

Cresce o número de mulheres vítimas de homicídio no Brasil; dados de feminicídio são subnotificados

Feminicídios no Brasil

México registra piores dados de feminicídio este ano

Frida Kahlo: a mulher de mil faces

0

Cena polêmica em episódio de Game of Thrones reacende discussão sobre misoginia

Matéria publicada no Literatortura

Contém SPOILERS dos últimos episódios da 4a temporada e das anteriores!

Uma polêmica se espalhou após o episódio Breaker of Chains de Game of Thrones neste domingo. Por isso, já vou avisando: essa matéria contém um pequeno spoiler sobre a cena entre Jaime e Cersei Lannister, além de comentários sobre as temporadas anteriores. É importante escrever sobre essa cena em razão da  decepção causada e o esforço em tentar entender o motivo pelo qual os roteiristas optaram por modificar aquela cena em específico, indo de encontro ao que George R.R.Martin narra no livro. Tratar dessa modificação é trazer ao debate até que ponto se pode adaptar um enredo, o risco de perder a identidade do personagem em questão e se há misoginia nessa perspectiva.

A cena em questão é a seguinte. Após perder o filho Joffrey, rei de Westeros, em pleno casamento e acusar o irmão Tyrion do envenenamento do jovem, Cersei se encontra velando o corpo do filho. Ela escuta o pai Tywin discutindo como se deve ser um bom rei com o mais jovem filho de Cersei, preparando-o para assumir o trono sem demora. Logo, Cersei é deixada sozinha diante do filho morto e Jaime Lannister, irmão de Cersei, pede aos guardas que os deixem sozinhos. Sabemos que os dois já mantém uma relação incestuosa, que Cersei se mostrara relutante com a presença do irmão, pois ele ficou longe demais dela e ainda voltou sem a mão direita. A relação dos dois se encontra abalada após o retorno do Regicida.

“Vingue-o…vingue nosso filho”, diz Cersei, “Mate Tyrion”

“Tyrion é meu irmão…nosso irmão”, responde Jaime “Haverá um julgamento que vai trazer a verdade sobre o que aconteceu”.

Ambos se beijam, mas Cersei recua diante da mão dourada que Jaime agora porta, após ter perdido a mão. E, então, do nada, o personagem que se mostrava cauteloso ao lado de Cersei diante de Joffrey e negando matar o próprio irmão, diz“Por que os deuses me fizeram amar uma mulher tão detestável?”, investe na direção de Cersei, rasga o seu vestido e a violenta, enquanto ela diz diversas vezes chorando “pare, aqui não, por favor”. E a câmera para de gravar a cena.

Segundo o diretor, Alex Graves, Cersei aceitou a relação. A fala dele só demonstra a ideia absurda que é acreditar que sempre resta à mulher aceitar esse tipo de violência como se fosse algo agradável, no final das contas. A cena acabou no contexto brutal com a personagem implorando que Jaime parasse, enquanto no livro Cersei comenta uma vez sobre o perigo de os septões flagrarem os dois juntos, ao qual Jaime finge que não se importa, e Cersei conduz a relação como forma de convencê-lo a fazer o que ela havia pedido antes. A personagem é complexa e se sabe que ela está, de fato, frágil pela morte do filho, mas não deixa de lado a vontade de preservar ainda o seu poder como uma Lannister.

E, apesar da postura de Cersei ser um tanto manipuladora no livro, ela não pode ser definida somente como o estereótipo de uma mulher perspicaz, pronta para manipular e destruir a todos. Ela também teve vivências complicadas que a faz ser vítima também. Por isso, o comentário superficial do diretor reduz não somente a complexidade de Jaime, mas a de Cersei também. Mesmo que ela supostamente tivesse aceitado a relação, a cena na série nunca deixará de ser um estupro.

No livro, de fato, os dois tem uma relação sexual diante do corpo de Joffrey. Mas foi consensual. E possui um grande significado na trama: é o momento em que Cersei se encontra fragilizada pela morte do filho, encontrando consolo no único homem que ela amou, que prometia dar mais um herdeiro a ela diante do filho morto, e ao mesmo tempo precisando manipulá-lo de alguma forma para que Jaime se convença de que deve matar o irmão, se vingar pela morte de Joffrey e encontrar Sansa Stark, a qual fugiu do casamento, o que a põe como suspeita pelo envenenamento de Joffrey. Jaime, por sua vez, retornou de uma desventura na qual perdeu a mão e sofreu inúmeras vezes pensando que iria morrer. Estar com Cersei é praticamente a última tentativa de recuperar a relação que ele tivera com a irmã, recuperar o mínimo da felicidade em um passado no qual ele não corria grandes riscos a ponto de perder a mão que o fazia ser da Guarda Real e um homem com um resto de honra aos olhos dos demais.

O seriado compôs a temporada passada com um enredo entrelaçado na redenção de Jaime Lannister. Ele é um dos personagens mais complexos da série, pois no primeiro episódio ele joga Bran Stark de uma torre sem hesitar, o que provoca a raiva do leitor e espectador de imediato. Conseguir reformular o nosso olhar a esse personagem foi um grande mérito do enredo. Jaime revela, numa cena emblemática da 3ª temporada, que se é chamado de Regicida por ter matado o rei que protegia é porque ele possuiu motivos muito fortes para isso. Ele explica como Aerys II Targaryen, o Rei Louco,

havia espalhado barris de fogo-vivo por toda a cidade, embaixo das casas de cada morador de Porto Real, planejando explodir a cidade se sentisse a ameaça do inimigo que, para ele, estava em todos os cantos. Aerys ateou fogo no Mão do Rei, seu conselheiro, porque esse questionou o motivo de espalhar esses barris. O rei, cedendo à Tywin Lannister, pai de Jaime, acabou abrindo os portões da cidade e Tywin a saqueou. Diante disso, Aerys mandou seu mais novo Mão do Rei explodir a cidade e Jaime, ainda parte da Guarda Real, a matar o próprio pai e trazer a sua cabeça. Jaime, então, desferiu um golpe nas costas de Aerys, matou Mão do Rei e quem mais sabia onde estavam os barris de fogo-vivo, para impedir que explodissem a cidade. Essa cena foi decisiva para que o espectador soubesse que Jaime não era, de fato, um traidor, além de colocar em pauta qual é o limite de servir cegamente o rei ou considerar os próprios princípios.

Diante da cena do episódio dessa semana, a primeira impressão que dá é que os showrunners David Benioff e D.B. Weiss precisam de uma aula básica de interpretação de texto. Parece que recriar a cena foi uma tentativa de instaurar uma polêmica. Mas será que uma série tão bem-sucedida precisa disso? Infelizmente, o problema ultrapassam esses argumentos. É ainda mais sério: não só a cena de Jaime e Cersei, mas as de Daenerys e Khal Drogo na 1ª temporada, foram modificadas para um viés violento, sempre culminando no estupro sem necessidade e distinto dos livros.

Se o enredo criado por George R.R.Martin coloca isso no papel, não será à toa. Ele constrói seus personagens com perspicácia e, por isso, não há sentido modificar o que é essencial à trama. No caso, não se trata de uma cena pequena que foi modificada para a série por causa da grande quantidade de enredos para dar conta. Essa cena é importante e não há nada nela, presente nos livros, que precisava ser alterada para se encaixar na história.

É inegável que a violência e o estupro se encontram no cenário terrível do enredo geral, afinal, se trata de uma guerra. Esse ato é, muitas vezes, a forma mais comum – e terrível – nas conquistas de colônias, costuma-se saquear as casas e violentar as mulheres, como se fosse uma invasão à segunda propriedade do homem, agredindo a moral do homem que possui sua família e propriedade. Portanto, esse tipo de abordagem existiria na história e seria verossímil ao contexto. Da mesma forma que Game of Thrones traz brilhantemente à série o fato de que casamentos são alianças e que os casais – Cersei e Robert, Joffrey e Margaery – apenas se suportam pelos nomes e responsabilidades que carregam. Se houvesse uma cena de violência do gênero que indicasse esse realismo no enredo, seria aceitável a sua presença.

O que se mostra intolerável, porém, é ver que a série desqualificou toda a construção de Jaime, transformando-o em um criminoso apenas porque, para as palavras dele na cena, Cersei seria “detestável”. Com essa fala, os showrunners e a aprovação do diretor faz de Cersei a culpada pelo ato por ser “detestável”, postura que não difere de muitos homens da realidade, fora da ficcional Westeros, em culpabilizar a vítima da agressão.

De um personagem moralmente ambíguo que claramente tem buscado modificar suas percepções acerca dos votos, da honra e o que significa tomar para si os ideários dos Lannister, a série acabou por tornar Jaime em alguém deplorável que usa a violência como motivação em si mesma. Os roteiristas desrespeitaram não somente a obra de Martin, como a preferência do espectador por Jaime. O ato do personagem em voltar a Harrenhall e salvar Brienne de Tarth de ser morta por um urso ou convencer os homens que haviam capturado os dois a não violentá-la, o ódio que ele nutria toda vez que o rei Robert agredia Cersei, essas nuances do personagem foram meramente ignoradas, além do trabalho de redenção de toda uma temporada. Depois da agressão que a série inventou para a cena, como é que o espectador vai ficar ao lado de Jaime e acreditar que ele, de fato, quer recuperar a honra dele e ajudar uma Stark?

Confesso que espero que a fúria de George R.R.Martin se volte à vida desses showrunners. Perdeu-se a identidade de Jaime e Cersei também e só resta torcer para que os demais espectadores se mostrem enojados diante do caminho tomado pelos roteiristas e se convençam de que aquele não é Jaime Lannister. Obviamente, essa cena não diminui a qualidade da série como um todo, mas em relação à postura dos roteiristas diante da adaptação e do personagem, resta uma amargura que não tem mais volta, a cena já foi ao ar. É preciso lembrar ainda que essa postura em relação à aceitabilidade de Cersei, argumento dado pelo diretor, só demonstra o quão próximos ainda nos encontramos da permissiva e violenta Westeros em tempos de guerra. A questão é que o diretor não possui uma guerra como desculpa para justificar a sua adaptação e Westeros ainda é uma ficção. A misoginia parece cruzar os limites da ficção e gritar a sua existência na realidade.