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Crítica | Trama Fantasma

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Publicado no site CF Notícias

Trama Fantasma possui um enredo inesperado e é uma grata surpresa. A sua premissa soa como uma história romântica e delicada. No entanto, essa é só a primeira camada. Em uma narrativa seca e direta, Trama Fantasma é uma obra de suspense que permite abrir diversas interpretações sobre o amor e os limites das relações.

Dirigido por Paul Thomas Anderson, o filme tem um corte impecável. De início, o enredo parece uma comum narrativa romântica em meio a roupas elegantes. Temos o último personagem de Daniel Day-Lewis, agora um ator aposentado após ter feito esse filme indicado a seis categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme. O protagonista é Reynolds Woodcock, considerado um dos melhores estilistas em seu meio. Situado nos anos 50, acompanhamos a rotina de criação do artista. Ele trabalha com a irmã Cyril (Lesley Manville), tem as clássicas manias de um gênio incompreendido: aprecia o silêncio no café da manhã, é grosso para obter esse silêncio, dispensa as modelos que desgastaram o seu interesse para encontrar outras musas, e tem ideias brilhantes tornando o tecido em um ser vibrante.

Woodcock tem uma encantadora ingenuidade. Isso é perturbador para um espectador que pretende que Trama Fantasma se enquadre em definições, pois aos poucos notamos que existe nos atos dele uma toxicidade masculina. O nosso primeiro ato é estabelecer como Woodcock usa seu poder de artista para ser abusivo em pequenas situações. E ele o é. Perturba a forma com que Daniel Day-Lewis faz suspirar em poucos minutos, na tela. Aceitamos a excentricidade do personagem diante do esperto sorriso e das expressões milimetricamente calculadas pelo excelente ator.

Quem cede ao encanto, junto com o espectador, é a simples garçonete Alma (Vicky Krieps). Em um inusitado encontro, percebemos que ambos identificam uma costura invisível que os une: a vontade de Alma ser grandiosa, mais do que a vida lhe oferece, e o sonho de Woodcock em encontrar uma verdadeira musa, segundo a sua concepção. Ele diz que há sob o poder de suas mãos definir se Alma tem seios, se não os tem, o contorno de sua cintura, o que mostrar, o que esconder. Essa criação de peças em torno de Alma se revelam um controle do qual a jovem não consegue se desvencilhar por ele estar vestido de promessas.

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A frase “eu te amo”, nessa narrativa que, apenas à primeira vista parece um romance convencional, é dita como uma bomba que explode entre os dois. O que é a relação de Woodcock e Alma? Pode ser resumida a essas três palavras? Ao mesmo tempo em que Alma deseja possuir essa vida convencional de trocas amorosas, ela sabe que não pode recebê-lo das mãos de Woodcock. Contudo, mesmo que ele diga que as expectativas sobre ele são criadas pelos outros, e não é algo que ele dá às pessoas, no fim os seus atos com Alma alimentam a ideia de que se trata de uma relação amorosa.

O filme é ainda mais grandioso por subverter esses papéis. Se até certa parte do filme vemos essas trocas de poderes, em que Alma encontra um modo de começar a perseguir certo sonho de costurar enquanto veste as criações de Woodcock, vemos como a sua presença também afeta Woodcock de forma negativa. Ambos são vítimas do toque do outro. E poucos filmes conseguem executar essa ambiguidade com maestria como Trama Fantasma o faz.

Pouco se sabe, na verdade, sobre cada um dos personagens. Eles são apresentados como supostos estereótipos, ao espectador, para aos poucos se revelar aqui e ali um detalhe que não pode passar batido. A relação entre Woodcock e a irmã Cyril é nebulosa, é difícil dizer até mesmo que são irmãos. Alma tem esse nome, o qual nos parece encarnar a ideia de musa. Mas não sabemos nada sobre ela. A jovem é impenetrável. Com muita cautela, o roteiro também revela o que a personagem sente e pensa, mas nunca o seu passado. Ironicamente, com este nome, o filme faz de Alma a personalidade que perseguimos para saber mais, porém a cada passo o mistério é ainda preservado.

O roteiro se assemelha a um grande vestido de inúmeras camadas. Se a premissa parece romântica, como o tecido que é apresentado aos olhos do público, por debaixo dele há estruturas e anáguas e palavras escondidas por entre as costuras. Presenciamos inversões de papel no roteiro sem que sejam inadequadas. Com a desculpa de perseguir o amor, as pessoas podem cometer atos duvidosos.

Diante de tantas narrativas que colocam o amor como um único tipo de história a ser contada, Trama Fantasmaultrapassa limites. Encanta, perturba, causa dores de cabeça, surpresas e desconforto. Tudo isso de forma sutil, por cenas em que a troca entre Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps fornece uma energia poderosa de embate.

Aliado a isso, encontra-se a maravilhosa trilha sonora de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Logo nas primeiras cenas adentramos no ritmo e na beleza do filme graças ao trabalho bem executado da trilha, que parece repetir a fluidez dos cortes de tecidos que esvoaçam no ar ao ser espalhados na mesa, antes de se tornarem vestidos.

Há muito sobre o que falar de Trama Fantasma. Mas falar por completo estragaria a sutileza das entrelinhas que existem nas reviravoltas. O filme desconstrói a ideia de relações tóxicas, mostrando que a questão é ainda mais complexa. O grande mérito de Trama Fantasma é nos colocar no interior de uma relação amorosa, sem que o amor seja evocado por uma definição universal. Aqui se trata de como Woodcock, Alma e muitas pessoas vivenciam as relações, do que prometer o amor puro e sacro. Por fim, Trama Fantasma nos faz ver com mais clareza como o amor é distante das constantes idealizações simplistas cinematográficas ou mesmo da insistência em retratar o erotismo apenas por imagens gráficas.

O título parece dizer que há somente uma trama fantasma nessa obra: as marcas que o estilista deixa por entre o tecido. Palavras, memórias que ele costura para serem lembradas ou deixadas por ele como uma benção. Contudo, o filme com esse título possui várias tramas fantasmas. De relações que guardam segredos. De toques tóxicos que deixam marcas quase imperceptíveis. O mais fascinante é, ao fim, perceber que há várias novas tramas fantasmas para serem descobertas por entre o tecido dessa ficção de Paul Thomas Anderson e como elas ecoam a complexidade que é estar com o outro.

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Mulheres da Alemanha e Alsácia | Um passado de roupas preservado

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Coluna semanal no Fashionatto

Os móveis de mogno, a toalha de renda branca pura repousando na mesa que ela costumava colorir com os vegetais colhidos da horta e de onde observava a mãe cozinhar, suar diante da panela enorme que mexia com paciência. Era surpreendente ainda ter lembranças tão vívidas agora que já era avó e a mãe a deixara num passado longínquo.

Não só pela imagem esmaecida da mãe agora a já senhora dona da casa retomava o passado. Enquanto os netos já adolescentes vinham visitá-la com moletom, calça jeans e tênis, ela via suas roupas como o ritual que trazia para perto, nas horas em que os portava, a mãe, a infância, a tradição que seu pai tanto honrava.

O broche e a luva adornada de pérolas, o véu preto da agora viúva, os tecidos e aventais que se cruzavam na cintura, no corpo já envelhecido. Ela sentava na poltrona que fora do marido e observava placidamente a família atual de filhos e netos arrumando agitadamente a mesa do almoço. Os jovens falavam alto, suas vozes refletiam na casa e nos móveis que foram da bisavó. Era curioso constatar a cegueira daqueles jovens diante da história que cada pedaço da casa carregava, cada dor e doença sofrida, cada prece proferida.

Vestir-se era a certeza estável que ela, quando jovem, carregava no tecido como palavras que haviam sido sussurradas enquanto a mãe ajeitava o cabelo dela em um coque de tranças. No passeio dominical com a família na Igreja, ela observava a massa de vestimentas e via como o silêncio que cada família preservava era dito pelo farfalhar das roupas. Onde moravam, a condição financeira, se a jovem era solteira, se era uma viúva precoce, a região do país que povoavam. As roupas falavam mais do que o contato permitia, numa comunicação tácita, em pistas deixadas no chão pelas rendas que passavam.

Ela gostava desse silêncio repleto de segredos que as roupas diziam. Ser uma das poucas a preservar a roupa que outrora era tradição numa sociedade estranha, cheia de signos estranhos, vastos. Ela ria como se soubesse de um segredo: os jovens à sua frente achavam que possuíam uma particularidade nunca copiada quando usavam seus moletons e jeans. A verdade é que tanto ela – com suas roupas tradicionais do século passado – quanto os jovens, vestiam uma identidade coletiva. Não eram totalmente intocáveis.

Era esse o triunfo da roupa. Ela vestia, ela adornava, ela possuía o discurso, ela possuía uma autonomia que escapava dos olhos. Assim, ela gostava de usar seus véus e tecidos ainda nesse domingo. Observava o mundo continuar funcionando, do seu trono real e conversando com as roupas que conheciam seu passado. Tecidos que ainda podiam falar por ela.

Minha prosa poética foi baseada na matéria traduzida pelo site Vice, Os Trajes Tradicionais das Camponesas na Alemanha e Alsácia. A matéria é tão fantástica que não daria para adaptá-la, ela em si já é suficiente. Vale ler, tem mais fotos e a história de cada uma dessas mulheres!

Por isso escolhi o formato da prosa poética, só para desvendar um pouco do mistério dessas poucas mulheres que ainda preservam a tradição. As fotos e o relato são de Eric Schütt, que começou a procurar por mulheres que ainda usavam roupas tradicionais para o projeto fotográfico Burenkleider: Burska Drasta, ou Trajes Tradicionais das Mulheres Camponesas na Alemanha e Alsácia.

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Os 85 anos de Audrey Hepburn

Coluna semanal para o Fashionatto

Neste domingo, o dia amanheceu mais doce para quem acessou o Google e viu a homenagem à atriz Audrey Hepburn. Nascida na Bélgica em 4 de maio de 1929, mas radicada na Inglaterra, a atriz completaria 85 anos. Hoje, sem dúvida, Audrey é ícone. Mas há muito mais por trás de um ícone e o significado dado a ele.

A presença de Audrey na minha vida começou lá pelos meus 12 anos de idade, quando eu abri uma revista na qual havia uma resenha do crítico Rubens Ewald Filho sobre a atriz e apresentando os filmes mais importantes da carreira dela que estariam numa mostra do canal de assinatura. Eu nunca vira aqueles olhinhos de gazela, a silhueta esguia e a doçura elegante em nenhuma outra atriz, a não serJulie Andrews da qual eu era e continuo sendo imensamente fã.

Resolvi assistir aos filmes da Audrey e a estética que hoje consideramos clássica ainda estava sendo descortinada diante dos meus olhos, ainda causava estranheza. Cinderela em Paris trouxe Fred Astaire como grande argumento para que eu o assistisse, pois gostava de sua filmografia e ficava encantada com o talento do ator. A questão é que nesse filme, Fred mais atua e canta do que dança. E está muito bem assim, principalmente a cena encantadora em que o ator cantaFunny face à Audrey e justifica não só o título original do filme, mas a aparência curiosa e singular de Audrey Hepburn. Parece ser um rosto engraçadinho que arrebata qualquer espectador que encontre nela aquele romantismo quase infantil e ingênuo que parecia estar diluído na Hollywood que agora assumia o arquétipo da mulher sedutora por meio das – fantásticas, obviamente – Marilyn MonroeRita Hayworth   e Elizabeth Taylor. Audrey está mais no time das atrizes que possuem algum mistério na sua postura plácida, como Ingrid Bergman(Casablanca).

A exaltação da sensualidade vinha claramente dos homens, mas as mulheres passavam a mitificar também a aparência dessas mulheres que, na verdade, tinham suas vidas igualmente complicadas por serem mulheres. Houve dificuldades para qualquer atriz nas primeiras décadas do século XX em encontrar papéis que saíssem do aspecto sedutor ou puramente inocente da mocinha cortejada. Esses estereótipos perseguiam as atrizes que pareciam ter que sustentá-los a cada minuto, como se acordassem sempre adornadas como uma boneca e sensual aos olhos dos homens. Rita Hayworth trazer a sexualidade pelo simples gesto de uma luva deslizando pelo braço em Gilda foi, sim, uma forma de libertação. É para se pensar: na cena ela deseja fazer um strip-tease, mas em seguida leva um tapa na cara por ser julgada como uma mulher posta ao desfrute do homem. Mas a vontade de Gilda é libertadora e a raiva dela ao receber o tapa também.

Uma mulher deveria ser respeitada por interpretar papéis sedutores justamente porque é de seu direito interpretá-las. O problema estava na polarização desses papéis, entre a sedução e a pureza. Uma atriz sabe ir além dessas dualidades. E isso nos leva à Audrey, mais uma vez. Pois ela conseguia equilibrar-se e trazer a ambiguidade desses papéis de maneira muito bem desenvolvida. A sua personagem Sabrina, claro, busca um casamento, mas somente o busca após ter conquistado a sua independência financeira e maturidade também. Se ela está em dúvida entre dois homens é porque claramente, como qualquer mulher no mundo, ela tem direito a essa dúvida.

A personagem Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo, proporciona o alcance de Audrey a ícone fashion e cinematográfico. Baseada na obra de Truman Capote, a personagem tem mais nuances do que o filme pode trazer. Exatamente, podetrazer. Audrey Hepburn, à época, assumira papéis de garotas e interpretar Holly poderia manchar sua carreira, de acordo com os críticos. Afinal, Holly é um espírito livre que se envolve com vários homens, fazendo-lhes companhia em jantares, buscando um possível casamento rico que possibilite entrar na Tiffany e comprar as joias com as quais sonha. Contudo, Holly não é somente o que se definiria como uma bonequinha de luxo, essa mulher que ficaria à vitrine exposta por tais homens ricos e importantes que casarem com ela. E felizmente, Audrey consegue apresentá-la com sua complexidade, apesar de haver um público que poderia julgar a sua personagem tendo como base o estereótipo com os quais se acostumaram a ver durante a década e na carreira da atriz.

Nos meus 12 anos, quando vi Bonequinha de Luxo, me pareceu um bom filme, a personagem me soava simpática, mas eu não conseguia compreender as várias faces de Holly Golightly, apenas que ela era adorável e elegante. Com o tempo o filme se mostrou muito mais profundo, as cenas muito mais simbólicas e hoje ele possui um dos textos que mais me comove, com passagens que timidamente revelam muito de seus personagens, como os diálogos entre Holly e Fred e a relação da moça com o gatinho que ela resgatou e se recusa a nomear por medo de se apegar e perdê-lo.

Audrey Hepburn, quando apresenta essas personagens que se vestem com a simplicidade de uma legging, sapatilha, trend coat, um vestido preto apenas adornado pelas pérolas, uma sensualidade que se constrói nas entrelinhas e na simplicidade da elegância das roupas que ela parece ter escolhido por respeitar o próprio corpo, apresentam uma face mais realista da mulher que vai muito além do conceito hollywoodiano. Audrey possuía um corpo que era o oposto das curvas de Marylin Monroe, como sempre se afirma quando se comenta sobre Audrey. Mas há algo ainda mais profundo na aceitabilidade da forma de Audrey no cinema: a mulher não é somente uma forma, mas todas as formas. Aceitar que Audrey é magra e, portanto, ícone fashion, não quer dizer que agora todas as mulheres devam ser magras para se assemelhar a ela. Estaríamos cometendo o mesmo erro dos produtores que recusaram Audrey em alguns papéis por causa de sua silhueta esguia. O que a atriz traz para a discussão é que a moda e o cinema precisam ser abertos às mais diferentes faces e corpos, e não escolher novamente apenas baseado na dualidade.

Audrey foi atriz, modelo, mas embaixadora da Unicef também. Durante a Primeira Guerra Mundial, Audrey passou fome no período em que ficou na Holanda quando criança. Desejava ser bailarina, mas ao voltar à Inglaterra, a sua professora afirmou que Audrey nunca seria primeira bailarina por conta de sua altura. Ao interpretar Gigi, Audrey começou a receber destaque na Broadway e logo em seguida vieram os filmes, como A Princesa e o Plebeu, My Fair Lady, Charada, Quando Paris Alucina, e as indicações ao Oscar.

Audrey Hepburn parece ter seguido o conselho da música Moon River, a qual docemente canta em Bonequinha de luxo. Audrey atravessou o rio como atravessou Hollywood, um fabricador de sonhos, passou com elegância por esse mundo, e há nela uma magia quase indizível, que exala dos seus olhinhos de boneca, da sua elegância e de seu talento. Isso talvez dê conta apenas um pouquinho da explicação do porquê Audrey estar tão viva no nosso imaginário. A homenagem sempre é merecida.

Filmografia de Audrey Hepburn aqui

Se quiser conferir, aqui tem diversos vídeos de Audrey Hepburn no seu trabalho como embaixadora da Unicef.

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O glamour dos anos 70 no figurino de Trapaça

Matéria publicada no site Fashionatto

Indicado à categoria de Melhor figurino no Oscar 2014, que ocorre amanhã em Los Angeles, Trapaça encarna a vestimenta setentista, com o exagero das bocas de sino, os cabelos armados em penteados grandiosos, os cachinhos e o estilo insinuante de uma época que via na roupa uma libertação do imaginário ficcional. O brilho e o tom aumentado das peças e dos tons ganham vida no filme de David O.Russell e contam uma história que vai além de uma mera roupa. Elas falam muito sobre seus personagens.

Entre as peças usadas pelos personagens, encontramos uma variedade de marcas consagradas: Halston, Fiorucci e Gucci. O glamour do período, as curvas marcantes dos corpos femininos e os ternos de tons fortes se misturam à sofisticação das marcas. Apesar do cinema já ter adotado constantemente a década como cenário para seus filmes, Trapaça consegue sair do comum. O trabalho com o figurino é cautelosamente pensado para que não soe falso, clichê ou estereotipado demais.

A história do filme se trata da união entre os trapaceiros que dão a característica ao título em português. Irving (Christian Bale) se envolve com Sydney Prosser (Amy Adams), a qual se torna sócia em um negócio de falsificação de obras de arte. Logo, eles são forçados a trabalhar com o agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper). Somado ao grupo, está Rosalyn (Jennifer Lawrence), esposa de Irving.

David O.Russell cria um trabalho de direção que pretende por o comportamento desses personagens numa lente de aumento para que soem absurdas as trapaças e caminhos que escolhem. E, para isso, o figurino possui um caráter fundamental. Se a realidade ganha a aparência de non sense e traz à tona a comicidade, o figurino deve acompanhar tal representação, mas de maneira que se encontre a medida certa para o espectador apostar nos personagens e levá-los a sério, fugindo da caricatura.

Vemos Irving usando peruca para que seja levado a sério como um homem de negócios e elegante. Ele e Sydney têm o primeiro beijo entre as roupas que se tornam parte da relação de ambos, é como se os cabides soubessem quem eles são de verdade. Parece que vai além da intenção de se ter um disfarce: a roupa é o modo que encontram para sobreviver, ela transmite a mensagem de que são sérios e distintos do restante. Para isso, a roupa precisa ser convincente. É quase um trabalho metalinguístico: os personagens tomam esse cuidado no enredo e o próprio filme faz o mesmo.

O responsável pelo figurino da película é Michael Wilkinson, o qual criou também os figurinos de filmes como “300″, “Babel” e “A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1″.  O trabalho de Michael é aparentar um glamour que talvez não exista em tal profissão, a qual se faz à surdina. Ironicamente, o que aparece aos olhos dos negociantes é o figurino, o qual sabe bem o que dizer e representar, trabalho muito bem executado pela equipe de produção. Ao mesmo tempo em que se deseja disfarçar o crime cometido, a roupa impulsiona-os a criar uma nova face: Sydney é a elegante, bela e culta britânica que surpreende o outro pela sua inteligência e o decote; Irving se faz como o tranquilo e bonachão negociante, face em equilíbrio com o caráter persuasivo de Sydney, até no equilíbrio entre o brilho e as roupas sóbrias.

DiMaso usa ternos com tons os quais destoam, por alguns momentos, e o cabelo cacheado para causar a impressão de um agente malandro, quando na verdade mora com a mãe e usa bobs à noite para produzir esse efeito, revelando as inseguranças do jovem agente em se integrar à profissão.

Rosalyn mantém o cabelo num penteado imponente, assim como o seu orgulho, algo que não quer perder considerando que sua vida parece ser vazia aos seus olhos, tentando se assemelhar ao glamour com que o marido lida. O que ela faz? Aposta no vestido branco e nas unhas em destaque. Quando as mulheres colocam seus vestidos justos e os cabelos num penteado impressionante, é pelo desejo – e talvez a única forma que creem existir, nos anos 70 – de serem alguém aos olhos dos outros. Não apenas elas, mas os personagens masculinos se encaixam ao terno para que sejam respeitados.

Michael Wilkinson ressalta (vídeo aqui) que os vestidos de Halston, com os decotes fundos e o brilho povoando cada centímetro do tecido dão uma liberdade à mulher que os usa, como se apresentassem um poder imenso. A mistura entre colete, lenço e uma camisa listrada em Irving fazem do personagem uma tentativa de aparentar sagacidade e conhecimento sobre artes e cultura. A composição de Rosalyn, por exemplo, consegue ser desmontada e renovada no decorrer do filme, ela vai do moletom ao vestido cheio de curvas em poucos instantes. E isso mostra até mesmo a sua instabilidade.

Assim, o figurino é a interação entre os personagens e a honra que eles buscam resguardar nesse mundo instável de golpistas que sempre sentem medo de serem passados para trás. Por vezes, o filme explora tons que entram em harmonia ou em contraste entre os personagens, encaixando-se com o roteiro. O fracasso nunca pode transparecer aos outros. A roupa faz o papel de um invólucro que os defendem e os conduzem à ação. Por isso, o trabalho de Michael Wilkinson merece destaque quando falamos de Trapaça.

Clique aqui para ver o vídeo ao The New York Times em que Michael Wilkinson mostra algumas peças do filme

 

 

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Conheça os incríveis detalhes do figurino de Game of Thrones

Matéria publicada no site Fashionatto

As tramas políticas, a disputa pelo trono dos Sete Reinos, as particularidades de cada Casa, a trajetória dos Stark, a morte cruel dos personagens que gostamos, o teor fantástico da série. Tudo isso já é conhecido pelos espectadores do seriado Game of Thrones, uma adaptação da obra “Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R.R. Martin. Entretanto, por vezes, deixamos de reparar na riqueza de detalhes dos figurinos, uma das várias proezas da parte técnica da série.

Michele Clapton é a designer responsável pelos vestuários que protagonizam o seriado. Ela já teve sua própria marca e também foi estilista de músicos antes de iniciar a sua carreira como figurinista voltada para a televisão. Agora, ela, que já é a vencedora do prêmio Emmy nesta categoria, foi novamente indicada por ser a responsável pelos inúmeros figurinos da série da HBO Game of Thrones.

A cada temporada é necessário que Michele analise como serão formulados os novos cenários, personagens, a fotografia e até mesmo considerar qual será o próximo personagem a morrer. Então, a pesquisa envolve os climas desses lugares novos, como é a política e o comércio locais, pois, afinal, deve-se considerar que tipos de especiarias e material estão disponíveis nos locais. Não dá para criar uma vestimenta muito pomposa se o personagem está em um lugar inóspito ou que não supra as necessidades climáticas. A partir daí, amplia-se a pesquisa começando a desenhar cada personagem.

Os desenhos são discutidos com os cortadores e armeiros. São criados pilotos para uma primeira prova. Ajusta-se o padrão e o tecido, o qual pode ser tingido, estampado, cortado, com aplicações em metal, pedraria. Assim, quando pronto, é entregue ao fabricante. Em seguida, têm, frequentemente, mais duas guarnições, no caso de trajes complexos, e em qualquer fase podem envolver o processo de envelhecimento, desgaste do metal e profissionais como a bordadeira e o armeiro, que levam em conta detalhes do próprio enredo da história.

Por conseguinte, esse não é um trabalho fácil e, muito menos, a escolha pelo figurino é aleatória. Se você estiver no Norte, por exemplo, a principal necessidade será a de ter uma roupa com tecido que esquente o suficiente quem mora em Winterfell. Ou a neve e a temperatura gélida da Muralha, que exige da Patrulha da Noite o uso de peles e inúmeras camadas que preservem a temperatura do corpo.

Além disso, a escolha pela cor é importante. King’s Landing tem um clima mais ameno e solar do que Winterfell. Nesse caso, a região fria pede cores sóbrias, como vimos Ned e Catelyn Stark usando nos episódios, pois o reino não possui tantos recursos de tingimento do tecido quanto há na capital do Sul. E, também, por questões estéticas do designer, já que a cor é responsável por criar uma identidade para cada um dos Sete Reinos, relacionando os climas às sensações proporcionadas por eles.

Como podemos ver, é um trabalho redobrado para a figurinista, pois se deve levar em consideração essa disponibilidade de material no local descrito pela ficção, além do clima e localização geográfica. Todos esses aspectos, então, fazem parte da composição do figurino, que dialoga tanto com as necessidades da série da HBO quanto com a imaginação do autor.

As peças passam por desgastes e tingimentos  para adquirirem a cor exata. O fato dos vestidos de Cersei apresentarem cores tão vivas e uma indumentária luxuosa remete à riqueza de King’s Landing. O local apresenta a abundância de recursos devido à localização no porto, em que é possível a negociação com outros reinos e a obtenção de joias e especiarias, além da posição de destaque da Casa Lannister no cenário político.

Outro figurino que, definitivamente, encheu os olhos do espectador foi da cidade Qarth, que recebeu Daenerys, a Filha da Tormenta. A cidade está situada em Essos, numa posição estratégica, o que a faz ser um portal de comércio e cultura entre o Oriente e o Ocidente, e entre o Norte e o Sul. Assim, é uma cidade extremamente rica, com uma arquitetura adornada por ouro, bronze e pedras preciosas. Em face disso, o figurino ganha detalhes também muito sofisticados. Antes, Daenerys, por viver com os dothraki, usava roupas feitas de couro de animais, numa indumentária rústica e simples, pois não havia recursos e tinha como objetivo ser resistente para a vida selvagem. Já em Qarth, ela precisou se adaptar e demonstrar gratidão por àqueles que a receberam, vestindo as roupas luxuosas típicas da cidade.

Michele também procura levar símbolos de cada Casa para a vestimenta. Por exemplo, a Casa Tully, que tem como símbolo um peixe. Assim, a figurinista desenvolveu um trabalho de modo que a armadura tivesse um aspecto escamoso, como o do animal. Michele também opta por bordar na vestimenta de Lady Catelyn alguns peixes, já que ela pertence a essa Casa.

O figurino usado por Sansa Stark também é mais uma boa surpresa. Um de seus vestidos tem um rico bordado que não foi escolhido por acaso. O leão, o lobo e o peixe que entrelaçam a cintura da jovem e os poucos fios em vermelho remetem à ligação feita entre os Stark (e os Tully – família de Lady Catelyn) e os Lannister, já que o símbolo das duas casas são, respectivamente, um lobo e um leão, além da cor vermelha que pertence a essa última. Na parte de trás do vestido, próximo ao pescoço, há somente um leão, que indica a forte influência que a Casa tem sobre Sansa, a escolha dela e quem venceu no embate entre as duas casas: os Lannister.

Clapton, que trabalha em Belfast, Irlanda, dirige uma equipe de tecelões, bordadeiras e armeiros que a ajudam a desenvolver os figurinos, em sua maioria, a partir do zero: eles têm o seu próprio tear em que tecem os tecidos. É inegável o realismo que as peças da figurinista dão à série. A exatidão dos detalhes, dos tecidos e das cores possibilita que a ficção se torne tateável não somente ao espectador, mas também aos atores.

Os elementos fantásticos da série surgem na vestimenta de Clapton, a qual consegue, com maestria, unir as várias camadas densas que encontramos na indumentária medieval ao enredo dos livros. Segundo Michele, ela não lida com um período histórico específico, o qual poderia ajudá-la a compor as peças com mais facilidade em meio a diversas referências que já temos em mãos. Pelo contrário, a dificuldade está em dar vida à criação presente nas páginas de um livro. Por isso, ela precisou se inserir entre os Sete Reinos e saber como aplicar o seu trabalho aliando as impressões dos diretores, dos atores, de modo que o figurino significasse também um trabalho em equipe.

Desta forma, visualizamos Westeros não como um reino fictício. Por uma hora de episódio, acreditamos no realismo da história não somente pela fotografia, elenco e roteiro impecáveis, mas pelo figurino também, um dos primeiros elementos que se apresenta a nós em um seriado. Com certeza a criação de Michele Clapton deixa uma ótima impressão ao espectador.

 Agora, Michele Clapton poderá ter seu trabalho novamente reconhecido, já que Game of Thronesrecebeu 17 indicações ao Emmy 2013, sendo uma delas a de melhor figurino, pelo episódio “Walk of Punishment”, da terceira temporada.

Aqui, você pode conferir um vídeo dos bastidores no qual Clapton fala sobre o processo de criação.

E aqui mais fotos dos figurinos!