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A morte das amoras

amoras

As manchas do crime residem escondidas na terra. Como mais um crime diário. O roxo se confunde com sangue, mas aos olhos humanos, é pisado e misturado pelo solado ao marrom. É só mancha de amora. Mas esquecem os homens que as amoras morrem em roxo, e não em vermelho. Roxo, quase preto, uma morte que ninguém vê.

Elas deixam as marcas no banco de concreto. Como que poças secando após as tempestades. As amoras se lançam ao chão como pequeninas ingênuas, de roxo incólume e doce, porque é assim que deve ser. Elas não pensam muito sobre o que encontram entre a trajetória que perpassa os galhos, o tronco viscoso, e o temido chão. Na verdade, as amoras não temem. Pela doçura ignorância, aquele é apenas o destino delas, morrem em roxo. Se morressem em vermelho, seriam notadas?

Muitos dos homens morrem em vermelho lançando-se ao chão. E, mesmo assim, deixam de ser vistos. Mais uma marca no jornal diário, mais uma conversa repetida entre outros humanos. O jornal é destroçado pela chuva, ou deixa mancha nas mãos. E vem o esquecimento. Tanto concreto quanto banco contam a história. Mas o Tempo precisa fazer seu serviço de tornar as manchas enegrecidas um mero esboço no cinza.

O sangue seca, e logo vira a mancha que evitamos ver. Aos poucos, os galhos acima do banco denunciam o que as amoras caídas já diziam. Todo o empreendimento das amoras era feito de garras marrons que secam. E assim começa o silencioso processo de árvore que abandona espírito. Ou espírito que abandona a árvore.

Ninguém nunca viu tal processo. Chega um dia e a árvore se esvai. As pessoas se espantam que o conhecido do primo da amiga deixou de existir, que se lançara ao abismo da morte. E logo o espanto também é digerido e esquecido. Nada incomoda, nem a morte dos homens nem a morte das amoras.

Tanto galhos quanto braços deixam de sustentar as amoras, um dia. Toda a grandiosidade daquele sistema que se sustenta em folhas, em seiva, em pele, em pensamento, se afeta pelas tempestades e pelas estações que passam. Assim como pessoas marcam os amores no tronco das árvores perdidas, as pessoas marcam os amores nas peles e poros.

Vendo, assim, as manchas no chão, o humano mais atento pode se perguntar como as amoras sabem que viveram o suficiente. Elas não sabem. Morrem dolorosamente com a promessa de enfeitarem os galhos com pingos roxos. Diferente dos humanos, as amoras não possuem sonhos e nem quem os quebre. Diante de roxo e vermelho espalhado pelo mundo, de quem seria a culpa de tão silenciosos crimes que perpassam o suspirar de cada dia?

créditos de imagem: watercolourflorals.blogspot.co.uk

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Palavra é carne

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Escrevi este poema inspirada pelo trabalho de Ferreira Gullar (1930-2016), neste dia melancólico pela morte do poeta.

O gosto da tangerina de hoje é o amargo da morte.

Ela desfalece em tristeza,

Como fruta de cheiro longínquo

Abandonado pelo poema numa sala de estar.

Mas ela sobrevive incólume na palavra escrita.

As peras se entristecem

E a morte delas não cessa.

A morte nunca cessa.

Mas o galo continua a cantar,

Pois sem ele,

Poesia é só uma palavra elegante.

Sem o canto, poesia são só seis palavras.

Poesia tem que ser esse arrancar de pele,

Do sangue que sai nas mãos,

E da dor que é uma palavra restar

Quando um poeta morre

Nas veias do papel.

Ele não morre de verdade, não.

Ele está em cada canto nas curvas das palavras,

No vazio do acrescentar uma letra em outra,

E onde a sua morte invade o sol de um domingo.

O poeta reside na carne da palavra,

Que eu, você, almas desesperadas

Precisam por pra fora

Quando escrevem.

Desculpa se eu não escrevi,

Se eu me calei no tédio anestesiante da rotina,

Se eu destruí este único compromisso que tenho comigo.

(Compromisso maior do que documentos exigidos

pela burocracia que me força a cumpri-lo).

Mas a poesia adormece comigo,

E o lençol que a aquece é feito de carne, de sangue,

De choro e de tardes bonitas.

Toda essa mistura humana

Que está em todos nós,

Quando a gente esquece que o dinheiro tem que dar

Para a lista do mercado.

É a mistura que grita a toda hora.

É o pesado canto interno que carrego,

De palavra e carne firme e viva.

créditos de imagem: Heather McCaw

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Amor

Amor
Dir. Michael Haneke
França/Alemanha/Áustria – 2013
Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert
 

amouremmanuellerivaAmor é um filme independente, do diretor Michael Haneke, o mesmo do premiado A fita branca. Após assistir ao filme, é uma surpresa pensar na sua indicação ao Oscar 2013. Não em relação à qualidade – que é muito boa -, mas por ter o perfil que se denomina como cult, muitas vezes contemplado só quando se trata de Melhor filme estrangeiro. E, principalmente, pelo retrato difícil que faz da velhice, sem glamour ou sentimentalismos. Não é um filme fácil, que se vê para passar o tempo, somente. E, muito menos, um filme com diálogos que empurram o espectador a uma estrutura previsível. Ele se sustenta com o término da sessão e nos empurra a uma reflexão que, talvez, dure a vida inteira.

O filme conta a história de um casal idoso, professores de música, que estão vivendo bem, saem para assistir a concertos musicais. Tudo se torna melancólico e intenso quando Anne sofre um pequeno derrame ou apresenta alguma doença que a leva a perder, aos poucos, as habilidades motoras e a lucidez. O seu marido, Georges, é quem dá a sua prova de amor ao ficar do lado da esposa em cada momento no qual ela enfraquece.s, sem a pretensão de indicar acontecimentos lineares, só ruma para o final que já conhecemos. E, mesmo assim, o filme nos acerta em cheio com a vulnerabilidade dos personagens. E por que não a nossa, também, quando se trata da morte?

No apoio que Georges dá à Anne não se derruba lágrimas, não se diz te amo. Quando Anne grita de dor, o simples fato de Georges acariciar a mão dela a acalma.  Ele aguenta todas as situações, surpreso ou talvez até entediado quando vê a filha desmoronar de tristeza e choque com a doença da mãe. É ele quem se encontra no cotidiano de Anne, optou  por transformar a dor da esposa em algo com o qual deveria se habituar. Quando se ama, até mesmo a dor do outro deve ser compartilhada, sem o alarde do mundo exterior. É simplesmente sentida.

Há pequenos momentos em que o diretor aposta em simbologias, como um pombo que aparece no apartamento. Ele é um personagem que surge no enredo para representar justamente a força do amor de Georges. As ações que ele resolve tomar são explicadas quando se depara com esse pombo. É ele quem aparece como certo fantasma da vida que Georges e Anne levavam antes da doença. E quando o pombo voa, preserva viva as lembranças da primeira vida que o casal levava até esse último momento, que pôs à prova esse amor que os sustentava na banalidade do dia a dia.

Ademais, na mobília do apartamento em que vivem, agora no período da doença, se cristalizam as memórias de um passado irrecuperável. Quando Georges olha para o piano e lembra da esposa tocando, a realidade logo o retira dos devaneios e a música que ele ouve – antes tocada pela esposa – agora se torna dolorosa demais, como os móveis e os livros que já foram tocados por Anne, encerrando neles a vivacidade da amada.

Sendo assim, Amor consegue apostar num retrato honesto da vida, sem enfeites que poderiam prejudicar a veracidade de cenas tão comuns na nossa vida. A ida a um concerto, as refeições com a família, o choque da perda de um ente querido. E, principalmente, se vê como a morte, mesmo que pressentida em todo o filme e em toda a vida, surpreende e expõe a fragilidade humana.

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Catarse vermelha

Paulo e Ana acreditavam no fim do mundo. Eram supersticiosos, tinham fascínio pela possível profecia dos maias. Adoravam assistir aos documentários na TV que misturavam Nostradamus com os maias, acreditavam nisso porque, afinal, era um canal de História, até com simulações! Por que não seria assim? Mas a verdade é que adotavam uma crença e um estímulo para o marasmo da vida de casal. Era o mesmo que criar uma ficção e se fazer personagens dessa peça até o fim, planejando cada passo ou fala.

Cogitaram, primeiro, ir para essas cidades que lucravam com hotéis em lugares supostamente seguros para o fim do mundo. Mas era tão sem graça! Eles queriam vivenciar o fim. Se não acabasse…bem, eles não ousavam cogitar. Mas, se acabasse, eles teriam ido ao limite de suas loucuras. Não se ocupavam em pensar se haveria algo além desse mundo, porque já era místico demais e, para eles, a ideia de que um povo antigo havia previsto o fim era mais emocionante ou menos clichê para as suas ficções do que seguir uma religião.

Os dois pensavam que se o fim do mundo estava próximo, deveriam fazer o que nem ousavam pensar. Resolveram, então, convidar a mãe de Paulo e o pai de Ana para jantarem, a única família que tinham. Mas havia alguns detalhes nessa relação. Abandono, retorno da mãe à casa de Paulo depois que ele perdeu o pai, o seu grande herói, o único que soube sustentar a vida do jovem. Inúmeras traições e humilhação à mãe de Ana, a heroína dela. Era esse rancor pelo próprio sangue que unia a ambos.

A campainha tocou. A mãe de Paulo esperava à porta, fingindo que 12 anos não existiram na separação dos dois.  Passou a mão no rosto do filho, um sorriso doce, mas os olhos opacos. Meia hora depois, de desconforto entre os três sentados no sofá, chegou o pai de Ana. Sempre espaçoso, sentou-se em frente à TV, vendo um canal de esporte, com uma taça de vinho na mão, que mandara a filha buscar na cozinha.

O jantar estava servido, coisa simples. Macarrão com molho ao sugo, frango e vinho. Todos se sentaram na mesa apertada de apenas quatro lugares, feita somente para aqueles convidados, deixando-os constrangidos com o contato. A conversa não evoluía muito entre eles.

-Então você está desempregado, não acha sequer um trabalho? Pode ser qualquer coisa!

-Está difícil de achar, mãe. Já fiz algumas entrevistas, mandei currículo, e tô esperando ligarem, né?

-Hm, isso aí não é desculpa. E ainda me serve um almoço desse? Em casa é só botar molho no miojo que fica igual a esse macarrão.

-Ana, minha filha, você realmente acha que casou com o cara certo? Ele nem te sustenta.

-Não casei pra alguém me sustentar…e é só uma fase. Tá puxado pra dar conta da pós, do trabalho, mas tá ótimo.

-Na minha época mulher não fazia pós-graduação. E acho que é inútil, de qualquer forma. Seu marido tinha que pagar esse frango aqui…e um frango melhor – olhava, com desprezo, para o genro.

-Não, eu fico tranquila que casei com alguém que não me trai e nem me humilha – respondeu Ana, com a voz rouca.

A raiva borbulhava, acumulada. Ana cobiçava aquele vermelho do molho e do vinho, como uma catarse do seu sentimento por aqueles da mesa. Paulo e Ana se entreolhavam, ansiosos. A moça apanhou as taças dos convidados e, com um sorriso, levou-as para a cozinha com a desculpa de ter deixado a garrafa lá.

Voltou com as taças novamente cheias, segurando-as com as mãos trêmulas. Os dois perceberam e questionaram.

-É a ansiedade! É bom vê-los aqui. O fim do mundo está aí e seria bom acertarmos o passado numa mesa de jantar – Paulo se adiantou, respondendo gentilmente – Que tal um brinde?

Os dois convidados assentiram logo com a cabeça e beberam o vinho, à vontade, aliviados pelo entusiasmo de Paulo.  Ele e a esposa encaravam seus pratos. O som da mastigação e o bebericar do vinho soavam alto demais por aquela sala.

Ouviu-se um engasgar aflito. Com um baque, os convidados deixaram a taça cair, o vinho escorreu sem dó pela toalha de linho branca. Ana e Paulo pararam de mastigar o macarrão e olharam para o outro lado da mesa, hesitantes. Os dois repousavam a cabeça no prato, com o molho respingado na mesa. O vermelho manchava a toalha com a mesma presença do vermelho natalino que Paulo insistira em usar para enfeitar a casa, apesar do fim do mundo. Se antes, nessa cor, Paulo e Ana repousavam, com a leve esperança de realmente chegar o Natal e continuar vivos, agora o vermelho adiantara o desfecho que eles sempre quiseram mais profundamente. Era uma cor que rasgava qualquer ficção e os trazia para a realidade mais crua.

Agora restava a eles esperar, na sacada, o mundo acabar, como um camarote para a segunda peça que viria a seguir. Já haviam decidido deixar esse mundo despejando o raivoso passado por entre as taças e os pratos. E Paulo e Ana fizeram isso retrucando à tênue esperança do vermelho, na qual repousaram a vida inteira. Aquele mundo das ficções, da raiva engolida, acabou na peça que montaram. E, ironicamente, acabou por meio de mais uma ficção, com todo aquele molho fingindo ser o sangue que desejavam.

O vermelho espalhado na mesa era a resposta final de que esperança alguma existia. O mal guardado se revelara no jantar acabado. Um mundo hostil se desfazia na toalha de linho, destruindo a esperança de haver uma sobremesa.

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Balanço

Era noite. O céu parecia um manto escuro incrustado por delineadas estrelas. A escuridão do céu juntava-se a escuridão da rua. Cachorros latiam, buzinas soavam distantes. Apenas havia uma casa acesa, a luz tímida de uma varanda.

A casa possuía um aspecto antigo, encantador, em estilo vitoriano. Pintada na cor branca, tinha dois andares e uma varanda com pilastres adornados por pequeninas flores e folhas.

Nesta varanda havia um homem sentado numa cadeira de balanço. Aparentava estar abatido, com um olhar perdido. O pescoço estava fraco, pendendo a um lado, os olhos cheios de areia. Era jovem, porém o sofrimento que sentia o envelhecia. A gravata estava sem nó, a meia, caída, a barba comprida. Naquele retirar de peças de roupa, pretendia também se desvencilhar da dor. Não entendia como aquilo ocorrera repentinamente; num instante, o sorriso esboçava-lhe o rosto e, numa fração de segundos, o mundo perdera o sentido, o rosto desconhecia o sorriso, como se fosse um estranho.

Pensava na esposa, em silêncio, na sala. O pranto frágil da mulher descia-lhe pela face de encontro à mesa em que se debruçava. As flores estavam murchas, não havia vida na casa. O silêncio mórbido permeava os cômodos, os cantos, a pele, os órgãos.

Em determinado momento, o homem ouviu uma voz. Na verdade, era um riso infantil. Olhando-o estava um menino com a pele branca como leite, o rosto corado, cachos louros emoldurando o rosto.

A voz delicada do menino, semelhante a um canto, exclamou “Papai!”. O homem ergueu o filho, o abraçou ardentemente. “Meu menino voltou!” pensou o homem. Pobre pai.

Jogou o menino para o alto, aquela imagem pura, a fim de pegá-lo e vê-lo sorrir. Mas no espaço não havia cachos esvoaçando no vento da noite; havia apenas um espaço vazio, cinzas que desciam e asfixiavam o pai. O menino não voltara, estava morto. A imagem pura se desfizera como pó.

Fora tudo um sonho ou fruto de uma memória abalada pelo sofrimento, que possuía um tênue fio de esperança em segurar novamente o corpo pequeno do filho.

O homem voltou a sentar na cadeira de balanço. Sentia-se como um pêndulo, aquele vai-e-vem, o balanço que constatava a morte do filho. O sofrimento ia e vinha como o balanço da cadeira, a amargura amordaçava a boca.

Entretanto, um sentimento aflorara no homem. Uma voz severa penetrou em sua mente. Queria despertar o homem de todo o sofrimento. A voz misteriosa dizia:

– Eu que moro no abismo, que liberto as auroras do meu peito, digo: Seu filho não morreu! Os sentimentos que ele aflorou em você sempre o acompanharão, a fé irá te salvar. Seu filho tornou-se uma pequenina estrela, uma árvore em suas mãos, que fora cultivada com grande amor. Sempre permanecerá com você, ele não morreu! Crianças, eternamente, irão nascer, e são todos seus filhos, que sonham com um mundo de liberdade. Portanto, enxugue as lágrimas, suspire, faça a barba, tire a gravata, console sua mulher que chora.

O balanço parara. Até parecia que o seu próprio respirar se suspendera apenas para ouvir aquela voz que, até então, encontrava-se perdida em tanta lama, areia e lágrima. Esse homem, derrotado pelo drama, parecia encontrar uma ínfima esperança. Ah, que alívio brotava-lhe na face! Um pouco de cor retomava o seu lugar, anistiava a palidez que tomara sua face por meses. Ou anos?

A morte poderia ser terna. No instante em que ela se acomoda, na mais repentina epifania, o homem constata que se encontra inerte diante de sua magnitude. O filho se fora, mas o pai ainda estava lá. Sempre seria pai. Mesmo que rasgado por dentro, o balanço cessara.

Não era mais necessário sentar-se naquela cadeira para tentar retomar aquele segundo que estivera em sua mão no passado. Mão que segurava o filho, para não cair. Levantando-se da areia na qual estivera preso por tanto tempo, o homem encontrou seus olhos límpidos, não possuíam mais a areia e a dor do filho morto. A cadeira de balanço continuou com o seu vai-e-vem, mas agora viva e sozinha, leve, como um lembrete da decisão que tomara. Era o balanço final do filho morto, o sofrimento que, aos poucos, deixaria de ir e vir.

Há quase 3 anos eu escrevi esse conto e guardei. É uma releitura do poema Balanço do filho morto, de Vinicius de Moraes (leia aqui). Como hoje seria o aniversário de Vinicius, nada mais justo do que publicar esse conto, que revisitei hoje, acrescentei frases, mas relembrei a mesma intensidade que senti ao escrevê-lo. Isso só cresce!

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Uma vela a se consumir…

A beleza sumira, o tempo passara. Diante de um espelho – também envelhecido – Helena não se reconhecia. Fios grisalhos enrolavam-se cada vez mais aos cabelos que outrora foram pretos. Penteava-os com esmero ao ver o preto luzir. Agora só contemplava o cansaço nas faces e a velhice. O problema não era exatamente o reflexo que encarava no espelho. O que mais doía era ver o seu passado tornar-se remoto e o fugaz presente fazer dela o que já foi para a nova geração. Um dia a juventude lhe preenchera e fizera de Helena a mais bela. Papai gostava de brincar que eu era Helena de Tróia, a mais bela entre as mortais… os mitos foram eternizados; ela, não.

E o que fazer? Só lhe restava o lamentar ao ver a flama consumir lentamente a vela. Helena gostava de conservá-la ao seu lado, como se fosse uma ampulheta provocativa. Na sala distante, o relógio que enfeitou a parede de sua avó indicava as dez horas da noite e o final de mais um dia para ela. Não haveria mais ninguém que poderia herdar aquele relógio significativo. Provavelmente, quando eu morrer, mandem-no para alguma feira de artigos antigos. As pessoas se dizem apaixonadas por conservar um objeto dito raro, né? Mas os velhos, de fato, tornam-se apenas descartáveis. Eu transmiti algo a alguém? Não. Simplesmente não fui mãe para iniciar o meu filho ao mundo; não fui avó para ser um rapsodo de tradições. Certamente não sei mais quem fui ou quem representa o reflexo que contemplo.

Ao fundo das reflexões melancólicas de Helena, tocava na vitrola Memory. A música a fazia lembrar da viagem à Nova York e o primeiro musical que assistiu na Broadway: Cats. Se há algo para me representar é a gata Grizabela, ao cantar Memory. Abandonada, velha, alimentada por memórias. Ao sair da peça, só me lembro de ter achado belíssimas as coreografias, mas Grizabela não me agradou. Por quê? É, ela só era o retrato de um glamour que sumira… como eu continuaria a ser uma grande atriz de teatro se ficasse velha e esquecida? Preferiram a substituta, magrela que dava dó. A vida perdeu o frescor! Agora, só sonho com algum contato de um mundo que me ignora. Enquanto isso, aguardo diante do espelho, ao lado da vela. E espero pela admirável Morte, com seu manto negro, envolver-me e me levar, quem sabe, para uma próxima aventura…

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O telefonema

Esse foi o meu primeiro conto publicado no jornal! Ele é meio velho já, mas tá valendo…

O telefonema pegou-a de surpresa. Atendeu com impaciência, os olhos presos a um livro que tinha nas mãos, uma história policial que não conseguia parar de ler. Era bom estar sozinha, lendo um livro de suspense numa noite de ventania. O sábado já estava quase no fim e ela ali, presa aquelas páginas. A personagem parecia estar vivenciando o mesmo que ela vivenciara. Seus olhos se encheram de lágrimas. Não queria mais lembrar do passado. Seus pensamentos voaram para aquele dia fatídico, enquanto segurava o livro. O lugar onde estava era para ela uma espécie de redoma, onde se isolava do que acontecia lá fora, preferindo ficar naquela sala. Era um lugar especial. No meio, dois sofás vermelho-berrantes confortáveis, apinhados de velhas almofadas. Um tapete comprado num brechó, o pó encobrindo os pequenos detalhes daquela raridade, as frágeis mesinhas, com estátuas de anjos. As estantes de velhos livros, de capas duras e de couro, as poltronas de veludo antigas, confortáveis, a escrivaninha quase vazia, os belos quadros nas paredes mostravam diversos cavalos, correndo em campos de trigo. Queria experimentar aquela liberdade dos encantadores cavalos. Porém, lembrou-se do telefone em sua mão. E sim, o som do telefone era uma intromissão, um estorvo. Atendeu a contragosto.

– Alô

– É a… Clarice?

– É, sou eu. Quem está falando? – Clarice disse num tom de voz já um tanto exasperado. Quem será àquela hora?

– Bom, talvez não se lembre de mim, sabe, o Eduardo, da faculdade de…História.

A menção sobre a faculdade de História fez Clarice mudar seu tom de voz. Empertigou-se na velha poltrona que estava sentada.

-Eu…ahñ…não me recordo…de você, quero dizer…você estava lá? – disse insegura, fechando bruscamente o velho livro de suas mãos.

-Bem, estava. Sabe, eu me encontrava na biblioteca, fazendo pesquisas, aí ouvi vozes bem elevadas, parecia uma discussão. Mas achei que não fosse algo realmente grave a ponto de… – sua voz foi sumindo. O fato ocorrido, Clarice já tinha conhecimento e sentir alguém falar daquilo despertou tudo o que relutara a dizer em voz alta. As lágrimas escorriam por seu delicado rosto, o coração parecia querer irromper, ardia tanto, parecia sangrar de tamanha dor. A terrível dor da perda. Mas então um lampejo; se lembrou, o Eduardo, aquele com quem estava naquele momento ao telefone, a tirou rapidamente da cena terrível para que não visse mais aquilo. Agora se recordava, as mãos desconhecidas puxando com firmeza os punhos de Clarice, como se aquele estranho quisesse tirá-la daquele mundo agora difuso, sem sentido, que parecia não pertencer a ela.

-Eu…me lembrei de você…hum…obrigada por me tirar dali. Sabe, depois daquilo tudo, resolvi sair da faculdade, não…tinha mais sentido seguir sem ele. Planejávamos tantas coisas…e ele se foi – sua voz estava trêmula. A idéia de falar sobre o que sentira naquele dia com um desconhecido, era ao mesmo tempo, estranho, porém reconfortante. Pelo menos, não teria que agüentar seu olhar penalizado, pois afinal, estavam se falando por um telefone.

-Eu…sinto muito, Clarice, eu não pude fazer nada! Eu sei que não a conheço de verdade, mas…se eu pudesse adivinhar que o seu irmão…bem, morreria num corredor perto ao da biblioteca, onde eu estava, eu faria alguma coisa. Sabe, o Felipe tinha um bom coração. Ele era o único que não me ignorava. Por isso, eu devia ter feito algo…

-Vamos, não se culpe – interrompeu Clarice. Uma repentina compaixão por Eduardo se aflorara. Ninguém tivera culpa, só…tinha que acontecer. E os mistérios da morte ninguém, algum dia, irá explicar. Por que Felipe a deixara? Esse pensamento a perturbava. Então, desabafou:

-Ele me faz uma enorme falta, ele se preocupava muito comigo – disse com a voz fraquinha, as lágrimas lhe molhando o rosto. Respirou fundo, tentando se acalmar – o Felipe era meu único irmão. Éramos muito ligados. A faculdade era um sonho para nós. E, após nos esforçarmos tanto para entrar na faculdade, o Felipe, que antes vivia em um mundo pequeno, onde suas amizades eram as mesmas durante anos, começou a entrar em conflito. As pessoas eram diferentes dele. E aí começaram as confusões, principalmente com alunos mais populares. E bem, eles não tinham lá um bom caráter e resultou…neste trágico desentendimento e ele…me deixou, com uma vida sem sentido nas mãos. Falar tudo aquilo, explicar o que aconteceu, aliviava um pouquinho o sofrimento em seu coração – Mas, e se eu não tivesse insistido em entrar naquela faculdade, esta desventura teria ocorrido?

– Clarice, esta dúvida irá nos perturbar sempre. Às vezes, a vida é incerta, mas acredite, somos nós que a construímos até o momento que vivenciamos hoje. Por que você não se dá uma nova chance, recomece tudo. Já faz um ano que aconteceu e você precisa retomar tudo o que deixou – sua voz deixava claro de que a apoiaria, mesmo ambos sendo desconhecidos um para o outro, sentiam a mesma tristeza.

Então, Clarice viu naquele momento que a própria vida estava lhe dando um recomeço. E ela, Clarice, deveria fazer as próprias escolhas. Eduardo ligara para ela justamente naquela noite que, no início, atendera ao telefone com impaciência; e agora, após combinar de se encontrarem, vira que deveria sim, mudar. E seria a partir daquele momento.

Abriu novamente o suspense policial na parte em que parara e reparou, então, que a personagem se dera conta de que nunca há um fim e sim, um recomeço.