OBRA DE ARTE ESPECIAL DE HALLOWEEN| São Bartolomeu esfolado, de Marco d’Agrate

OBRA DE ARTE ESPECIAL DE HALLOWEEN| São Bartolomeu esfolado, de Marco d’Agrate

Publicado no site Artrianon

A estátua de São Bartolomeu esfolado, feita pelo escultor Marco d’Agrate em 1562 para a Veneranda Fabbrica do Duomo di Milano chama atenção pelos seus detalhes, poesia e certa obscuridade de seu tema. Atualmente, fica entre o altar da Apresentação e o de St. Agnes Duomo de Milão, em um pedestal alto, na ala direita do transepto da Catedral.

são bartolomeu esfolado

São Bartolomeu é um dos doze apóstolos de Cristo, executado por sua fé cristã, retratado na escultura com base na iconografia pela qual ele é identificado após a pena sofrida. Não há evidências de uma “introspecção psicológica” ou fé expressa no martírio de Bartolomeu. Ele se confunde mais com uma ode à anatomia humana e faz um encontro entre ciência e fé. O trabalho de Marco d’Agrate não é o de enfatizar o gesto do Santo em misericórdia ou em sacrifício. Demora um pouco para se compreender a história que envolve a estátua e delimitar o que significa o suposto pano que ele segura.

são bartolomeu esfolado detail

A curiosidade que o século XVI carrega pela anatomia humana recebe destaque na obra, em que cada filamento, ossatura se constitui de forma tão perfeitamente talhada no mármore que a surpresa é a de ver exposto o interior do corpo humano. O primeiro trabalho científico sobre anatomia de Andrea Vesalio, sobre o estudo de autópsia do corpo humano e a dissecção de cadáveres, foi publicado em Veneza em 1453. Vale destacar também o grande apelo da anatomia nos trabalhos e pesquisas de Leonardo Da Vinci e o valor dado ao desenho do corpo humano como máxima expressão da proporcionalidade e perfeição da Natureza.

Trata-se, portanto, de um personagem bíblico exposto mais como humano do que santo. A história de São Bartolomeu é que ele foi esfolado vivo. E a surpresa causada pela estátua é que o elemento o qual se parece com um manto, na verdade, é a pele que o santo carrega nos ombros e ao redor do corpo, referência à tortura infligida. Até o século XIII-XIV, o apóstolo era retratado vestido segurando um livro e uma faca, alusão ao Evangelho proclamado e martírio sofrido. Começaram a retratar a agonia do santo a partir do Renascimento. Enquanto o ícone do santo com a própria pele removida da carne foi finalmente santificado depois que Michelangelo, no século XVI, o retratou dessa maneira no Julgamento Universal na Capela Sistina do Vaticano.

La statua di San Bartolomeo scorticato,  Duomo di Milano

O trabalho de Marco d’Agrate é o de um exímio escultor que presentifica não só a ameaça da morte, mas o horror também do sacrifício em vida em uma pena tão duramente infligida. Afinal, trata-se de um santo esfolado vivo. Em forma escultural ele, então, contempla-nos ainda vivo. O exercício da estátua, pelo artista, se constitui como um grande ensaio acadêmico a fim de apresentar a estrutura corporal, o humano e o santo entre músculos e ossos.

Há, ainda, um fato curioso, dado o uso do mármore. O material anuncia a ideia da vida petrificada, como se guardasse uma origem perdida em seu interior, uma vida humana por debaixo da pedra, a qual o artista traz à luz. “A natureza parece agir ‘como um pintor’”, afirma Didi-Huberman em A pintura encarnada. O corpo em mármore “poderia evocar algo como uma origem perdida da figuração dos corpos, momento em que a figura teria sido, miticamente, (quase) um corpo”. No caso, a ironia do poético se concentra no fato de que Marco d’Agrate apresenta a forma da morte e da vida nessa figura impossível do corpo sem pele, expondo aquilo que comumente é velado: o universo particular e interior dos corpos, as camadas até se chegar ao esqueleto e às ruínas.

Ao pé da estátua, uma curta inscrição diz: “Non me Praxiteles, sed Marcus finxit Agrates”, referia-se ao “medo” do escultor, pois ele temia não ter o valor necessário para essa tarefa de representar São Bartolomeu, e que ela deveria ser tarefa concedida à Praxiteles, um dos escultores mais habilidosos e famosos de Atenas na Grécia Antiga.

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Outra versão de São Bartolomeu, ainda de Marco d’Agrate, datada de 1556, fica na frente da Certosa de Pavia, onde o escultor trabalhou por um longo tempo criando muitas estátuas. O delicado acabamento da superfície fez com que a escultura fosse movida para o interior. Primeiro, atrás do coro da catedral, e depois em seu local atual, seguindo uma ordem capitular de 1664, ordenando “um local mais adequado para a admiração dos intelectuais de arte”.

Depois de quase cinco séculos desde sua criação, escolho a estátua de São Bartolomeu, de Marco d’Agrate, nessa semana em que se comemora o Halloween não pela suposta característica sinistra que lhe concedem, a de ver um santo sem pele, mas pela grandiosidade de se admirar a morte e a vida entrelaçadas na existência do corpo humano. Todo esse monumento abaixo das peles que vivifica os corpos e o quanto a pele, por sua vez, se faz ao mesmo tempo como proteção e contato com o mundo. Desfiar-se da própria pele não deixa de ser uma morte simbólica, acontecendo inúmeras vezes na própria vida. A iconografia de São Bartolomeu acaba por apresentar o belo gesto que reside em segurar a pele como manto e se expor, vulnerável e humano, ao mundo.

Fonte:

DIDI-HUBERMAN, Georges. A pintura encarnada. Georges Didi-Huberman ; tradução de Osvaldo Fontes Filho e Leila de Aguiar Costa. São Paulo, Escuta, 2012

The statue of St Bartholomew in the Milan Duomo (Duomo de Milano)

A morte das amoras

A morte das amoras

amoras

As manchas do crime residem escondidas na terra. Como mais um crime diário. O roxo se confunde com sangue, mas aos olhos humanos, é pisado e misturado pelo solado ao marrom. É só mancha de amora. Mas esquecem os homens que as amoras morrem em roxo, e não em vermelho. Roxo, quase preto, uma morte que ninguém vê.

Elas deixam as marcas no banco de concreto. Como que poças secando após as tempestades. As amoras se lançam ao chão como pequeninas ingênuas, de roxo incólume e doce, porque é assim que deve ser. Elas não pensam muito sobre o que encontram entre a trajetória que perpassa os galhos, o tronco viscoso, e o temido chão. Na verdade, as amoras não temem. Pela doçura ignorância, aquele é apenas o destino delas, morrem em roxo. Se morressem em vermelho, seriam notadas?

Muitos dos homens morrem em vermelho lançando-se ao chão. E, mesmo assim, deixam de ser vistos. Mais uma marca no jornal diário, mais uma conversa repetida entre outros humanos. O jornal é destroçado pela chuva, ou deixa mancha nas mãos. E vem o esquecimento. Tanto concreto quanto banco contam a história. Mas o Tempo precisa fazer seu serviço de tornar as manchas enegrecidas um mero esboço no cinza.

O sangue seca, e logo vira a mancha que evitamos ver. Aos poucos, os galhos acima do banco denunciam o que as amoras caídas já diziam. Todo o empreendimento das amoras era feito de garras marrons que secam. E assim começa o silencioso processo de árvore que abandona espírito. Ou espírito que abandona a árvore.

Ninguém nunca viu tal processo. Chega um dia e a árvore se esvai. As pessoas se espantam que o conhecido do primo da amiga deixou de existir, que se lançara ao abismo da morte. E logo o espanto também é digerido e esquecido. Nada incomoda, nem a morte dos homens nem a morte das amoras.

Tanto galhos quanto braços deixam de sustentar as amoras, um dia. Toda a grandiosidade daquele sistema que se sustenta em folhas, em seiva, em pele, em pensamento, se afeta pelas tempestades e pelas estações que passam. Assim como pessoas marcam os amores no tronco das árvores perdidas, as pessoas marcam os amores nas peles e poros.

Vendo, assim, as manchas no chão, o humano mais atento pode se perguntar como as amoras sabem que viveram o suficiente. Elas não sabem. Morrem dolorosamente com a promessa de enfeitarem os galhos com pingos roxos. Diferente dos humanos, as amoras não possuem sonhos e nem quem os quebre. Diante de roxo e vermelho espalhado pelo mundo, de quem seria a culpa de tão silenciosos crimes que perpassam o suspirar de cada dia?

créditos de imagem: watercolourflorals.blogspot.co.uk

Palavra é carne

Palavra é carne

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Escrevi este poema inspirada pelo trabalho de Ferreira Gullar (1930-2016), neste dia melancólico pela morte do poeta.

O gosto da tangerina de hoje é o amargo da morte.

Ela desfalece em tristeza,

Como fruta de cheiro longínquo

Abandonado pelo poema numa sala de estar.

Mas ela sobrevive incólume na palavra escrita.

As peras se entristecem

E a morte delas não cessa.

A morte nunca cessa.

Mas o galo continua a cantar,

Pois sem ele,

Poesia é só uma palavra elegante.

Sem o canto, poesia são só seis palavras.

Poesia tem que ser esse arrancar de pele,

Do sangue que sai nas mãos,

E da dor que é uma palavra restar

Quando um poeta morre

Nas veias do papel.

Ele não morre de verdade, não.

Ele está em cada canto nas curvas das palavras,

No vazio do acrescentar uma letra em outra,

E onde a sua morte invade o sol de um domingo.

O poeta reside na carne da palavra,

Que eu, você, almas desesperadas

Precisam por pra fora

Quando escrevem.

Desculpa se eu não escrevi,

Se eu me calei no tédio anestesiante da rotina,

Se eu destruí este único compromisso que tenho comigo.

(Compromisso maior do que documentos exigidos

pela burocracia que me força a cumpri-lo).

Mas a poesia adormece comigo,

E o lençol que a aquece é feito de carne, de sangue,

De choro e de tardes bonitas.

Toda essa mistura humana

Que está em todos nós,

Quando a gente esquece que o dinheiro tem que dar

Para a lista do mercado.

É a mistura que grita a toda hora.

É o pesado canto interno que carrego,

De palavra e carne firme e viva.

créditos de imagem: Heather McCaw

Amor

Amor

Amor
Dir. Michael Haneke
França/Alemanha/Áustria – 2013
Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert
 

amouremmanuellerivaAmor é um filme independente, do diretor Michael Haneke, o mesmo do premiado A fita branca. Após assistir ao filme, é uma surpresa pensar na sua indicação ao Oscar 2013. Não em relação à qualidade – que é muito boa -, mas por ter o perfil que se denomina como cult, muitas vezes contemplado só quando se trata de Melhor filme estrangeiro. E, principalmente, pelo retrato difícil que faz da velhice, sem glamour ou sentimentalismos. Não é um filme fácil, que se vê para passar o tempo, somente. E, muito menos, um filme com diálogos que empurram o espectador a uma estrutura previsível. Ele se sustenta com o término da sessão e nos empurra a uma reflexão que, talvez, dure a vida inteira.

O filme conta a história de um casal idoso, professores de música, que estão vivendo bem, saem para assistir a concertos musicais. Tudo se torna melancólico e intenso quando Anne sofre um pequeno derrame ou apresenta alguma doença que a leva a perder, aos poucos, as habilidades motoras e a lucidez. O seu marido, Georges, é quem dá a sua prova de amor ao ficar do lado da esposa em cada momento no qual ela enfraquece.s, sem a pretensão de indicar acontecimentos lineares, só ruma para o final que já conhecemos. E, mesmo assim, o filme nos acerta em cheio com a vulnerabilidade dos personagens. E por que não a nossa, também, quando se trata da morte?

No apoio que Georges dá à Anne não se derruba lágrimas, não se diz te amo. Quando Anne grita de dor, o simples fato de Georges acariciar a mão dela a acalma.  Ele aguenta todas as situações, surpreso ou talvez até entediado quando vê a filha desmoronar de tristeza e choque com a doença da mãe. É ele quem se encontra no cotidiano de Anne, optou  por transformar a dor da esposa em algo com o qual deveria se habituar. Quando se ama, até mesmo a dor do outro deve ser compartilhada, sem o alarde do mundo exterior. É simplesmente sentida.

Há pequenos momentos em que o diretor aposta em simbologias, como um pombo que aparece no apartamento. Ele é um personagem que surge no enredo para representar justamente a força do amor de Georges. As ações que ele resolve tomar são explicadas quando se depara com esse pombo. É ele quem aparece como certo fantasma da vida que Georges e Anne levavam antes da doença. E quando o pombo voa, preserva viva as lembranças da primeira vida que o casal levava até esse último momento, que pôs à prova esse amor que os sustentava na banalidade do dia a dia.

Ademais, na mobília do apartamento em que vivem, agora no período da doença, se cristalizam as memórias de um passado irrecuperável. Quando Georges olha para o piano e lembra da esposa tocando, a realidade logo o retira dos devaneios e a música que ele ouve – antes tocada pela esposa – agora se torna dolorosa demais, como os móveis e os livros que já foram tocados por Anne, encerrando neles a vivacidade da amada.

Sendo assim, Amor consegue apostar num retrato honesto da vida, sem enfeites que poderiam prejudicar a veracidade de cenas tão comuns na nossa vida. A ida a um concerto, as refeições com a família, o choque da perda de um ente querido. E, principalmente, se vê como a morte, mesmo que pressentida em todo o filme e em toda a vida, surpreende e expõe a fragilidade humana.

Catarse vermelha

Catarse vermelha

Paulo e Ana acreditavam no fim do mundo. Eram supersticiosos, tinham fascínio pela possível profecia dos maias. Adoravam assistir aos documentários na TV que misturavam Nostradamus com os maias, acreditavam nisso porque, afinal, era um canal de História, até com simulações! Por que não seria assim? Mas a verdade é que adotavam uma crença e um estímulo para o marasmo da vida de casal. Era o mesmo que criar uma ficção e se fazer personagens dessa peça até o fim, planejando cada passo ou fala.

Cogitaram, primeiro, ir para essas cidades que lucravam com hotéis em lugares supostamente seguros para o fim do mundo. Mas era tão sem graça! Eles queriam vivenciar o fim. Se não acabasse…bem, eles não ousavam cogitar. Mas, se acabasse, eles teriam ido ao limite de suas loucuras. Não se ocupavam em pensar se haveria algo além desse mundo, porque já era místico demais e, para eles, a ideia de que um povo antigo havia previsto o fim era mais emocionante ou menos clichê para as suas ficções do que seguir uma religião.

Os dois pensavam que se o fim do mundo estava próximo, deveriam fazer o que nem ousavam pensar. Resolveram, então, convidar a mãe de Paulo e o pai de Ana para jantarem, a única família que tinham. Mas havia alguns detalhes nessa relação. Abandono, retorno da mãe à casa de Paulo depois que ele perdeu o pai, o seu grande herói, o único que soube sustentar a vida do jovem. Inúmeras traições e humilhação à mãe de Ana, a heroína dela. Era esse rancor pelo próprio sangue que unia a ambos.

A campainha tocou. A mãe de Paulo esperava à porta, fingindo que 12 anos não existiram na separação dos dois.  Passou a mão no rosto do filho, um sorriso doce, mas os olhos opacos. Meia hora depois, de desconforto entre os três sentados no sofá, chegou o pai de Ana. Sempre espaçoso, sentou-se em frente à TV, vendo um canal de esporte, com uma taça de vinho na mão, que mandara a filha buscar na cozinha.

O jantar estava servido, coisa simples. Macarrão com molho ao sugo, frango e vinho. Todos se sentaram na mesa apertada de apenas quatro lugares, feita somente para aqueles convidados, deixando-os constrangidos com o contato. A conversa não evoluía muito entre eles.

-Então você está desempregado, não acha sequer um trabalho? Pode ser qualquer coisa!

-Está difícil de achar, mãe. Já fiz algumas entrevistas, mandei currículo, e tô esperando ligarem, né?

-Hm, isso aí não é desculpa. E ainda me serve um almoço desse? Em casa é só botar molho no miojo que fica igual a esse macarrão.

-Ana, minha filha, você realmente acha que casou com o cara certo? Ele nem te sustenta.

-Não casei pra alguém me sustentar…e é só uma fase. Tá puxado pra dar conta da pós, do trabalho, mas tá ótimo.

-Na minha época mulher não fazia pós-graduação. E acho que é inútil, de qualquer forma. Seu marido tinha que pagar esse frango aqui…e um frango melhor – olhava, com desprezo, para o genro.

-Não, eu fico tranquila que casei com alguém que não me trai e nem me humilha – respondeu Ana, com a voz rouca.

A raiva borbulhava, acumulada. Ana cobiçava aquele vermelho do molho e do vinho, como uma catarse do seu sentimento por aqueles da mesa. Paulo e Ana se entreolhavam, ansiosos. A moça apanhou as taças dos convidados e, com um sorriso, levou-as para a cozinha com a desculpa de ter deixado a garrafa lá.

Voltou com as taças novamente cheias, segurando-as com as mãos trêmulas. Os dois perceberam e questionaram.

-É a ansiedade! É bom vê-los aqui. O fim do mundo está aí e seria bom acertarmos o passado numa mesa de jantar – Paulo se adiantou, respondendo gentilmente – Que tal um brinde?

Os dois convidados assentiram logo com a cabeça e beberam o vinho, à vontade, aliviados pelo entusiasmo de Paulo.  Ele e a esposa encaravam seus pratos. O som da mastigação e o bebericar do vinho soavam alto demais por aquela sala.

Ouviu-se um engasgar aflito. Com um baque, os convidados deixaram a taça cair, o vinho escorreu sem dó pela toalha de linho branca. Ana e Paulo pararam de mastigar o macarrão e olharam para o outro lado da mesa, hesitantes. Os dois repousavam a cabeça no prato, com o molho respingado na mesa. O vermelho manchava a toalha com a mesma presença do vermelho natalino que Paulo insistira em usar para enfeitar a casa, apesar do fim do mundo. Se antes, nessa cor, Paulo e Ana repousavam, com a leve esperança de realmente chegar o Natal e continuar vivos, agora o vermelho adiantara o desfecho que eles sempre quiseram mais profundamente. Era uma cor que rasgava qualquer ficção e os trazia para a realidade mais crua.

Agora restava a eles esperar, na sacada, o mundo acabar, como um camarote para a segunda peça que viria a seguir. Já haviam decidido deixar esse mundo despejando o raivoso passado por entre as taças e os pratos. E Paulo e Ana fizeram isso retrucando à tênue esperança do vermelho, na qual repousaram a vida inteira. Aquele mundo das ficções, da raiva engolida, acabou na peça que montaram. E, ironicamente, acabou por meio de mais uma ficção, com todo aquele molho fingindo ser o sangue que desejavam.

O vermelho espalhado na mesa era a resposta final de que esperança alguma existia. O mal guardado se revelara no jantar acabado. Um mundo hostil se desfazia na toalha de linho, destruindo a esperança de haver uma sobremesa.

Balanço

Balanço

Era noite. O céu parecia um manto escuro incrustado por delineadas estrelas. A escuridão do céu juntava-se a escuridão da rua. Cachorros latiam, buzinas soavam distantes. Apenas havia uma casa acesa, a luz tímida de uma varanda.

A casa possuía um aspecto antigo, encantador, em estilo vitoriano. Pintada na cor branca, tinha dois andares e uma varanda com pilastres adornados por pequeninas flores e folhas.

Nesta varanda havia um homem sentado numa cadeira de balanço. Aparentava estar abatido, com um olhar perdido. O pescoço estava fraco, pendendo a um lado, os olhos cheios de areia. Era jovem, porém o sofrimento que sentia o envelhecia. A gravata estava sem nó, a meia, caída, a barba comprida. Naquele retirar de peças de roupa, pretendia também se desvencilhar da dor. Não entendia como aquilo ocorrera repentinamente; num instante, o sorriso esboçava-lhe o rosto e, numa fração de segundos, o mundo perdera o sentido, o rosto desconhecia o sorriso, como se fosse um estranho.

Pensava na esposa, em silêncio, na sala. O pranto frágil da mulher descia-lhe pela face de encontro à mesa em que se debruçava. As flores estavam murchas, não havia vida na casa. O silêncio mórbido permeava os cômodos, os cantos, a pele, os órgãos.

Em determinado momento, o homem ouviu uma voz. Na verdade, era um riso infantil. Olhando-o estava um menino com a pele branca como leite, o rosto corado, cachos louros emoldurando o rosto.

A voz delicada do menino, semelhante a um canto, exclamou “Papai!”. O homem ergueu o filho, o abraçou ardentemente. “Meu menino voltou!” pensou o homem. Pobre pai.

Jogou o menino para o alto, aquela imagem pura, a fim de pegá-lo e vê-lo sorrir. Mas no espaço não havia cachos esvoaçando no vento da noite; havia apenas um espaço vazio, cinzas que desciam e asfixiavam o pai. O menino não voltara, estava morto. A imagem pura se desfizera como pó.

Fora tudo um sonho ou fruto de uma memória abalada pelo sofrimento, que possuía um tênue fio de esperança em segurar novamente o corpo pequeno do filho.

O homem voltou a sentar na cadeira de balanço. Sentia-se como um pêndulo, aquele vai-e-vem, o balanço que constatava a morte do filho. O sofrimento ia e vinha como o balanço da cadeira, a amargura amordaçava a boca.

Entretanto, um sentimento aflorara no homem. Uma voz severa penetrou em sua mente. Queria despertar o homem de todo o sofrimento. A voz misteriosa dizia:

– Eu que moro no abismo, que liberto as auroras do meu peito, digo: Seu filho não morreu! Os sentimentos que ele aflorou em você sempre o acompanharão, a fé irá te salvar. Seu filho tornou-se uma pequenina estrela, uma árvore em suas mãos, que fora cultivada com grande amor. Sempre permanecerá com você, ele não morreu! Crianças, eternamente, irão nascer, e são todos seus filhos, que sonham com um mundo de liberdade. Portanto, enxugue as lágrimas, suspire, faça a barba, tire a gravata, console sua mulher que chora.

O balanço parara. Até parecia que o seu próprio respirar se suspendera apenas para ouvir aquela voz que, até então, encontrava-se perdida em tanta lama, areia e lágrima. Esse homem, derrotado pelo drama, parecia encontrar uma ínfima esperança. Ah, que alívio brotava-lhe na face! Um pouco de cor retomava o seu lugar, anistiava a palidez que tomara sua face por meses. Ou anos?

A morte poderia ser terna. No instante em que ela se acomoda, na mais repentina epifania, o homem constata que se encontra inerte diante de sua magnitude. O filho se fora, mas o pai ainda estava lá. Sempre seria pai. Mesmo que rasgado por dentro, o balanço cessara.

Não era mais necessário sentar-se naquela cadeira para tentar retomar aquele segundo que estivera em sua mão no passado. Mão que segurava o filho, para não cair. Levantando-se da areia na qual estivera preso por tanto tempo, o homem encontrou seus olhos límpidos, não possuíam mais a areia e a dor do filho morto. A cadeira de balanço continuou com o seu vai-e-vem, mas agora viva e sozinha, leve, como um lembrete da decisão que tomara. Era o balanço final do filho morto, o sofrimento que, aos poucos, deixaria de ir e vir.

Há quase 3 anos eu escrevi esse conto e guardei. É uma releitura do poema Balanço do filho morto, de Vinicius de Moraes (leia aqui). Como hoje seria o aniversário de Vinicius, nada mais justo do que publicar esse conto, que revisitei hoje, acrescentei frases, mas relembrei a mesma intensidade que senti ao escrevê-lo. Isso só cresce!

Uma vela a se consumir…

Uma vela a se consumir…

A beleza sumira, o tempo passara. Diante de um espelho – também envelhecido – Helena não se reconhecia. Fios grisalhos enrolavam-se cada vez mais aos cabelos que outrora foram pretos. Penteava-os com esmero ao ver o preto luzir. Agora só contemplava o cansaço nas faces e a velhice. O problema não era exatamente o reflexo que encarava no espelho. O que mais doía era ver o seu passado tornar-se remoto e o fugaz presente fazer dela o que já foi para a nova geração. Um dia a juventude lhe preenchera e fizera de Helena a mais bela. Papai gostava de brincar que eu era Helena de Tróia, a mais bela entre as mortais… os mitos foram eternizados; ela, não.

E o que fazer? Só lhe restava o lamentar ao ver a flama consumir lentamente a vela. Helena gostava de conservá-la ao seu lado, como se fosse uma ampulheta provocativa. Na sala distante, o relógio que enfeitou a parede de sua avó indicava as dez horas da noite e o final de mais um dia para ela. Não haveria mais ninguém que poderia herdar aquele relógio significativo. Provavelmente, quando eu morrer, mandem-no para alguma feira de artigos antigos. As pessoas se dizem apaixonadas por conservar um objeto dito raro, né? Mas os velhos, de fato, tornam-se apenas descartáveis. Eu transmiti algo a alguém? Não. Simplesmente não fui mãe para iniciar o meu filho ao mundo; não fui avó para ser um rapsodo de tradições. Certamente não sei mais quem fui ou quem representa o reflexo que contemplo.

Ao fundo das reflexões melancólicas de Helena, tocava na vitrola Memory. A música a fazia lembrar da viagem à Nova York e o primeiro musical que assistiu na Broadway: Cats. Se há algo para me representar é a gata Grizabela, ao cantar Memory. Abandonada, velha, alimentada por memórias. Ao sair da peça, só me lembro de ter achado belíssimas as coreografias, mas Grizabela não me agradou. Por quê? É, ela só era o retrato de um glamour que sumira… como eu continuaria a ser uma grande atriz de teatro se ficasse velha e esquecida? Preferiram a substituta, magrela que dava dó. A vida perdeu o frescor! Agora, só sonho com algum contato de um mundo que me ignora. Enquanto isso, aguardo diante do espelho, ao lado da vela. E espero pela admirável Morte, com seu manto negro, envolver-me e me levar, quem sabe, para uma próxima aventura…