8

O ano mudou e o blog também (um pouquinho)

Quando alguém fala “ah, tenho uma novidade”, sempre fico com medo e penso “ai meu deus meu mundo vai cair e agora vão cancelar minha série não vão lançar aquele filme antes do Oscar vão matar alguém em Doctor Who/Sherlock/Game of Thrones (nesse aí é mais comum)”, mas acabei descobrindo com os anos que mudança é algo positivo. Então mudança aqui é boa e é só para dizer que o blog precisa crescer em 2015!

Há cinco anos eu criei este blog e fui seguindo com ele encarando-o como uma grande caixa onde eu iria simplesmente arquivar meus contos, poemas, o meu treino na vontade de ser escritora. Com sorte, alguns poucos amigos acompanhavam, vieram vocês, muitos leitores desconhecidos que passaram a seguir este blog.

Ele surgiu em 2009, quando eu tinha só 16 anos, e o primeiro post foi um conto muito querido que enviei na ingenuidade para um concurso da Companhia das Letras do Vinicius de Moraes, representando meu colégio. Acabou que ele foi parar entre os cinco finalistas de São Paulo. Não ganhou, mas a experiência deu o empurrão para que eu usasse esse espacinho como a minha tentativa de arriscar a criar histórias, até porque esse negócio de escrever vicia.

Para resumir tudo, eu cresci e iniciei minha graduação de Filosofia, onde estou agora (não exatamente agora, quer dizer, quase, tem os trabalhos para fazer nas férias, então eu fico na dúvida sobre onde estou agora. São férias no meio das linhas de Kant e Hannah Arendt, o que é meio conturbado). No ano de 2014 este blog foi alimentado com 72 artigos que consegui publicar por aí, já que sou colaboradora dos sites Literatortura, Zona Crítica e Indique um livro. Visitem esses sites, são lindos. Tive também uma coluna que durou seis meses no Fashionatto, mas a correria da graduação me levou a focar nas matérias para os outros sites.

No fim, este blog foi recebendo o que produzi por aí. Mas acho que não é o suficiente. Então, este post é a iniciativa de dizer que haverá mais conteúdo neste blog aqui, sim. Mais contos, poemas, crônicas, posts indefinidos, e mais de vocês. Não dá para torná-lo apenas um arquivo.

Foi por isso que se você entrar agora no blog verá que ele foi repaginado. Antes era um visual mais lúdico, com aquela charmosa lua com um foguete nos olhos, do início do Cinema, daquele curta Viagem à Lua, de George Méliès. Eu a tinha escolhido porque aquela lua, em si mesma, já resume o que é ler e escrever: sempre um ato inaugural.

aviagemdalua

A questão é que agora, depois de mais um tempinho escrevendo, eu percebi que o blog precisava ter mais de mim neste momento. Então, lá na imagem de capa está Dance at the Moulin Rouge, de Lautrec. Por quê? Só porque minha pesquisa na iniciação científica é sobre arte impressionista? Não apenas isso. Se você observar o quadro, parece que ele se encontra estático. O tempo parou, os homenzinhos de cartola e a mulher bem arrumada de rosa não olham para a protagonista do quadro. Mas ela dança, ela é o movimento. E quando a gente escreve é assim: o mundo parece ganhar movimento e a nossa característica mais singular é reger essa dança por si mesmo. Com suas meias vermelhas ou não.

Também tirei a frase que era o subtítulo, um verso de Alberto Caeiro, “sinto-me nascido a cada momento/ para a eterna novidade do mundo”. E coloquei uma frase minha. Arrisquei. Ela é uma junção deste conto aqui que escrevi, “Olha lá, tem uma janela acesa no caos” e “Galhos a dançar”, que escrevi em 2014. Aproveitei também para inserir na barra lateral os últimos livros que li e os filmes que assisti. Dá para curtir agora cada post, divulgar no twitter, no Google+, e pode me seguir no Twitter, @mafranconeti, espalhe!

Sendo assim, eu convido você, que está aí, que segue o blog pelo wordpress, que recebe as atualizações por e-mail (sério, obrigada, envio carinho, doces e nuvens felpudas rosas para você), amigo ou desconhecido que acabou caindo por aqui: seja bem-vindo. Pegue uma bolachinha, o café, senta aí e leia. Porque ser leitor é ser herói também.

Anúncios
3

De castelo à pensão

O tempo me duvida,
E me esvazia.
Zomba, o deus soberano.
Os deuses de outrora deixaram seus fantasmas na Terra,
Perseguindo-nos com sussurros
E a maldição dos segundos que passam.
Deixam-nos nesse entrelaçar nas dúvidas vis, nas dores,
Mantos que só resvalam pelo homem
E voltam à constelação.
Mas deixam o vestígio no chão
Como terra sagrada,
Presente aos homens.
Nessa brevidade do viver terreno,
Ocupo um reino que pulsa pequeno demais para mim.
Ele incha e me abriga, ele encolhe e me sufoca.
Reino que escolhi.
Compõe-se de mitos já ouvidos em canções de ninar,
De um tempo distante de tudo. Minha herança. 
E nesse ínterim,
Torna-se fácil fazer uma descoberta:
Essa cidade é grande demais para mim.
Cidade-reino, de pessoas desconhecidas,
De amigos antigos,
Um reino na minha cabeça.
Só é um reino porque ele me parece meu.
Mas a verdade é que de reino
Ele se converte em democracia
Disposto a mudar sua política.
As bandeiras ao vento desse castelo
Acenam para a entrada de novos moradores,
Novos desbravadores,
Sozinhos nessa vida terrena
E que anseiam pelo expandir da palavra.
Vejo-me numa épica destruição do castelo
Pelas mãos dos outros.
Com essas paredes por vezes inúteis
É fácil ver a solidão cada vez mais se fortificar.
Pois então o castelo vira pensão,
Com uma infinidade de pessoas,
Casa agora em expansão.
Vida convertida
Na impressão
Nunca mais esquecida
Da areia que cai dos meus dedos.
Da morada inaugurada
Mais uma vez em mim.
1

São Paulo, um labirinto

Acordei com a vontade de reformar a cidade. Nada de tirar pessoas de suas casas, trocar pelo moderno e fazer a rua como eu quero. Não, as pessoas sairiam de suas casas, mas não rumo ao abandono. Só com o ponteiro do relógio guiando-as para as ruas, buscando a humanidade que transbordaria de cada junta dos paralelepípedos. Derrubaríamos muros ilusórios que desagregam as gentes, para obter novos caminhos límpidos. Enfeitaria com grafite o velho prédio já não mais contemplado, a ponto de virar paredes novas-velhas, com a memória das ruas passadas agora coloridas numa nova vida.

São Paulo é um labirinto de Ariadne, no qual a arte é o fio na minha mão, que me puxa, que me traga para o vai-e-vem do cotidiano. Não é fácil ver as pessoas e a vida passando de lá para cá, com  o tempo me oprimindo e os olhos nunca se cruzando. Tenho um fio que me faz sobreviver, conduzindo-me para uma cidade em paz, sem Minotauro que devora a vida com violência e tira a pureza das almas. Nessa nova cidade, teria a violência arrancada do seu corpo, sem deixar rastros. Só para restarem as paredes coloridas na alma paulistana.

4

Verde esperança

Maria era uma mocinha sonhadora.
No ano novo vestia branco
Crente de que paz iria garantir.
Mas de tão envolta em sonhos,
Maria  aceitava o que o mundo lhe dava.
E assim aguardava o seu destino.
Certo dia,
Maria resolveu viajar no ano novo.
Queria ver novos ares, revolucionar a sua vida!
Mas parecia que o ano novo não começaria bem.
A mala se extraviou
E sem seu branco Maria ficou.
Lojas fechadas, pessoas de branco na rua
E ela, raivosa e abandonada
Pelo próprio destino.
Ela queria se grudar em 2012, não deixá-lo para trás.
Como passar sem o branco?
Foi então que viu uma criancinha,
Trabalhando arduamente no dia do ano novo.
Já estava cansadinho de tanto vender
Lenços coloridos aos turistas felizes.
Maria se aproximou, logo se desanimou.
Não tinha branco, mais essa!
Foi então que a criancinha,
Vendo os olhinhos verdes da doce Maria
Já tristes e desamparados,
Repousou um lencinho verde nas mãos da moça.
Não aceitou nenhuma moedinha pelo lenço.
Mas fez um pedido:
Que Maria estivesse com ele à meia-noite.
Assim, o lencinho verde
Uniu duas pessoas improváveis
Enrolando-os em verde esperança
De que seus sonhos pudessem voar coloridos
Como fogos de artifício.
Com esperança os dois sorriam
Para ver se o ano novo poderia ser melhor.
Já havia começado bem.
1

Infinitos

Não é fácil tratar da passagem da adolescência para a fase adulta no cinema sem parecer repetitivo, fazer do roteiro mera repetição de fórmulas do aluno desajustado, perdido em suas escolhas, sofrendo discriminação na escola e ganhando a liberdade numa juventude desenfreada. Muitos apostam na superficialidade e o resultado é um adolescente sem a consciência da real importância desse período de mudanças e escolhas, um personagem distante da realidade.

Entretanto – suspiro com grande alívio – não é esse o caso do enredo do filme As vantagens de ser invisível. Pelo contrário. É um filme inesquecível por conseguir justamente se entrelaçar à vivência do espectador sem soar clichê em nenhum momento. Você lembra que já foi jovem um dia, independente dos anos que se passaram e, mesmo com experiências diferentes daquelas enfrentadas pelos personagens, é possível sair do filme interligado a eles.

A história é a de Charlie um garoto que viu a morte e o sofrimento de pessoas próximas, fatos que o levaram à depressão e à ideia de que possuía culpa pelos acontecimentos. Com essa carga, o jovem ingressa no ensino médio. Para aplacar a solidão, Charlie, que deseja ser escritor, redige cartas a um amigo imaginário, contando-lhe as expectativas. Os anos foram árduos para ele e agora, para o seu próprio bem, precisa de amigos. Felizmente, conhece Patrick – figura espirituosa duramente apelidada pelos outros de “Nada” -, a sua meia-irmã encantadora Sam, além do adorável professor de literatura e outros amigos considerados desajustados. Ao longo do filme, a cada pequena frase e tomada de cena, vai se desvelando a amargura da vida de cada personagem, profundamente misturada a tudo aquilo que os faz importantes e singulares na vida de Charlie.

O curioso é perceber que todos os personagens se envolvem com as pessoas erradas. E, justamente tendo isso em comum, encontram uns nos outros o conforto de finalmente possuir uma relação saudável e marcante. A ideia que o filme apresenta – a de que temos o amor que pensamos merecer – é a base psicológica dos personagens. E o período vivido por eles se torna decisivo porque os coloca face os grandes erros já cometidos no passado. É um passado que volta como um turbilhão, mesclando-se ao presente como alucinações ou dores às vezes amortecidas pelo tempo, mas que os põem no limite da decisão. E, principalmente, os empurram ao futuro.

Mesmo que o filme trate das dores dos personagens complexamente, ele consegue a proeza de ser sublime e leve. As músicas de estilo indie e rock dos anos 80 que embalam o filme não são mera trilha sonora. As letras, as melodias melancólicas que oscilam entre o desespero e o contentamento, servem como representação do perfil desses jovens que estão em dúvida quanto ao que foram e ao que serão. E é nisso que reside a máxima do filme, “somos infinitos”, sem dúvida compondo uma das cenas mais emocionantes do filme devido à sua simplicidade nas poucas palavras. Quando Charlie, Sam e Patrick correm pelo túnel, no carro e com o volume do rádio no máximo, eles se sentem infinitos. Porque nesse passar das luzes, da estrada, tudo não passa de um borrão. Mas eles estão lá, no carro ou onde quer que estejam, existindo essencialmente. Sem problemas, sem sofrimentos. O que pode soar paradoxal é que eles existem infinitamente no momento em que a música os embala. Ela acaba? Sim. Mas a vivência, não.

É desta forma que o filme se torna profundamente importante e surpreendente. São pelas poucas palavras, que já carregam muita poeticidade e sinceridade, que se traça cada personagem. Todos recebem destaque, pois são um mosaico de sentimentos que compõem Charlie, como a mixagem de músicas que eles costumavam fazer em suas fitas, com as músicas mais importantes. Os personagens são como essas músicas, postas juntas em uma fita, em uma vida, compondo algo singular.

O filme, obviamente, não daria certo se não houvesse um elenco excelente. Ezra Miller faz de Patrick uma figura engraçada, mas sem se esquecer de seus dramas. Sam é a mocinha que soa como a primeira musa de Charlie, com a atuação exuberante e leve de Emma Watson. Nesse caso, esquece-se que ela tem o nome ligado ao papel de Hermione, em Harry Potter. Logan Lerman faz muito bem o tímido Charlie e expõe com naturalidade as suas transformações, sem trair a essência do personagem.

“Somos infinitos”. É com essa frase que o filme se torna inesquecível e os personagens também. Charlie, Sam, Patrick não precisam de residência fixa. Eles existem por toda parte, funcionam em qualquer parte do mundo. São suspensos por suas histórias nesse universo, livres e espalhados por aí, prontos para o segundo em que a melodia de uma música os tornar infinitos.

Resenha compartilhada pela Rocco Jovens leitores, aqui (:

2

Do anúncio à arte

João trabalhava numa agência publicitária. Ele projetava desenhos para pequenos anúncios publicitários. Pasta de dente que prometia um sorriso branco, um lápis de cor que possibilitava o melhor desenho, o desodorante que atrairia todas as mulheres quando usado. Vivia imerso num mundo de sorrisos imediatistas, anúncios que serviam para o hoje e, amanhã, já estavam no lixo. Desenhos feitos por ele meramente produzidos e dispensados após terem feito o seu trabalho de persuasão.

O chefe de João não era lá muito agradável. Na verdade, ele era bem populista. Como os anúncios, ele se desmanchava em sorrisos pelos corredores, mas sala adentro falava o quanto a Maria havia engordado, se ela estava com problemas em casa. Falava também do rapaz da copiadora, “aquele lá tem um olhar soturno, parece prestes a dar um golpe na empresa. Ou será terrorista?”. Imaginação fértil e maldosa. É, ele vivia num mundo paralelo em que todos poderiam trai-lo, indo trabalhar para o concorrente. Ah, palavra que soava terrível. Concorrente. Tal qual os anúncios pregados pela empresa, o chefe de João era falsamente animado, parecia ser o modelo perfeito de chefe por conta de sua agradabilidade. Mas, no fim, ele era um tipo de líder descartável, não agregava nada à equipe. Tão falso quanto o sorriso branco prometido pelo anúncio, nunca conquistado, o oposto do que dizia na propaganda.

E João o incomodava. Ele tinha um espírito empreendedor, seja lá o que for isso. Ele não almejava ser apenas um desenhista de anúncios efêmeros. Em seu íntimo, ele queria ser um artista! Chegava tarde à noite e ia pintar as suas aquarelas, finalizar quadros à óleo, mundos retratados por ele que, apesar dos tons fortes e meio surrealistas, pareciam mais reais do que aquilo que ele pintava nos anúncios. Seus quadros não possuíam a promessa fútil que a sociedade atual tanto adora perseguir. Não, seus quadros carregavam na tinta colorida para que essa se fizesse presente até o último ponto branco da tela; que chamasse a atenção do observador por trazer lembranças adoráveis da infância, talvez dos doces coloridos que João comia após o jantar, com a mãe. Ah, ele ainda não sabia definir qual era a sua arte, mas sabia muito bem que ansiava mais por um legado na parede de um museu do que um anúncio lançado à infinitude das ruas e dos outdoors.

Certo dia, ele passou em frente à sala do chefe e o ouviu falando ao telefone.

-Esses empregados tem me decepcionado e muito – disse o chefe – Em alguns vejo a facilidade de convencer a produzir tal anúncio do jeito que eu quero…aí fica fácil transformar o que eles têm de bruto naquilo que eu quero e com o qual eu vou lucrar muito, né? Mas tem um em particular que me incomoda…o João, que faz os desenhos, sabe? Ele me parece disperso. Vem com ideias novas demais, não gosto muito disso. Essa história de ser visionário é modinha depois que se falou tanto em Steve Jobs. Ser inovador, criativo…aff, não me importo com isso, quero conquistar o mercado e só. E esse garoto…parece que não tá aqui na empresa. Quando discorda de alguma coisa, logo fala e vem com projetos novos. E os outros ficam entusiasmados…perco o meu posto de chefe. Eu sou um líder, é a mim que eles devem seguir!

Houve uma pausa, o chefe ouvia o seu interlocutor. E então respondeu:

-Hum, não acho que esse garoto seja um grande perigo…ah, vai, ele não desenha muito bem. OK, ele desenha. Mas vai passar a vida indo de agência em agência, fazendo aqueles sorrisos tolos de pasta de dente, já tá condicionado a isso. Duvido que vai conseguir alguma coisa além desses anúncios. Essa é a verdade, há gente que nasceu pra ser mandada porque tem talento limitado – acrescentou o chefe – Bom, agora preciso ir, meu caro. Depois nos falamos!

Não deve ser muito agradável ouvir isso de alguém que lhe parecia legal, pelo menos. Quer dizer, será que tenho talento o suficiente para pintar obras de verdade? E então foi essa a hora em que sentimentos romperam. De respeito à raiva foi-se num instante. João se questionava: quem esse cara pensa que é? Ele, João, até simpatizava com o seu chefe, mas e aquele sentimento colérico que estava agora despontando em seu interior? Mesmo que tenha despontado abruptamente, parece que tal sentimento já existia antes de tão intenso e certeiro. Mas não existia. De tanto formular uma imagem da pessoa que perfeitamente conquista a quem está ao seu redor pela retórica, João foi se emaranhando pela palavra sedutora de alguém que se mostra num espetáculo em que é o personagem heroico. Contudo, agora, por um simples telefonema, mostrara-se ardiloso e terrivelmente objetivo.  “João, você pode ser quem quiser, meu garoto”, ele disse, certa vez. “Você tem um futuro promissor aqui na agência, eu irei te dar só chances de crescer!”. Ah, controlar-se é difícil. João não poderia dizer que essa foi uma decepção trágica digna de um mito grego. O respeito fora embora, esmaeceu diante dessa pintura. Imagem que antes se mostrara colorida, agora se distorcia num horror expressionista.

Não, João deveria provar que merecia algo melhor. A sua arte merecia isso. Não era justo que ele passasse noites tentando pintar uma nova realidade na tela em branco e se deixar, ao acordar, corroer-se por aquela que lhe era imposta.

Então ele voltou à sua mesa, já vazia de trabalhos, estava naquele momento definido por ele como “limbo”, aguardando um novo projeto ou o que o chefe iria mandar que ele fizesse. Já havia recebido o salário do mês, estava tudo certinho. Parece que o dia havia lhe dado uma pausa apenas para decidir. Pegou o pouco que tinha nas gavetas, pôs numa caixinha de papelão.

Com passos decididos, João entrou na sala do chefe. Disse que estava cansado do seu trabalho e que procuraria por outro mais criativo. Estava exausto, após anos, em lidar com sorrisos de pasta de dente que se esmaeciam assim que ele lhes dava o último retoque. E também não acreditava naqueles lápis de cor que vendia. Eram tão fracos, não tinham o direito de se auto-titularem a solução para os artistas que querem uma obra feita às pressas. É isso. Agora, livrando-se desses signos vazios, das promessas tolas que ele era obrigado a vender por seus traços, buscaria um modo mais sincero de pincelar a realidade.

5

Lembrete

Quero deixar somente um lembrete
Eu quero ser aquele que não deixa sua felicidade se afetar
Por uma ação ou palavra torta. 
Aquele que aproveita as raras amizades, que veem como valiosa a companhia ao lado.
Não quero a pessoa que se veste com um sobretudo refletindo ao mundo uma faceta irreal
Quero uma humanidade que busca fazer memoráveis os poucos minutos de simples balbuciar.
Quero mais pessoas que ficam até o final da festa,
Quero longe dessa residência quem não se doa por inteiro,
Quem sai à francesa, deixando o presente em qualquer canto da casa!
A humanidade precisa de mais carinho pelo outro,
Sem viver temerosamente ao demonstrar o que sente.
Esse alguém pode ser fictício, talvez nesse sujeito caiba o mundo inteiro!
Mas confrontar-me-ei com ele,
Sujeito pertencente à vida de qualquer pessoa,
Marcando a cada passo o lembrete que fiz.
O convite que faço é o de lançar-se ao mar
À infinidade de nomes desconhecidos na História,
Entrar em um mundo que nunca me pertencera,
Respirar a vida de um conhecimento infinito,
Ficar sem fôlego com a presença de quem busca o mesmo.
Lançar-me-ei pela multidão, tentando alcançar um significado,
Na rua que me sustenta, no latido do cachorro, no pão quentinho assando na padaria.
Quero abraçar um mundo receptivo aos vários mundos que quero fundar!