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Os mercados de Natal de Colmar e Strasbourg

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Publicado no site Artrianon

Pelas ruas das cidades de Colmar e Strasbourg, na região da Alsácia, na França, é possível encontrar ecos do Natal que reverberam pelos mercados desde o século XVI. As luzes enfeitando a cidade, o reflexo nos canais e o frio invernal compõem todo o ideário alimentado pela história dessa nostalgia melancólica e mágica do Natal.

O primeiro mercado de Natal ocorreu em Viena, no dia 6 de dezembro de 1294 à São Nicolau. Os primeiros traços dos mercados de Natal também remontam ao início do século XIV na Alemanha, sob o nome de “Mercado de São Nicolau”. O primeiro documento que descreve um mercado de Natal é datado de 1434 durante o reinado de Frederico II da Saxônia. Mais tarde, a Reforma perpetuou a tradição ao renomeá-lo “Christkindlmarkt” (mercado do menino Jesus). Em Strasbourg, o mercado de Natal existe desde 1570.

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créditos de imagem: Marina Franconeti
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créditos de imagem: Marina Franconeti

Se a viagem a Colmar e Strasbourg for de trem ou de ônibus, o visitante poderá encontrar regiões montanhosas enfeitadas por altos pinheiros, casas pequeninas e coloridas abandonadas pelas famílias que habitam na região, as quais se refugiam na direção contrária às dos turistas que vão à Colmar e Strasbourg buscando a grande aura natalina. O primeiro choque é constatar esse abandono, casas e ruas silenciosas, quase fantasmagóricas, entre o sol de inverno.

Ao chegar em Colmar, porém, a pequenina cidade se encontra cheia de uma multidão festiva e convida para um passeio à pé, possibilitando conhecê-la em um dia pelos cinco mercados de Natal que a tomam por inteiro. O centro de Colmar contém inúmeros tesouros arquitetônicos, como monumentos, igrejas, museus, becos mantidos desde a Idade Média ou construídos no século XIX. Para visitar, há a Maison Pfister, o Koïfhus, o Museu Unterlinden, a Pequena Veneza (La Petite Venise), a Maison des Têtes e o Collégiale Saint-Martin.

Entre o curto tempo de visita de um final de semana para duas cidades, a Pequena Veneza e a Maison des Têtes são as paradas obrigatórias. A primeira tem esse nome, de “Pequena Veneza”, por remeter aos canais venezianos. O alinhamento original das casas dos dois lados do rio, situado ao sudeste da cidade, corrobora para o título, com passeios de barcos pelo canal. À noite, na época natalina, a Petite Venise ganha uma bela decoração e iluminação à noite, com coral concentrado nas redondezas e casas pequeninas, com vitrines também enfeitadas.

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créditos de imagem: Marc Talfournier

A Maison des Têtes é uma casa construída em 1609, em nome do marchand Antoine Burger, prefeito de Colmar de 1626 a 1628. Foi restaurada em 1738 e classificada como um monumento histórico em 6 de dezembro de 1898. A arquitetura é de estilo renascentista, feita por Hans Burger. A sua peculiaridade são as 106 cabeças humanas que a adornam a fachada, por isso ganhou o nome de “casa das cabeças”.

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créditos de imagem: Marina Franconeti

Por entre as ruas e becos da cidade, os cinco mercados de Natal se amontoam numa grande massa de luz cintilante onde as pessoas se acumulam para aliviar o frio com vinho quente, comer pretzels doces e salgados, maçãs-do-amor, bolos, biscoitos natalinos e crêpes. O sentimento de tempo enclausurado em séculos passados é forte ao andar por entre as construções, os paralelepípedos e as músicas de artistas de rua. Em algumas horas, a sensação é de habitar uma aldeia oriunda de contos de fadas, histórias fantásticas e contos medievais.

No caso de Strasbourg, a cidade é considerada a “capital do Natal”, com o centro classificado como patrimônio mundial da UNESCO, e um dos mais antigos mercados natalinos da Europa. Uma ao lado da outra, as barracas em Strasbourg trazem comidas típicas, doces e bebidas natalinas, comidas de outras partes do mundo, e inúmeros trabalhos artesanais encantadores.

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créditos de imagem: Marina Franconeti
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créditos de imagem: Marina Franconeti

A Catedral Notre-Dame de Strasbourg é o ponto principal a ser visitado. Por entre os becos, ela se apresenta aparentemente pequena para, ao fim, ser vista em sua totalidade: uma catedral massiva, de inúmeros detalhes na fachada, com portas altas vermelhas e com um aspecto de ouro velho por entre a pedra de sua arquitetura. O início do trabalho de construção da catedral se deu em 1176, e foi finalizada em 1439, sofrendo diversas restaurações desde então. No seu interior, a catedral possui uma das mais belas surpresas, um relógio astronômico o qual se movimenta a cada hora diante dos olhares surpresos do público. Victor Hugo a definiu como “prodígio do gigantesco e do delicado”.

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créditos de imagem: Marina Franconeti
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créditos de imagem: Marina Franconeti

O Natal em ambas as cidades possui, assim, um gosto familiar de cerimônias imaginadas e celebradas por outros povos antigos que passaram pela Europa. Os séculos formulam as construções, os becos e as tradições que perduram por entre o artesanato e a comida do mercado. A cidade acaba por se tornar uma grande festa coletiva em uma aldeia élfica, pertencente ao sonhos infantis e às preces de marinheiros, comerciantes, arqueiros, ladrões, crianças e estudantes ao santo padroeiro São Nicolau.

Fontes: Esta matéria foi escrita a partir da viagem que fiz em 2015 para as cidades de Colmar e Strasbourg, mais as informações dos sites oficiais (aqui e aqui).

Philippe Wendling, La merveilleuse histoire des marchés de Noël d’Alsace, Vent d’Est, Strasbourg, 2014.

Quelle est l’origine des marchés de Noël? 

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OBRA DE ARTE DA SEMANA | O Natal e o relógio astronômico de Strasbourg

Publicado no site Artrianon

O relógio astronômico é uma peculiaridade da catedral de Strasbourg, localizada na Alsácia, França. Este monumento artístico composto por autômatos que se movem com o passar das horas surpreende os turistas por conta de seu movimento e raridade. Mas a grande beleza do relógio reside no significado dos personagens que o adornam. Cada escultura conta uma história, que faz do relógio astronômico singular porque fala por outros tempos.

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Créditos: Pixel_K

A catedral de Strasbourg é um atrativo para quem visita a cidade em busca do mais antigo mercado de Natal. Desde 1570, os mercados povoam a cidade, e até hoje a cidade se enfeita e nos recebe com comidas típicas, inúmeros presentes, trabalhos artesanais e agregam o significado natalino como uma celebração feita pela simplicidade. É em nome de São Nicolas e a origem da árvore de natal que o mercado se ergue historicamente na cidade.

Neste contexto, o relógio astronômico simboliza a aura de sagrado no Natal. Medir o tempo, para os nossos olhos contemporâneos, parece algo simples. Mas não era na Idade Média. É no século XIII que ocorre uma revolução técnica pelo relógio mecânico, que em um tempo clérigo, incerto, vinha substituir um tempo laico, racionalizado. As cidades passam, então, a adotar relógios monumentais, e Strasbourg foi uma das primeiras cidades a adotá-los, era o relógio dos Três Reis, de 1354. Porém, o relógio conhecido atualmente passou por uma restauração em 1842, pois parou de funcionar. O relógio antigo possuía um calendário, um astrolábio, uma estátua da Virgem e os três reis que se inclinavam a ela, com algumas melodias e um galo que cantava.

No relógio atual podemos ver muitas histórias. Na parte inferior do relógio consta um globo celeste mostrando 48 constelações formadas por 1022 estrelas, e o percurso do sol e da lua. Apolo designa o dia, enquanto Diana representa a noite. Há, também, os quadros situados à direita e à esquerda dos eclipses solares e lunares registrados por volta do século XVII. O ponteiro dos minutos é adornado por um crânio e uma serpente com uma maçã. No centro do relógio, encontra-se o astrolábio geocêntrico representando o céu visível em Strasbourg, com suas subdivisões, as estrelas, o zodíaco, as casas celestes, os movimentos do sol, da lua e dos cinco planetas. As horas são marcadas na parte exterior do astrolábio. E logo acima dele há um pequeno globo, é onde são marcadas as fases da lua.

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Créditos: strasbourg.eu

Temos também as quatro idades da vida que marcam os quartos de horas. A cada hora a Morte se aproxima do sino. E o galo de 1354 canta três vezes. É curioso, diante deste relógio, constatar que ainda se trata da antiga cosmologia de Ptolomeu que situa a Terra no centro do Universo. Toda a estrutura tem 18 metros, e a escada à direita e a torre central datam de aproximadamente 1547, e são a primeira criação arquitetônica do Renascimento em Strasbourg. Por isso, o trabalho de restauração no século XIX precisou conservar e muito essa história presente no relógio.

As esculturas

A grande beleza do relógio reside nos detalhes. As suas esculturas são coloridas e cheias de significado. Tem as figuras que encarnam a música, como o harpista e o violinista, bem como alguns evangelistas no topo, o profeta Isaias e uma estátua do arquiteto H.Th.Uhlberger.

Acima do calendário estão situados, para cada dia da semana, as divindades tutoras desses dias, de domingo a sábado: Apolo, Diana, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. Eles estão em uma espécie de carruagem e Saturno está prestes a devorar um de seus filhos, um símbolo do tempo que destrói justamente aquilo que ele produz.

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As pinturas

As imagens que cercam o calendário logo na base do relógio são as pinturas que representam os quatro Impérios, o Assírio, o Persa, o Grego e o Romano. São pelas figuras dos quatro monarcas que o império se apresenta pela pintura. Na parte superior à esquerda, encontra-se a Criação, com Eva criada pela costela de Adão e, segundo uma tradição protestante, Deus é representado apenas ao centro como uma fonte de luz. À direita está o Juízo final, com a presença do Demônio e a sedução terrestre contraposto às três figuras femininas da Fé, da Caridade e da Esperança.

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Já as pinturas localizadas no calendário que fica ao centro são bem interessantes. Ao mesmo tempo em que temos as esculturas das Quatro Idades, às quais todos estão submetidos, o calendário apresenta aquele tempo efêmero das quatro estações, os dias da semana, os quatro elementos e as quatro temperaturas (sanguíneo, colérico, fleumático, melancólico). E a correspondência entre eles remete às especulações cosmológicas da Antiguidade. Ou seja, todas essas pinturas expõem a ideia de harmonia e unidade do universo.

-Primavera: infância, manhã, o ar, sanguíneo)

-Verão: a juventude, o meio-dia, o fogo, a cólera

-Outono: a maturidade, final da tarde, a água, fleumático

-Inverno: a velhice, a noite, a terra, a melancolia

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O que acontece quando se passa uma hora?

Como todo o relógio astronômico é feito por autômatos, ele indica a passagem do tempo pelo movimento de suas figuras. Quando se visita a cidade de Strasbourg e entramos pela catedral de pedra fria, o tempo, de fato, parece permear as sensações. Esperamos agrupados diante do relógio para ver que movimento ele faz, mas sem saber ao certo toda essa história por trás de sua constituição.

Logo abaixo você pode ver o vídeo do relógio funcionando. O grande anúncio vem dos anjos. Um bate no sino enquanto o outro vira uma ampulheta. Próximo ao topo, o velho passa diante da Morte, que toca o sino, comunicando que mais uma hora se passou. Ou que está nas suas mãos, morta. Acima da Morte, Cristo abençoa os apóstolos. Quando o quarto passa, o galo bate as asas e canta pela primeira vez. Com o oitavo apóstolo, o galo canta novamente. Com o 12º, o galo canta pela última vez, e o relógio se silencia.

Constatar o mecanismo do relógio astronômico é testemunhar a engenhosidade da mente humana quando reúne o estudo mecânico com o trabalho da escultura e da pintura. Para os nossos olhos contemporâneos, parece que arte e ciência caminham em lados opostos. Porém, arte era ciência, e vice-versa. E a criação de um relógio com tantas artimanhas para anunciar a passagem do tempo terreno comprova que, apesar da distância dos séculos, tal relógio astronômico ainda se comunica conosco. Porque é uma criação artística que, ao tocar os sinos e fazer um galo cantar e um velho passar pela Morte, conduz o tempo de forma sagrada e única. Prendemos a respiração na catedral gélida, sentimos as horas nas mãos e o peso de todos nós passarmos pelas Quatro Idades. Assim, não importa a época em que vivemos, o que o relógio astronômico faz é nos obrigar a olhar a Morte e o imenso poder do Tempo.

Referências bibliográficas:

Guia oficial da Catedral de Strasbourg -LEHNI, R. L’Horloge Astronomique, Éditions La Goélette, 2011

Fotos: strasbourg.eu; Gilbert Frey; J.J. e A.Derenne (guide)

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Ambrosia

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Procurei pelos mercados

Entre plásticos, pessoas e potes

Os vestígios de sabores perdidos

Da boca que prova o passado

E o devora guardando

No mais interior profundo

As memórias digeridas.

Elas aguardam,

Para em choque retornar

Na forma de cereja vermelha

Que minha mãe segura entre as mãos.

Juntas escolhemos,

Em busca infantil,

Em comunhão de mãos que pesquisam

A pequena ambrosia

Em vinho lustrado.

Como dói ver aquelas vermelhas

Quase pretas,

Ostensivas em suco e doçura.

Os dedos cavam entre as manchas

Na busca das mais maduras

Mas o caminho mistura os dedos,

Em carne e vermelho

E eis que se convocam as memórias

De infanta vontade

De provar a pequenina.

A preciosa cereja,

Que antes era breve frutinha,

Mas que agora ganha ares

De grande simbologia,

De uma comunhão guardada pelo tempo

Grandioso e atemporal.

De cereja que veste o Natal

Em vinho resplandecente

Que compõe, ao fim,

O grande pavilhão brilhante

De minhas memórias, vivas, enfim.

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Doctor Who: a realidade e a ilusão no especial de Natal

drwhochristmasResenha publicada no site Zona Crítica

CONTÉM SPOILERS

Todo Natal é o último Natal. Com essa bela premissa, o especial de Natal do Doctor Who, nomeado Last Christmas (O Último Natal) prosseguiu com a atmosfera sombria de toda a 8ª temporada, mas revelou o espírito natalino como bem-vindo até mesmo ao 12th Doctor, que não gosta lá muito de abraços e momentos alegres e sublimes que a época implica.

O especial se inicia com a Clara acordando com o barulho repentino de um objeto colidindo em seu telhado e vozes. O trenó do Papai Noel havia quebrado no telhado de sua casa, e trazia junto seus ajudantes elfos e muitas tangerinas, frutas que o Papai Noel (interpretado por Nick Frost) supostamente gosta. O Doctor surge na cena pedindo que Clara entre na TARDIS. E paira no ar certa rivalidade entre Papai Noel e o Doctor.

Com esse início, o especial caminha a história para a presença de uma equipe de cientistas no Polo Norte na véspera de Natal, em que o desafio deles é passar por uma sala com criaturas aparentemente perigosas sem acordá-las. O grande perigo reside em criaturas chamadas Dream Crabs (Caranguejos dos Sonhos), que se prendem à face daqueles que eles atacam até sugar a sua vida, anestesiando-os, enquanto isso, numa vida de sonhos. É preciso sair deste sonho para voltar à vida.

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Em relação ao elenco, o especial adiciona a presença de Nick Frost, que está excelente como um Papai Noel irônico e capaz de conduzir o enredo a ponto de deixar o próprio Doctor se sentindo perdido, por um instante, em todo o caos entre a tripulação de cientistas. Há quase um duelo entre os dois personagens, já que consideramos Papai Noel irreal e o Doctor a única ajuda que poderíamos ter. O especial brinca muito com o real e a ilusão, nos levando a questionar se devemos acreditar em um deles ou em nenhum.

Jenna Coleman e Peter Capaldi retomam a parceria de seus personagens de uma forma sublime, muito bem conduzida pelo roteiro, e em uma grandeza de atuação ainda não vista na temporada. Fica evidente como a Clara é realmente importante para o Doctor e que as mentiras que um contou ao outro foi a maneira de se sacrificar pelos seus sonhos: Clara permanecer com Danny e o Doctor reencontrar Gallifrey. Neste episódio, que aposta na premissa do Natal como sendo o último, Clara precisa superar a morte de Danny, numa das cenas mais bem trabalhadas com o ator Samuel Anderson. Capaldi também consegue, mais uma vez, expandir as impressões que temos do Doctor, para culminar na cena em que ele conduz o trenó, todo alegre como uma criança na véspera de Natal.

O trabalho de Steven Moffat, showrunner e roteirista, foi um verdadeiro presente em forma de roteiro. Ele conseguiu a proeza de reunir o melhor do sci-fi com os elementos exigidos para um especial de Natal. Ele trata de redenção, morte e passado sem utilizar os sentimentalismos que identificamos em tantos enredos natalinos que buscam arrancar lágrimas como se fosse a grande exigência. Não, Moffat se encontra comedido neste especial sem deixar de explorar a densidade desses temas. Em A Christmas Carol (2010) vemos o clássico enredo da magia no dia do Natal numa Londres industrial e futurista tomando Charles Dickens como inspiração, em que existe um adulto de coração endurecido e uma infância sendo desvelada para a sua redenção, com a doçura de um belo enredo infantil. No caso do especial The Snowmen (2012), Moffat aposta mais na linguagem de um leve thriller, em que bonecos de neve ganham vida para conquistar a Londres vitoriana, onde conhecemos Clara Oswald, uma garçonete e babá que o 11th Doctor convida para ser sua companion. Nele, o Natal tem um toque de melancolia bem trabalhado juntamente ao humor.

Doctor-Who Team

Diante destes dois especiais, Last Christmas é bem distinto. A linguagem que Moffat opta por utilizar na constituição do roteiro é o grande protagonista, pois ele aposta novamente no seu talento – que já conhecemos – de sobrepor diversas camadas temporais, desta vez uma sobreposição de sonhos. Moffat consegue adivinhar o momento em que vamos acreditar que já estamos acordados. Ao encontrar Clara já idosa, depois de 62 anos esperando o Doctor, acreditamos que será o último Natal da companion. A verdade é que as opiniões podem se dividir: ao mesmo tempo em que teria sido doloroso vê-la se despedir naquela cena, teria sido um desfecho mais leve do que os de outras companions na série. Dentro das expectativas criadas a cada cena-sonho, foi inteligente Moffat ter se detido nesta parte da história, nos levando a crer que estávamos acordados e que seria o fim de Clara.

A companion, enfim, permanece para a próxima temporada. E Moffat ainda deixa aberta a possibilidade às crianças de que o Papai Noel existe, ao terminar com a tangerina na janela. No decorrer da história, descobrimos que o Papai Noel só foi uma ilusão que a tripulação trouxe à tona para tentar sobreviver ao ataque dos Caranguejos dos Sonhos, afinal estavam todos sonhando à beira da morte. Em algumas discussões, ficou a dúvida se a tangerina, sendo deste personagem ficcional, o Papai Noel, seria como um totem, o que indicaria que o final do episódio ainda era um sonho. Mas a probabilidade é de que Moffat a deixou no final para tranquilizar as crianças (e seus pais) de que o Papai Noel ainda pode existir.

Desta forma, o enredo do especial se constituiu com grande fluidez, em que o espectador se vê surpreso ao começar a duvidar de tudo o que está ocorrendo, depois de ser enganado pelo roteirista. É um especial realmente distinto, pois não usa o artifício do clima natalino a todo tempo. Este surge para coroar a história com muita delicadeza, muitas vezes em cenas que não se precisa de uma frase para enfatizá-lo. Este foi o grande mérito de Moffat: tratar do clima natalino como um período difícil para muitas das famílias que veem a época como a última reunião familiar. A promessa do roteirista, então, é fazer deste dia um momento em que se deslocar da realidade proporciona um encontro com o Doctor e o conforto para a solidão.

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Sábado do Vídeo | Dê um livro neste Natal

books (1)Matéria publicada no site Literatortura

Um bom velhinho com vestes pesadas vermelhas passa pela casa de todos em seu trenó, distribuindo presentes. Uma criatura verde que detesta o Natal aprende a apreciá-lo na grande ceia de Whoville. O quebra-nozes que ganha características humanas na noite natalina da menina Clara. Como se vê, o período natalino é carregado de inúmeras histórias consideradas clássicas que viraram parte do imaginário coletivo como sinônimo de uma tradição a ser preservada. Essas pequenas narrativas, passadas de geração a geração, oralmente ou por meio de livros, como no caso de Grinch e O Quebra Nozes, mostram que há muito a ser contado daquilo que reside abaixo da árvore de Natal. É só acender a imaginação.

Histórias são mencionadas ocasionalmente, mas pouco pensamos sobre elas. O Natal pode ser o período que traz à tona histórias familiares na ceia, ou constitui mais uma nova lembrança ao ganharmos um presente singular, com a presença de alguém especial. É por isso que o Sábado do vídeo de dezembro, às vésperas do Natal, traz esse vídeo da editora Bloomsbury, com a proposta de presentear os amigos e familiares com livros.

O vídeo Give the gift of a book this Christmas traz várias frases sobre a experiência de ler um livro. Abaixo você pode assisti-lo e conferir a minha tradução das frases citadas. Tem J.K.Rowling, Neil Gaiman, William Shakespeare, Paulo Freire, entre outros. Se no Natal as histórias emergem brilhantes, ter um livro nas mãos é a possibilidade de conhecer novas histórias sempre, com as palavras pulsando como as luzes natalinas. É uma viagem inesperada, com destinos infinitos. E conceder esse passeio a alguém é o mesmo que deixar uma promessa embaixo da árvore de Natal para um ano inesquecível.

“Escrever um livro é uma aventura”, Winston Churchill.

“Eu acredito que algo muito mágico pode acontecer quando você lê um bom livro”, J.K.Rowling.

“Livros são coisas vivas, eles têm colunas e cheiros, uma vida inteira, e como resultado de suas existências, alguns deles têm lágrimas e deformações e algumas feridas”, Niall Williams

“Essa é a verdade sobre os livros: eles permitem que você viaje sem mover seus pés”, Jhumpa Lahiri.

“Ler não é caminhar nas palavras, é segurar a alma delas”, Paulo Freire.

“Ler é voar: é ascender a um ponto de vista o qual concede uma visão sobre enormes terrenos de história”, A.C. Grayling

“O livro cria significado, o significado cria vida”, Roland Barthes

“Acredite nos leitores e eles podem corrigir os pontos”, Esther Freud

“Escrever ficções é o ato de misturar uma série de mentiras para chegar numa grande verdade”, Khaled Hosseini

“Debruçar-se em um livro, para procurar a luz da verdade”, William Shakespeare

“Parte da beleza da ficção é a de que nós vivemos em um corpo que não nos pertence”, Colum McCamn

“Uma palavra depois de uma palavra depois de uma palavra é poder”, Margaret Atwood

“Um livro é um sonho que você segura em suas mãos”, Neil Gaiman.

“Oh, eu só quero o que todos nós queremos: um confortável sofá, uma boa bebida, um final de semana sem distrações e um livro que irá parar o tempo e me resgatar da minha existência cotidiana e alterar meu pensamento para sempre”, Elizabeth Gilbert.

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Como o Grinch roubou o Natal, de Dr. Seuss

Resenha publicada no site Indique um livro

Como o Grinch roubou o Natal, de Dr.Seuss

Companhia das Letras, 63 pgs.

Na edição americana: Random House, New York, 31 pgs.

Para quem assistiu ao filme de 2000 com Jim Carrey, Grinch já é uma figura conhecida. Mas o que poucos sabem é que a história é um clássico da literatura infantil chamado How the Grinch stole Christmas (Como o Grinch roubou o Natal). Uma criatura verde, com o coração dividido em 2 partes frias, pequenas e insensíveis à união e ao amor natalino. Grinch odeia o Natal. Ele observa ao longe, de sua caverna, os Whos se preparando para a grande comemoração: a mesa para a ceia feita com todos da vila, os presentes, as luzes que invadem as pequenas cabanas.  E o plano é impedir, o mais rápido possível, que o Natal aconteça dessa vez, após 53 anos aguentando os Whos cantando na ceia de Natal.

O Grinch tem, então,  uma grande ideia, uma terrível ideia: fantasiar-se de Papai Noel e fazer de seu cachorrinho Max uma rena, sair de sua caverna em um trenó e roubar o Natal dos Whos, sumir com cada presente, cada prato de comida que fosse para a ceia. Quando Grinch está prestes a colocar a árvore de Natal na chaminé, para roubá-la também, ele é surpreendido por Cindy-Lou, uma garotinha Who. Mas Grinch logo consegue enganá-la e sai da vila Who com todos os presentes dos moradores.

A questão é que, enquanto Grinch sobe a colina com seu trenó lotado de presentes, da vila Who vem um som. O monstrinho verde e maligno fica em choque: a cidade inteira estava reunida, cantando músicas natalinas, sem presentes, sem peru, sem pudim. E ele pensa, numa frase marcante para o pequeno livro: “Talvez o Natal não venha de uma loja. Talvez o Natal…talvez…signifique um pouco mais”.

“O que aconteceu, então? Bem…na vila Who eles disseram que o pequeno coração do Grinch aumentou três tamanhos naquele dia”. Com isso, Grinch finalmente viu o valor dos Whos, voltou à vila, devolveu os presentes e ele mesmo cortou o peru, na ceia, reunido aos moradores que tanto odiava.

Optei por fazer um resumo que revela o enredo da história, porque se trata de um livro infantil já com uma história conhecida, talvez devido ao filme. Encontrei em pdf a edição original em inglês, que conta com 31 páginas, aqui. É possível acompanhar a leitura simultaneamente ao audiobook do livro ou, se você preferir, apenas ouvi-lo enquanto vê as imagens no vídeo, aqui.

A edição de Grinch tem um trabalho de ilustração muito bem feito. Usa tons simbólicos, como o verde, o branco, o vermelho – as cores natalinas – enquanto preenche apenas alguns elementos do desenho feito em preto e branco. A narrativa é em forma de rima, o que é interessante notar acompanhando o audiobook, feita com uma delicadeza singular. Os sons emitidos pelo Grinch viram rima, há neologismo muito criativo utilizando o nome do personagem. Vale a experiência de acompanhar a leitura em inglês com o áudio. E o mais fascinante é que o Grinch é verde, uma cor que, no fim, percebemos que pertence à paleta de cores do Natal. Só foi preciso o coração do monstrinho verde multiplicar o seu tamanho, para ele perceber que fazia parte do Natal dos Whos.

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O suplício do Papai Noel, de Claude Lévi-Strauss

Resenha publicada no site Indique um livro

O suplício do papai noel, de Claude Lévi-Strauss

Editora Cosac Naify, 47 pgs.

O suplício do Papai Noel é uma leitura inusitada para a época natalina. Sabemos que o senso comum considera o Natal um momento de união com a família, com troca de presentes, até com um teor mágico – e pode ser assim, de fato. Mas não costumamos questionar o significado do Papai Noel, figura já tão presente no imaginário infantil, nas decorações natalinas, nos shoppings, nas piadas infames do tio inconveniente na ceia. O antropólogo Claude Lévi-Strauss, pretende, então, trazer uma reflexão sobre essa figura. Papai Noel seria um mito, uma divindade ou uma lenda?

Lévi-Strauss não opta por respostas simples. Numa análise rasa, poderíamos afirmar que ele é uma lenda para crianças, e acabou. Ou ainda, que o Papai Noel é uma forte influência americana na França. Mas a questão é mais profunda e delicada. O ponto inicial da leitura traz a curiosidade de um fato pitoresco: o jornal France-Soir, em 1951, noticia que na véspera de Natal o Papai Noel foi queimado no átrio da catedral de Dijon, em frente às crianças do orfanato.

O Natal seria uma manifestação moderna, mas com algumas referências bem antigas quanto ao pinheiro, às luzes, à ceia. Não é, de fato, uma novidade, mas uma reconfiguração. A influência seria, pelo que o autor chama, de difusão de estímulo; ninguém na França escolheu o modelo de comemoração do Natal porque era americana, mas porque parecia conveniente, como a troca por um produto que funciona mais às suas necessidades.

Papai Noel foi queimado como símbolo, aparentemente. O período histórico falava num início de equilíbrio entre a opinião pública e a religião. Os anticlericalistas teriam visto a chance de parecerem os defensores do Papai Noel. Nesse sentido, Lévi-Strauss aponta que há um paradoxo nas motivações da Igreja e dos anticlericalistas: enquanto a primeira seria racional por assumir que o Papai Noel era uma imagem pagã, a segunda defendia, pelos próprios interesses, uma superstição. Como resolver esse empasse?

Primeiramente, Papai Noel teria sido uma invenção dos adultos. E está mais para divindade do que lenda, pois em um período exato do ano prestamos uma espécie de culto à sua imagem. O autor faz uma ligação curiosa, para mostrar que o personagem tem um quê de divindade: as katchina, dos índios do sudoeste norte-americano, seriam a figura cultuada por eles todo ano para se evitar o rapto das crianças. O que são as katchina? Crianças indígenas que morreram afogadas num rio e voltariam para raptar as outras crianças. A troca da tribo foi cultuá-las. Por medo do quê? Das próprias crianças, Strauss afirma numa das passagens mais fascinantes do curto ensaio.

Papai Noel parece um acordo tácito entre gerações. Ele é uma figura benevolente, que exige o bom comportamento anual da criança para que ela tenha seu reconhecimento em dezembro. E mais do que isso: os adultos não acreditam nele, portanto, o Papai Noel traz à tona o rito de passagem às gerações, como se se desvincular dele fosse a inserção à sociedade. Acrescento que o Natal seria, então, um limbo para essa criança que ainda precisará avançar alguns passos para ser considerado parte da sociedade.

A leitura do ensaio de Lévi-Strauss pode ser feita com tranquilidade, a escrita do autor flui com sagacidade, deixando bem claro os pontos que nos guiam ao desfecho. É um estudo interessante que deixa no ar a vontade de ser mais extenso e detalhado. Mesmo assim, o que temos já é o suficiente para pensar com mais profundidade sobre o significado do Natal e do Papai Noel. Seja durante a leitura corriqueira ou naquelas horas de tédio durante a ceia natalina. É como se você pudesse rir secretamente sobre o segredo do Papai Noel e das mensagens escondidas no culto a essa figura, entre uma garfada e outra do peru de Natal.

Nota: a edição da Cosac Naify é uma gracinha, em capa dura branca, com todas as pontuações no interior do livro em vermelho, e ainda vem numa capa de plástico rígido vermelha, como se fosse um presente.