BBC radio 4: Neil Gaiman apresenta seus textos favoritos para especial natalino

BBC radio 4: Neil Gaiman apresenta seus textos favoritos para especial natalino

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Publicado no site NotaTerapia

A tradição da leitura de poemas e pequenas histórias no Reino Unido é fortalecida pelos inúmeros especiais da rádio BBC. Porém, na semana do Natal, essa tradição ganha um gostinho nostálgico de querer recontar histórias entre a família, a ceia e a sensação de que elas aquecem o coração contra o frio europeu. É com isso em mente que o especial With Great Pleasure at Christmas, com o autor Neil Gaiman, reaviva a magia por entre as folhas dos pinheiros de cada casa e as folhas do papel.

Autor de grandes obras icônicas como SandmanDeuses Americanos e Coraline, Gaiman já tem uma presença, em si, mágica. Para esse especial da rádio BBC, ele ainda conta com diversos convidados para ler os textos escolhidos pelo autor como seus favoritos. Para nós, brasileiros, é a chance de conhecer nomes que não são tão reconhecidos por aqui e ainda ter o prazer de ouvi-los na língua original.

Por entre os convidados, temos Peter Capaldi. Ator que interpretou o 12th Doctor, o personagem mais icônico da cultura britânica, da série histórica de 55 anos Doctor Who, ele é certamente o culpado por dar ao especial o tom de um mágico ou professor (ou no caso um alien, como o Doctor), revelando mistérios por entre as palavras. O especial ainda conta com a presença de Nina Sosanya (Good Omens, Killing Eve); John Finnemore (Cabin Pressure); Mitch Benn (The Now Show) e Ukulele Orchestra of Great Britain.

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O especial da rádio BBC fica disponível para todo o mundo ouvir até dia 24 de janeiro de 2019. Então corre para clicar no link aqui e acompanhar o especial com todos os textos abaixo, na íntegra. Alguns estão traduzidos para o português.

Trecho de Mary Poppins Comes Back (A Volta de Mary Poppins, editora Zahar), de P.L.Travers, lido por Nina Sosanya. A introdução de Neil Gaiman é em 04:20, a leitura ocorre entre 06:50 e 07:49. Neil comenta que o primeiro livro que comprou com o próprio dinheiro foi com 6 anos, o primeiro volume de Mary Poppins. Já esse trechinho do segundo volume virou uma tradição na família do autor, de lê-lo toda vez que um bebê nasce. Como Mary Poppins pode falar com bebês, esse momento da história é um capítulo sobre nascimento, quando finalmente ficamos sabendo que bebês são feitos da terra, do ar, do fogo e da água. Significam a origem do mundo.

“Annabel remexeu as mãos dentro do cobertor.

— Eu sou terra e ar e fogo e água – disse ela suavemente. – Eu venho da Escuridão onde todas as coisas começam.

— Ah, essa escuridão! – suspirou o Estorninho, recostando a cabeça no peito.

— Era escuro dentro do ovo, também! – piou o Filhote.

— Eu venho do mar e das marés – continuou Annabel. – Eu venho do céu e das estrelas, eu venho do sol e de seu brilho…

— Ah, tão brilhante! – o Estorninho falou, concordando com a cabeça.

— E eu venho das florestas da terra.

Como num sonho, Mary Poppins balançou o berço – para a frente e para trás, para a frente e para trás, num embalo firme e constante.

— Sim? sussurrou o Filhote.

— Eu me movia muito devagar no começo – disse Annabel -, sempre dormindo e sonhando. Eu me lembrava de tudo o que fui e pensava em tudo o que vou ser. E quando terminei de sonhar meu sonho, despertei e vim ligeira”.

TRAVERS, P.L. A volta de Mary Poppins, São Paulo: Zahar, 2018, pp 156-157

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Fair Mistress Dorothy, de A.A.Milne, lido pelo elenco. Em 08:05 Neil Gaiman faz uma introdução, e o elenco começa a leitura em 09:47 e termina em 16:17. A página 1 pode ser lida aqui e a página 2 aqui. O humor do texto reside principalmente na leitura que os atores fazem, de forma caricata. Ele ganha vida com a leitura feita para o especial. E o texto é uma grande sátira da própria estrutura teatral, com piadas inseridas nas rubricas, tornando o texto, que seria informativo apenas para o ator que vai encená-lo, um personagem com tom próprio.  E muito confuso sobre o que está acontecendo na própria peça.

Captain Murderer, de Charles Dickens, lido pelo ator Peter Capaldi. A introdução de Neil Gaiman ocorre em 16:32, Capaldi lê entre 18:30 e 26:39. Logo abaixo o texto na íntegra, em inglês, e a tradução para o português pode ser lida em seguida. A leitura de Capaldi, em inglês, é poderosa e dá a vida necessária ao texto de Dickens, a ponto de chegar ao clímax e a gente querer ler junto de coração acelerado.

“The first diabolical character who intruded himself on my peaceful youth (as I called to mind that day at Dullborough), was a certain Captain Murderer. This wretch must have been an off-shoot of the Blue Beard family, but I had no suspicion of the consanguinity in those times. His warning name would seem to have awakened no general prejudice against him, for he was admitted into the best society and possessed immense wealth. Captain Murderer’s mission was matrimony, and the gratification of a cannibal appetite with tender brides. On his marriage morning, he always caused both sides of the way to church to be planted with curious flowers; and when his bride said, ‘Dear Captain Murderer, I ever saw flowers like these before: what are they called?’ he answered, ‘They are called Garnish for house-lamb,’ and laughed at his ferocious practical joke in a horrid manner, disquieting the minds of the noble bridal company, with a very sharp show of teeth, then displayed for the first time. He made love in a coach and six, and married in a coach and twelve, and all his horses were milk-white horses with one red spot on the back which he caused to be hidden by the harness. For, the spot WOULD come there, though every horse was milk-white when Captain Murderer bought him. And the spot was young bride’s blood. (To this terrific point I am indebted for my first personal experience of a shudder and cold beads on the forehead.) When Captain Murderer had made an end of feasting and revelry, and had dismissed the noble guests, and was alone with his wife on the day month after their marriage, it was his whimsical custom to produce a golden rolling-pin and a silver pie-board. Now, there was this special feature in the Captain’s courtships, that he always asked if the young lady could make pie-crust; and if she couldn’t by nature or education, she was taught. Well. When the bride saw Captain Murderer produce the golden rolling-pin and silver pie-board, she remembered this, and turned up her laced-silk sleeves to make a pie. The Captain brought out a silver pie-dish of immense capacity, and the Captain brought out flour and butter and eggs and all things needful, except the inside of the pie; of materials for the staple of the pie itself, the Captain brought out none. Then said the lovely bride, ‘Dear Captain Murderer, what pie is this to be?’ He replied, ‘A meat pie.’ Then said the lovely bride, ‘Dear Captain Murderer, I see no meat.’ The Captain humorously retorted, ‘Look in the glass.’ She looked in the glass, but still she saw no meat, and then the Captain roared with laughter, and suddenly frowning and drawing his sword, bade her roll out the crust. So she rolled out the crust, dropping large tears upon it all the time because he was so cross, and when she had lined the dish with crust and had cut the crust all ready to fit the top, the Captain called out, ‘I see the meat in the glass!’ And the bride looked up at the glass, just in time to see the Captain cutting her head off; and he chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

Captain Murderer went on in this way, prospering exceedingly, until he came to choose a bride from two twin sisters, and at first didn’t know which to choose. For, though one was fair and the other dark, they were both equally beautiful. But the fair twin loved him, and the dark twin hated him, so he chose the fair one. The dark twin would have prevented the marriage if she could, but she couldn’t; however, on the night before it, much suspecting Captain Murderer, she stole out and climbed his garden wall, and looked in at his window through a chink in the shutter, and saw him having his teeth filed sharp. Next day she listened all day, and heard him make his joke about the house-lamb. And that day month, he had the paste rolled out, and cut the fair twin’s head off, and chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

Now, the dark twin had had her suspicions much increased by the filing of the Captain’s teeth, and again by the house-lamb joke. Putting all things together when he gave out that her sister was dead, she divined the truth, and determined to be revenged. So, she went up to Captain Murderer’s house, and knocked at the knocker and pulled at the bell, and when the Captain came to the door, said: ‘Dear Captain Murderer, marry me next, for I always loved you and was jealous of my sister.’ The Captain took it as a compliment, and made a polite answer, and the marriage was quickly arranged. On the night before it, the bride again climbed to his window, and again saw him having his teeth filed sharp. At this sight she laughed such a terrible laugh at the chink in the shutter, that the Captain’s blood curdled, and he said: ‘I hope nothing has disagreed with me!’ At that, she laughed again, a still more terrible laugh, and the shutter was opened and search made, but she was nimbly gone, and there was no one. Next day they went to church in a coach and twelve, and were married. And that day month, she rolled the pie-crust out, and Captain Murderer cut her head off, and chopped her in pieces, and peppered her, and salted her, and put her in the pie, and sent it to the baker’s, and ate it all, and picked the bones.

But before she began to roll out the paste she had taken a deadly poison of a most awful character, distilled from toads’ eyes and spiders’ knees; and Captain Murderer had hardly picked her last bone, when he began to swell, and to turn blue, and to be all over spots, and to scream. And he went on swelling and turning bluer, and being more all over spots and screaming, until he reached from floor to ceiling and from wall to wall; and then, at one o’clock in the morning, he blew up with a loud explosion. At the sound of it, all the milk-white horses in the stables broke their halters and went mad, and then they galloped over everybody in Captain Murderer’s house (beginning with the family blacksmith who had filed his teeth) until the whole were dead, and then they galloped away”.

O texto em inglês foi retirado do site The Charles Dickens Page.

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“Se conhecêssemos bem nossas próprias mentes, num sentido mais amplo, desconfio de que iríamos concluir que nossas babás foram responsáveis pelos cantos mais sombrios do nosso espírito, a que somos sempre forçados a retornar, ainda que contra nossa vontade.

O primeiro personagem diabólico a invadir a tranquilidade de minha infância (como lembrei, buscando na memória, naquele dia em Dullborough) foi um certo capitão assassino. Esta criatura do mal deve ter sido descendente da família Barba Azul; embora, naquela época, a suspeita de consanguinidade não me ocorresse. A advertência no nome aparentemente não criara preconceitos contra ele que, dono de imensa fortuna, era muito bem recebido pela melhor sociedade. O objetivo de vida do Capitão Assassino era matrimônio, e a satisfação de um apetite canibal por ternas e tenras noivas.

Na manhã de cada casamento, ele sempre cuidava que o caminho até a igreja tivesse as laterais plantadas de flores exóticas. E quando a noiva dizia:

— Querido Capitão Assassino, jamais vi flores assim. Como se chamam?

Ele respondia:

— Guarnição para cordeiro à moda da casa — e ria de seu gracejo cruel, numa gargalhada horrível, provocando certo mal estar no cortejo nupcial com a inquietante mostra de dentes afiados e, até então, escondidos.

Costumava namorar numa carruagem de três parelhas, e se casava numa carruagem de 12 cavalos, todos brancos; um branco de leite quebrado apenas por uma mancha no dorso, que ele tinha o cuidado de esconder sob os arreios. Pois as manchas só apareceriam ali mais tarde, e os cavalos —quando comprados pelo Capitão Assassino —eram absolutamente brancos como o leite. As manchas vermelhas eram do sangue das noivas.(A esse ponto assustador da história devo minha primeira experiência pessoal de um calafrio e gotas frias na testa).

Quando o Capitão Assassino anunciava o final dos banquetes e festejos, dispensando a nobre companhia de seus convidados, e ficava a sós com a noiva, um mês depois do casamento, era seu estranho costume aparecer com um rolo dourado e um tabuleiro de prata. Ora, havia essa característica especial nos namoros do Capitão, que era a de sempre perguntar se a moça sabia fazer massa de torta; se não soubesse, por talento ou educação, era ensinada. Muito bem. Quando a noiva viu o Capitão Assassino aparecer com o rolo dourado e o tabuleiro de prata, lembrou-se disso e começou a enrolar suas mangas de seda rendada para fazer uma torta. O Capitão trouxe uma imensa fôrma de prata, e trouxe também farinha, ovos, manteiga e tudo o que era necessário para a massa, mas nada para pôr dentro dela. Ingredientes para o recheio, ele não trouxe nenhum.

Então a bela noiva perguntou:

— Querido Capitão Assassino, vai ser uma torta de quê?

— De carne — Respondeu o Capitão.

— Querido Capitão Assassino, não estou vendo a carne — disse a bela noiva.

O Capitão retrucou brincalhão:

— Olhe no espelho.

Ela olhou para o espelho, mas ainda não via a carne, e então o Capitão riu às gargalhadas e, de repente, fechando a cara e sacando a espada, ordenou que abrisse a massa. Então ela abriu a massa, sem parar de derramar copiosas lágrimas sobre ela porque ele estava tão zangado, e quando havia terminado de forrar o interior da fôrma e cortado um pedaço da massa para a tampa, o Capitão exclamou:

— Estou vendo a carne no espelho!

E a noiva olhou para o espelho, ainda a tempo de ver o Capitão lhe cortar a cabeça; e ele a cortou em pedacinhos, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

O Capitão Assassino seguiu seu caminho, prosperando às maravilhas, até que precisou escolher uma noiva entre duas irmãs gêmeas e, a princípio, não soube qual escolher. Pois, embora uma fosse loura e a outra morena, eram ambas belíssimas. Mas a irmã loura o amava, e a morena o odiava, então ele escolheu a loura. A gêmea morena teria impedido o casamento se pudesse, mas não podia. Entretanto, na noite anterior, cheia de suspeitas a respeito do Capitão Assassino, ela escapuliu, escalou o muro do jardim, espiou pela janela por uma fresta da persiana e o viu afiando os dentes .No dia seguinte, passou todo o tempo atenta e ouviu-o fazer seu gracejo sobre o cordeiro á moda da casa. E, um mês depois, ele mandou a gêmea loura abrir a massa, cortou-lhe a cabeça, picou-a em pedaços, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

Ora, a gêmea morena tivera suas suspeitas muitíssimo aumentadas pelo afiar dos dentes do Capitão, e depois pelo gracejo sobre o cordeiro à moda da casa. Juntando tudo, quando ele anunciou a morte de sua irmã, ela adivinhou a verdade e decidiu se vingar. Foi então até a casa do Capitão Assassino, bateu a aldrava, tocou a sineta e, quando a Capitão atendeu à porta, disse:

— Querido Capitão Assassino, case-se comigo agora, porque sempre o amei e tinha ciúmes de minha irmã.

O Capitão ficou lisonjeado, respondeu com um galanteio e logo o casamento foi marcado. Na noite de véspera, a noiva subiu outra vez à janela e novamente o viu afiando os dentes. Diante da cena, deu uma gargalhada tão terrível através da fenda da persiana que o sangue do Capitão gelou, e ele disse:

— Espero não ter comido nada que me tenha feito mal!

E ela, ouvindo isso, riu de novo, uma gargalhada ainda mais terrível. As persianas foram abertas e uma busca foi dada, mas ela saiu bem depressa e nada foi encontrado. No outro dia foram à igreja, numa carruagem de 12 cavalos, e se casaram. E, um mês depois, ela abriu a massa e o Capitão Assassino cortou-lhe a cabeça, picou-a em pedaços, temperou-a com pimenta, salgou-a, colocou-a dentro da torta, mandou-a para o padeiro, comeu tudo e chupou os ossos.

Mas, antes de começar a abrir a massa, ela havia tomado um veneno mortal do pior tipo, destilado de olhos de sapo e joelhos de aranha. E o Capitão Assassino mal acabava de chupar o último osso quando começou a inchar, a ficar azul, cheio de manchas e a gritar. E continuou a inchar e a ficar cada vez mais azul e mais coberto de manchas e a gritar, até ir do chão ao teto e de uma parede à outra. E então, à uma da manhã, ele rebentou numa enorme explosão. Com o barulho, todos os cavalos brancos como leite dos estábulos romperam os cabrestos e enlouqueceram, galoparam sobre todos na casa do Capitão Assassino (começando pelo ferreiro que lhe tinha afiado os dentes), até que todos estivessem mortos, e de lá saíram a galope”.

Fonte: Nefasto 

Differences of Opinion, de Wendy Cope, lido por Nina Sosanya. Introdução de Gaiman em 28:40, e a leitura entre 29:27 e 29:55.

HE TELLS HER

He tells her that the earth is flat —
He knows the facts, and that is that.
In altercations fierce and long
She tries her best to prove him wrong.
But he has learned to argue well.
He calls her arguments unsound
And often asks her not to yell.
She cannot win. He stands his ground.

The planet goes on being round.

ELE DIZ A ELA

Ele diz a ela que a terra é plana –
Ele conhece os fatos e é isso.
Em altercações ferozes e longas
Ela tenta o seu melhor para provar que ele está errado.
Mas ele aprendeu a argumentar bem.
Ele chama seus argumentos sem fundamento
E muitas vezes pede para ela não gritar.
Ela não pode vencer. Ele se mantém firme.

O planeta continua sendo redondo.

Retirado do Poetry Foundation. Tradução livre para o português.

Em 30:53 começa a tocar uma música com referência ao livro O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. A performance é da banda  the Ukulele Orchestra of Britain.

The Open Window, de Saki, lido por John Finnemore e elenco. A introdução de Neil Gaiman é em 34:22 e a leitura entre 35:41 e 40:48. O texto pode ser lido em inglês aqui aqui.

Trecho de No Bed For Bacon, de Carl Brahms e S.J.Simon. Lido por Peter Capaldi entre 42:57 e 44:55, a introdução de Gaiman começa em 41:00.

Fonte: Amazon (look inside)

Me & Dorothy Parker, canção de Alan Moore, lido por Mitch Benn. Introdução de Neil Gaiman em 48:58. O quadrinho é de Michael Gaydos (ilustrador) e Roxanne Starr (texto).

As quatro páginas de quadrinhos podem ser lidas aqui.

No Caption Provided

The Wind In the Willows, de Kenneth Grahame. Lido por John Finnemore. A introdução é em 54:59 e a leitura entre 55:37 e 56:33.

“It was a pretty sight, and a seasonable one, that met their eyes when they flung the door open. In the fore-court, lit by the dim rays of a horn lantern, some eight or ten little field-mice stood in a semicircle, red worsted comforters round their throats, their fore-paws thrust deep into their pockets, their feet jigging for warmth. With bright beady eyes they glanced shyly at each other, sniggering a little, sniffing and applying coat-sleeves a good deal. As the door opened, one of the elder ones that carried the lantern was just saying, “Now then, one, two, three!” and forthwith their shrill little voices uprose on the air, singing one of the old-time carols that their forefathers composed in fields that were fallow and held by frost, or when snow-bound in chimney corners, and handed down to be sung in the miry street to lamp-lit windows at Yule-time”.

Fonte: TQE Magazine 

Era uma bela visão, e uma sazonal, que encontrou seus olhos quando eles abriram a porta. No pátio, iluminado pelos raios escuros de uma lanterna de latão, uns oito ou dez pequenos camundongos de campo estavam em um semicírculo, cobertores de lã vermelha em volta de suas gargantas, as patas dianteiras enfiadas nos bolsos, os pés balançando para se aquecer. Com olhos brilhantes, eles olharam timidamente um para o outro, com algumas risadinhas, fungando e se enfiando em seus sobretudos.  Ao abrir a porta, um dos mais velhos que levava a lanterna dizia: “Agora, um, dois, três!” E, imediatamente, suas pequenas vozes agudas se erguem no ar, cantando um dos velhos cânticos que seus antepassados compuseram em campos incultos e congelados pela geada, ou quando cobertos de neve nos cantos das chaminés, e transmitidos para serem cantados na rua árida até as janelas iluminadas por lamparinas no tempo de Yule.

A tradução é livre.

The Magic Wood, de Henry Treece. Lido ao final por Peter Capaldi. É preciso deixar o player terminar a transmissão, para aparecer automaticamente o player dessa última leitura. Capaldi torna cada verso um doloroso relato, como se tivesse visto o mundo inteiro nessa floresta à noite. É uma belíssima leitura do poema.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

I met a man with eyes of glass
And a finger as curled as the wrigglin worm
And hair as red as rotting leaves
And a stick that hissed like a summer snake

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He sang me a song in backwards words
And drew me a dragon in the air
I saw his teeth through the back of his head
And a rat’s eyes winking from his hair.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He made me a penny out of a stone
And showed me the way to catch a lark
With a straw and a nut and a whispered word
And a penn’orth of ginger wrapped up in a leaf

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

He asked me my name and where I lived
I told him a name from my Book of Tales
He asked me to come with him into the wood
And dance with the kings from under the hills

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

But I saw that his eyes were turning to fire
I watched the nails grow on his wriggling hand
And I said my prayers all in a rush
And found myself safe on my father’s land.

The wood is full of shining eyes,
The wood is full of creeping feet,
The wood is full of tiny cries;
You must not go to the wood at night!

Fonte: Live Journal

“A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Eu conheci um homem com olhos de vidro

E um dedo tão enrolado quanto o verme contorcido

E cabelos tão vermelhos quanto folhas apodrecidas

E um graveto que assobiava como uma cobra de verão

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me cantou uma canção em palavras invertidas

E me desenhou um dragão no ar

Eu vi os dentes dele na parte de trás da cabeça dele

E os olhos de um rato piscando de seu cabelo.

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me fez um centavo de uma pedra

E me mostrou o caminho para pegar uma cotovia

Com um canudo e uma noz e uma palavra sussurrada

E migalhas de gengibre embrulhadas em uma folha

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Ele me perguntou meu nome e onde eu morava

Eu disse a ele um nome do meu Livro de Contos

Ele me pediu para ir com ele na floresta

E dançar com os reis sob as colinas

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!

 

Mas eu vi que seus olhos estavam se voltando para o fogo

Eu assisti as unhas crescerem em sua mão contorcida

E eu disse minhas orações todas com pressa

E me encontrei seguro na terra do meu pai.

 

A floresta está cheia de olhos brilhantes

A floresta está cheia de pés rastejantes

A floresta está cheia de pequenos gritos;

Você não deve ir para a floresta à noite!”

*Esta matéria foi produzida a partir da disponibilização dos links que o perfil @brinatello cedeu numa thread do twitter, e eu incluí minhas traduções e de outros sites para alguns dos textos citados.

Uma carta para os artistas e a síndrome do impostor

Uma carta para os artistas e a síndrome do impostor

just do sol lewitt

Publicado no site Notaterapia

Na era conturbada da pós-modernidade e da alta produção exigida nas profissões, o fenômeno da síndrome do impostor já tem sido nomeado por muitas pesquisas científicas. A sensação de que somos uma fraude e que nossa incapacidade será descoberta é a marca dessa síndrome. E ela pode prejudicar muito quem trabalha no campo das artes.

A urgência em registrar o resultado de um trabalho e divulgar nas redes sociais é, como sabemos, uma pequena parte de um processo criativo doloroso não visto pela instantaneidade das câmeras de celular e aprovação de um público virtual. Ninguém presencia a instabilidade da criação: as primeiras ideias, a insegurança, o rascunho, a solidão entre a obra e o artista. É nesse processo que a síndrome do impostor pode interferir e ser autodestrutiva.

No discurso para a University of the Arts (aqui), o escritor Neil Gaiman menciona que a sua esposa, Amanda Palmer, autora de A arte de pedir (aqui), define essa síndrome como uma espécie de patrulha da fraude, como se um policial viesse bater na nossa porta, com uma prancheta, e revelasse ao mundo que não somos bons de verdade. Que nossos trabalhos foram só resultado de sorte, acaso ou algo que qualquer um faria. O que Gaiman enfatiza é que aquele trabalho só pode ser único porque é seu, isto é, só existe você para tê-lo feito.

O ponto é que a síndrome do impostor não atinge apenas o artista. A sensação de ser uma fraude é geral, e poucos falam sobre isso. E aliada à ansiedade e à depressão, ela pode se tornar explosiva. As exigências de possuir as ditas “aptidões e competências” no trabalho, mais e mais cursos e formação, experiência, a alta produção na vida acadêmica, ou ter mais e mais horas de trabalho para conseguir o dinheiro necessário, tudo se forma como uma grande bola de neve que passa por cima do ato do trabalho como uma atividade desinteressada, do processo que não requer um ritmo constante, mas que abarca as inconstâncias naturais da vida, justamente por ser o processo conduzido por uma pessoa, que tem seu tempo e suas vivências.

Por outro lado, enquanto buscamos fazer mais e mais no trabalho, vem a autossabotagem junto a esse fenômeno de se sentir uma fraude, pois achamos que todo esforço é nulo, inútil, insuficiente para alcançar o nível máximo sonhado de profissional qualificado, e acabamos por sucumbir na procrastinação ou na desistência.

Em geral, sofremos com expectativas que ainda não se resumem apenas ao trabalho. Precisamos ser produtivos nele, mas ainda ter o que se considera uma vida saudável, sair com os amigos, se atualizar nessa massa de produtos que surgem a cada segundo no meio do entretenimento, acompanhar os acontecimentos mundiais, estudar conteúdos extras, cuidar da saúde, ter relacionamentos amorosos estáveis. Ou seja, somadas, são expectativas que exigem o equilíbrio impossível de consegui-las. Expectativas que gera contradições que se devoram umas às outras.

Diante disso, desse frenético mundo em que surge uma camada com a qual precisamos nos atualizar e rápido a cada dia, a carta abaixo escrita por Sol LeWitt é um soco bem-vindo para nos lembrarmos que criar uma obra artística precisa estar desvinculado das idealizações e ser um processo em que nos engajamos totalmente, respeitando o tempo que ela exige. Não se trata de vir com o novo, sempre. É um cultivar. E não adianta, no trabalho, adiar com procrastinações e decepções, quando muitas vezes é preciso sentar e criar. Rascunhos são para ser ruins. Fazer trabalhos ruins é necessário para que as ideias se movimentem. E elas não virão na calada da noite como um sonho aperfeiçoado em si mesmo e já perfeito. É preciso trabalhar na sua obra desde a primeira pincelada, a primeira frase. E se contentar com a totalidade que existe em cada pequenino ato desse processo, alimentando-o para vir mais.

Sobre a carta, LeWitt, o qual foi um dos artistas mais relevantes na arte minimalista dos anos 60, dá conselhos para a também escultora Eva Hesse. Ambos tiveram uma amizade com intensas trocas de ideias por dez anos, desde 1960, até que LeWitt sucumbiu a um tumor no cérebro em 1970, aos 34 anos. A carta de LeWitt continua a falar por todos os artistas que precisam se colocar de volta na estrada. A tradução abaixo é livre, feita especialmente para esta matéria, e também foi lida pelo ator Andrew Scott no evento Letters live, leitura que concede toda a força do texto de LeWitt.

Querida Eva,
Vai fazer quase um mês desde que você escreveu para mim e você terá possivelmente esquecido o estado de sua mente (mas eu duvido disso). Você parece a mesma de sempre, e sendo você, odeia cada minuto disso. Pare! Aprenda a dizer “foda-se” ao mundo de vez em quando. Você tem esse direito. Apenas pare de pensar, se preocupar, olhar para trás, se questionar, duvidar, ter medo, se machucar, esperar por uma saída fácil, lutar, tentar entender, ficar confusa, se coçar, se arranhar, murmurar, reclamar, resmungar, se humilhar, hesitar, balbuciar, andar sem rumo, apostar, desabar, se rebaixar, se embaralhar, empacar, remoer, lamentar, gemer, grunhir, choramingar, queimar os miolos, fazer besteira, procurar pelo em ovo, se apegar a mesquinharias, encher a cara, empinar o nariz, roer os cotovelos, furar os olhos, por a culpa nos outros, sair de fininho, esperar muito, andar pé ante pé, botar olho gordo, trocar favores, observar, espreitar, falar mal dos outros, ranger os dentes, ranger os dentes, ranger os dentes para si mesma. Pare com isso e simplesmente

FAÇA

Pelo o que você diz, e a partir do que eu sei sobre o seu trabalho anterior e sua habilidade; o trabalho que você está fazendo parece muito bom “desenho todo despojado e estiloso, mas louco como máquinas, maiores e mais ousadas…puro nonsense”. Parece ótimo, maravilhoso – realmente nonsense. Faça mais. Mais nonsense, mais insano, mais máquinas, mais peitos, pênis, vaginas, o que seja – faça tudo isso repleto de nonsense. Tente e provoque alguma coisa em si mesma, este seu “humor esquisito”. Busque a parte mais secreta de sua personalidade. Não se preocupe em soar aceitável, crie o seu próprio inaceitável. Faça seu próprio mundo. Se você tiver medo, faça isso funcionar para você – desenhe e pinte seu medo e ansiedade. E pare de se preocupar com coisas grandes, profundas como “definir um propósito e estilo de vida, uma consistente abordagem de alguma finalidade impossível ou até imaginária”. Você precisa praticar ser estúpida, boba, irracional, oca. E então você será capaz de FAZER!
Eu confio muito em você e apesar de estar se atormentando, o trabalho que você faz é muito bom. Tente fazer algum trabalho RUIM – o pior que você pode imaginar e ver o que acontece, mas principalmente relaxe e deixe tudo ir para o inferno – você não é responsável pelo mundo – você só é responsável pelo seu trabalho – então FAÇA. E não pense que seu trabalho precisa seguir uma forma pré-concebida, ideia ou regra. Ele pode ser qualquer coisa que você quiser que seja. Mas se sua vida for mais fácil para você se parar de trabalhar – então pare. Não puna a si mesma. Contudo, eu penso que isso está tão entranhado em você que seria mais fácil você FAZER.

Parece que eu entendo a sua atitude, porque às vezes eu passo por um processo semelhante. Eu faço uma “Reavaliação Agonizante” do meu trabalho e mudo tudo o que for possível = e odeio tudo o que fiz, e tento fazer algo totalmente diferente e melhor. Talvez esse tipo de processo seja necessário para mim, me levando mais e mais além. O sentimento de que eu posso fazer melhor do que aquela merda que acabei de fazer. Talvez você precise de sua agonia para atingir o que você faz. E talvez isso a leve a melhorar sempre. Mas é muito doloroso, eu sei. Seria melhor se você tivesse confiança apenas para fazer suas coisas e nem pensar a respeito disso. Você não pode deixar o “mundo” e a “arte” sozinhos e também afagar seu ego. Eu sei que você (como qualquer um) trabalha muito e no resto do tempo fica sozinha com suas ideias. Mas quando você trabalha ou está começando a trabalhar, você precisa esvaziar a sua mente e se concentrar no que está fazendo. Depois que você faz, está feito e pronto. Com o tempo você pode ver que alguns são melhores que os outros, mas também poderá ver a direção que está tomando. Eu tenho certeza que você sabe de tudo isso. Você provavelmente deve saber também que você não precisa justificar o seu trabalho – nem para você mesma. Bem, você sabe que eu admiro muito o seu trabalho e não consigo entender por que você está tão incomodada com isso. Mas você pode ver os próximos e eu não. Você também precisa acreditar na sua habilidade. Eu penso que você acredita. Então tente fazer as coisas mais escandalosas que você puder – choque a si mesma. Você tem em seu poder a habilidade de fazer qualquer coisa.

Eu gostaria de ver o seu trabalho e eu terei que me contentar em esperar até agosto ou setembro. Já vi fotos de algumas das novidades de Tom na Lucy’s. Eles são impressionantes – especialmente aqueles com a forma mais rigorosa: os mais simples. Acho que ele enviará mais um pouco mais tarde. Avise-me como as exposições estão indo e esse tipo de coisa.

Meu trabalho mudou desde que você saiu e está muito melhor. Eu vou ter uma exposição de 4 a 9 de maio na Daniels Gallery 17 E 64yh St (onde Emmerich estava), gostaria que você pudesse estar lá. Muito amor para vocês dois.

Sol

Carta em inglês aqui. Esta carta consta no livro Cartas extraordinárias, da Cia das Letras, com outra tradução. Este livro possui as demais cartas do grande acervo do Letters Live.

Mais sobre a síndrome do impostor

Vídeo da Jout Jout, ‘para você que é uma fraude’: aqui 

7 sinais de que você é uma das vítimas da síndrome de impostor: Huffpost Brasil 

Por que sentir-se uma ‘fraude’ pode não ser tão ruim assim: BBC Brasil 

A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras, de Neil Gaiman

A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras, de Neil Gaiman

Publicado no site Indique um livro

Editora Intrínseca, 80 páginas

a verdade cavernaComo um misto de graphic novel e prosa, Neil Gaiman cria uma narrativa que logo traga o leitor a uma realidade que poderia muito bem ser um spin off de As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R.Martin. É uma primeira impressão que revela algo muito mais profundo: a influência para os dois autores da literatura fantástica de Tolkien ou mesmo de contos nórdicos. É na atmosfera daqueles enredos que são sussurrados entre noites de fogueiras que esse belo conto se forma.

A verdade é uma caverna nas Montanhas Negras retrata a busca de um anão por um tesouro que reside nas Montanhas Negras, só acessadas por um guia a quem ele recorre para essa jornada. Ambientada na Escócia, o enredo ganha formas de um caminhar por um tesouro que põe à prova o caráter do anão e exige dele algumas escolhas importantes. É um enredo simples e, de início, parece não revelar uma narrativa peculiar. Contudo, alguns fatos vão se delineando que encaminham para um bom final. É um conto delicado e logo se constitui como uma narrativa a ser lembrada após a leitura como mais uma jornada por provações. A fogueira, o clima gelado, o caminhar pelas montanhas acabam por povoar a imaginação do leitor com grande espontaneidade.

É interessante saber também como esta graphic novel se formou. Convidado pela Sydney Opera House para ler seu conto em uma apresentação, ao lado do quarteto de cordas ForuPlay, Gaiman indicou Eddie Campbell, consagrado por suas ilustrações nos quadrinhos de Alan Moore, para ser o desenhista das imagens que iriam ser projetadas durante a leitura. O resultado foi tão positivo que virou essa edição. Com um traço que se mistura à aquarela e a aparência de recortes de velhos livros, o desenho acompanha o texto com equilíbrio e amarra o universo constituído por Gaiman. Acaba que palavra e desenho unidos funcionam muito bem neste conto com ares nórdicos e um tesouro a ser descoberto.

As influências literárias em O Rei de Amarelo e o seu legado

As influências literárias em O Rei de Amarelo e o seu legado

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Matéria publicada no site Literatortura

O Rei de Amarelo, de Robert W. Chambers, teve sua primeira tradução para o português publicada este ano pela editora Intrínseca. Ela surge como uma “nova-velha” obra: foi publicada em 1895, influenciou diversos autores posteriores, como nós veremos a seguir, mas recebeu influência de outras obras e correntes literárias no próprio século XIX em que foi escrito. E está sendo redescoberta agora.

Chambers trouxe à tona nesta coletânea de contos um gênero literário que, posteriormente, passou-se a nomear weird fiction, um terror cósmico. Nos contos interligados do autor encontramos uma mistura de enredo futurista com a atmosfera decadentista do final do século XIX. Os quatro primeiros contos têm em comum, no enredo, uma peça de teatro que enlouquece aqueles que a lêem, e ela se chama também O rei de amarelo.

Ler a obra de Chambers é quase o mesmo trabalho que o de um detetive, mas decifrar o discurso presente no livro dentro da chamada Mitologia amarela é um desafio distante de ser concluído. Por isso, a ideia desta lista ainda não é identificar somente o que seria essa Mitologia Amarela – que, mais tarde, surgiu como o chamado Mito de Hastur, Carcosa ou de Cthulhu, o conjunto de deuses “antigos” e lendas criadas por Lovecraft – mas mostrar quais foram as influências que Chambers pode ter recebido e quais ele originou. Além disso, a ideia é trazer obras que não são muito populares e ir recriando o cenário amarelo.

Durante a leitura da obra, o que ocorre é que podemos entender o conteúdo da peça O Rei de amarelo como transgressora: ela inaugura uma nova realidade na vida do personagem, na qual vemos que a existência humana é mais complexa e frágil do que o cenário social poderia indicar. Nem por isso a peça será uma benfeitora na vida do personagem. Ela transgride suas certezas e noções da vida mundana para mostrar a ele que a vida não é constituída por fases a ser superadas ou meras reputações. Ela pode ser mais turbulenta porque se mistura a inúmeras vidas e passados, são realidades paralelas. Assim, é quase um sonho ininterrupto, com humanos passando por desesperos que são uma constante. Por isso, creio que a própria mente humana pode ser a Carcosa do Rei, constituída por fatos e sonhos. E o terror existe ao se constatar que estariam encarcerados numa vida que já carrega o sonho e a realidade sem divisões.

Assim, foi por meio das indicações das notas de rodapé feitas por Carlos Orsi na tradução para o português que passei a procurar as obras citadas por ele para entender o que seria Carcosa, Hastur, o rei, o verdadeiro terror que encontramos na narrativa. E acabei encontrando contos e livros que revelam quase uma tradição ao mencionar esses nomes. É o que você verá a seguir,  com os comentários da minha leitura das obras.

O conto A Máscara da Morte Vermelha, de Edgar Allan Poe (1842)

Este conto foi publicado em 1842 e, definitivamente, influenciou Chambers na composição da figura do Rei quando ele surge no poema que inaugura a edição, pois no poema o Rei possui um manto em retalhos. Além disso, Chambers usa no primeiro conto o termo “Máscara Pálida” que foi incorporado na Mitologia Amarela, pelos autores que vieram depois, como uma máscara que o rei ou um emissário dele usava. E esta máscara teria semelhanças com o enredo do conto de Poe. Neste, o Príncipe Prospero resolve se fechar em um castelo com alguns dos nobres da corte para evitar ser contaminado por uma espécie de peste que vinha se alastrando, a Morte Vermelha (ou Rúbra). Mas, quando Prospero concede uma festa em que todos devem usar uma máscara, há um ser desconhecido que surge entre os convidados, portando uma máscara da qual escorre sangue e mancha as vestes em retalho. A criatura parece ser o terror e a Morte Rúbra personificados, por isso se parece com a ideia do Rei que espalha a loucura como uma peste.

Para ler o conto clique aqui  

O conto Le Roi au Masque d’Or (The King in the Golden Mask), de Marcel Schwob (1892)

O Rei na Máscara de Ouro é o primeiro conto que dá nome à coletânea de Marcel Schwob e foi publicado em 1892. Ele tem grande semelhança com o conto de Poe e, novamente, a atmosfera sombria da figura que desconhecemos do Rei, na peça que os personagens leem no enredo de Chambers. A história é bem curiosa e mostra um rei que segue uma regra de seus antepassados: ele deve usar sempre uma máscara de ouro e os seus súditos as máscaras com as expressões que lhes convêm. O rei entra em crise, porém, quando um mendigo passa pelo castelo e insinua que o rei era enganado pelo mundo por nunca ter visto o rosto dos outros, e nem conhecer a própria face.

Para ler o conto em francês clique aqui 

O conto The Yellow Wallpaper (O Papel de parede amarelo), de Charlotte Perkins Gilman (1892)

Este conto é um marco na literatura feminista americana e está na lista porque foi publicado três anos antes de O Rei de Amarelo. Nele, a temática se assemelha ao enredo de Chambers e é possível que ele tenha lido ou conhecido a sua polêmica. A cor amarela é predominante pela forma de um papel de parede que Jane, a protagonista que narra a história, passa a notar que muda de aparência. Ela vê sombras, novos rostos e formas ganhando vida. O conto foi criticado na época por um médico dizendo que a sua leitura era perigosa para pessoas com “distúrbios mentais”. A questão é que a autora fez o conto justamente para retratar o terror pelo qual ela passou, como é ser reprimida pelo marido ao apresentar sintomas de depressão após começar a vida de casada e ter um filho.

Para ler o conto em inglês, clique aqui 

O conto Haïta The Shepherd (Haïta O pastor), de Ambrose Bierce (1891)

Neste conto publicado por Bierce em 1891, é inserido pela primeira vez o nome Hastur, que terá inspirado Chambers a usá-lo em sua obra. Em Bierce, Hastur teria sido derivado da província espanhola Asturias e lembra a sonoridade de “pasture”, e justamente o personagem deste conto é um pastor. Chambers usa Hastur como o nome da cidade onde Cassilda e Camilla residem. Elas são personagens que existem apenas na peça O rei de amarelo que os personagens leem, e nós só recebemos as referências sobre elas por meio de alguns versos no início dos contos, que indicam serem os trechos do ato II que provocaria a loucura em quem os lê. E ainda, no conto A Demoiselle d’Y’s, Hastur é o nome de uma moça que parece exercer um controle no protagonista. Ela é mais do que uma forma humana, quase uma viajante do tempo. Da mesma forma a personagem feminina nesse conto de Bierce. Nele, Haïta se depara com uma jovem que depois será nomeada Felicidade, aquela que ele nunca poderá ter ao seu lado como esposa.

Para ler em inglês, clique aqui e também está disponível na antologia Hastur Cycle, para download no 4shared aqui 

O conto An Inhabitant of Carcosa, de Ambrose Bierce (1891)

O conto de Bierce, publicado em 1891, foi a introdução do nome Carcosa, uma cidade que o personagem busca como salvação, mas logo descobre que a morte o levou e que essa não basta para que um homem deixe de existir. Por isso esse habitante perambula pelas terras em busca de Carcosa, o lugar ideal para usufruir da imortalidade. Carcosa derivaria de Carcassonne, cidade que se situa na França, cheia de muralhas, castelos com uma arquitetura medieval. Bierce também usa Hali como o nome de um profeta, que será citado por Chambers. Mas na obra desse, será o nome do lago em que a cidade de Hastur foi construída e onde Cassilda mora, na peça fictícia O rei de amarelo. Além disso, Hali é o nome árabe para a constelação de Touro, na qual existe Híades e Aldebarã, mencionadas no poema e no conto de Chambers como sendo estrelas negras que ficariam acima de Carcosa, onde o Rei habita.

Para ler em inglês cliquei aqui e também está disponível na antologia Hastur Cycle, para download no 4shared aqui 

O poema Carcassonne, de Gustave Nadaud

O poema teria inspirado também Chambers a escrever o seu poema introdutório à coletânea. No poema de Nadaud, o eu lírico espera encontrar Carcosa, esta cidade perdida e existente no imaginário daquele que sonha com quase uma utopia. Carcassonne se apresenta como uma Babilônia, onde se encontra o descanso de uma vida cheia de erros. O eu lírico relata que seus parentes conheceram cidades, mas ele não viu Carcassone, apenas depois da morte. A questão é que ele termina o poema dizendo que “Cada mortal tem sua Carcassonne”, e isso faz pensar se ela existe na própria palavra ou na mente humana como artifício.

Para ler a tradução em inglês e o original em francês, clique aqui 

Rubaiyat, de Omar Khayyam

A versão em inglês da seleção de poemas de Khayyam (1048-1131), originalmente em persa, foi feita por Fitzgerald, em 1859, o que deu a chance ao Ocidente de conhecer a obra do poeta. A palavra rubaiyat, derivado do árabe, significa “quatro”, um poema com uma estrofe de duas linhas, com duas partes cada. Na obra, Khayyam exalta a beleza da vida e a possibilidade do homem em transcendê-la pelo vinho ou até por um livro de poesia, gozar a vida antes de se tornar pó, e acrescenta ter ouvido as razões sobre o universo de um Doutor e de um Santo, para sair da porta tão crente quanto ao entrar. O eu lírico diz ter passado pelos Sete Céus – as sete artes liberais – e não conseguiu resolver os enigmas do universo, nunca conseguiu desatar “o nó do Humano Fado”. Duas estrofes aparecem no início dos contos O paraíso do profeta e O Pátio do Dragão, e introduzem a impossibilidade dos protagonistas de Chambers em entender o significado do tempo e deste mundo alternativo que aparece em sonhos ou em pesadelos coletivos.

Para ler a tradução em português de Alfredo Braga, clique aqui. A edição que consultei é bilíngue, traduzida por Jamil Almansur Haddad.

A peça Salomé, de Oscar Wilde (1891)

A referência à cor amarela no título da obra de Chambers e nas vestes do Rei é por causa do significado dela no século: era o símbolo da loucura, da boemia, do amor misturado à luxúria. Livros proibidos tinham a capa com esse tom. E o frisson causado pela obra de Chambers foi tão grande, no momento de sua publicação e mais ainda entre os autores seguintes, que se passou a atribuir a algumas obras o mesmo teor de loucura que há na peça do enredo – Salomé, de Oscar Wilde, é um exemplo. Nela, Salomé exige ao rei ter a cabeça de São João Baptista na bandeja por um capricho, já que ele havia se recusado a beijá-la. Mas Salomé só consegue que seu desejo seja atendido após executar a Dança dos Sete Véus. A obra de Wilde e o perigo na forma da dança de Salomé teriam inspirado Chambers a inserir uma peça insana e um rei com vestes amarelas na sua obra. E mais ainda, em O Retrato de Dorian Gray, de Wilde, há um livro amarelo que fascinou o personagem, que por sua vez, pode ter sido Às Avessas, de Huysmans. Há toda uma literatura “amarela” no século XIX, apresentando esses livros dentro de narrativas quase como transgressões na vida dos personagens.

Para ler o livro Salomé, clique aqui 

Poema Os sete velhos, de Charles Baudelaire (1857)

Não sabemos se Chambers, de fato, leu o poema Os sete velhos, de Baudelaire, em As Flores do Mal, mas a semelhança com a atmosfera dos contos Emblema Amarelo e O Pátio do Dragão é surpreendente. Em ambos os contos encontramos a única forma daquele que pode ser o emissário do Rei ou uma de suas formas, já que a criatura não veste amarelo, mas anda com trapos, parece ter uma pele de cera branca e os persegue, seja tocando órgão numa igreja e nas ruas, seja nos sonhos do protagonista. O poema revela versos que poderiam muito bem estar no enredo de Chambers e, ao final, parece revelar que o eu lírico se encontra em um mundo perturbado, com sua alma dançando “sem mastros, sobre um mar fantástico e sem bordas!” e que este ser que o incomoda vai “não se sabe para que outro mundo”. A razão se perde a partir do encontro na rua enevoada com um velho de trapos que “pareciam reproduzir a cor do tempestuoso céu” e que tem a silhueta “quebrada” e leva um bastão que lhe dá um ar mais nefasto.

Para ler o poema traduzido para o português, cliqueaqui e a versão original em francês aqui. A tradução que consultei foi a da Editora Nova Fronteira, 2006.

H.P. Lovecraft (20/08/1890 – 15/03/1937)

São algumas as referências que Lovecraft teria feito ao universo amarelo de Chambers. Sabe-se que o autor teria lido a obra por volta de 1927, quando seu estilo já estava bem definido e já havia criado Necronomicon, este livro também perigoso como a peça. Na introdução, Carlos Orsi diz que em apenas Um sussurro das Trevas (1931) Lovecraft citou Hastur, mas que a Mitologia de Cthulhu acabou incorporando Chambers por meio de August Derleth, quem os relaciona no conto O retorno de Hastur e passa a instigar o interesse de outros autores (e leitores também) a compor uma Mitologia Amarela próxima a de Lovecraft. Mas nas minhas leituras dá para encontrar certas semelhanças entre os contosDagon, Ar frio e O modelo de Pickman, de Lovecraft, e O Pátio do Dragão, Emblema Amarelo e A Máscara, de Chambers. Há o protagonista que é um pintor desejando encontrar no grotesco a beleza em sua forma pura, mesmo que precise compactuar com os submundos dúbios da ciência como sinônimo de encontro com a imortalidade ou o registro de criaturas estranhas. Além disso, tem a existência de uma atmosfera de terror por conta de um emissário do rei, ou uma criatura de tentáculos, que se faz como uma ameaça permanente.

O conto More Light, de James Blish (1970)

Este conto de James Blish, publicado em 1970, é a tentativa mais fiel de criar a famosa peça O rei de amarelo. Blish foi leitor de Chambers e tentou compor a peça, na qual Hastur é a cidade em outro planeta em que a rainha Cassilda e sua filha Camila residem. No início do conto A máscara, temos um dos únicos trechos que Chambers deixou registrado na sua coletânea como se fosse a tão temida peça:

“Camilla: O senhor deveria tirar sua máscara.
Estranho: É mesmo?
Cassilda: É mesmo, está na hora. Todos tiramos nossos disfarces, menos o senhor.
Estranho: Eu não estou de máscara.
Camila: (Horrorizada, em particular para Cassilda) Não é máscara? Não é máscara!”

H.P.Lovecraft enviou cartas a Blish e o autor William Miller, em que ele diz ser uma tarefa complicada e insuficiente tentar criar um Necronomicon, essa obra que assustaria por revelar as verdades mais sombrias da existência. Mas Blish aceita a tarefa de tentar constituir a peça de Chambers e o resultado é satisfatório para quem tem curiosidade de vivenciar a leitura como se fosse um personagem de Chambers entrando em contato com a tão perigosa peça.

Tanto os contos de Ambrose Bierce quanto o conto More Light, de Blish, estão na coletânea Hastur Cycle, que está disponível para download aqui.

O livro A Maldição do Cigano, de Stephen King (1984)

A obra de Stephen King conta a história de Billy Halleck um advogado que vê sua vida amaldiçoada quando atropela uma velha cigana. O enredo não tem relação direta com Chambers, apenas pelo fato de haver um bar chamado Hastur que é destruído em um incêndio e, em seu lugar, é construída uma loja de produtos alternativos chamada O Rei de Amarelo.

O conto A study in emerald (Um estudo em esmeralda), de Neil Gaiman (2003)

O conto Um estudo em esmeralda coloca o detetive Sherlock Holmes e seu amigo Dr. Watson numa atmosfera inspirada no Mito de Cthullu, de Lovecraft. Gaiman cita Carcosa na passagem em que Watson relata ter assistido uma peça. O conto traz o assassinato do príncipe da Boêmia, Franz Drago, sobrinho dileto da Rainha Vitória, na Londres do século 19, em circunstâncias muito estranhas, indicando a presença de possíveis monstros que existiriam à espreita, atacando desde o princípio dos tempos.Este tipo de terror permanente, de uma criatura desconhecida, existe também no fato de não sabermos a origem de Carcosa e os poderes do rei, que os exerce por uma simples peça teatral. Além disso, Hastur é o nome de um anjo caído no livro Belas maldições, de Gaiman e Terry Pratchett.

Para ler o conto em inglês, clique aqui. E para ler em português, aqui 

A série True Detective (1ª temporada – 2014), de Nic Pizzolatto

O seriado True Detective foi uma das grandes surpresas deste ano, vencedor de quatro Emmys e conquistou muitos fãs para a próxima temporada, com elenco e enredo independentes. A 1ª temporada contou a história de dois detetives, Rust Cohle e Marty Hart, que precisam encontrar um assassino em série em Louisiana. Os oito episódios mostram diversas linhas do tempo, com os 17 anos em que os dois estiveram envolvidos na investigação. O crime parece estar relacionado a uma seita religiosa que promete um encontro com o Yellow King (O Rei de Amarelo), por folhetos distribuídos entre as cidades. Uma das vítimas o tem em um caderno e sua morte apresenta um teor simbolista, quase um sacrifício às entidades. Aqui, o curioso é ver como alguns elementos da obra de Chambers são apropriados de forma inteligente. Encontrar Carcosa é quase o mesmo que olhar para o universo puro. A condição humana é explorada na série nas várias falas céticas de Rust e nos atos dos próprios personagens. Louisiana, tão inóspita quanto o deserto que vemos no conto As Demoiselles d’Ys, é opressora e cheia de camadas como Carcosa.

Sábado do vídeo | Neil Gaiman comenta a sua obra e a experiência em clubes de leitura

Sábado do vídeo | Neil Gaiman comenta a sua obra e a experiência em clubes de leitura

Matéria publicada no site Literatortura 

No início de setembro, Neil Gaiman divulgou um vídeo que veio com a promessa de responder perguntas feitas por e sobre clubes de leituras. Para funcionar como um pacote completo. E já que praticamente toda entrevista ou vídeo liberado por Gaiman possui grandes frases que se tornam inesquecíveis, este é mais um daqueles momentos em que ele novamente sabe como conversar com seu leitor. E ainda, como tratar a literatura com simplicidade e um carinho genuíno.

Neil demonstra uma grande estima pelos clubes de leitura, pois foi a um deles que o escritor concedeu o seu livro Deuses Americanos, colocando os participantes como os primeiros leitores do livro que ainda não havia sido publicado. Mais do que um teste para saber quais perguntas os participantes deste clube fariam sobre a obra, foi um modo agradável de descobrir mais sobre a própria obra e a relação com o leitor. E não ficou apenas em Deuses Americanos. Gaiman também cedeu mais duas obras a esse clube do qual participava para que discutissem antes da publicação.

“Eu passava uma maravilhosa tarde com eles tomando chá, comendo cookies, respondendo às questões, o chá e os cookies eram obviamente um pouco mais importantes, com as questões em segundo lugar”, brinca Neil no vídeo. E ele acrescenta “Vocês que participam de clubes de leitura leem livros como algo coletivo e prazeroso, vocês possuem opiniões muito fortes e nunca são educados e se você é um entusiasta por respostas exatas ou possui um entusiasmo ao pensar que um livro não deveria ser apenas queimado, mas possivelmente explodido e alvejado por uma artilharia antes que ele se queime, você está sempre apaixonado”.

Esta é uma bela compreensão sobre o embate do leitor com o livro em um clube de leitura: a obra não deve receber uma única qualificação e ser “queimada” por isso. Mas sim ser posta na mesa, entre tantos leitores diferentes, e ser questionada, atacando-a por todas as partes antes que se cogite deixar a obra de lado – por ora – ou qualificá-la com uma resposta unilateral. E é o que fazemos em um clube de leitura, maravilhar-se com os diferentes caminhos que um livro pode ganhar.

Um exemplo disso. Eu participo de um clube focado em livros de arte e, até então, eu tinha uma visão um tanto limitada sobre Delacroix e Ingres. Foi só trazer à tona as observações do autor do livro e colocar os quadros na mesa, com as diferentes observações dos participantes, que a obra passou a existir para mim. Por isso, assistir ao vídeo do Neil Gaiman nos leva a entender como é bom perguntar. É um processo de investigação que precisa ser preservado não apenas em clubes, mas nas leituras diárias, a todo instante. E um escritor precisa abrir espaço para o diálogo com seus leitores.

E este é só o início do vídeo, o qual traz diversas respostas às perguntas dos leitores sobre o último livro publicado por Gaiman, O Oceano no fim do caminho. Foi questionado se ele se inspirou em alguma memória de infância, detalhes sobre possíveis nomes ao narrador, entre outras questões específicas do enredo. Uma resposta para o leitor que ficou instigado com o livro e um exercício para o autor saber o que sua obra trouxe à superfície, com diferentes perspectivas. No fim, esta é uma nova vida que se concede ao livro. Envia-se uma mensagem à espera da resposta do outro para que a obra expanda o seu universo em novas partículas em forma de ideias e novas histórias.

Para assistir ao vídeo, clique AQUI 

(O vídeo tem legenda em inglês para ser ativada. Há alguns errinhos, mas dá para acompanhar)