OBRA DE ARTE DA SEMANA | A Pega (The Magpie), de Claude Monet

OBRA DE ARTE DA SEMANA | A Pega (The Magpie), de Claude Monet

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Claude Monet, France, 1840-1926, A Pega (The magpie), 1868-1869, óleo sobre tela, 121.4 x 164.1 cm. Musée d’Orsay, Paris, France

A pintura A Pega (The Magpie) foi composta por Claude Monet em 1868, como uma das mais belas representações que o artista fez da neve. O desafio do tema, de conciliar as cores e atmosfera fria, pálida às ideias do impressionismo estão presentes, mais o tom de melancolia na contemplação da natureza diante da Pega, o pequeno pássaro que repousa na cerca e o qual dá nome ao quadro.

Era dezembro de 1868, quando Claude Monet saiu para o campo com seu equipamento de pintura, ansioso para pintar os campos cobertos de neve perto de sua nova casa em Étretat, na costa da Normandia. Longe do pai que o desaprovava, ele havia se mudado para uma casa onde ele e sua namorada Camille Doncieux e seu filho recém-nascido Jean poderiam estar juntos. Foi neste local em que ele iria produzir The Magpie.

O desafio era mostrar a grandiosidade da paisagem transformada pela neve e testar formas de apresentar a atmosfera. Como aplicar sombra em um território todo branco? E o sol invernal, de que modo ele se projeta no cenário? O quadro todo presentifica a neve como aveludada, densa, equilibrando tanto a sua delicadeza quanto sua rigidez. A pintura é quase escorregadia tanto quanto a textura da neve. Percebemos a consistência afofada que pende pelos galhos das árvores, pelo telhado da casa. E que, principalmente, transforma as imagens de fundo em apenas silhuetas embranquecidas pela neblina e pela neve. A imagem é de um retiro silencioso, onde a vida repousa por completo.

O recorte do cenário é dado tanto pela cerca quanto pelo telhado, sendo assim duas linhas paralelas que dividem o quadro. O que torna o cenário vivo são dois elementos graciosos: a sombra projetada na neve e o contemplativo pássaro preto que se destaca por entre o tapete branco.

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O que faz desta pintura encantadora é, primeiro, a escolha das cores. Monet, seguindo as práticas do impressionismo em que se pinta aplicando a influência da atmosfera nas matizes de cor, torna a sombra um tom azulado, pendendo ao lilás. Segundo o próprio pintor, “quando você sai para pintar, tenta se esquecer de quais objetos você tem diante de si, uma árvore, uma casa, um campo, o que for. Apenas pensa, aqui é um pequeno quadrado de azul, aqui é um retângulo de rosa, aqui está uma faixa de amarelo; e pinte isso da mesma forma que lhe aparece, a cor e a forma exatas, até que você tenha uma impressão natural da cena diante de você”.

Reunido a essa tonalidade delicada dada pelo pintor ao cenário, o pássaro coroa uma ideia distinta do inverno. Em vez de indicar espaços vazios, infrutíferos, abandonados pela vida humana por conta da temperatura, Monet apresenta a vivacidade da natureza na sua melhor forma. Ela continua potente no inverno, promissora enquanto local de introspecção humana tal qual o pássaro que se mostra contemplativo.

Assim, The Magpie (A Pega) é uma representação do inverno dada com o frescor do raro sol invernal. Ele se encena branco no horizonte e se projeta pelo solo, estende a sombra azulada das cercas e convida o pássaro e o olhar a repousar. E se formula como uma doce e etérea cena de locais sonhados no mundo onde se pode respirar em consonância com a natureza vivaz.

In The Magpie, Monet found all the colour in a snowy day

GAGE, John. Color and Culture Practice and Meaning from Antiquity to Abstraction. Los Angeles, University of California Press, 1999, p.209.

São Paulo debaixo de neve

São Paulo debaixo de neve

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Coluna semanal no Fashionatto

Eu sempre desejei escrever um conto mergulhado na neve e no frio europeu. Vivendo em São Paulo, que nem terra da garoa é mais, já que quando chove ganhamos de presente dos céus enchentes que colocam a cidade em estado de atenção, não me parecia possível escrever esse tipo de cenário sem ao menos vivenciá-lo de alguma forma. É claro que a ficção abre espaço para os mundos mais fantásticos e não precisamos vivê-los para legitimá-los. A questão é: eu desejava ver a minha cidade debaixo de neve. E, da maneira mais inesperada possível, isso ocorreu em alguns bairros de São Paulo nesse domingo. E a cidade amanheceu morna, mas ainda com as calçadas aqui e ali cheias de um gelo que agora é inegável: podemos chamar de neve, com alguns risinhos irônicos e maravilhados.

No final da tarde começou a chover e em cinco minutos a minha rua foi da agitação caótica das árvores se curvando à direita e as folhinhas voando assustadas para uma rua quieta, fria, como se tivesse prendido a respiração. E coberta de um gelo que agora defino como neve. Os carros derrapavam, o gelo se acumulava nos parapeitos das janelas. Mas como a realidade não possui a perfeição de uma comédia romântica natalina, uma árvore se encontrava caída na esquina. A noite se aproximava e os moradores precisaram isolar a rua improvisando fitas estiradas em cada saída até alguém chegar para tirá-la do caminho.

Com a rua já escura, onde se via poucas silhuetas, ouvi os vizinhos comentando que um dos cachorrinhos da casa ao lado da minha havia sumido. Kinder, um yorkshire pequenino – por isso o nome do ovinho de chocolate – havia sumido, não o encontraram em casa. Alguns vizinhos se reuniram para procurá-lo pelas ruas, com lanternas, chamando Kinder, Kinder! Vem cá! Era estranho que ele não estava latindo durante a chuva, já que ele sempre dá um jeito de latir durante o dia.

A tensão durou poucos minutos e parecia preencher a rua que antes era só um cenário bucólico enevoado. Ninguém encontrava o Kinder, não estava na garagem da minha casa e nem debaixo dos carros. Porém, com uma agitação triunfante, um dos meninos encontrou Kinder debaixo do sofá. Os vizinhos riam, faziam carinho nele aliviados, o menino falava para o cachorro segurando sua cabecinha “não faz mais isso, seu louco”, enquanto o pobrezinho se resumia a uma massa de pelos escuros que tremiam com frio e medo.

A luz voltou depois disso e parecia que acordar na segunda-feira paulistana seria algo tranquilo. A manhã começou com um trânsito fora do comum e aí, do ônibus, avistei um amontoado de neve colada à parede do cemitério. Toda manchada com as folhas verdes caídas das árvores – que formavam um tapete por todas as calçadas -, a neve se misturava ao muro branco e manchado do cemitério formando uma única massa dobrada branca, quase uma ilusão de óptica entre chão e parede. No ônibus, o motorista disse:

-Que loucura São Paulo, hein? Tem gente contando que enquanto nevava, os mortos pulavam assustados pelo muro do cemitério.

E a risada ecoava pelo ônibus que agora se encontrava atolado na mistura de terra e gelo. Nunca pensei que eu diria “faltei à aula porque o ônibus atolou na neve”, já que o cenário só é provável em outros países. Ao voltar para casa, mais uma rua se mostrou repleta de uma camada vistosa branca. Adultos, adolescentes tiravam fotos. Uma mãe com um carrinho de bebê e um menininho a tiracolo deu um jeito de tirar uma foto dos dois na neve paulistana. No Morumbi, bancas de jornais, carros e ônibus ficaram cobertos de gelo. O Parque da Aclimação virou o Central Park instantaneamente, com o lago emitindo uma neblina mágica e a neve se tornando alaranjada com a luz dos postes.

Parece que a cidade ter se tingido de branco provocou uma atmosfera superior a toda correria e reclamações diárias nas redes sociais. O cenário poderia ser meio catastrófico por algum ponto de vista. Mas a cada esquina o conto que eu sempre quis escrever parecia tomar cores reais de uma crônica pelo trator chegando para tirar a neve da rua, as pessoas sorrindo e comentando sobre a surpresa, mostrando suas fotos. Uma cena que se descola de qualquer ideia que já tivemos. Está aí o fascínio pelo novo, pelo acontecimento que beira quase à epifania de ver neve em São Paulo. Uma sensação que pairou por dois dias, com o clima de uma novidade curiosa e pelos burburinhos que povoam uma cidade inteira.

créditos de imagem: Luisa Costa

Foi inevitável não lembrar da música Don’t leave me(Ne me quitte pas), da Regina Spektor

“The frozen city starts to glow
And, yes, they know it will melt
And, yes, they know New York will thaw
But if you’re a friend of any sort
Then play along and catch a cold”
 

Se você for de São Paulo, conte sua história nos comentários. E se você já presenciou neve ou sonha em ver, conta também haha