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Noite estrelada

Um café iluminava a rua, convidativo aos devaneios da jovem. Precisava escrever, mas faltavam-lhe ideias. O salto alto tocava charmosamente, ao andar, a rua irregular em que ela se encontrava. Sentou-se em uma das mesinhas, pediu um café e croissants. A noite era estrelada, o café parecia agradável para fluir alguns pensamentos. O estabelecimento era simples, com mesinhas no lado exterior, uma cobertura oblíqua cobrindo-as delicadamente. Acima, algumas janelas abertas, indicando que a moradia pertencia ao dono do café. A figura do estabelecimento era semelhante ao Terraço do Café em Arles à noite, de Van Gogh. Realmente encantador.

A jovem procurou observar à sua volta e escrever sobre o café, as pessoas jogando bilhar no interior e conversando animadamente. Enfim, era uma cronista tentando mostrar o encanto da simplicidade da noite estrelada. “Ah, noite estrelada, nome do quadro de Van Gogh”, suspirou. Sentia-se, de fato, no quadro do pintor. A madrugada emanava o perfume do café, envolvendo-a. Assim, adormeceu.

Mais tarde, foi difícil abrir os olhos com tanta claridade. “Já amanheceu?”, questionou-se. A jovem abre os olhos e percebe que não está mais no café. Usava um vestido amarelo clarinho, rodado, acima do joelho. A saia era de tule, abaixo do tecido leve e delicado do vestido.

Repousava num campo de girassóis. O amarelo vibrante a cegava de tão intenso. O vento penteava as pétalas do campo. Parecia um baile em homenagem a ela, que também estava apropriada para a festa, com um vestido igualmente amarelo. A jovem misturava-se ao cenário. Ou o cenário a compunha. A reciprocidade entre ser humano e sujeito nunca fora tão intensa. Ousaria dizer que se encontrava em um estado de natureza, com apenas a necessidade de respirar o ar puro daquele campo. Um sentimento paradoxal para o momento, já que o encanto da cena estava no casamento entre a vestimenta que usava e a cor natural das flores.

Repentinamente, ouve-se o voar dos pássaros. Eram corvos. A sensação de melancolia toma conta da moça. Era hora de acordar.

Fora tudo um sonho. Digno dos filmes de Akira Kurosawa. A jovem sentia-se como o humilde pintor de um dos curtas do diretor, personagem que envolve-se com as obras de Van Gogh. Ela adormecera sobre os livros adornados com as pinturas do artista. Tudo terminara com a melancolia, o voo dos corvos. Agora, só restara a inspiração que o seu inconsciente pedia para ser retratado. As palavras surgiram rapidamente sob a caneta orientada pelas mãos e pela mente da jovem.

**Para quem quiser ver, no texto há os links das obras do Van Gogh em que os cenários descritos foram baseados (:

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