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Turma da Mônica: O Pequeno Príncipe

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Publicado no site Indique um livro 

“Por favor…desenhe para mim um carneiro!”, disse o principezinho de cabelos dourados em meio a um deserto ao incrédulo aviador, narrador e voz do autor Antoine de Saint-Exupéry. Foi com essa singela pergunta e diversas outras frases memoráveis que o menino se tornou um marco na literatura mundial.

Por sua vez, com uma menina de vestido vermelho segurando um coelho azul, um garoto que troca o R pelo L e o criador desses e de outros personagens, surgiu no imaginário brasileiro a Turma da Mônica. Agora, juntando personagens tão fortes para inúmeras gerações de leitores o resultado é a nova tradução de O Pequeno Príncipe ilustrada pelos personagens de a Turma da Mônica, pela editora Girassol.

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O peso da adaptação é enorme. Agrupar esses dois mundos soa natural e a rosa vira Mônica, o principezinho é o Cebolinha e Maurício de Sousa representa Saint-Exupéry como o aviador. A tradução é de Leila Villas, a edição prateada em capa acolchoada e o título em vermelho dão imponência e força ao volume. O abrir das páginas é o que garante o encanto imediato. O trabalho do ilustrador José Márcio Nicolosi é o responsável por elevar a adaptação a algo singular. As cores fortes e limpas dão poeticidade às formas dos personagens. O contorno mantém as características de Cebolinha e Mônica aliados à vestimenta imortalizada pelo traço conhecido e simples de Saint-Exupéry. O elefante dentro da jiboia é Jotalhão, Cebolinha tem agora seus poucos fios de cabelo em cor de trigo, Maurício é Exupéry que tenta desenhar um carneiro, e os tão temidos baobás se tornam ainda mais assustadores e gigantes pela adaptação.

Não é difícil se emocionar com as ilustrações de José Márcio Nicolosi. O grande diálogo entre o principezinho e a raposa é o grande destaque, a qual diz que o menino deve primeiro cativar e deixar-se cativar para, assim, ter de fato uma amizade e tornar uma pessoa única entre tantas rosas. A raposa de Nicolosi tem uma presença forte e a delicadeza no tocar das mãos do principezinho e a pata transformam a releitura da obra. O Pequeno príncipe se torna doce e poética como tantas outras novas adaptações que a Turma da Mônica tem criado.

O Pequeno Príncipe pelo olhar de Maurício de Sousa é revisitado com maestria. Os novos traços se somam às imagens criadas por Saint-Exupéry em texto e papel. E, assim, a leitura é duplamente emocionante, pois retrata duas histórias que mudaram vidas. Personagens que levaram crianças ao mundo da leitura, e adultos a reviverem sempre a infância nunca perdida. Pois é bem melhor seguir o conselho do próprio principezinho e não ser como os adultos que se preocupam apenas com números. Lembrar que só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos. E que, no fim, quem seguir este conselho terá a infância sempre como estrelas que riem no céu.

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“Desenha-me um carneiro?”

 

Exposição O Pequeno Príncipe na Oca, Ibirapuera

Baseada na obra de Antoine de Saint-Exupéry, O pequeno príncipe

Um garotinho de cabelos louros como o trigo, vindo do asteroide B 612, que pede para um aviador perdido no deserto desenhar-lhe um carneiro e que ama uma rosa muito orgulhosa. Esse é o principezinho. Ou melhor, o pequeno príncipe, criado por Antoine de Saint-Exupéry.

Há décadas, o livro O pequeno príncipe encanta gerações através de sua inocência e valorização da infância. Agora é o momento de o personagem ser apresentado de uma forma diferente na exposição O Pequeno Príncipe na Oca, no Ibirapuera. A orientação é “para os viajantes, as estrelas são guias”. E são as estrelas que nos guiam durante a exposição; de trecho a trecho do livro, relembramos as frases sobre os baobás, a rosa, a raposa e os seus ensinamentos.

A obra deve ser lida durante toda a vida, sempre haverá novas interpretações do livro e retrata momentos da vida que se encaixam, particularmente, às experiências do leitor. Se for lido por um adulto, há a nostalgia em relembrar os sonhos da infância, uma espécie de resgate ao olhar metafórico essencial para se compreender o mundo. Por exemplo, no livro, o aviador apresenta aos adultos o desenho que fizera e todos acham que é um chapéu quando, na verdade, é uma jiboia digerindo um elefante. Ou seja, a ideia implícita, a imaginação é algo que muitos adultos esquecem ao crescer. Eles veem apenas o que querem ver: um chapéu. Os olhos deixam de ver o mundo metaforicamente.

A exposição possui um diferencial interessante: cada criança que a visita deve deixar uma mensagem para alertar os adultos de que algo deve ser feito para o planeta, cuidar do meio ambiente e preocupar-se com a sustentabilidade. Mas não são apenas as crianças que devem encenar o futuro que os adultos sonham; esses também precisam participar ativamente, se desejam que o mundo melhore.

O Pequeno Príncipe na Oca é excelente, possui boas ideias para recriar o personagem e apresentá-lo a uma nova geração; os cenários são feitos caprichosamente e passam, de forma simples, o enredo do livro e a história do autor.  A obra de Exupéry sempre será como uma viagem guiada pelas estrelas para o planeta do pequeno príncipe, um mundo dos sonhos. O mundo com o qual sonhamos através das utopias. E a essência do ser humano estaria em cativar, criar laços e saber que “a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”.

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Os “garotos perdidos”

 

Trabalho de Filosofia “O fim da infância” (adaptado) – Setembro de 2009

No livro de J.M.Barrie, Peter Pan, há os garotos perdidos. No enredo, eles são aqueles que, por descuido da babá ou da mãe, caíram do carrinho durante passeios no parque e foram levados à Terra do Nunca. Lá, como não possuem mães, estão isentos de obrigações, obedecem apenas ao Peter Pan. Baseando-se nesses personagens, hoje se vê exatamente “garotos perdidos” em sociedade, crianças que são abandonadas a si mesmas e que não possuem a proteção de tutores que os guiam à luz do esclarecimento. Os garotos perdidos na sociedade buscam algum caminho para seguir e estão crescendo rapidamente, até de forma precoce. Ou seja, a infância está acabando.

Com a ideia de fim da infância, analisa-se a crise na educação e a sua influência na concepção de infância a partir de Hannah Arendt, que criticou três pressupostos básicos. O primeiro demonstra a existência de um mundo da criança e uma sociedade formada entre crianças. O adulto, ao não assumir a responsabilidade pela criança, deixa esta a mercê da tirania da maioria.  É um engano acreditar que a criança possui a liberdade de agir e ser independente a partir do momento que o adulto livra-se da obrigação de zelar por ela; pelo contrário, quando é abandonada pelo tutor diante de outras crianças, ela precisará fazer a escolha de rebelar-se e sofrer as consequências por ser a única a agir de tal maneira, ou aceitar a tirania da maioria, isto é, “solidarizar-se” com as demais de sua classe.

Para exemplificar, é possível imaginar uma rua em movimento. Há um grupo de crianças prestes a atravessar a rua e uma delas segura a mão de seu tutor. Este solta-lhe a mão e simplesmente a deixa diante do movimento dos carros. A criança terá que escolher se seguirá em frente com as demais, se continuará parada ou se sairá correndo em outra direção, sem destino. Assim, a criança é abandonada a si mesma, pois não possui a “direção estranha” que possa guiá-la, ou submete-se a tirania do grupo. Ela não consegue retornar ao mundo adulto – foi banida deste – e nem argumentar com as outras crianças.

O segundo pressuposto relaciona-se com o ensino. Antes se acreditava que o professor era aquele que poderia ensinar qualquer coisa, detinha um grande conhecimento. Entretanto, agora o professor se forma baseando-se mais na metodologia de ensino, isto é, como irá encaminhar os alunos, do que na matéria em si. Ao prezar demais o método, em vez de preocupar-se mais com o conteúdo, o professor procura saber apenas um pouco mais que o aluno, e este é abandonado aos próprios recursos, tendo que aprender sozinho. Esse papel dos professores só se tornou possível com a ideia do terceiro pressuposto, o da aprendizagem.  Nesse, o pragmatismo é uma grande característica; é substituir o aprender pelo fazer, pela experiência. A criança aprende sozinha como se brincasse, característica “natural” dela. Assim, a instituição escolar busca satisfazer o desejo lúdico e narcísico de brincar, levando a criança a aprender apenas através do entretenimento.

É exatamente a partir dos três pressupostos que se entende o porquê do autor Kincheloe afirmar que as crianças vão aprender sozinhas e sem pedirem permissão aos adultos, em matéria publicada pela revista Superinteressante. A partir do momento que o professor e os tutores deixaram de legitimar a sua autoridade, a criança foi abandonada a si mesma. Com isso, ela precisou recorrer a outros meios de aprendizagem como a mídia (TV, internet); o fácil acesso a esses meios permite, através do entretenimento, do fazer, que a criança absorva informação rapidamente.

Desta forma, pergunta-se: afinal, o que é o conhecimento? As crianças que recorrem às mídias não aprendem como agir perante a sociedade, os preceitos que constituem o mundo público. Elas não têm contato com as ideias do passado a fim de reconstruir o futuro; têm apenas contato a informação, esta totalmente imediata, ao alcance da maioria. Como os adultos podem sonhar com um futuro nas mãos das crianças se preferem livrar-se da responsabilidade de cuidar delas? A construção efetiva de um futuro bom apenas ocorrerá se a criança receber uma base para isso.  E essa base é o conhecimento, algo que se conquista aos poucos, com a dúplice proteção, protegendo a criança do mundo e vice-versa. Se a criança é abandonada, mesmo que represente ainda o mito da infância, não terá a capacidade de construir a própria geração. As crianças estão simplesmente a mercê do narcisismo adulto. É um paradoxo e tanto: o adulto idealiza a criança como perfeita e única esperança para as frustrações humanas, mas é abandonada pelos tutores, pois estes não querem assumir a responsabilidade pelo curso do mundo.  

Essas crianças podem ser comparadas ao personagem criado por Antoine de Saint-Exupéry em O pequeno príncipe. O principezinho, como as crianças atuais, é um andarilho, percorre o mundo em busca de uma orientação. Na história, o pequeno príncipe encontra diversos adultos como o empresário, o vaidoso, o bêbado, o rei, o geógrafo. Nenhum deles espanta-se com o fato de uma criança vagar pelos “planetas” ou pelo mundo a fim de descobrir por conta própria alguns dos mistérios da vida; eles estão apenas preocupados com a própria vida dentro de uma redoma de vidro que os isola do restante.

Portanto, é isso que se sonha para o tão esperado futuro? Que crianças, como o pequeno príncipe, vaguem sozinhas pelo mundo em busca de alguma direção, sem possuírem uma base para constituir-se como sujeito? Os mesmos que idealizaram o mito da infância deveriam perceber que ela está acabando e que o seu fim realmente irá repercutir no futuro. Incentivar o isolamento dos indivíduos, seja criança ou adulto, levará a sociedade à deterioração. Devemos preocupar-nos em reassumir a autoridade, garantir a transmissão do conhecimento e preceitos às próximas gerações a fim de preservarmos um “livro” de História. Um povo com um livro em branco não tem por que existir. Possuir uma História que possa ser passada ao longo do tempo permite a permanência do homem na Terra, de ser lembrado por sua relevância. E, assim, prossegue a Humanidade, em que “ninguém banha-se duas vezes no mesmo rio”.