Adaptação pela BBC de Os Miseráveis ganha primeiro trailer

Adaptação pela BBC de Os Miseráveis ganha primeiro trailer

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Os Miseráveis, de Victor Hugo, é um dos livros mais emblemáticos sobre a história da França. Já virou filme com Gérard Dépardieu, musical na Broadway, e adaptação também musical para o cinema, com indicações ao Oscar.

Agora, a história de Jean Valjean poderá contar também com a versão da BBC One em um drama de seis partes. Desta vez o roteiro será baseado no romance clássico do século XIX e não será um musical. O trailer liberado no início de dezembro dá uma ideia do heroísmo trágico e romântico presente nas adaptações da obra. E apresenta o seu rico elenco: Lily Collins, Dominic West e Olivia Colman. O confronto clássico entre Jean Valjean (West) e a instituição policial na forma de Javert (David Oyelowo) permanecem como o tom principal, no trailer.

O roteirista e produtor Andrew Davies é responsável pela adaptação e tem uma coleção de sucessos na TV com clássicos. Ele criou a versão de 2016 de War and Peace (Guerra e Paz), de Tolstói, além de ser responsável pela versão de 1995 do Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito), com Colin Firth na sua popular interpretação de Mr.Darcy. “Esta é uma história tão intensa e angustiante”, explicou Davies. “Estou muito contente que este estimado conjunto de atores esteja dando vida a ele.”

Sobre o elenco, Davies tem nas mãos nomes grandiosos. Liderando as seis partes da série BBC One está Dominic West, de The Hour, interpretando Jean Valjean ao lado de David Oyelowo, do filme vencedor do Oscar 2013 12 anos de escravidão, como seu eterno rival Javert. Fantine será interpretada por Lily Collins, de Espelho, Espelho Meu e To The Bone, enquanto Adeel Akhtar fará o papel de Monsieur Thénardier, Josh O’Connor será Marius e Ellie Bamber, Cosette. Olivia Colman, de Broadchurch e futura rainha Elizabeth II em The Crown, irá interpretar Madame Thénardier.

Les Miserables
Lily Collins como Fantine
Olivia Colman interpreta Madame Thénardier

Após a notícia de que ela estaria interpretando Fantine, Lily Collins disse para o Radio Times: “Estou muito feliz. A dramatização maravilhosa de Andrew expande a personagem de maneiras novas que nunca vi antes em adaptações anteriores”. Davies reforça que há muito mais para ser contado de Les Misérables do que apenas as versões musicais e promete trazer a carga dramática da obra clássica de Victor Hugo.

A série está prevista para 30 de dezembro de 2018 na BBC One (IMDb).

Fontes: RadioTimes Bustle

Os Miseráveis

Os Miseráveis

Os Miseráveis
Dir. Tom Hooper
Reino Unido – 2013
Com Hugh Jackman, Anne Hathaway, Russell Crowe

les_mis_miserables_film_movie_screening_early_buzz_reactions_reviews_critics_tom_hooper_anne_Hathaway_russell_crowe_amanda_seyfried_hugh_jackman_eddie_redmayne__Um homem preso injustamente, uma moça que vê seus sonhos serem despedaçados ao se tornar prostituta, um casal trapaceiro, uma menina que sonha com uma vida melhor, um rapaz que idealiza outra Paris, um garotinho que diz a verdade sobre a realidade em que vive. Personagens marginalizados por uma sociedade que vive na antítese da riqueza e da pobreza. É uma Paris repleta de pestes, mendigos e prostitutas destruídas tanto quanto os farrapos que usam e as maquiagens borradas que tentam ocultar o horror dessa Paris. É assim que o filme Os Miseráveis destrincha cada canto da cidade e dos personagens imortalizados por suas dores sempre atuais.

Os Miseráveis é um filme baseado no musical da Broadway, Les Misérables, de 1980. A versão cinematográfica é dirigida por Tom Hooper, o mesmo de O Discurso do Rei, vencedor do Oscar de melhor filme, em 2011. Les Mis narra a história imortalizada por Victor Hugo. Trata-se da história de Jean Valjean, preso por roubar um pão, que reconstrói a sua vida após oito anos, tornando-se prefeito e dono de uma fábrica, sob outra identidade. Por isso ele é procurado há anos por Javert, inspetor obcecado em cumprir a lei. Jean Valjean ajuda Fantine, jovem que se tornou prostituta por ser o único jeito de sustentar a sua filha Cosette, após ser demitida da fábrica de Valjean. A terceira parte do filme se passa em 1832, em meio a uma Paris exausta com a miséria e clamando por revolução. Jean Valjean é pai de Cosette, já uma jovem adulta que se apaixona por Marius, rapaz que se junta a outros estudantes para lutar contra o governo após a morte do general Lamarque.

Todo o filme é um grande espetáculo musical. Até mesmo diálogos se tornaram versos, o que pode cansar um pouco quem não simpatiza tanto com o gênero musical, durante as quase três horas de filme. Mas a novidade é que o diretor abandona o artificialismo dos musicais e põe os atores para cantar ao vivo nas cenas. Na maioria das vezes dá certo. Hugh Jackman (Jean Valjean) e Anne Hathaway (Fantine) são os maiores exemplos de que cantar ao vivo, trocando fortes agudos por sussurros muito mais sinceros e condizentes com o drama da história, realmente dá certo. Os closes nos rostos dos atores enquanto cantam um solo sincero e intimista nos faz compartilhar de um momento em que, se fosse possível a realidade ser musicada, seria daquele jeito, com o personagem cantando a si mesmo os sentimentos mais profundos. Também dá certo com Sasha Baron Cohen e Helena Boham Carter, que não possuem grandes vozes, mas são o ponto divertido do filme pela informalidade do canto e a malandragem dos personagens, combina perfeitamente.

Porém, às vezes tais números musicais ao vivo constrangem um pouco, especificamente no caso das cenas em que Russell Crowe canta. Ele não consegue sustentar um Javert à altura de Jean Valjean. Não se sente o receio que se deveria sentir de Javert quando ele aparece, como se fosse todo o Estado e a Lei em peso, perseguindo injustamente Valjean. Canta mecanicamente, sem a raiva e a dor que Javert sente pelo desejo de cumprir a justiça na qual ele acredita e orgulhar a medalha que carrega. Além disso, há músicas que exigem um canto mais alto, como One day more, música que precisa ser intensa por unir o burburinho do motim e os anseios de todos os personagens, e que no filme não se apresenta como a catarse que deveria ser.

É preciso destacar que é justa a indicação de Hugh Jackman e Anne Hathaway às categorias de melhor ator e melhor atriz coadjuvante do Oscar. Hugh Jackman é um verdadeiro Jean Valjean, consegue se fazer protagonista retratando um personagem com todas as imperfeições e dilemas de um sujeito que se esforça para ser decente. E Anne Hathaway conquista a cumplicidade do espectador em pouco tempo na tela, dando realismo à Fantine e criando a própria versão da aclamada música I dreamed a dream, clássica na voz de muitas outras atrizes.

Samantha Barks e Eddie Redmayne, interpretando Éponine e Marius, respectivamente, também são excelentes surpresas no filme. Quanto ao elenco não se tem dúvidas de que acertaram nas escolhas, em geral. O que pode ser visto como pequena falha no filme é a tentativa de resumir as histórias, às vezes se atropelando – uma pena Amanda Seyfried ter aparecido tão pouco, como Cosette – e não dando tempo para um descanso, que seria adequado com um diálogo ou outro, faltando uma conexão entre as cenas.  Embora se perceba essa falha no filme, estranhamente ele continua sendo uma obra-prima que emociona e tira o fôlego. Se os closes podem soar dramáticos demais, eles conseguem captar a essência do musical e da obra de Hugo, horrorizando-nos com a miséria. A intenção clara do filme é emocionar, deseja nos fazer chorar, mas não tem como fugir disso, já que o enredo conhecido é, de fato, comovente.

Les Misérables é um filme que tem, sim, suas falhas. Mas que se tornam pequenas quando se acaba de ver o filme, pois sabe como se aprofundar com maestria nas emoções humanas. Por ser tão épico, esse espetáculo musical se torna, então, a catarse dos sentimentos dos personagens que povoavam Paris.  E, já que para eles é difícil encontrar uma voz diante da miséria, o filme se torna crível por meio das músicas. Assim, o canto consegue expor ao mesmo tempo a vulnerabilidade e o esforço pela sobrevivência desses personagens. Cantam por uma vida idealizada e pela liberdade. Como diz uma das canções,  é a música de um povo que não será escravo novamente.