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Na noite de domingo (28), ocorreu mais uma cerimônia do Oscar, desta vez uma das mais aguardadas. Por entre memes e discussões em redes sociais, expectativas que duram anos, o que mais se falava era se Leonardo DiCaprio levaria a mais do que merecida estatueta como Melhor ator, pelo filme O Regresso. Também, após o anúncio dos indicados, constatou-se que a Academia não havia indicado nenhum negro nas categorias pelo segundo ano consecutivo, o que acendeu as discussões acerca do já evidente elitismo da premiação e da indústria cinematográfica.

Não é de hoje que a premiação tem seus favoritos e se repete em suas próprias fórmulas que produzem o que consideram um bom filme, um bom ator, um bom desempenho. Cinebiografias, por exemplo, são admiráveis, mas por vezes a Academia fecha os olhos para atuações de personagens extremamente bem criados porque assegura, ainda, que interpretar alguém que já existiu é a máxima demonstração de competência. O que é irônico, pois muitas das cinebiografias acabam por serem adaptações que deixam de lado fatos realmente relevantes das pessoas que homenageiam.

Também já pudemos ver como a Academia é restrita para mulheres. Foi apenas com Guerra ao Terror que uma diretora ganhou um Oscar na categoria, e até então só houve quatro indicações de mulheres na categoria. Em 2016, somente 22% das indicadas são mulheres. E a este ponto chegamos à ausência de negros este ano, da premiação. Muito foi dito, em comentários pelas redes sociais, de que “se o ator é bom, vai ser premiado por isso e acabou”. O ponto é que não se trata de meritocracia, no Oscar, e sim, nas palavras da Viola Davis, que muitas vezes já representou a causa em seus discursos ao ganhar o Oscar como Melhor atriz ou outras premiações, “é questão de oportunidades”. Quando é que se cria papéis grandiosos para atores negros? Normalmente o espaço é secundário e, mesmo que se alerte sobre a história de escravidão – e é importante que se faça filmes como 12 anos de escravidão, entre outros -, a América ainda premia e dá espaço apenas para filmes do gênero. Não é à toa que um filme grandioso como Selma, no ano passado, teve pouca divulgação e parece ter sido esquecido, apesar de ser um filme fiel à história de Martin Luther King. Talvez, justamente, por apresentar as várias manifestações e violência policial sofrida por negros que representaram os ideais de liberdade junto a Luther King.

Com isso, é possível pensar em como foi encaminhada a apresentação da cerimônia. O ator e comediante Chris Rock começou muito bem apontando, com muita sagacidade, que o que falta são as oportunidades, que um ator como DiCaprio tem ótimos papéis todo ano, mas o mesmo não ocorre com colegas de trabalho negros. Ele afirmou, ainda, que boicotar a premiação não seria suficiente, mais vale estar lá até mesmo para que se possa falar a respeito.

Com humor, ele mostrou até como seria o esforço de encaixar atores negros de maneiras inusitadas em cenas dos filmes indicados, para que, pelo menos, aparecessem de alguma forma. O início de sua apresentação foi muito bem acertada, contudo, houve momentos de deslizes em que o ator não soube ver que, ao mesmo tempo em que clama por direitos de um grupo evidentemente excluído, ironizava tantos outros, como a crítica válida, de muitas atrizes, ao fato de que no tapete vermelho só pedem para saber o que vestem, ou ainda expor crianças em uma piadinha sobre a comunidade oriental. Assim, o tom de humor foi perdendo o rumo e a sensação foi de que a cerimônia optou por esgotar o roteiro de piadas usando o próprio Chris Rock para tornar tudo aquilo em um espetáculo passageiro. De início, o comediante falou muito bem e sua posição foi forte e admirável. Mas, aos poucos, passou a ter o incômodo de notar que a Academia havia se apropriado do discurso do oprimido, esgotando a sua crítica.

Os filmes premiados

Quanto às categorias, a premiação foi, em grande maioria, justa.  Spotlight iniciou a noite ganhando em Melhor roteiro original, o que indica que o forte do filme foi justamente a sua temática. Baseado em toda a investigação feita pela equipe de jornalistas em Boston que chegou, com muito custo, à conclusão de que mais de 80 padres estavam envolvidos em abusos de crianças. Um filme que, sem dúvida, impulsiona o fascínio pelo jornalismo investigativo, trabalho admirável que se perde entre uma grande imprensa que valoriza, cada vez mais, a efemeridade das redes sociais e a notícia como veiculação de entretenimento. A categoria também teve a surpresa de indicar Divertida mente, animação da Pixar, o que mostra que o filme conseguiu ultrapassar a própria categoria.

Mark Rylance, Brie Larson, Leonardo DiCaprio and Alicia Vikander with their Oscars

Em roteiro adaptado, foi A grande aposta o filme premiado. Trabalho bem feito ao explicar com simplicidade e humor todas as consequências da crise econômica americana de 2008, mostrando que, no fim das contas, estamos mesmo é nas mãos dos bancos, um poder com o qual não conseguimos competir. Numa sociedade consumista que preza pela idealização de figuras públicas e sub-celebridades, a verdade do que ocorre entre as relações de poder ficam por debaixo dos panos. É possível até pensar A grande aposta com o alerta de Spotlight, pois nosso jornalismo, que seria o meio possível para mediar estas relações e apontar a gravidade dos fatos, acaba falhando. Porém, com surpresa, o cinema, com estes dois filmes, conseguiu o mérito de falar sobre o assunto.

Nas categorias de Melhor atriz coadjuvante e Melhor atriz, Alicia Vikander (A garota dinamarquesa) e Brie Lerson (O quarto de Jack), respectivamente, deram frescor às categorias. Duas atrizes que vêm trabalhando muito nos últimos anos e agora, com mérito, obtiveram o reconhecimento por seus papéis excelentes nas telas. Vikander dá frescor, leveza, poder e força para a pintora Gerda. E Lerson cria um dos mais belos retratos da figura feminina ao dar forma à Joy, mãe de Jack.

Mad Max foi, também, um efeito de euforia na cerimônia. O filme de George Miller saiu com seis estatuetas no bolso, what a lovely day, como diria um dos personagens do filme. Que dia adorável para ver a grande produção ser reconhecida pelo talento técnico de criar este deserto impossível, quente, doloroso e enlouquecedor. E ainda teve a figurinista Jenny Beaven subindo ao palco para receber seu prêmio, com uma jaqueta de couro semelhante às que criou para o filme, com uma caveira às costas, totalmente confortável com sua roupa, enquanto muitos foram vistos sem aplaudi-la. Ademais, a trilha sonora de Mad Max era forte o suficiente e não foi indicada à categoria, tampouco o talento de Charlize Teron como Furiosa.

mad max

Já o filme O Regresso levou para casa a estatueta de Melhor fotografia, o que foi justo por todo o trabalho de direção em buscar o extremo da beleza natural engolfada pela neve, responsável por conceder força e transcendência ao filme de Iñárritu, premiado também como Melhor Diretor. E teve a cereja do bolo, com Leonardo DiCaprio saindo vencedor da noite em Melhor Ator.

Em Melhor ator coadjuvante, muitos torciam por Sylvester Stallone, indicado ao prêmio mais pelo conjunto da obra, afinal, ele volta como o lendário Rocky Balboa em Creed. Ou na competência já demonstrada em diversos filmes por Tom Hardy, em Mad Max. Na categoria tinha Mark Ruffalo também, indicado por Spotlight, mas o filme não lhe deu a chance de apresentar uma atuação notável. E o ótimo Christian Bale, que apresenta uma acertada esquisitice com seu personagem em A grande aposta. Mas foi, então, Mark Rylance, por Ponte dos espiões, quem surpreendeu e ganhou o prêmio, mesmo com uma aparição breve no filme.

A categoria de Efeitos visuais acabou por consagrar um filme um tanto esquecido entre a lista, Ex Machina, de gênero sci fi que subverte as expectativas que se tinha em relação à premissa do filme, “uma máquina pode convencer um humano de que ela é capaz de ter sentimentos?”, baseado no estudo de Turing. Esta discussão sobre os limites da existência humana, apesar das fortes distinções entre os gêneros, foi sutilmente observada logo na edição inicial da cerimônia, entre O Regresso e Ex Machina. Em ambos os filmes, os personagens se encontram em limites do que se espera para eles, um é humano feito de carne e demonstra ser quase divino por tudo o que consegue fazer para sobreviver, alcançando o ponto de não temer mais a morte; e a personagem que é máquina, que tem todo o conhecimento humano nas mãos, mas deseja obter o estado de ser entre outros humanos, e sua transcendência significa justamente integrar esta vida frágil e bela de comunhão entre uma sociedade. Pode ser que na categoria,Mad Max ou Star Wars merecessem mais a estatueta, porém Ex Machina merece ser visto.

Houve também discurso da diretora de A girl in the river, documentário em curta que conseguiu o mérito de modificar uma lei no Paquistão, o que comprova que cinema pode ser engajamento; a primeira estatueta para o Chile em curta de animação, por Bear Story, e a emoção de ver nossos colegas de continente diante da conquista; mais uma vitória de Iñárritu, mexicano, em uma América que ainda segrega pelo preconceito contra os latinos; e o Brasil, belamente representado na categoria de Melhor animação com o delicado O Menino e o mundo. O filme trata de capitalismo, consumo, engajamento social, trabalho exaustivo das fábricas, e a simplicidade da comunidade que povoa as favelas, tudo visto pelo olhar deste menino que sobrevive. Foi Divertida mente que levou a estatueta para casa, mas fica o orgulho de ver um projeto brasileiro tão bonito ganhar espaço.

Em Melhor filme estrangeiro foi O filho de Saul o premiado, o qual mostra de maneira intensa o período do Holocausto. Na categoria havia ainda o elogiado Cinco graças (Mustang), filme francês que trata da cultura turca; O abraço da serpente, trabalho admirável de fotografia em plena floresta Amazônica; o filme dinamarquês A War, e O lobo do deserto, da Jordânia, concorriam também.

Vale ressaltar que a grande injustiça desta edição do Oscar foi não ter premiado a cantora Lady Gaga e a composição de ‘Till it happens to you, canção para o documentário The Hunting Ground, o qual dá voz às vítimas que sofreram estupro nas universidades americanas. Com uma apresentação simples e poderosa, Lady Gaga conseguiu demonstrar a dor das vítimas, que se encontravam no palco, e ainda a sua, pois a cantora foi abusada aos 19 anos, assim como a compositora. A Academia, porém, acabou por conceder o prêmio à Sam Smith, pela música de 007, e ainda após uma péssima apresentação do cantor, o que deixou bem evidente quem de fato merecia o prêmio.

A música cantada por Lady Gaga também acaba por emendar com a premiação do documentário Amy, sobre a vida e trabalho de Amy Winehouse. O documentário apresenta o quanto a cantora esteve submetida à uma relação complexa e abusiva com o pai e o namorado, os quais acabavam por estimular seus vícios e encontrar na cantora apenas uma fonte de renda promissora.

Melhor filme

A principal categoria da noite ainda rende muita discussão. Pelo menos cinco filmes tinham grande qualidade para levar a estatueta,Spotlight, Mad Max, O Regresso, A grande aposta e O quarto de Jack. O filme premiado foi Spotlight. Em termos estéticos, os dois filmes que mereciam a estatueta eram Mad Max, essa máquina intensa que foi o filme, conquistando público e crítica, e o poder intenso da direção de Iñárritu em O Regresso, filme que deu um trabalho incomensurável ao procurar locações inóspitas, e expor o elenco a uma longa preparação, lidando com temperaturas baixíssimas e com a intensidade da natureza. Estes são dois filmes que ficam após a premiação, dois grandes exercícios cinematográficos, singulares. Mas é Mad Max que alcançou o feito de elevar os efeitos especiais, a trilha, o enredo, o poder do elenco a um patamar memorável.

Spotlight, por sua vez, foi um filme bem executado enquanto adaptação de um roteiro. Precisaram lidar com um tema espinhoso e o fizeram muito bem, ganhando fôlego ao mostrar que há algo de heróico no jornalismo, e ainda fizeram uma história ser bem contada, e impossível de esquecê-la. Contudo, enquanto produção cinematográfica, ele é muito convencional, sentimos falta de uma singularidade da direção, de uma fotografia bem cuidada e profundidade dos personagens.

A grande aposta tem uma excelente execução, também, em relação ao roteiro. A edição é o grande mérito do filme, que consegue transformar um tema urgente e difícil em algo compreensível. Mas por vezes o que dificulta o resultado de A grande aposta é ainda o seu ritmo, por vezes arrastado. Por fim, O quarto de Jack tem um roteiro forte, com um elenco perfeito, e acabou sendo meu favorito por se tratar de um filme com sensibilidade única em seu retrato da relação entre mãe e filho, é mais um filme inesquecível nesta lista.

Leonardo DiCaprio

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Esta imagem não é meramente ilustrativa. Já foram cinco indicações ao Oscar e 25 anos de carreira. No ano passado, tudo indicava que DiCaprio finalmente ganharia por sua atuação em O Lobo de Wall Street. Mas precisou de mais um ano para que a Academia premiasse o ator por seu personagem Glass em O Regresso. Leo é um dos atores mais populares, isso fica evidente com a massiva campanha feita para torcer pelo ator. A maioria conheceu seu trabalho em Titanic e acabou por acompanhar o seu comprometimento cada vez mais forte com o cinema. Chegou um momento em que não havia mais DiCaprio, ele havia transcendido o seu nome e o que existia era um personagem fundado, com gestos e voz própria.

Em O Regresso, ele concede uma força que dificilmente se vê em um ser humano, ao lutar e sobreviver arduamente após um ataque de urso. Para isso, o ator imergiu no universo deste personagem que é um pai o qual perdeu tudo, e só tem esperança a partir desta mesma floresta que é capaz de matar por ser simplesmente a mais grandiosa força.

A popularidade do ator, a imensa comoção para que ganhasse o prêmio, é bem justificada. Parece ser algo maior do que mais um fenômeno de memes da internet. Leonardo DiCaprio mostra, de fato, seriedade nas suas escolhas por grandes personagens, e comprometimento com o cinema.

E, por favor, alguém faça uma grande compilação dos memes e tweets, deixe na mesa do Leo para ele ler no café da manhã com o Oscar ao lado, para ele saber que tudo isso foi um fato histórico na internet. Uma nova era de memes começou. Ou esperamos que nada disso tenha sido mais um sonho, como em A Origem.

 

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Oscar 2016 | O quarto de Jack

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Indicado a quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor atriz (Brie Larson), Melhor roteiro adaptado (Emma Donoghue)

Ao olhar a claraboia no teto, o mundo exterior parece adormecido e, as imagens dadas pela TV, soam como as verdadeiras imagens do mundo. Pode até ser que tudo o que existe é apenas aquele quarto. Como um mundo particular, é assim também que se funda a relação entre uma mãe e um filho. Os dias repetidos em manhãs de pães e frutas cortadas, café passado e leite com cereal, almoço feito incansavelmente todos os dias, a tarde preguiçosa e a atenção às brincadeiras, para o encanto esmorecer à noite, quando parece que o mundo exterior invade as fissuras da parede e revela as ilusões. A partir do momento em que isso ocorre apenas dentro de um quarto, e uma das partes se encontra em uma situação de abuso, é muito mais complexo.

Esta é a história de O quarto de Jack, dirigido por Lenny Abrahamson. Jack e sua mãe Joy vivem em um quarto feito por uma pia, um guarda-roupa onde o menino dorme, a cama que dividem juntos, uma pequena cozinha e uma televisão. O filme, de início, parece assumir literalmente a metáfora da relação entre mãe e filho: os dias que a mãe passa em casa, neste mundo que funda junto às descobertas do filho, o amor e compaixão em cuidar desta pequena vida e as complexidades do papel que assume socialmente, e os que deixa para trás quando assume esta função. Ou seja, aceitamos este teor fantástico de O quarto de Jack, pois identificamos bem o real sobre o qual ele fala, sabemos que a vida doméstica pode ser um confinamento, mesmo que a mãe ame seu filho. Contudo, logo o filme revela que aquele quarto é uma situação literal de confinamento, que não é apenas a falta de ar que sentimos pelo cotidiano da personagem: Joy foi sequestrada e o seu filho é fruto desta relação abusiva que perdura há anos.

Por entre a delicadeza da história narrada por Jack, esta criança de cinco anos que se encontra descobrindo o pequeno mundo em seu quarto, e as pressões reais em que Joy se encontra, o filme O quarto de Jack se estabelece com perfeição. O trabalho entre a melancolia e o choque de conceber que a fantasia infantil se esvai quando nós, espectadores, nos deparamos com os fatos, mostra que somos Jack por um instante para, depois, assumirmos o lado de Joy. Este novo passo no enredo transforma o que seria um filme doce em um belo retrato sobre toda a complexidade da figura materna.

Enquanto sociedade, exigimos dela todo o comprometimento e responsabilidade com a educação da criança. Mesmo quando existe a figura ausente de um pai abusivo, figura que, no caso, deveria ser a única criticada quando se questiona o futuro de Jack. Não é esta ausência que se mostra mais forte em sua educação, deixando marcas? Pois com todo o esforço heroico materno, Jack é capaz de transferir as correspondências deste pequeno mundo que funda com ela, para a complexidade da esfera pública.

Com a excelente atuação de Brie Larson, como Joy, e o novato Jacob Tremlay, interpretando com maestria Jack, o filme se engrandece por uma troca íntima entre os dois personagens, numa presença e jogo de atuações teatrais, pois o quarto recebe a presença aprofundada destas duas figuras que, rapidamente, se tornam próximos dos espectadores como se estivessem em um palco expondo seu cotidiano. As dores são, assim, compartilhadas, e O quarto de Jack faz pensar e muito acerca de nossa postura como filhos e como pais.

O grande mérito do filme é demonstrar que Jack não é o protagonista. Como toda herança educativa, para que esta criança seja protagonista em um mundo público, ele será protegido, cuidado e educado pela família. Acompanhamos o processo de crescimento do garoto, e principalmente, o de sua mãe. A força que existe em Jack vem da mãe, mas pode-se falar que é mútua. É uma força que nasce entre eles no mesmo quarto, no mesmo instante. No fim das contas, não é Sansão a figura heroica de Jack, nem o cãozinho Lucky que idealiza ter um dia. É a força que vem da mãe que, com sinceridade, não deixa de demonstrar quando vai desabar e precisa dele.

Neste jogo acertado das sensações, O quarto de Jack apresenta a beleza do mundo nos detalhes descobertos pelo olhar da criança, a forma com que o crescimento desta se dá em face do mundo. E o quanto o heroísmo materno é uma preciosidade que nasce em circunstâncias impossíveis. Seria de direito de Joy não ter este filho. Mas a partir do momento em que se encontra enclausurada, Jack acaba por ser seu igual, com quem precisa criar um mundo para sobreviver. Neste jogo humano, o filme não exalta a maternidade como necessária e exigida para que uma mulher seja feliz, afinal, ainda assim, Joy teve um histórico de abuso e isso nunca pode ser esquecido.

Desta forma, O quarto de Jack assume admiravelmente, as dificuldades que, por vezes, muitos filmes comerciais optam por ocultar. Fala das diversas faces da depressão, da maternidade, do horror de uma sociedade que culpabiliza a mãe. E o filme trata dessas temáticas com a melancolia exata, a qual consegue não resumir facilmente essas situações em desfechos solares, e nem ignorar a beleza heroica do relacionamento entre Joy e Jack. Portanto, assistir ao filme O quarto de Jack é conseguir chegar até a claraboia, ver os detalhes do mundo, mas compreender ainda mais as fissuras do nosso quarto. O olhar é, assim, aberto para o outro que reside conosco neste quarto, e a ligação misteriosa construída em vida nos inúmeros dias com nossas mães.

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Oscar 2016 | A garota dinamarquesa

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Indicado a quatro categorias: Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor atriz coadjuvante (Alicia Vikander), Melhor Figurino, Melhor Design de Produção

Foi no corpo do pintor de paisagens Einar Mogens que Lili Elbe nasceu. Mas apenas revelou-se existir desde sempre quando o pintor começa a posar para os quadros da esposa Gerda quando as modelos estavam ausentes. Esta é a história do filme dirigido por Tom Hooper (O Discurso do Rei), adaptação de um romance inspirado na vida das pintoras dinamarquesas Lili Elbe e Gerda Wegener.

O filme apresenta a descoberta da independência de duas mulheres. Gerda deseja ser artista reconhecida e vive a dificuldade de estar à sombra do marido, pintor de paisagens admirado entre os salons. Ela é determinada e busca no universo do ballet e no feminino a inspiração para seus quadros. E é, então, em um destes momentos que Einar se encontra também, ao tocar os tecidos, colocar as meias de seda e o sapato, encantando-se pelo gesto feminino com o qual ele se identificava. Ambos resolvem, então, criar esta personagem chamada Lili apenas como brincadeira. Contudo, Lili sempre existiu e Einar a negava. O que acompanhamos, então, é a tentativa de Einar em assumir-se como Lili e as implicações em seu casamento com Gerda.

O curioso é constatar que o filme não explora exatamente o histórico de Einar. Por vezes, de início, parece simplificar um pouco e se arriscar em reduzir Lili em uma escolha despertada apenas pela sedução de tecidos. Contudo, felizmente, a atuação de Eddie Redmayne aprofunda a personagem. Se o ator surpreendeu pela exatidão de gestos ao interpretar o físico Stephen Hawking em Teoria de Tudo, apesar de estar em um filme que não correspondeu tanto a excelência de sua atuação, em A Garota Dinamarquesa Eddie Redmayne convence quem tinha receio que fosse apenas um nome que Hollywood exaltou na época do Oscar. A impressão inicial, dada pelo trailer, é que não havia muito a que se contar no filme e que o risco era apresentar um filme fraco que se sustentasse apenas na necessidade de ser premiado por contar com um nome de peso e uma cinebiografia que é, naturalmente, admirada pela premiação.

Há também o problema de representatividade da comunidade trans. Sabemos que, infelizmente, não se contrata uma atriz transexual para interpretar o papel e o quanto isso indica a dificuldade de povoar uma indústria que exclui e é heteronormativa e branca. Tanto que o Oscar 2016 já começou com a polêmica de não ter nenhum ator negro indicado.

Visto isso, porém, a atuação de Eddie Redmayne é delicada em sua proposta e é claro o respeito pela sua caracterização. Lili encontra apoio nos objetos que circundam o universo dito feminino porque, no fim das contas, ela não se sente uma personagem como Lili. Os objetos acabam por permitir que se sinta livre, como Lili. O personagem, na verdade, o qual ela precisa sempre interpretar aos outros, é Einar. O terno já não é mais confortável em seu corpo. E muito menos o seu corpo. O incômodo em existir de tal forma, sem corresponder aos seus desejos e à identidade de seu próprio corpo, é um ponto extremamente bem desenvolvido na trama.

O filme erra de alguma forma quando busca simplificar as duas personagens como se fossem opostas, Lili em sua identidade como se fosse o puro feminino – a imagem da mulher que se veste com todos os adornos ditos femininos -, enquanto Gerda tem gestos abertos, mais duros e ousados, que seriam vistos à época como masculinizados. O que faz do filme A garota dinamarquesa, porém, é a atuação de Eddie Redmayne e Alicia Vikander. É o comprometimento de ambos na criação destas duas personagens que transforma o filme em um belo e emocionante espetáculo sobre a força de duas mulheres.

Durante o filme, é possível imergir no universo dessas duas personagens e compreender a dificuldade de Gerda em lidar com as mudanças do marido e o amor que dedica a Lili. No fim das contas, o filme reforça também a amizade entre mulheres, uma sororidade que funciona como a força que Lili precisa para ser a primeira transexual a tentar a cirurgia de mudança de sexo.

Ademais, a fotografia e figurino são de beleza extrema. Vemos a Copenhagen feita por canais e reflexos d’água encantadores – e não é à toa que fascinou o olhar de Einar como pintor -, e o universo feminino dos anos 20 construído em torno das duas personagens por meio de objetos, roupas, luvas, pele e tecidos que, somados, exercem a força de reconstruir uma época perdida.

Contudo, a direção de Tom Hooper é um caso à parte. O diretor, já interessado em dirigir filmes de época, peca em Os Miseráveis pela excessiva preocupação em dar conta de todas as músicas, criando um espetáculo visando apenas o diferente (como exigir que os atores cantassem em cena), deixando de lado a grandiosidade do próprio livro clássico e se esquece de situá-lo dignamente no século XIX. E em O Discurso do Rei sua direção é um tanto repetitiva e não se abre às possibilidades de grande desenvolvimento na história de seus personagens, optando em abordá-lo apenas por um viés cômico.

Embora Hooper tenha este histórico, A Garota Dinamarquesa é mais bem-sucedido. O diretor se preocupa em dar vida à cidade que é cenário importante, por meio da excelente fotografia, e situa bem os anos 20 pela estética da época. Mesmo assim, pode ser considerado mais um filme biográfico que adapta livremente a história de duas pessoas. Sem dúvida o filme só se amplia graças às atuações de Eddie Redmayne e Alicia Vikander. As cenas de nudez são belamente construídas, e há certa coragem na maneira com que o filme é conduzido neste ponto. Porém, ainda não é o suficiente. O roteiro deixa de trazer mais ao filme a complexidade que era a cirurgia de mudança de sexo, de expor mais situações às quais estas personagens se encontravam, de fato. Por conta desta necessidade de simplificar Gerda e Lili, deixam de mencionar o erotismo corajoso das obras da pintora Gerda Wegener e o fato de que Lili passou por cinco cirurgias numa tentativa de também construir o aparelho reprodutor feminino. Assim, o filme perde a chance de falar mais pela comunidade trans e toda a marginalidade social ainda enfrentada, além de apresentar mais sobre a vida das duas.

No fim, o que dá dignidade ao filme A Garota Dinamarquesa é ainda a beleza estética de sua produção e a riqueza na atuação de Eddie Redmayne e Alicia Vikander, que humanizam suas personagens e é o responsável por emocionar diante do filme. Tal trabalho torna o filme em um grande drama que, pelo menos, introduz o interesse por duas figuras históricas que merecem ser reconhecidas pelo grande público, Lili Elbe e Gerda Wegener.

Se quiser conhecer o trabalho da pintora Gerda Wegener, o site Nota Terapia fez um ótimo post a respeito, aqui.

Há também o depoimento concedido pela cartunista Laerte ao site UOL, aqui

E o romance que originou o filme foi escrito por David Ebershoff, editora Fábrica 231.

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Oscar 2016 | Carol

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Indicado a seis categorias: Melhor atriz (Cate Blanchett), Melhor atriz coadjuvante (Rooney Mara), Melhor roteiro adaptado (Phyllis Naggy), Melhor Fotografia, Melhor figurino, Melhor trilha sonora (Carter Burwell)

O aperfeiçoamento do olhar diante do mundo é tido como um rito de passagem. Registrar o brilho e as fissuras das cenas cotidianas, pela fotografia, além de ser uma tarefa técnica, é também um trabalho de vivência. E é este o dilema de Therese Belivet (Rooney Mara) no filme Carol. A jovem trabalha em uma loja de departamento vendendo brinquedos, no Natal, quando conhece a enigmática e encantadora Carol Aird (Cate Blanchett), por quem se apaixona e quem a acompanha nesta inauguração do mundo, para esta menina que gosta de fotografia, mas tem receio do próprio mundo o qual retrataria.

Ambas se encontram descontentes em suas vidas. Therese comenta que diz “sim” a tudo o que surge, pois não possui perspectiva alguma. O que ela tem é uma promessa de enviar o portfólio de fotos para tentar uma vaga no The New York Times, e sua vida se encontra adormecida na rotina. Mesmo a fotografia ainda é frágil. A presença repentina de Carol surge como o grande espetáculo ao qual ela, secretamente, esperava. Encontra não apenas uma musa, mas nos gestos poéticos, na elegância de Carol, em sua altivez, Therese encontra a articulação de seu olhar para os gestos poéticos que se passam, também, pelo mundo. Fotografar pessoas, no fim das contas, é se reconhecer entre elas.

Carol, por sua vez, vive uma vida de negação em um casamento que está em processo de divórcio. Ela se vê como mãe presente, mas não como esposa. E o casamento a faz negar o passado com a amiga Abby. Therese é, como ela diz, um anjo caído porque traz o frescor de finalmente assumir quem ama. Carol vive entre o artifício de suas luvas, dos casacos de pele e da casa de campo. Mas tudo chega às ruínas quando a verdade é exposta: não é aquele casamento o que ela sonhava para si mesma.

Estas duas personagens se encontram, então, numa Nova York pós-guerra dos anos 50, que será hostil à liberdade de viverem juntas. Neste cenário, o próprio olhar de Therese como fotógrafa ecoa nos enquadramentos do diretor Todd Haynes. É possível sentir a perfeição do período em todas as roupas escolhidas, a ambientação, a trilha sonora. E a delicadeza da fotografia revela o rosto de Therese sempre por entre as janelas manchadas pela chuva, as cabines de telefone, como se o mundo que ela visse, agora, estivesse sendo analisado, e a encantasse tal qual o olhar por trás da câmera fotográfica. Carol, porém, aparece abertamente. Cate Blanchett incorpora perfeitamente a figura de sua personagem. É esmiuçado pelo diretor todos os gestos, os cachos loiros, o olhar e os objetos que circundam Carol Aird. Mas Therese não deixa de ser vista também, com encanto, por Carol. E é assim que a relação das duas se constrói a partir de um encontro inesperado.

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O cenário de uma Nova York sexista, contudo, passa levemente pelo enredo. O seu embate é apenas em breves cenas, pontuais, à liberdade de Carol. Parece ter sido uma opção do roteiro não estender a temática a uma posição mais afirmativa, politicamente falando, para que o filme focasse na descoberta pessoal de Therese. No fim das contas, ela não sabia muito bem o que se passava com Carol. O ponto é que desenvolver este embate duro de uma sociedade moralista com a relação homoafetiva poderia ter engrandecido as histórias. No fim, sabemos pouco destas duas personagens. Nenhum passado, pouco é dito. Fica claro, então, que a ideia foi relatar apenas uma (bela) história de amor. Mas que, mesmo assim, poderia ter trazido à tona o mundo do qual estas personagens faziam parte, o ambiente doméstico do casamento, a fotografia e o jornalismo para uma mulher. E um tribunal que cerceia a liberdade de viver publicamente com quem se ama.

Portanto, Carol é um filme de sensações e exposição da beleza ao olhar. Ele encanta pela leveza do amor entre Carol e Therese, e pela fotografia a qual revela as particularidades do mundo desta personagem que redescobre a beleza numa compra de árvore de natal entre a neve. E o poético no observar, pela primeira vez, todo o espetáculo presente nos gestos de uma só pessoa.