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Entre dois versos

Isso é a vida real?
Isso é só fantasia?
Vivemos entre os dois versos
Que carregam na interrogação 
O peso da escolha.
Fantasia inebriante, alucinógena felicidade,
Ilusões de um estar profundo no eu.
Realidade bruta, com as palavras do dicionário
Martelando a folha de papel,
Tinta e curvas, letras.
O ponto final é definitivo,
A vírgula, um intervalo, comparação
Entre os dois mundos que me envolvem.
Mas e se houver uma vírgula na qual me seguro
Titubeante, entre os dois versos?
Os dois lados irreconciliáveis,
O doce e o amargo,
Existem nesse curvar da ponte que me sustenta,
E me empurra para um caminho estranho:
Eu mesma, nascida na linguagem.
Vírgula que se prende às trincas do asfalto
Faz sentenças diversas na realidade concreta
E permeia essas trincas com poesia viva,
Ambígua,
Pacificadora dos extremos.
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Fala

Sou meio hiperativa com as palavras desde pequena. Minha mãe deixou escapar esses dias que talvez a minha vó deve ter feito alguma simpatia escondida para que eu começasse a falar logo. Deve ser isso. Passou a fazer sentido. As pessoas, quando ligavam em casa (esse passado em que se utilizava telefone com frequência. E também porque eu era criança), acabavam por me estimular a falar. Contava tudo da escola, sobre o brinquedo que minha amiga tinha levado, qual eu escolhera para aquele dia, as histórias que eu criava para meus ursinhos e bonecas – essas eram longas, praticamente novelas – tudo era motivo para minha fala. Nos momentos de quietude eu deitava no quintal e gostava de olhar as nuvens e o céu girando. Não, isso não é recurso poético em meu texto e nem possui uma premissa implícita, como se estivesse dizendo “ah, desde pequena eu era uma pequena filósofa, questionava o mundo a meu redor!”. Não, era apenas curiosidade infantil, ficava olhando as nuvens se movimentando. Desfaziam-se em enigmáticas imagens que eu tentava decifrar. Talvez fossem o início de meus devaneios.

Os desenhos animados me conduziam a desenhar também. Lembrava das falas dos filmes do Harry Potter e as repetia. Tudo bem, talvez até hoje haja um resquício dessas falas na minha memória, não vou negar. Músicas da Disney também grudavam ao meu dia, mas eu gostava mesmo é de desenhar os personagens que conviviam comigo durante o dia, na TV. Talvez esse fosse o momento introspectivo em que as palavras do dia se tranquilizavam e eu deitava no chão do quarto apenas para desenhar. Sempre com música, Toquinho tocava com muita frequência em casa.

Depois que eu cresci e comecei a ler Fernando Pessoa eu entendi a história de sentir essa ebulição interna. Começo a falar e já quero escrever. Não com a grandiosidade dele. Mas sem dúvida o surgimento dos heterônimos nas obras de Pessoa despertaram em mim a ideia de que talvez não seja tão esquisito (um pouco) ter tantas ideias se cruzando mentalmente.

Durante as minhas aulas da faculdade, ouço palavras tão belas! Sinto-me Macabea com seu fascínio pelas palavras que ecoam no rádio. Pompidou, Baudelaire, Renoir…tudo relacionado a arte, não tem jeito. Eu percebo que, ao falar Kandinsky, as letras unidas provocam uma sonoridade tão profunda que me faz pensar, no momento da fala, em mágicas explosões de cores, linhas para todos os cantos. Não deixa de ser um tanto próximo das obras que ele já criou. E Delacroix? Que nome heroico! Não apenas porque ele pintou o quadro Liberdade guiando o povo, tão reproduzido por aí em capas de livros baratos de Os Miseráveis. Não, é um nome imponente que me faz imaginar uma transcendência do Dela para o croix que deve ser a responsável pela sensação grandiosa ao observar seus quadros, creio que até sorrio por dentro quando falo seu nome.

Após essa explanação tão repentina sobre os nomes dos artistas – provavelmente, ao terminar de escrever esse texto, vou achar que minhas observações foram insanas demais – eu percebo que sempre tenho mais uma palavra a acrescentar. Tanto à minha fala quanto a esse texto. É difícil lidar com a infinitude do discurso. Parece-me que a maior preciosidade que tenho é a linguagem, dada a mim para me socializar com os outros e, principalmente, traduzir a minha própria existência.

Mas como lidar com o fato de que sempre posso dizer algo a mais? Sei que às vezes o silêncio do final de um texto alcança maior profundidade do que determinadas frases, pois permite, humildemente, que fique ecoando em cantinhos da memória o que foi dito. Elas guardam-se lá e, com o passar do tempo, recriam-se. Proliferam-se em novas ideias. E é, desta forma, que vou enrolando-me em letras para construir um silêncio finito, que se explode em palavras e ideias novas.

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Entrelinhas

Sorver o café como quem deseja apenas que ele permeie os caminhos melancólicos do pensamento. Um catalisador para a alma. Rapidamente o alívio toma conta das dúvidas. Sobra apenas o devaneio ao encarar as pessoas caminhando displicentemente. Ecoa a ideia de que tenho em mim, essencialmente, a capacidade de representar os objetos à minha frente. Eu, um artista que representa, também sou representado. Como assim? Risível, talvez. Mas é como se fossem aquelas pinturas, de Velásquez, em que o artista aparece pintando o próprio quadro, sabe? Ganho sentido quando represento. Muitos discutem se essa representação se faz visando a realidade como é. Às vezes, gosto daquela representação entrelaçada à imaginação. A cada sentido nas entrelinhas, as nuances da linguagem que uma frase escrita no papel ou dita levianamente não conseguem explicar. É aquela tentativa de falar mais, apoiada na palavra para representar, sempre com uma vírgula a mais, o que presencia, o que sente, o que vê. E quando chega ao suspiro de decepção ao perceber que não alcança o silêncio da resposta. Como descrever sentimentos sem o peso das palavras já tão pronunciadas, correndo o risco de torná-las clichê? O silêncio pode dizer mais? Às vezes parece ser mais fácil explicar o atordoamento nessa tentativa de representar os fatos do que realmente retratá-los como são. É disso que a arte vive. Difícil conseguir dizer qual é a essencialidade da palavra e do ser. Como fazê-lo sem representações? Não é a intenção dizer que se deve viver apenas com modelos da realidade, perdendo-se nas ilusões, a ponto de confundir o que imagina com o que é possível existir. Porém, como conseguir se desvencilhar do ato de representar, sem se deixar definir por essa ação? Estou na realidade, mas também na representação, no hábito de repetir o que creio ver e tentar alcançar as longínquas entrelinhas, até a palavra se esgotar e alcançar a explicação.

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Entre a pena e a palavra

A pena calada aguarda as palavras
O contorno leve de uma letra
Para desenhar no papel.
Sombras de ideias
Vagam por um deserto
Ansiosas pelo encontro
Entre sombra e corpo.
Ideias fugidias
Olham sarcásticas,
Desviando da pena.
Fogem divertidas pelo deserto.
Pontos de exclamação!
Interrogação?
Deixam a trilha na areia
Um pensamento vindo à tona.
A pena segura carinhosamente a mão da palavra
E encaminha-a para o papel
A inspiração toma conta do poeta
Em rimas, palavras e doçura.
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Arte poética

Estou numa alfabetização poética
Sim, eterna!
Eterno aprendizado das letras
Parece que foi ontem que comecei a escrever
Poemas? E foi mesmo!
Comecei com uma rima atrevida… sem propósito
Apenas o de ver as palavras se casar
Em rimas e amores!
Ainda há muita métrica pela frente,
Rimas para descobrir e adorar o verso livre
O poeta é como o ourives,
Já dizia Olavo Bilac,
Cria jóias a partir da pena.
Para mim, as palavras nunca serão perfeitas
Como o mais belo cristal
Sim, serão belas!
Mas se fossem perfeitas,
Qual seria o encanto de escrever mais e mais?
Só escrevo com ímpeto:
O de tornar as palavras humanas no papel
É um atrevimento?
Ah, tal qual é o de escrever uma poesia!