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OBRA DE ARTE DA SEMANA | Os afrescos de Pompeia, do Museu Nacional

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Publicado no site Artrianon

Um fogo que consome livros, bibliotecas e museus destitui o valioso atestado de sobrevivência das narrativas humanas. Desfaz-se em cinzas tudo aquilo que demonstra como povoamos o mundo. Numa tentativa de tatear esse obscuro caminho de existência, aprendemos também a lidar com a relação paradoxal do museu com a morte: celebramos, nas salas, uma espécie de luto vivenciado pelo fato de que vemos e falamos de sociedades longínquas, de vidas e culturas as quais não possuem mais aqueles objetos. E, ainda assim, o museu ganha a difícil responsabilidade de preservar a história de todos que vieram antes de nós.

Escrevo esse texto com muito pesar, e gostaria que pensar que se trata de um pesar coletivo. Contudo, com o passar dos dias, nem mesmo essa catástrofe que foi o incêndio do Museu Nacional conseguiu estabelecer uma espécie de consenso em um país cheio de brutalidade e opiniões defendidas como propriedade. Ainda falta ao brasileiro enxergar as ruínas do museu como um espelho, e não como restos substituíveis por uma construção que venha para repor paredes perdidas.

A morte de uma obra de arte, desfeita em cinzas, é também uma morte de nós mesmos. Em um local como o Museu Nacional, havia o trabalho de pesquisadores e estudantes que sustentava as colunas, os mesmos que invadiram salas para tentar retirar o máximo que podiam do que é insubstituível, em um embate desigual com as chamas e com a negligência política.

As ruínas do Museu Nacional retomam as ruínas de Pompeia. Porém, se nessa última a catástrofe foi natural, de uma força descomunal vinda de Vesúvio, a que destruiu o museu é de uma ordem mais perniciosa, que só aparenta ser invisível: é de lava, sim, mas que parece escorrer há muito tempo pelas ocupações, pelas favelas, pelas universidades, por centros históricos e pelos museus. Como muita coisa velada no Brasil, é um exemplo de ausência de projeto, de rememorar o passado, e de entender as ciências como pilares da civilização. Mas coluna alguma se sustenta sem restauração, sem incentivo para a continuação das ciências.

Ainda é cedo para dizer quais foram as obras perdidas do acervo. Não há certeza se perdemos Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas, ossos de dinossauros e espécimes de animais. Ou se os afrescos de Pompeia se desmancharam nesse fogo atual. Mesmo assim, o cenário com que o Museu Nacional se deparou nos obriga a repensar Pompeia.

Na manhã de 24 de agosto do ano de 79, o vulcão Vesúvio despertou, surpreendendo os habitantes de Pompeia, Herculano e Stabia. As três cidades desfaleceram na lava, no gás tóxico, e nas pedras expelidas pelo vulcão em erupção. De um tempo tão longínquo, a história dessas cidades esquecidas só foi descoberta no século XVI, quando o arquiteto italiano Domenico Fontana tentou abrir um túnel sob o monte La Civita. Além disso, temos sobretudo o testemunho de Plínio, o Jovem (sobrinho de Plínio, o Velho, administrador e poeta romano) por quem se pôde vislumbrar os acontecimentos.

A visão de uma coluna de fumaça “como um pinheiro” do outro lado da baía desencadeou em Plínio, o Velho, uma reação mais próxima da curiosidade do que de alarme. O relato do sobrinho possui uma referência casual de Plínio aos tremores de terra “que não eram particularmente alarmantes porque são frequentes na Campânia”. Isso revela que os romanos desconheciam a ligação entre atividade sísmica (tremores de terra) e atividade vulcânica.

Pompeia foi sepultada por uma camada de 6 metros de cinza e pedra-pomes lançadas durante quatro dias. Já Herculano, cidade vizinha, ficou soterrada por uma camada maior ainda: 15 metros de cinzas e lava.

As escavações de Pompeia começaram em 1748, por ordem do rei Carlos III de Espanha, e assim o engenheiro Rocco Giacchino de Alcubierre iniciou escavações onde antes se erguera Herculano. Apenas a partir de 1763 o primeiro cadáver foi descoberto, revelando, assim, uma cidade petrificada pelo tempo. O corpo de inúmeras pessoas foi preservado em posições que indicam suas atividades no instante em que o vulcão entrou em erupção ou mesmo sinais de luta para sobreviver. É um dos registros mais tristes de se presenciar, esses corpos de humanos iguais a nós, com a cinza deixando presentificada a morte para os nossos olhos.

No Museu Nacional havia afrescos de Pompeia. A chegada deles no Brasil foi em 1855, como presente do rei das Duas Sicílias, Dom Fernando II, irmão da Imperatriz Teresa Cristina. A origem era desconhecida, mas gravuras do Templo de Ísis, em Pompeia, são indícios fortes de que tenham vindo desta região.

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Grande parte do acervo greco-romano da Coleção Imperatriz Tereza Cristina vinha das cidades de Pompéia e Herculano. A exposição do Museu Nacional guardava objetos do cotidiano dos habitantes daquela região: peças do toucador das romanas, vasilhames de bronze e vidro, amuletos fálicos, ânforas e todo o vasilhame usado para o consumo de vinho. Por ora não se sabe o que se perdeu no incêndio.

Com reflexos da cultura helenística, esse primeiro afresco datado do século I d.C fazia parte da parede do templo de Ísis. Segundo Gombrich, em A História da arte, “quase todas as casas e villas nessa cidade tinham pequenos murais, colunatas e galerias ilustradas, imitações de quadros emoldurados e de cenários de palcos teatrais”. Isto é, esses afrescos faziam parte do cotidiano dos habitantes de Pompeia, alguns podiam adornar as casas, e outros faziam parte de templos. Nos afrescos que eram preservados pelo Museu Nacional, observa-se uma espécie de serpente, um pássaro delicado e floreios.

 

No Museu Nacional havia 200 anos de história como construção. Havia a história de inúmeras pessoas que passaram como público. Como pesquisadores, como estudantes. Crianças que iam com o colégio ávidas para ver dinossauros. Uma história do mundo advinda de cada objeto, que falava sobre sua origem, que falava por uma era.

O homem contemporâneo não pode se esquecer de olhar para a morte. Não foram só os afrescos de Pompeia, mas toda a coleção de etnologia indígena, ameaçados pelo fogo. Isso quer dizer a perda de parte importante do registro da nossa língua. O que queimou no incêndio do Museu Nacional foi a nossa cultura, nossa história de nascimento, e ainda o registro de outros povos. Como pouco se faz no país, as ruínas do Museu Nacional precisariam permanecer como a ferida aberta e exposta de mais uma perda. Pois aqui é de urgência enorme que se lembre dos mortos.

Referências bibliográficas

Museu Nacional 

WALLACE-HADRILL, Andrew. Houses and Society in Pompeii and Herculaneum, Princeton University Press, 1994.

Pompeii: Portents of Disaster

Entrevista de Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo e professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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Meryl e Margareth

Sabe-se o quanto é difícil fazer um filme biográfico, ainda mais quando a figura é controversa, polêmica e ainda ativa politicamente. A dicotomia direita-esquerda pesa muitas vezes no roteiro e na direção, cada palavra hoje pode ser compreendida de uma maneira e por isso o cuidado ao tratar da Dama de Ferro, apelido sarcasticamente dado à primeira mulher no cargo de Primeira-Ministra da Inglaterra, Margareth Thatcher.

A frieza, o conservadorismo, o pulso firme ao governar a Inglaterra proibindo as manifestações sindicais, o gasto excessivo com uma guerra de motivos questionáveis tal qual a Guerra das Malvinas, a privatização e a recessão econômica após a Crise do Petróleo de 1979. Tudo isso caracterizou o governo de Thatcher. E ninguém menos que Meryl Streep para interpretar tal personagem complexa.

O filme aposta em flashbacks, com uma Margareth surpreendentemente envelhecida e frágil, com uma maquiagem muito real que consegue tirar qualquer vestígio do rosto conhecido de Meryl Streep, transferindo cada ruga da política para o rosto da personagem. Há cenas bonitas no filme, mostrando alguns fatos marcantes de sua história, mas o filme é de Meryl e Margareth juntas. As duas ofuscam o que poderia ser um filme biográfico, com os diálogos e o rigor característicos de um filme que tem como objetivo informar com maior exatidão.

Os fatos parecem estar meio soltos durante o filme, dando uma leve impressão de que falta uma autonomia do enredo em relação à personagem. Porém, ele não soa apenas como um filme comercial que busca a polêmica de uma personagem, colocando-a com uma só face. Devido à sensibilidade de Meryl ao tratar das nuances psicológicas de Margareth, é possível mergulhar nas lembranças da política sem qualquer peso na consciência por se envolver com a tristeza dessa mulher que assumiu um papel fortíssimo e com grandes responsabilidades. Não se trata de uma mulher maligna, apenas fria. Ela pode ser uma dama de ferro e inflexível até mesmo com os colegas de partido, mas a atuação de Streep permite humanidade e conquista o espectador.

Certamente, Margareth, com a sua firmeza insistente e até cega, tem a ambição ilimitada como fonte de seus erros. Os livros de História e os diálogos ideológicos a colocam como feita de ferro. O filme ousa em tentar ultrapassar as suas lembranças e achar uma mulher determinada em crescer. Talvez não seja possível dizer qual é a Margareth mais realista, porém a complexidade dada pelo filme parece aceitável.

O Cinema não precisa ser necessariamente real para contar uma história. Se quiser saber mais sobre Margareth, busque um livro, pois ele trará mais informações. O filme é uma oportunidade para presenciar uma excelente atuação que, sem sombra de dúvidas, dá um encanto novo a essa personagem histórica. Não dá para afirmar com exatidão se essa Margareth é verdadeira ou falsa, porém fica claro que sempre nos rendemos a Meryl Streep.

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Adolescência da Liberdade

Tema do Simulado Enem – Guia do Estudante 2010

Não é fácil discutir a importância das eleições no Brasil diante de tamanha corrupção noticiada pelos meios midiáticos. Adultos e jovens, nessa “pós modernidade”, perderam o interesse pelas Grandes Narrativas que já motivaram, durante a História, os brasileiros a se revoltarem, por exemplo, em face da República Velha e o poder restrito à elite, pertencente às oligarquias.

Essa perda de interesse pelas utopias é compreensível, pois se vê políticos comprando castelos com o dinheiro público ou ocultando-o na própria meia. Há uma verdadeira banalidade na política, porque parece que “os fins justificam os meios”, como disse Maquiavel ao abordar o poder no Ancien Regime. Os direitos defendidos na Revolução Francesa, além do conhecido lema “liberdade, igualdade, fraternidade”, parecem tornar-se inúteis ou meramente esquecidos no passado, sem fazer sentido no meio desse caos político que é a corrupção.

A atuação do jovem na esfera pública é fundamental para que haja uma constante mudança na política e evitar a deterioração de uma sociedade que continua com as mesmas ideias. Hoje são os mesmos políticos de ontem, com vasta lista de ações corruptas e degradantes, que governam o país, porque se perdeu o incentivo ao novo, à formação do jovem e à responsabilidade que deve ser destinada à juventude para que esta possua a capacidade de liderar as decisões dos brasileiros futuramente.

“A liberdade na adolescência é a adolescência da liberdade”, frase do filósofo Gusdorf, expressa o que é preciso ter em mente para guiar a juventude na política. As instituições como o Estado e a Família devem guiar o jovem de modo que este saiba lidar com o que lhe é herdado como a Cultura. O passado não pode tornar-se “coisa” sem utilidade e sim, deve ser revisitado pelo jovem. Este necessita aprender a aperfeiçoar a liberdade de escolha durante a vida, tendo consciência de que a liberdade na juventude é só um primeiro passo; uma liberdade ainda tênue, difusa, que crescerá a fim de possibilitar sabedoria diante da esfera pública e a persistência em acreditar nas Grandes Narrativas.   

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Ser utópico

 Após alguns meses, aqui está a minha redação do Enem 2009!

Na contemporaneidade é comum ouvir indivíduos dizendo que todos os políticos são corruptos. Ao falarem isso, cada um isenta-se desse “grupo” de corruptos e opta em permanecer, narcisicamente, fechado no próprio mundo. Mas, vivendo em sociedade, a grande questão é como estimular a ética coletiva em meio a tanta corrupção e receio de indignar-se com o que ocorre.

A filósofa Hannah Arendt contextualizou adequadamente o sentindo de conviver em sociedade: essa seria, metaforicamente, como uma “mesa”, em que aqueles que estivessem sentados permaneceriam com singularidade própria, as suas convicções, mas que, em face da mesa, buscariam um senso comum, ideias que pudessem ser justas a todos. A partir do momento em que o sujeito generaliza a corrupção, é como se a aceitasse e deixasse de buscar estabelecer culpas gradativas, isto é, punir aqueles que deixaram de exercer a autoridade (no sentido de conservar os direitos da sociedade).

Nesse ponto, na discussão acerca da culpa, Arendt também a diferenciou de responsabilidade. Ser responsável é aceitar transmitir preceitos, Cultura, História às próximas gerações; é não permitir a deterioração do mundo diante da nova geração que está se formando. E é exatamente da concepção de responsabilidade que a política necessita.

Portanto, estabelecer culpa a todos impede de haver justiça em sociedade. Dizer-se solitário por ser honesto é um equívoco, pois é função do sujeito cobrar justiça da autoridade que lhe representa. Como o filósofo do século XX, Isaiah Berlin, expressou, sonhar com um mundo igualitário em sua máxima expressão, é utópico demais. A ideia de liberdade e igualdade não consegue caminhar lado a lado, ambas se anulam entre si. Porém, é a utopia que move o ser humano a fim de tornar a sociedade a mais justa possível em face do impossível, da perfeição da utopia. É necessário construir um futuro baseado no passado e tentar alcançar as grandes narrativas, “repetir, repetir até ficar diferente”, como Manuel de Barros sabiamente escreveu.