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Escola em Minas Gerais educa garotas para serem princesas. Esse deve ser o destino delas?

Matéria publicada no site Fashionatto

Com a frase “todo sonho de menina é tornar-se uma princesa”, a Escola de Princesas, localizada em Minas Gerais, pretende fazer das meninas as princesas que supostamente sempre quiseram ser. O discurso de que a menina deve se comportar adequadamente como uma mulher em formação fica nas entrelinhas da intenção de fazer do espaço um lugar no qual ela encontrará o desejo de ser uma princesa. Talvez um desejo que nem ela mesma, uma criança que ainda está no começo das descobertas pelo que gosta, sabe se tem ou não.

A cada dia, a exigência para que a criança seja um mini adulto se torna ainda mais presente. A menina, desde cedo, deve se acostumar com a ideia de que só será feminina e aceita pelos demais se usar um vestido, se for magra. Esquece-se que a infância existe exclusivamente para a criança descobrir o mundo no qual está inserido, sem a pressão de ser uma adulta desde cedo.

A Escola de Princesas (aqui!) apresenta módulos com a finalidade de aprender qual é a “Identidade da Princesa”. Oferecem aulas de etiqueta para saber como se relacionar com os outros, uma forma de “fazer com que aqueles que estão ao seu redor se sintam mais confortáveis”. Precisa saber a ordem dos garfos e das refeições para os amigos a sua volta se sentirem confortáveis? Creio que não.

A única coisa que uma criança precisa fazer é divertir-se, aprender a construir a sua autoestima na própria realidade em que vive. Cada vida e educação são únicas, não existe um modelo exato para isso.  A verdade é que é muito difícil ser criança hoje em dia. Exige-se dela uma vaidade que destrói as poucas crenças que a criança obteve até então em sua vida recém-descoberta. Uma garota não deve pensar em cada passo que precisa dar só pensando se os outros vão se sentir “confortáveis”. Imagina se pensássemos em cada atitude do nosso dia sempre pelos olhos dos outros. Não sairíamos de casa. Imagine esse peso, então, para uma criança, se ela será aceita no grupinho do colégio, se faz bem em comer docinhos na festa ou se isso seria “deselegante”.

Encontramos também, no site, o argumento de que as pessoas conseguem fazer a leitura, total ou parcial, de tudo o que somos pela aparência, por isso, essa deveria ser uma preocupação das futuras princesas. Esse ponto faz lembrar o enredo do filme “Pequena Miss Sunshine”: a garota Olive sonha em participar de um concurso de beleza. Para isso, a sua família nada convencional pega a kombi amarela e parte para realizar o sonho da menina. Eles se deparam com o mundo plástico desses concursos de beleza nos quais as mães inscrevem suas filhas para enfeitá-las como se fossem mais uma boneca Barbie.

Olive não é como as garotas que estão no concurso, carregadas de maquiagem e cílios postiços: é uma menina que simplesmente quer ter um momento em que ela é o centro da família. É justamente essa família imperfeita que apoia a garota quando ela resolve fazer a performance dela no concurso. Se você não viu o filme, veja. A questão é que a apresentação de Olive escandaliza pela sinceridade, revela o cinismo do próprio concurso e das pessoas que estão lá. Ainda bem que Olive e sua família são diferentes. O que soa tão estranho e insano na performance é exatamente o que deveríamos considerar normal: uma criança querendo se divertir sem pensar se vai deixar os outros confortáveis ou não.

Mais um argumento apresentado pela Escola de Princesas é o de que o matrimônio é o “passo mais importante na vida de uma mulher. Nem mesmo a realização profissional supera as expectativas do sonho de um bom casamento”. Como é que se considera falar isso para uma menina que mal começou os seus estudos e nem tem autonomia para tomar as próprias decisões? De fato, o casamento é um passo importante. E por ser tão relevante e depender de tantos fatos que vão acontecer no decorrer da vida dessa garota, não dá para tratá-lo como uma resolução definitiva na vida de todas.

Numa reportagem feita pelo portal G1, no começo de julho, é dito que a escola busca ensinar princípios morais e éticos. Receio dizer que isso entra, então, em contradição com o que o site diz. Vamos pensar o seguinte: as meninas poderiam até brincar que são princesas por um dia, como uma brincadeira saudável na qual participariam em conjunto. Isso não pode ocorrer no recreio de uma escola qualquer? O que quero dizer é que se torna um assunto delicado quando se constitui uma escola ensinando determinados princípios que não são nada realistas e ainda são injustos ao propor um único futuro para essa menina. Tratar o matrimônio como principal objetivo dela e a aparência como seu foco limita demais o significado da infância, que é justamente a preparação da criança para enfrentar o mundo, sem deixar de protegê-la. Essas questões são profundas demais para a cabeça infantil entender. E o que acontece? Ela fica exposta às regras do mundo, sem compreendê-las. A criança segue o que observa. Na mente dela, a escola diz a verdade. Se a menina está numa escola na qual se repetem esses princípios, como ela poderá saber que é possível ser uma garota sem ter que usar um vestido e se intitular como princesa? Ou que pode desejar uma carreira que vai além do casamento?

O problema é que levam a sério algo que só deveria ser visto como brincadeira na vida de uma garota. Um dia, ela usa o tal vestido e se sente uma princesa. No outro, brinca com o irmão de carrinho. E em nenhum desses cenários ela se sente obrigada a seguir o padrão de mulher que criaram para ela. Assim, preserva-se a liberdade de ser simplesmente uma criança.

Além disso, a matéria fala que a escola ensinaria o que as avós ensinavam em outros tempos e que os pais não têm tempo de ensinar hoje. Coloca-se a criança numa escola para aprender a organizar as suas coisas. Ela pode muito bem aprender a lidar com isso na escola comum em que estuda. E não seriam os pais os principais responsáveis por esse aprendizado? É muito fácil deixar nas mãos de uma escola a responsabilidade de coisas simples como organizar o próprio quarto ou respeitar as pessoas ao redor, valores que cabem aos pais transmitir.

Há, também, o perigo de afirmar que uma escola do gênero faria com que a criança aprendesse o valor da disciplina. Não precisamos dizer que ter uma noção de disciplina desde cedo é importante, mas ela pode ser aprendida de outra forma. Temos cursos de música, de dança, de idiomas, a própria convivência com os colegas e professores e o ensino das matérias vistas no colégio conduzem à disciplina, possibilidades que não soam como forma de moldar a personalidade infantil.

Quanto ao assunto que diz respeito à imagem de uma princesa, vamos dar mais um passo agora. No início do ano, a Disney precisou lidar com uma situação polêmica: em maio, a princesa Merida foi oficializada como a 11ª princesa da Disney e, para isso, teve sua imagem repaginada para ser inserida no site junto às outras. O problema é que fica bem evidente que houve a pretensão de fazer de Merida mais uma princesa com aspecto feminino, adulto. O vestido foi trocado por um excessivamente brilhante, com cinto demarcando a cintura, o cabelo penteado, maquiada e o rosto adulto, distinto da menina presente no desenho. Enfim, uma imagem que não se assemelha, em nada, com a personagem que deseja ir contra os padrões e escolhas da família, como um casamento arranjado e uma roupa que não é nada prática para uma arqueira.

A cineasta Brenda Chapman, que criou a personagem com base em sua filha de 13 anos, não gostou das alterações feitas pela Disney, apontando que foi “uma jogada de marketing visivelmente sexista da Disney”. Numa entrevista ao Yahoo!, Chapman afirma: “Quando garotinhas dizem que gostam (da nova imagem) é porque é mais brilhante e não tem nada de errado com isso, mas, subconscientemente, elas estão imersas nesse visual mais “sexy” e na aparência mais magra, dessa nova versão. Isso é horrível! Merida foi criada para quebrar esses padrões – para dar a meninas jovens um modelo melhor, mais forte e mais calcado no real, algo com substância – não só uma carinha bonita que fica esperando o amor chegar”.

Os fãs de Merida ficaram tão indignados com a alteração que organizaram uma petição online com mais de 200 mil assinaturas pedindo que a personagem voltasse ao seu aspecto original. A Disney, então, recuou. Pode parecer, para alguns, um exagero dar tanta importância para um desenho animado. Mas, de fato, é algo que precisa ser pensado. O desenho transmite valores à menina, a qual passa a achar que deve se identificar com a princesa: uma figura delicada, distinta dos meninos e sempre preocupada, desde cedo, com a roupa e a maquiagem. Já tivemos inúmeros exemplos de bullying porque uma menina não se enquadra no modelo de beleza que começa, desde cedo, a ser transmitido nos desenhos. Longe de querer condenar raivosamente a concepção das princesas que se tornaram marcantes na memória da infância de muita gente, apenas é preciso pensar com cuidado o quanto trouxemos para a nossa vida esse estereótipo.

Vamos pensar nas princesas em geral: a Bela, do filme A Bela e a Fera, pode ser um começo para uma princesa mais livre, pois ela busca o conhecimento nos livros e não quer se acomodar com a vida pacata que oferecem a ela. Apesar disso, Bela abre mão de sua liberdade para salvar o pai e se apaixona por quem a aprisionou. Mesmo gostando demais do desenho, eu nunca engoli muito o fato de ela ter que se sacrificar tanto.

Jasmine, de Aladdin, é outro exemplo de personagem que busca a independência da família rica a qual pertence, porém o seu destino ainda é o do casamento.

Rapunzel, de Enrolados, infelizmente vive à mercê da mãe, além de depender do mocinho para se libertar. Pelo menos acompanhamos o crescimento da garota e o desejo de conhecer a própria história.

Tiana, de A princesa e o sapo, deseja ter o próprio negócio, o que a faz ser uma princesa mais realista, mas que ainda depende do príncipe para conseguir alcançar o seu sonho.

Ou seja, todas são princesas que possuem uma postura admirável, mas com algumas limitações. Diante disso, Merida ainda é a princesa mais diferente das outras: uma menina que aprende rápido a lidar com as expectativas de todo um reino tendo a coragem de impor o que deseja realmente ser.

Voltando à nossa realidade, desenhos com princesas moldam a ideia de feminilidade em crianças. Isso foi constatado numa pesquisa realizada pela antropóloga Michele Escoura, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Após observar cerca de 200 crianças de cinco anos, de três escolas, públicas e particulares, do interior de São Paulo (leia mais aqui), Michele chegou a algumas conclusões. Basicamente, o que ela quis demonstrar foi a interferência do sexo na determinação dos valores passados às meninas. Durante a exibição dos filmes, chamou atenção das crianças os elementos que definiram as princesas como mulheres e exemplos a serem seguidos, como a estética e a necessidade de haver um príncipe. Para elas, durante a pesquisa de Michele, Mulan se mostrou confusa, pois não fica muito claro, no final, se ela se casa. Como disse uma garota à antropóloga: “Tia, para ser princesa precisa casar, né? Senão não vai ser princesa, vai ser solteira!”.

Após considerar o significado da princesa, os valores transmitidos pelos desenhos e a personagem Merida, voltamos ao início. Optar por colocar uma menina numa escola de princesas a qual se preocupa com a organização de um chá, maquiagem e regras de etiqueta não é uma atividade inocente. Isso realmente se reflete na autoestima da criança. O período da infância é extremamente incerto e frágil, no qual se está dando os primeiros passos para conhecer o mundo. Ademais, é muito mais válido ver sua filha chegar em casa animada para contar o que aprendeu na escola, o brinquedo que o coleguinha levou, as atividades da Educação Física, a palavra nova que aprendeu em inglês, o instrumento que começou a tocar, do que meramente o posicionamento de pratos e talheres ou quantas gotinhas de perfume deve passar, no alto de seus 8 anos de idade.

Deixemos as crianças livres para explorarem o que desejam conhecer. Não são somente as princesas os modelos para as meninas. Claro que Merida é um indicativo para um modelo feminino que seria ótimo se expandir entre os desenhos da Disney, mas por que não contar também com a Dory, o Nemo, o Woody, o Buzz Lightyear, o Mike, o Sulley, o Remy, a Alice? Outros heróis e heroínas podem povoar o imaginário das crianças. E esses heróis incomuns, que não se definem pela força ou estética, mas pelas ações que têm, provam que não importa se você é uma menina ou um menino, a identificação com eles se dá pela personalidade. São heróis que, assim como a criança, estão em construção.

fonte.

Revisado por: Nathália Rinaldi.

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