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Fino vidro

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Da janela do ônibus, eu vi o último aceno. Não vinha de pessoas feitas de carne. Mas eram sombras que reuniam a carne dos outros. Eram pessoas amorfas, vistas acenando. Eu sabia que não estavam lá fora, no cinza que me devolvia o olhar, na praça que virava verde embaçado pela rapidez do veículo.

Pode parecer insano, mas eles estavam lá. Estiveram comigo por meses. Seus diálogos residiam como fala de um inglês longínquo, de um sotaque que não era o meu, de estrangeira. Era de nativos. Era de outro povo. Duas manchas, laranja e cinza. Eles acenavam com o olhar vivo.

Mais uma vez, procurei aquelas duas pessoas na multidão encoberta pelo vidro. No interior do ônibus, eles eram apenas ficção. Porém, lá fora, ganhavam ares de humanidade. Da fome, da sede que carregamos todo dia. De dor e vínculos formados de amizade. De densidade que também carregamos nos ossos em forma de passado. Cicatrizes, dúvidas e esse cálcio que alimenta a nossa eterna vontade de alimentar e reforçar os dias que já foram. Eles eram vivos, respiravam com autonomia.

Era essa a autonomia dos mortos? De espíritos criados por humanos e que ganhavam a independência de seu criador? Eu vi os dois. Duvidei de suas matérias. Naquele instante, porém, o vidro assumiu as praias e a terra de outro mundo. Tudo, tudo era embaçado, de cor suave. Eu não via com distinção. Mas sabia que estavam lá, no fino intervalo entre o vidro real e o vidro que meus olhos criavam, feito de histórias contadas. E eles olhavam para mim, personagens incólumes de minha imaginação. E me reconheciam, eu, público presente aos personagens ficcionais, e devolviam o olhar que eu não via. Sabia que olhavam. Um amor mútuo existiu naquele segundo. E não importava se eram reais. Se existiam na minha mente. Naquele breve segundo, eles sabiam: imaginados, feitos de papel, tinta, sonhos e expectativas, eram personagens vivendo no breve intervalo da realidade. E respiravam nos meus olhos e embaçavam o vidro.

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A morte das amoras

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As manchas do crime residem escondidas na terra. Como mais um crime diário. O roxo se confunde com sangue, mas aos olhos humanos, é pisado e misturado pelo solado ao marrom. É só mancha de amora. Mas esquecem os homens que as amoras morrem em roxo, e não em vermelho. Roxo, quase preto, uma morte que ninguém vê.

Elas deixam as marcas no banco de concreto. Como que poças secando após as tempestades. As amoras se lançam ao chão como pequeninas ingênuas, de roxo incólume e doce, porque é assim que deve ser. Elas não pensam muito sobre o que encontram entre a trajetória que perpassa os galhos, o tronco viscoso, e o temido chão. Na verdade, as amoras não temem. Pela doçura ignorância, aquele é apenas o destino delas, morrem em roxo. Se morressem em vermelho, seriam notadas?

Muitos dos homens morrem em vermelho lançando-se ao chão. E, mesmo assim, deixam de ser vistos. Mais uma marca no jornal diário, mais uma conversa repetida entre outros humanos. O jornal é destroçado pela chuva, ou deixa mancha nas mãos. E vem o esquecimento. Tanto concreto quanto banco contam a história. Mas o Tempo precisa fazer seu serviço de tornar as manchas enegrecidas um mero esboço no cinza.

O sangue seca, e logo vira a mancha que evitamos ver. Aos poucos, os galhos acima do banco denunciam o que as amoras caídas já diziam. Todo o empreendimento das amoras era feito de garras marrons que secam. E assim começa o silencioso processo de árvore que abandona espírito. Ou espírito que abandona a árvore.

Ninguém nunca viu tal processo. Chega um dia e a árvore se esvai. As pessoas se espantam que o conhecido do primo da amiga deixou de existir, que se lançara ao abismo da morte. E logo o espanto também é digerido e esquecido. Nada incomoda, nem a morte dos homens nem a morte das amoras.

Tanto galhos quanto braços deixam de sustentar as amoras, um dia. Toda a grandiosidade daquele sistema que se sustenta em folhas, em seiva, em pele, em pensamento, se afeta pelas tempestades e pelas estações que passam. Assim como pessoas marcam os amores no tronco das árvores perdidas, as pessoas marcam os amores nas peles e poros.

Vendo, assim, as manchas no chão, o humano mais atento pode se perguntar como as amoras sabem que viveram o suficiente. Elas não sabem. Morrem dolorosamente com a promessa de enfeitarem os galhos com pingos roxos. Diferente dos humanos, as amoras não possuem sonhos e nem quem os quebre. Diante de roxo e vermelho espalhado pelo mundo, de quem seria a culpa de tão silenciosos crimes que perpassam o suspirar de cada dia?

créditos de imagem: watercolourflorals.blogspot.co.uk

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A flama de mais uma idade

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A flama de mais uma idade pulsa no centro do bolo. Inicia-se como leve amarelo para explodir em pequenos raios estrelados. Da fonte amarela divergiam inúmeras estrelas morrendo no ar, contemplada por gritos e palmas. O espetáculo no topo do chocolate durava pouco. Soava como convenção em celebrações. Mas ninguém dava atenção à flama que nascia forte e morria nas cerejas. E se o tempo que aquela vela durava fosse o tempo de um ano, se visto do espaço ou em outra linha temporal? E se o nosso arrastar dos anos for só aquela vela que explode e deixa fumaça até sumir?

Imaginei gerações explodindo naquela vela em gritos. Idades já mortas. Ou outra linha temporal em que acender a vela não importa porque os segundos massacram. Sem motivação para celebrar, neste mundo alternativo, se pessoas vêm e vão com mais rapidez do que o apagar da vela. Uma distopia não muito distante do fato de que pessoas sempre somem nas chamas. A diferença entre esta distopia e o mundo daqui seria apenas a distância dos tempos, dos segundos da flama, da convenção decidida pelos relógios.

Por que acendê-la, então? Se irá apagar-se e ser esquecida abandonada ao lado do bolo que, antes belo, se encontra destroçado pelas fatias que faltam. Nem bolo vai restar mais. Porém, tudo precisa restar, ficar? Lotado seria este mundo se todos os séculos convivessem ao mesmo tempo. Nem século teria. Talvez bolos destroçados a cada ano sejam necessários, porque o homem precisa se fundar pelas marcações do tempo. É a única coisa que temos nas mãos. Tempos diferentes, tempos que se deixam marcar, tempos recontados pelos livros. Tempos esquecidos. E o tempo das velas. Pode não ter durado muito, mas ela se ergueu ao topo e fundou céu estrelado na montanha de chocolate, no fundo escuro da sala de estar. Velas são capazes de tragar, como buracos negros, as faces sorridentes de pessoas. E, por breves segundos, a vela é de todos os olhares. A única fonte de luz vista por todos aqueles vinte pares de olhos.