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Salvador Dalí e as propagandas: elas interferem no valor do trabalho artístico?

Matéria publicada no site Literatortura

Salvador Dalí é conhecido como um pintor da corrente artística surrealista, uma das vanguardas europeias que começou a se manifestar em 1919, com André Breton. Alguns o identificam pelo bigode incomum ou pelo quadro A persistência da memória, com a figura intrigante de um relógio derretendo em meio a um deserto. O que não é muito comentado por aí é que Dalí gravou uma série de comerciais para marcas como Chocolates Lanvin, Alka-Seltzer (um antiácido efervescente) e o conhaque Veterano. Segundo o biógrafo Meryle Secrest, Dalí recebeu pelo menos 10 mil dólares entre uma propaganda e outra. Por isso, André Breton, o fundador da corrente surrealista, criou para o artista um apelido que agora faz bastante sentido: Avida Dollars. O nome era ao mesmo tempo um anagrama para “Salvador Dalí” e baseado na frase francesa “avide à dollars”, que significa “faminto por dólares”.

O Surrealismo tem suas origens ligadas ao expressionismo, com a revalorização do passado ao trazer novamente à tona escritores como Sade, Baudelaire e Rimbaud. Tanto o surrealismo quanto o expressionismo buscavam a emancipação total do homem, indo além da lógica e da razão. Podemos identificar essa intenção nas obras de Dalí. Ele busca o contato com o inconsciente, um homem livre dos grilhões psicológicos e culturais. Por conseguinte, ele recorre ao misticismo, à magia oculta: a busca é pelo homem primitivo.

Talvez a dúvida que possa surgir àqueles que admiram Dalí é se o fato de ter feito tantas propagandas diminuiria o valor de sua obra e o enfoque do trabalho como artista, a liberdade do homem ao desprender-se de pré-determinações culturais. Possivelmente, Dalí fez as propagandas porque, em parte, precisava do dinheiro e, também, porque extraía certa diversão no fato de vender um produto de modo que incorporava um pouco do tom cômico o qual ele mesmo aparentava ter como artista.

A utilização da figura de Dalí é justamente um chamativo para essas propagandas. Quando ele diz“Je suis fou du chocolat Lanvin”, que significa “eu sou louco pelo Chocolate Lanvin”, parece um trocadilho inofensivo. O estereótipo criado em torno de Dalí é o de um artista que aparenta insanidade devido aos signos incomuns que se apresentam em seus quadros. Falar que é louco pelo chocolate traça um paralelo com a própria figura do artista e a necessidade de provar esse chocolate, já que até Dalí se rende a ele. Não convence? Eu me convenci. E não pelo chocolate, mas porque quem o disse foi Dalí. Está aí o segredo do convencimento da propaganda: ela produz um fetiche pelo produto de uma maneira sutil, provoca a consumir justamente traçando uma referência com algo que admiramos ou desejamos ser.

Para os surrealistas, os objetos tomavam um significado distinto do sentido dado pela indústria cultural. Se esta definia o objeto como mercadoria consumível, os surrealistas apreciavam justamente a preservação daquilo que já era considerado obsoleto ou meramente comum. Eles recuperavam artefatos a fim de preservar o tom originário deles, como algo que possuiria sempre um caráter de novo, renovando-se em si mesmo. Por que isso? Tais objetos oníricos possuíam em si os resquícios de uma lembrança, pronta para vir à superfície quando contemplada pelo indivíduo, que recorda de alguma experiência por meio desse artefato. Poderia ser algum objeto comum abandonado que ganha um novo contexto pelas mãos do artista, como é o caso do Telefone Afrodisíaco, de Dalí.

Se, então, Dalí identificava o caráter originário e único de um objeto, soa contraditório participar de propagandas nas quais justamente incitam o tratamento do objeto como algo meramente consumível e descartável. As obras de Dalí podem ser banalizadas quando entendidas como uma mera imagem reproduzida incansavelmente em produtos consumíveis, fato que se torna sintomático a partir da metade do século XX. Tanto que hoje você pode encontrar em sites o famigerado relógio derretendo da obra de Dalí como um artefato para colocar em sua prateleira. O consumo aqui se torna sinônimo de status quo e degenera em consumismo de massa, por uma ânsia de possuir diante do fetiche produzido pela mercadoria nos indivíduos, agora reduzidos ao público consumidor.

Assim, voltamos à questão inicial: o fato de ter participado de propagandas prejudica o trabalho do artista? De forma alguma. Não se diminui o significado do discurso empregado na obra por causa da postura do artista fora de seu ateliê. É válido o que a obra diz por si mesma. Certamente, podemos ver uma contradição entre o discurso do Surrealismo, a valorização dos objetos em sua peculiaridade e a postura do artista em divulgar uma marca que tem só como intuito a venda e o mercado. Mas não podemos afirmar que o fato de Dalí aparecer em propagandas destrói o que fez em vida mediante o seu trabalho. A verdade é que Dalí via na performance a possibilidade de criar uma caricatura de si mesmo. Talvez resida aí a ironia: ele mesmo faz uma desconstrução da figura do artista isolado no ateliê, o que funcionava como mais uma polêmica, e se coloca no âmbito público, o qual negaria a obra dele. De qualquer forma, fica como mais uma peculiaridade do perfil admirável de Salvador Dalí.

Clique abaixo para visualizar cada uma das propagandas de Dalí:

Chocolates Lanvin

Corona

Hotel Saint Regis

fonte.

Revisado por: Patricia Oliveira.

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Sob a perspectiva de um rasgo

“Um dia terá que ser admitido oficialmente que o que batizamos de realidade é uma ilusão até maior do que o mundo dos sonhos” Salvador Dalí

"Dream Provoked by the Flight of a Bumble Bee", Salvador Dalí

Um elefante em tamanho descomunal anda sobre o mar. Tigres saltam da boca de um peixe. Assim descreve-se a obra surrealista de Salvador Dalí. Pelo ponto de vista pragmático, nada do que foi narrado é possível. Mas como um verdadeiro artista, Dalí coloca em questão o que se conhece como real. Para ele, há um mundo surrealista, em que são possíveis tigres irromperem de peixes.

Deleuze e Guattari, ambos filósofos, disseram que os artistas e pensadores em geral buscam promover “rasgos” no guarda-sol. Obviamente é uma metáfora, tal qual a pintura de Dalí. O guarda-sol representa a realidade, tudo aquilo em que o sujeito se apóia, se debruça para que seja possível organizar o pensamento.

Por exemplo, quando tentamos entender um problema matemático ou até mesmo um acontecimento do cotidiano. Antes se organiza os fatos, tudo o que ocorreu para que seja possível chegar a uma conclusão e o assunto fica “resolvido”; é um processo empírico. Porém, permitir que tudo seja visto como concluído, determinado, leva o sujeito a se estabilizar totalmente em face da realidade que o guarda-sol abriga e passa a não questionar o mundo a sua volta.

Então, surge a função dos artistas: abrir fendas no guarda-sol, desafiar a suposta realidade que a maioria aceita, e mostrar que há uma escuridão além desse rasgo, no firmamento. A escuridão é tudo aquilo que desconhecemos. O sentido de vida e morte, Deus, amor. A função do artista não é rasgar e mostrar uma outra realidade, como se a dele estivesse certa. Pelo contrário, a intenção é desmascarar aquilo que se diz real e promover o caos, a tentativa de refletir sobre o que está “lá fora”. Certas questões sempre irão precisar de “rasgos”, reflexões. Mas é preciso fazer um adendo: o fato de desconhecer grande parte do mundo não pode trazer ao ser humano a necessidade de ser supersticioso, pois isso causa sofrimento e medo, que não permitem a reflexão.

Sendo assim, o artista ensina que nunca saberemos tudo, tal qual o filósofo Sócrates pensava, “Só sei que nada sei”. Melhor ainda, em vez de pensar na frase do pré-socrático, a ensolarada música do Kid Abelha diz o mesmo. “Nada sei dessa vida. Vivo sem saber. Nunca soube, nada saberei. Sigo sem saber”. É possível ter em comum com Salvador Dalí muito mais do que se imagina. A loucura é aceitar a realidade exatamente como ela se mostra. O bom senso é permitir que tigres irrompam de peixes.