0

OBRA DE ARTE DA SEMANA: A fazedora de anjos, de Pedro Weingartner

Pedro_Weingärtner a fazedora de anjos

WEINGARTNER, A fazedora de anjos (tríptico), óleo sobre tela, Brasil, 1908.

Publicado no site Artrianon

O horror da realidade invade a tela de Pedro Weingartner em forma de três quadros que contam a história de um episódio real folhetinesco. A fazedora de anjos, obra do pintor gaúcho faz uso da parábola e fala muito sobre a realidade feminina que, apesar da passagem dos séculos, é parte das discussões sociais contemporâneas.

No primeiro painel que compõe a obra, encontramos uma jovem de perfil, trajando vestes sofisticadas e um fino véu cobrindo a face. Encontra-se ao lado da mãe e o fundo revela-se uma celebração. Somado a isso, está um jovem levantando a cartola para a moça e, atrás dele, uma figura suspeita, um homem envelhecido usando uma capa vermelha e com uma expressão perversa. Há quem interprete o cenário como carnaval, mas também poderia ser a celebração de um casamento.

O segundo e maior painel que compõe o quadro é destacado pelo seu tamanho e, com as sutis perguntas que incita, ameaça o horror do desfecho. Nele, há a mesma personagem usando vestes pretas, sentada na mesa segurando um bebê. As suas vestes são o contraste do local onde está: enquanto usa um vestido com gola em pele, a sala é pobre, com aparência de um porão por conta da escada lateral e as cadeiras de vime, poucos móveis e estantes escondidas por cortinas. No canto direito, há uma velha descontente esperando que a jovem tome uma decisão. O que nos faz crer que a moça pondera é se deve vender ou não o bebê. O seu olhar é perdido e o gesto de segurar o bebê, frouxo.

Na cadeira entre as duas personagens e próxima do olhar do espectador, reside uma carteira. Isso nos dá a sugestão do segundo painel: a jovem pode ser uma viúva que, sem condições de cuidar do bebê, o vende. Ou já tem outros filhos para cuidar e não pode dar conta de mais um. Ou o primeiro rapaz presente no painel anterior não era seu marido, mas o galanteador que a engravidou, o que a leva a ter o bebê e a vendê-lo, pois não seria aceita socialmente enquanto mulher solteira. O ponto é que as vestes da jovem indicam que se encontra viúva, portanto, apesar de normalmente se comentar que o romance do quadro foi um breve caso, fica aberta a interpretação de que o bebê pode ser fruto de seu casamento (e estando viúva, não tem condições de cuidar dele), ou o bebê é fruto de um caso e ela não tem mais o marido para bancar o sustento do bebê.  A origem do bebê não importa, pois o que se concentra neste quadro é a difícil e cruel decisão que reside nas mãos dessa mulher.

Em outras palavras, o segundo painel nos coloca entre os dilemas duros da personagem. Eu tive a oportunidade de acompanhar uma visita guiada com estudantes à Pinacoteca do Estado. E presenciar as dúvidas e inúmeras possibilidades trazidas pelos alunos diante do quadro foi uma experiência intensa, pois a resposta que viria no terceiro e último painel provocou justamente a intenção do artista em chocar, colocando o espectador em meio ao peso desse episódio folhetinesco que inspirou a obra.

O terceiro painel, então, traz a mesma personagem idosa do segundo. Vemos na mesa várias moedas, o aspecto pobre do local. E uma fornalha, de onde saem os espectros de bebês, como se fossem anjos. Aqui está a fazedora de anjos que dá nome ao quadro. Segundo o conteúdo oficial cedido pela Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde se encontra exposto no acervo, o artista descreve a sua obra da seguinte forma: “trata-se de uma mulher que queimou 150 criaturas. O assunto é pouco simpático, mas devo marchar com o progresso”. O episódio com o qual Weingartner se deparou em 1908 o chocou justamente por ser uma realidade que, não importa o século, ela continua a acontecer. Sabemos que inúmeras clínicas clandestinas de aborto existem, nas quais o tratamento dado à mulher é desumano, onde mulheres morrem cada vez mais em situações precárias, diante do desespero de não ter como sustentar uma criança, por ser uma gravidez indesejada ou mesmo enquanto vítima de estupro. Por isso essa relevância das discussões sobre a legalização do aborto, pois não se trata de permiti-lo como ato, mas assegurar o cuidado para as mulheres que se veem diante desta escolha tendo em vista o próprio corpo e bem-estar, diminuindo o número de mortes.

Diante desse fato, pela roupa da personagem, ela pertence à classe burguesa. Tinha-se o costume de viajar e ficar meses em outra região, ter o bebê e, assim, deixá-lo com fazedoras de anjos ou orfanatos. As mulheres mais pobres tinham, porém, apenas como alternativa o aborto. Sabemos, hoje, que em países como o Uruguai, onde o aborto foi legalizado, o número de casos diminuiu, quase 7 mil abortos legalizados e nenhuma morte registrada e até mesmo o fato de se oferecer assistência social a essas mulheres levou a 30% de desistência da prática (aqui). Isto é, a legalização levam a visualizar as diferentes causas que sustentam essa escolha que, sem uma assistência legal, se torna desumana para a mulher.

Vale lembrar também que a venda de crianças existe e o tráfico de menores também. O quadro A fazedora de anjos não necessariamente retrata um mundo fechado de uma jovem no início do século XX encerrado numa cozinha ficcional. É parte de todo país, de uma realidade oculta pelas paredes de casa e da família enquanto instituição.

De fato, o tema ainda é tabu na sociedade atual. E era ainda mais no início do século XX. Ter uma pintura como esta, parte da história da arte brasileira, é relevante não apenas pelo tema discutido, mas pela singularidade dela. A abordagem de Weingartner é a de quem não resume a questão no horror que residiria no ato de uma mulher em vender um bebê, mas sim no fato de que existiu essa fazedora de anjos que matou 150 bebês. Essas duas faces sociais, de uma mulher que encontra em um crime terrível a possibilidade de se sustentar, e a de uma mulher que não pode ter esse bebê por seu contexto social e encontra a facilidade de vendê-lo, são duas exposições complexas que nunca encerram a discussão. Nunca há uma última palavra sobre isso.

Com efeito, o que o artista deixa é justamente a grande questão: que tipo de constituição social é essa que permite ou mesmo provoca, em certa medida, o ato dessas duas personagens? Ao fim, a sensação é de abandono social para ambas as mulheres e para o potencial futuro desses bebês, que não seriam recusados se não fosse esse intrincado sistema social, contraditório em si mesmo, ao exaltar o casamento como continuidade da herança humana, mas a ponto de essa exigência tornada norma se converter em realidade destrutiva.

Quanto à obra, é preciso acrescentar ainda a referência que ela faz a Fausto, de Goethe. No livro, o protagonista faz um pacto com o diabo, na forma de Mefistófeles, para ter o amor de Margarida. Mefistófeles seria, então, a figura de capa vermelha no primeiro painel. E esse fato reforça a interpretação de que a moça, no fim, teve o bebê do galanteador de cartola que aparece no início, seduzindo-a ao lado da figura demoníaca.

Sendo assim, o quadro conta uma história que pode assumir alguns caminhos ficcionais e ser um grande exercício parabólico sobre uma realidade social de rara abordagem na história da arte. E, ainda, lança luz às questões femininas por meio de uma obra artística que dialoga com a literatura e a moral.

Referências:

Estudos Nacionais: A legalização do aborto no Uruguai

GOETHE, Johann Wolfgang Von. Fausto. São Paulo: Editora 34, 2004

 

Anúncios
0

São Paulo debaixo de neve

IMG_0900

Coluna semanal no Fashionatto

Eu sempre desejei escrever um conto mergulhado na neve e no frio europeu. Vivendo em São Paulo, que nem terra da garoa é mais, já que quando chove ganhamos de presente dos céus enchentes que colocam a cidade em estado de atenção, não me parecia possível escrever esse tipo de cenário sem ao menos vivenciá-lo de alguma forma. É claro que a ficção abre espaço para os mundos mais fantásticos e não precisamos vivê-los para legitimá-los. A questão é: eu desejava ver a minha cidade debaixo de neve. E, da maneira mais inesperada possível, isso ocorreu em alguns bairros de São Paulo nesse domingo. E a cidade amanheceu morna, mas ainda com as calçadas aqui e ali cheias de um gelo que agora é inegável: podemos chamar de neve, com alguns risinhos irônicos e maravilhados.

No final da tarde começou a chover e em cinco minutos a minha rua foi da agitação caótica das árvores se curvando à direita e as folhinhas voando assustadas para uma rua quieta, fria, como se tivesse prendido a respiração. E coberta de um gelo que agora defino como neve. Os carros derrapavam, o gelo se acumulava nos parapeitos das janelas. Mas como a realidade não possui a perfeição de uma comédia romântica natalina, uma árvore se encontrava caída na esquina. A noite se aproximava e os moradores precisaram isolar a rua improvisando fitas estiradas em cada saída até alguém chegar para tirá-la do caminho.

Com a rua já escura, onde se via poucas silhuetas, ouvi os vizinhos comentando que um dos cachorrinhos da casa ao lado da minha havia sumido. Kinder, um yorkshire pequenino – por isso o nome do ovinho de chocolate – havia sumido, não o encontraram em casa. Alguns vizinhos se reuniram para procurá-lo pelas ruas, com lanternas, chamando Kinder, Kinder! Vem cá! Era estranho que ele não estava latindo durante a chuva, já que ele sempre dá um jeito de latir durante o dia.

A tensão durou poucos minutos e parecia preencher a rua que antes era só um cenário bucólico enevoado. Ninguém encontrava o Kinder, não estava na garagem da minha casa e nem debaixo dos carros. Porém, com uma agitação triunfante, um dos meninos encontrou Kinder debaixo do sofá. Os vizinhos riam, faziam carinho nele aliviados, o menino falava para o cachorro segurando sua cabecinha “não faz mais isso, seu louco”, enquanto o pobrezinho se resumia a uma massa de pelos escuros que tremiam com frio e medo.

A luz voltou depois disso e parecia que acordar na segunda-feira paulistana seria algo tranquilo. A manhã começou com um trânsito fora do comum e aí, do ônibus, avistei um amontoado de neve colada à parede do cemitério. Toda manchada com as folhas verdes caídas das árvores – que formavam um tapete por todas as calçadas -, a neve se misturava ao muro branco e manchado do cemitério formando uma única massa dobrada branca, quase uma ilusão de óptica entre chão e parede. No ônibus, o motorista disse:

-Que loucura São Paulo, hein? Tem gente contando que enquanto nevava, os mortos pulavam assustados pelo muro do cemitério.

E a risada ecoava pelo ônibus que agora se encontrava atolado na mistura de terra e gelo. Nunca pensei que eu diria “faltei à aula porque o ônibus atolou na neve”, já que o cenário só é provável em outros países. Ao voltar para casa, mais uma rua se mostrou repleta de uma camada vistosa branca. Adultos, adolescentes tiravam fotos. Uma mãe com um carrinho de bebê e um menininho a tiracolo deu um jeito de tirar uma foto dos dois na neve paulistana. No Morumbi, bancas de jornais, carros e ônibus ficaram cobertos de gelo. O Parque da Aclimação virou o Central Park instantaneamente, com o lago emitindo uma neblina mágica e a neve se tornando alaranjada com a luz dos postes.

Parece que a cidade ter se tingido de branco provocou uma atmosfera superior a toda correria e reclamações diárias nas redes sociais. O cenário poderia ser meio catastrófico por algum ponto de vista. Mas a cada esquina o conto que eu sempre quis escrever parecia tomar cores reais de uma crônica pelo trator chegando para tirar a neve da rua, as pessoas sorrindo e comentando sobre a surpresa, mostrando suas fotos. Uma cena que se descola de qualquer ideia que já tivemos. Está aí o fascínio pelo novo, pelo acontecimento que beira quase à epifania de ver neve em São Paulo. Uma sensação que pairou por dois dias, com o clima de uma novidade curiosa e pelos burburinhos que povoam uma cidade inteira.

créditos de imagem: Luisa Costa

Foi inevitável não lembrar da música Don’t leave me(Ne me quitte pas), da Regina Spektor

“The frozen city starts to glow
And, yes, they know it will melt
And, yes, they know New York will thaw
But if you’re a friend of any sort
Then play along and catch a cold”
 

Se você for de São Paulo, conte sua história nos comentários. E se você já presenciou neve ou sonha em ver, conta também haha

1

Um relato sobre a vinda de Mark Gatiss, co-criador de Sherlock, a São Paulo

Matéria publicada no site Literatortura

Neste sábado (15), Mark Gatiss esteve na Livraria Cultura do shopping Iguatemi em São Paulo para uma sessão de autógrafos e um bate-papo sobre as séries em que está envolvido. Gatiss é co-criador de Sherlock, série britânica da BBC na qual interpreta Mycroft, irmão de Sherlock, e ainda é roteirista de alguns episódios de Doctor Who, como o especial An Adventure in space and time. Como se vê, Gatiss é bem sucedido em suas participações em duas séries extremamente populares na Inglaterra, mas as quais se expandiram a outros países rapidamente. A vinda de Gatiss certamente teve o objetivo de medir o público das séries e traz a expectativa de que ainda tenha uma convenção de Sherlock no Brasil.

Como uma fã que sofreu por semanas pensando em ir ao evento e se haveria muita gente como eu na fila, eu cheguei às 8h acreditando que seria suficiente estar adiantada por duas horas até que o shopping abrisse, com pessoas correndo até a livraria Cultura para garantir uma das 200 senhas para o autógrafo. Não sabíamos como seria organizado o acesso do público. No fim, já tinham praticamente 500 pessoas esperando, muito antes de abrirem as portas. E, a surpresa, foi saber que haviam distribuído pré-senhas para as pessoas que chegaram muito cedo. Ou seja, sem chance de conseguir o autógrafo. É claro que essas pré-senhas evitariam o tumulto do público correndo no shopping e era justo com quem chegou às 5h. O problema é que em nenhum momento a livraria se pronunciou dizendo que o acesso seria por ordem de chegada.

Se não houve gente correndo desesperada pela senha, houve um pouco de correria para conseguir um lugar na arquibancada que existe no interior da livraria para assistir a palestra aberta. Ou seja, 500 pessoas (de início, porque foi aumentando) se agruparam na tal arquibancada, das 10h às 20h, se revezando em grupos para ir ao banheiro e almoçar. E nós esperamos, sentados, durante todas essas horas, para finalmente poder ouvir e ver Mark Gatiss.

É difícil contar o que houve nessas 9 horas de espera na arquibancada. Eu sempre pensei que eu só ficaria aguardando tanto tempo – e coloque aqui as duas horas na fila e uma hora depois da palestra – por alguém se fizesse parte de algo que eu realmente admiro. E foi assim com Sherlock. O vício que nos faz rever os episódios, criar teorias com o detetive, o mundo infinito que o tumblr cria com gifs insanos, bizarros e divertidos, o momento em que finalmente você convence os seus amigos a assistirem a série e eles acabam caindo nesse mesmo abismo que você, sem volta. Posso falar, por enquanto, da série Sherlock. Ela se estabelece pela conexão entre os fãs, o público que ela foi formando se fez pelo entusiasmo com que se divulgam as expectativas diante desse personagem atemporal de Conan Doyle.

Por isso, a interação entre os fãs foi o melhor do evento e o que preencheu as horas. Fãs com camisetas da série, meninas vestidas de TARDIS, outras com o figurino inspirado no Matt Smith (Doctor Who) ou nos personagens de Sherlock. Tinha  um menininho de chupeta usando uma camiseta do Sherlock acompanhado pela mãe, que chegou pouco antes da palestra. Ele acabou arrancando gritinhos dos fãs, o que o assustou – nesse momento me senti tão cruel quanto o Moriarty, fazendo uma criança chorar com gritos histéricos. Havia grupos brincando de imagem e ação, ou fazendo o outro adivinhar o que havia no papelzinho que grudara na testa, tinha gente dormindo, comendo, lendo uma pilha de livros que pegou na livraria, comprando dvds para serem assinados pelo Gatiss.

créditos: Aumanack Diversão sem limite

A Cultura acabou se tornando praticamente uma república de fãs nas horas em que ficamos lá. Tinha alguns momentos em que eu olhava para as mais de 500 pessoas e sentia que não havia mais nada fora daquele lugar. Sem exagero. Parecia que existia aquela livraria que seria preenchida pelos gritos dos fãs do Mark, o twitter e o facebook onde comentaríamos o que estava acontecendo e apenas isso. Por quê? O grau de pertencimento que um grupo proporciona é insano. Encontrar quase mil pessoas – sim, o número foi crescendo – que gostam da mesma série que você e possuem o mesmo entusiasmo é realmente estranho.

Por isso, se formos ver, um seriado e um livro também acabam por criar mundos paralelos, realidades possíveis pelos seus enredos. Esse é o maior mérito que um roteirista ou escritor pode ter. Nos sentimos fincados na realidade do cotidiano, nas horas de trabalho, estudo, no cansaço diário no transporte público. E uma ficção simples consegue mexer com essa realidade. Surge uma nova perspectiva e ela acaba por invadir a realidade em que vivemos. Ela ganha novos ares e nada parece como antes, porque agora os movimentos dos desconhecidos no caminho para o trabalho, os pequenos momentos de distração no transporte têm um quê de poesia que uma história pode dar. Uma ficção treina e expande o nosso olhar.

Foi isso o que vivenciei no evento com o Gatiss. Ficar praticamente 14 horas num mesmo lugar parece trazer o desespero ao pensar “o que vou fazer durante todo esse tempo?”. Mas você acaba por se distrair com as pessoas. E isso é curioso de constatar num momento em que os celulares parecem ganhar mais a nossa atenção. O meu olhar foi se adequando às mais diferentes expressões dos fãs que vivenciavam o mesmo que eu. E até a forma com que encaramos o tempo se modificou durante a espera, pois ele foi permeado somente pelas experiências.

           mark gatiss 3

Isso me fez lembrar do Baudelaire. Sim, quando você está esperando, surge de tudo na sua mente. Baudelaire colocava nas suas prosas poéticas a impressão de um tempo que congelou, que existia pelas experiências vividas, e não pelas horas. E ele presenciou como uma pessoa some na multidão durante sua caminhada na cidade, muitas vezes imersos nas atividades práticas do cotidiano, deixando de olhar o mundo à sua volta. Ou seja, a experiência é o que constitui a identidade humana. Essa experiência de simplesmente olhar à sua volta traz tantas visões novas e repentinas – muitas das impressões se dão em segundos – que soa estranho pensar o peso que a gente tem em mente quando falamos sobre as horas.

Quando finalmente Mark Gatiss entrou na livraria para o bate papo com o público, os gritos eufóricos certamente surpreenderam o ator. É verdade que depois de tanta espera eu queria mais da palestra, ela foi curta. Não pelo Mark, ele foi espirituoso, divertido e agradável. Mas sim, pela organização. Ele até pediu gestualmente por mais dez minutos de bate-papo, mas foi simplesmente interrompido e encerraram a palestra antes do tempo de duração, nem sei porquê.

Mark falou dos contos preferidos do Doyle, perguntaram qual foi a dificuldade de adaptar Conan Doyle e Agatha Christie, e ele pontuou que ambos eram difíceis, que um roteirista deve ter respeito pelo trabalho do escritor a ser adaptado. E ainda comentou que enquanto Doyle aprofunda mais os seus personagens, Agatha Christie tem uma perspicácia para desenvolver o enredo ágil e envolvente, momento em que ele citou a frase “She plots like a fucking angel!”do diretor Billy Wilder.

Quando questionado se não poderia haver um crossover de Doctor Who e Sherlock, Mark nos disse para tentar imaginar como seria, “imaginem os dois entrando no mesmo lugar, no mesmo quarto. O Doctor está num canto da sala e o Sherlock no outro”. Houve uma pausa, enquanto o pessoal gritava entusiasmado só de imaginar. Ele acrescentou “E aí? Não sei porque vocês gostam de crossover entre séries, é só assistir as duas séries!”.

Sobre Doctor Who, ele comentou que a série traz muitos escritores ao enredo, como Shakespeare, Agatha Christie, Charles Dickens. Por isso ele deixou a esperança de que haverá um episódio com Jane Austen, o que fez a público gritar mais uma vez, e brincando ainda que o Mr.Darcy poderia muito bem ser um alien. Ao responder o que poderíamos esperar do novo Doctor, Mark respondeu com humor “scottish accent (sotaque irlandês)”. Também falou que tem grandes expectativas para o trabalho de Peter Capaldi como o 12th Doctor, que poderá trazer algo novo ao personagem, um ponto muito bom para a série que sempre se renova.

A primeira pergunta ao Mark foi qual seria o legado que ele gostaria de deixar, a qual ele respondeu “pure evil  (maldade pura)”. Nós rimos da resposta, mas de nervosismo mesmo, porque, entre os fãs de ambas as séries, sabe-se como ele e o Steven Moffat, showrunner de Doctor Who e criador também de Sherlock, nos colocam para sofrer com desfechos inesperados, regenerações do Doctor, hiatos de 2 anos entre uma temporada e outra de Sherlock. Mas Mark acrescentou que deseja deixar apenas bons trabalhos para serem assistidos. Aos futuros escritores, ele disse rindo, para ficarem fora do caminho dele. Mark sugeriu que não desistem de serem escritores. É, de fato, uma área bem complicada na qual se recebe muitos “nãos”, é fácil desanimar ao ser rejeitado. Ele afirmou que devem acreditar em si mesmos e colocar seus corações à prova nas suas criações.

Sobre Sherlock, Mark disse que não se identifica muito com Mycroft, pois esse é muito frio. Ele apenas se identifica em relação aos ternos que gosta de vestir e com o traseiro dele, o que arrancou risadas do público. Mas disse que gostaria de ter o mesmo poder que Mycroft. Ele gostou muito de gravar o episódio The Hounds of Baskerville, mas houve um momento engraçado com Martin Freeman (John Watson) no episódio A Scandal in Belgravia – o seu favorito – em que estavam gravando num café.  Houve uma chuva terrível naquele dia e ainda foi uma época de manifestações em Londres. Por isso, a polícia entrou no café e gritou “run!” e eles saíram correndo, tendo que retomar as gravações após 2 meses.

Como eu disse lá no começo, não havia mais senhas, apenas para os 200 que chegaram mais cedo no evento. Porém, eu e outros fãs aguardamos até o final e imploramos a uma das assessoras, que liberou a entrada. Foi adorável o comportamento dos funcionários da Cultura que permitiram a nossa entrada, ficaram comovidos em ver a expectativa de várias pessoas que vieram até de outro estado para vê-lo. No fim, foi tudo extremamente rápido. Um dos produtores falou em espanhol comigo, escrevendo meu nome no braço. Entrei na sala com mais seis amigos, na qual fui puxada pelo braço, pois era a única que tinha o nome.

2014-03-16 15.44.38

Havia várias pessoas falando comigo ao mesmo tempo em inglês, “do you want your sign here or there?”, disse uma funcionária duas vezes apontando freneticamente para o meu box de Sherlock, eu hesitei porque na sala estavam falando ainda em  português e espanhol, respondi “here”, apontando para a capa. O funcionário dizia ora para ficar num canto, ora em outro, todos querendo encerrar com muita rapidez. E Mark esperando com uma expressão tranquila, provavelmente segurando o riso, porque foi assim com quase todos que entraram de última hora. Era uma profusão de idiomas, gente falando ao mesmo tempo, nervosismo. Fiquei tão confusa que nem soube falar nada ao Gatiss, só o meu nome e agradeci a ele sorrindo. Não conseguia pensar em nada, só vem à mente ele assinando, dando um sorriso rápido para mim. Saí da sala falando “excuse me” enquanto os funcionários da porta respondiam em português. No corredor é que me dei conta de que tinha conseguido um autógrafo, algo que já havia aceitado ser impossível no meio de quase mil pessoas, durante as 14 horas que fiquei lá, desde a fila até a corrida pelo autógrafo.

Foi menos de um minuto o momento em que estive pertinho de Mark Gatiss, e 14 horas com colegas que conheci pessoalmente no evento, depois de falar com eles por alguns meses pelo facebook. Mas isso me faz lembrar o que falei sobre o tempo ser relativo. Pois ambas as experiências – com Gatiss e os fãs – ganharam a mesma dimensão, independente do tempo que duraram, tornando todo o cansaço numa vivência tão emocionante que me vi obrigada a relatá-la com detalhes. Pois, como diria o Sherlock, nós só olhamos, mas não observamos. A essência está nos detalhes.

1

São Paulo, um labirinto

Acordei com a vontade de reformar a cidade. Nada de tirar pessoas de suas casas, trocar pelo moderno e fazer a rua como eu quero. Não, as pessoas sairiam de suas casas, mas não rumo ao abandono. Só com o ponteiro do relógio guiando-as para as ruas, buscando a humanidade que transbordaria de cada junta dos paralelepípedos. Derrubaríamos muros ilusórios que desagregam as gentes, para obter novos caminhos límpidos. Enfeitaria com grafite o velho prédio já não mais contemplado, a ponto de virar paredes novas-velhas, com a memória das ruas passadas agora coloridas numa nova vida.

São Paulo é um labirinto de Ariadne, no qual a arte é o fio na minha mão, que me puxa, que me traga para o vai-e-vem do cotidiano. Não é fácil ver as pessoas e a vida passando de lá para cá, com  o tempo me oprimindo e os olhos nunca se cruzando. Tenho um fio que me faz sobreviver, conduzindo-me para uma cidade em paz, sem Minotauro que devora a vida com violência e tira a pureza das almas. Nessa nova cidade, teria a violência arrancada do seu corpo, sem deixar rastros. Só para restarem as paredes coloridas na alma paulistana.

7

Ao vovô

Hoje, como é dia 9 de dezembro, faz cinco meses que meu avô faleceu. Esta homenagem escrevi no momento que soube que ele havia morrido. E, como forma de homenageá-lo, resolvi contar a sua história, a verdadeira herança que me deixou.

Malba Tahan, pseudônimo do autor de “O Homem que Calculava”, afirmava haver algumas características fundamentais que um contador de histórias deve ter como sentir, viver a história de modo que nos desperte o interesse pelo enredo. Sendo assim, tenho uma bela história para contar. Não é nenhuma história de contos de fadas, obviamente; e sim, de alguém anônimo e que, aqui, se tornará o protagonista. Estou falando de meu avô, Flávio Mastrangelo.  

O pai dele, Júlio Mastrangelo, veio com a esposa da Itália e aqui no Brasil teve quatro filhos: Hermínia, Maria, José e Joana. Ficou viúvo, mas depois casou-se novamente, com Achilina Serpa, também imigrante italiana. Achilina assumiu os filhos do marido com a falecida esposa, cuidando deles como se fosse fruto de sua união com Júlio, dedicando todo o seu amor. Tiveram, mais tarde, quatro filhos: Norma, Assumpta, Maria e Flávio.

Flávio Mastrangelo, meu avô, nasceu em 1928, no bairro da Penha. Aos doze anos, Júlio pôs o filho para trabalhar em uma oficina de charrete, em frente ao cemitério da Penha. Na mesma época, ingressou numa escola de música. Aprendeu a divisão de músicas, a posição de notas, a ler partituras. O pai de Flávio o orientou a aprender a tocar piston, pois era um instrumento musical fundamental em uma orquestra. Então, se encantou pela música, arte presente em boa parte de sua vida.

Aos dezessete anos, começou a trabalhar na Estação da Luz. Ficou na Estação da Luz até os quarenta e nove anos de idade, ou seja, trinta e dois anos na mesma empresa, quando se aposentou.

Também aos dezessete anos de idade, iniciou-se na música, tocando em uma banda uma vez por semana, apresentando-se em circos, bailes de formatura, quermesses. Ganhava-se pouco e era um complemento para o sustento da família. Tocou com uma orquestra, de quinta a domingo, durante oito anos. Fez parte também da orquestra de Francisco Petrônio, viajando para o Nordeste e várias cidades do interior de São Paulo. Tocava também em bailes de carnaval, durante as matinês e as noites. Ganhou prêmios, homenagem da Ordem dos Músicos do Brasil, pelo seu trabalho musical.

Mais tarde, Flávio conheceu a esposa Izilda Nunes, casaram e tiveram quatro filhos: Rosemaria, Rosana, Renata e Flávio, os dois últimos, gêmeos. Nas datas especiais como natal, ano-novo, aniversários, Flávio nunca esteve presente com sua família, pois sempre estava trabalhando, era necessário para o sustento da família.

Em dezembro de 2007, foi submetido a uma cirurgia no estômago, obtendo sucesso, em que os médicos disseram que houve um milagre em sua ligeira recuperação, por estar mais ativo e saudável. Durante um ano e meio, não teve nenhuma complicação. No entanto, desde abril de 2009, sua saúde ficou um tanto debilitada, pois já passara por diversos tratamentos anteriormente. Foi internado na UTI, onde permaneceu por 10 dias. O organismo de Flávio não aguentou e ele veio a falecer no dia 9 de julho de 2009, deixando a família Mastrangelo incompleta.

Enfim, meu avô Flávio foi uma pessoa generosa e muitíssimo esforçada, durante toda a vida. Trabalhava para o sustento da família, transmitia amor e valores éticos aos filhos e netos. Com ele, é como se eu possuísse um elo ao passado. Contava-me sobre a época que vivera, as mudanças que presenciara na antiga São Paulo. Os jovens deveriam visualizar os mais velhos dessa forma, alguém que transmite a cultura do passado para que seja possível, hoje, construir uma nova geração.  Como disse, certa vez, o músico Louis Armstrong, de quem meu avô era muito fã, “Os músicos não se aposentam, param quando não há mais música em seu interior”. Meu avô faleceu, mas deixou como herança uma história belíssima.