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Certezas?

São das dúvidas que eu vivo.
Crio, recrio, descarto modelos.
Há mais no mundo para se (tentar) descobrir
Mas é o desconhecido, a assimetria que deve prevalecer.
É a loucura que faz do homem alguém sensato,
Que vê o firmamento sempre de uma nova maneira.
Pode parecer uma contradição:
O homem precisa de algo em que se sustentar
Porém,
Debruçar-se apenas nas verdades fornecidas,
Viver com receio de agir por si mesmo,
É uma forma de só desvalorizar a razão humana.
O pensar, o agir
Perdem-se no meio das ideias que acobertam o homem
E este se aprisiona em si mesmo.
Como?
Exatamente aquilo que ele procura como certeza,
Uma busca incessante e desvairada,
É só a tentativa de trazer ordem para si mesmo.
E o círculo das certezas o pressiona e se transforma num monstro.
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Compaixão

Uma bela borboleta passou pela majestosa janela de vidro. As asas possuíam uma mistura fascinante de rosa e lilás. Tinham algumas pintas amarelas e pretas. A forma de voar era leve, suave, lembrava uma delicada e tímida bailarina que não tinha conhecimento de quanto era bela. A borboleta parou abruptamente ao ver a menina por trás da janela de vidro.

Essa fração de segundo parece que durou uma eternidade. Houve uma compaixão por parte da pequena menina pela borboleta e vice-versa. A garota tocou o vidro com sua mãozinha, buscando um toque, uma aproximação. Os grandes olhos castanhos da menina observavam a delicadeza e a presença de belas cores na borboleta, num misto de curiosidade e fascinação. É raro hoje em dia ver algo tão natural e belo. O clima preto, branco e acinzentado da cidade, essa rigidez não é exatamente um bom plano de fundo para a fragilidade da borboleta. Nada mais é percebido, notado. Os olhos do ser humano possuem apenas função prática, assim deixam de metaforizar ao contemplar o mundo. O cotidiano não permite que se pare para admirar o que ocorre a sua volta. E ver uma pequena e delicada borboleta faz pensar que algo tão ingênuo se contradiz a severidade da cidade. A borboleta incorporara uma antítese. Comumente a beleza não é notada, porém, naquele momento, a borboleta tornara-se a bailarina principal de um grande espetáculo. 

Para a borboleta, era incrível ver algo, alguém, tão grande. Tão diferente de si. Mas ao mesmo tempo em que aquela figura por trás do vidro lhe encarava, também via fascinação por parte dela. Um carinho, respeito. Tão diferente de muitos dos sentimentos que ela presenciara em outros momentos.

O chamado ser humano devastando florestas, devastando ao mesmo tempo habitat de diversas espécies. Os animais se sentiam aterrorizados. Pássaros viam seus ninhos destruídos e a perspectiva de continuar a espécie também.

Tráfico de animais silvestres, crueldade a que animais eram submetidos. Fatos assim não ocorriam perto apenas da borboleta. Focas lá no Ártico são friamente mortas apenas para satisfazer um tolo capricho de alguém que acha interessante ostentar uma pele ou uma bolsa de crocodilo. Fêmeas de ursos polares chegam a ficar um bom tempo sem se alimentar, esperando seus filhotes nascerem. Quando estes nascem, ela vai em busca de alimento para ela e para a cria. Porém, com o derretimento das calotas polares, não há um solo seguro para ela procurar alimento e muitas vezes nada por quilômetros em busca de um gelo rígido sob suas patas.

A borboleta, ao ver a expressão da garota lhe admirando, começou a acreditar que em algum lugar poderia haver um ser humano que saiba admirar o animal sem querer tê-lo. O quanto pode ser diferente amar sem possuir, o quanto apenas um gesto, apenas um olhar, poderia significar para a Humanidade.

"A borboleta parou abruptamente ao ver a menina por trás da janela de vidro"