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A série Anne with an E e a jornada de uma heroína

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SEM SPOILERS

O frescor de um lago prata. Uma estrada feita de flores brancas como pequeninas noivas. A beleza das palavras pomposas que dão seriedade à fala. Todos esses elementos nos levam a Anne Shirley, uma garota imaginativa que extrai a quintessência (ela adoraria a sonoridade desta palavra) do mundo a sua volta.

Anne with an E é a nova série da Netflix e é uma grande aposta para contar uma história delicada e sensível destinada a todos os públicos, não deixando, porém, de apontar temas sombrios, dolorosos ou considerados tabu para o final do século XIX e início do XX. Baseada no livro Anne de Green Gables (1908), de L. M. Montgomery,  a história retrata a jornada dessa heroína órfã a qual passou anos de sua vida servindo famílias, cuidando de crianças em casas pobres, e vivendo em um orfanato onde era detestada pelas outras crianças. Quando os irmãos solteiros Marilla e Matthew Cuthbert decidem adotar um menino para ajudar nos serviços da fazenda em Green Gables, Anne é enviada por engano no lugar dele e os dois irmãos acabam por adotá-la. É a chance de finalmente ter uma família e a oportunidade de ser uma criança.

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A protagonista, Anne, é uma heroína voraz, de espírito livre, que sonha em absorver tudo o que o mundo expõe. A fala verborrágica da menina é uma sede por ser ouvida, quando passou anos e anos calada, apontada como estranha e condenada por ser ruiva e órfã. O mundo, para ela, acabou por ser refúgio, mesmo que imenso. Essa imensidão dele não assusta Anne. Pois é justamente na descoberta do novo que ela encontra espaço para expandir-se, ao contrário do interior das famílias com as quais viveu, as que deveriam zelar por sua infância. No fim, a linguagem de Anne é seu ato de resistência, vê um mundo sombrio pelos seus olhos de criança e se refugia na ficção para conseguir suportar a existência.

Com efeito, as histórias sustentam Anne. Princesa Cordélia, histórias de espionagem, poemas e Jane Eyre. Todos são ressignificados pela garota. Não soam como nomes ou elementos literários escolhidos a esmo, mas sim como pequenas flores colhidas no campo, tesouros guardados pela garota a fim de fortificá-la em seu universo particular. Ou seja, as histórias são Anne: cada frase que lê, cada palavra pronunciada, é como cura das memórias de seu passado. E ela as passa adiante, instigando a imaginação daqueles a sua volta e tirando-os do conforto das normas sociais.

É com sutileza que a trama evidencia essas alterações no microcosmo de Green Gables. Anne torna algumas pessoas mais doces e nada disso soa falsificado nem forçado no enredo. Os primeiros episódios possuem 89 minutos e consegue contar a história inicial da protagonista sem arrastar-se. Os demais episódios contam com 44 minutos. Essa escolha pela duração de cada episódio se mostra certeira diante da proposta de cada pequena história que o episódio narra. Implicitamente cada um contém um tema e, aos poucos, concede mais informações sobre seus personagens. Eles nunca são apenas a primeira impressão que fornecem aos outros. Sempre há outra camada. E é o embate inicial ou a amizade com Anne que as revela.

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A própria série, à primeira vista, pode se assemelhar a enredos de órfãs como a de Pollyanna e A Princesinha. Mas Anne with an E, ao menos a adaptação da Netflix, pende para os temas sombrios e a melancolia sem perder o tom de comédia. Todo o cenário, com a fotografia encantadora que o celebra, concede esta imagem de território bucólico. Porém, é o texto poderoso da pequena Anne e dos personagens que promove a profundidade escondida entre as relações.

Além disso, é preciso dizer que Anne With an E foi supervisionada, escrita e co-produzida por Moira Walley-Beckett, roteirista de um dos episódios de Breaking Bad, que também criou Flesh and Bone, uma série de 2015 sobre o espaço brutal do ballet. O trabalho da autora concede grande harmonia à trama dos sete episódios. O fato de que há pouquíssimas mulheres roteiristas e diretoras na indústria também destaca esta série por conter diretoras e ser liderada por uma mulher. É um detalhe a se comemorar, quando nos lembramos das várias séries que não concedem a abordagem merecida e realista às personagens femininas, muito menos a valorização da mulher enquanto autora.

Outra qualidade da série é o elenco, todos servindo a seus personagens com perfeição, destacando Amybeth McNulty, que faz de Anne uma força da natureza capaz de lançar luz à beleza da palavra proferida no teatro. Em uma das cenas, Anne pede que falem com cerimônia para não perder o pathos do momento. E ela, com a interpretação de McNulty, encarna a palavra, incorpora todo o pathos de Green Gables, a esperança por uma família e amor pelas histórias. Junto a ela, temos Geraldine James, a Marilla Cuthbert, que consegue transmitir inúmeras emoções apenas pelo olhar e o carinho contido por Anne. E fechando esse trio que sustenta a série, R.H.Thomson faz Matthew, a imagem de dignidade e doçura que lança o primeiro gesto de carinho a Anne, sabendo ouvi-la.

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Vale ressaltar também o mérito dos grandes temas que a série incita. O primeiro dele é o heroísmo feminino, esse protagonismo negado às mulheres no contexto em que Anne se insere, sendo ela a porta-voz dos problemas em resumir mulheres a esposas. O grande mérito da série é conseguir manter-se fiel a este contexto, mas falar com o público atual, trazendo à tona situações bem específicas. Por exemplo, o episódio 5 é excepcional ao compor uma das raras referências à menstruação numa trama de época, em que as meninas contam sobre os incômodos do ciclo, mas principalmente como ele é visto em sociedade.

Ainda neste tema, é preciso elogiar a representação das figuras femininas na vida de Anne. A sua amizade com a jovem Diana é um exemplo de como apresentar a amizade entre meninas, quando uma ajuda a outra a se superar emocional e intelectualmente. Há também as reuniões das mulheres progressistas e até mesmo o inteligente espaço que a série abre ao questionar como estas mulheres, apesar de estarem atentas a questões do feminismo, ainda possuem espaço privilegiado ao não ver os problemas de meninas de classe considerada inferior.

O ponto, porém, em que o tema sobre o feminino cresce é nos dois modelos que Anne tem: Marilla, que a adotou, e a Sra.Barry. A primeira se revela, no início, uma fortaleza, que logo cede à presença de Anne e passa a expor toda a ternura que escondia. A preocupação dela em educar uma menina de modo que não a obrigasse a ser esposa, mas sim estudasse para fazer suas próprias escolhas, o espaço que dá para a menina expor seus talentos e aprender com ela, tudo isso faz de Marilla uma pessoa fascinante. E ela cresce com Anne, passando a refletir sobre os caminhos que tomou na vida enquanto mulher. Já a Sra.Barry é o modelo de Anne para que essa veja que, apesar das oposições alheias, ela deve seguir suas ambições de ver o mundo e ser quem quer. Além disso, Sra. Barry relata sobre a relação homoafetiva de toda a sua vida e como a amava, e a série sustenta isso muito bem pelo olhar de Anne, isento de preconceito e apenas cheio de admiração por todas essas mulheres que ela passa a conhecer.

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Além disso, a série acerta ao apresentar as dificuldades em ser criança e o bullying. O conceito de infância já se encontra mais presente no século em que se passa a série. Meninas e meninos vão para a escola e estudam na mesma sala. Agora garotas podem ser encaminhadas para os estudos, algo negado às suas mães. Porém, era obviamente mais fácil para crianças que possuíam pais com boa colocação social. Já famílias de muitos filhos precisavam que trabalhassem para obter renda. E são justamente a posição social e a família – ou o fato de ser órfão – os quesitos para a discriminação de diversas crianças, reproduzindo o pensamento de seus pais, em relação aos colegas. O bullying, assim, também é exposto com a seriedade merecida no enredo.

Como se pode ver, Anne with an E perpassa por vários temas. Uma de suas mensagens, dita de forma sutil, é a segunda chance. O quão grandioso uma pessoa pode ser, se ela perceber, primeiro, como se restringe pelas normas sociais dadas e combatê-las. É uma série também sobre o poder da amizade e de uma família que incentiva um ao outro, em vez de se tornar uma prisão. Mas, sobretudo, Anne with an E insufla um novo ânimo no espectador ao mostrar o heroísmo de garotas e mulheres. E uma jornada que precisa do poder da imaginação, a qual se exercita nas histórias dos livros e na apropriação verdadeira delas, para descortinar todo o espetáculo complexo do mundo.

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Doctor Who: Uma viagem pelo tempo e espaço

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Publicado no site Notaterapia

Não importa muito quanto tempo você leva para assistir Doctor Who. Afinal, tempo é relativo. Os dois meses viajando pelo tempo e espaço na TARDIS em 2014, a viagem que me levou a Cardiff, País de Gales, para conhecer o Doctor Who Experience, museu com os objetos da série, e as últimas temporadas que acompanhei, e os hiatos. Tudo isso me levou a este estado em que passei a me reconhecer como uma whovian novata. Novata porque ainda não enveredei pela série clássica que faz de Doctor Who uma série de 53 anos bem vividos, comemorados no dia 23 de novembro. Por enquanto assisti às nove temporadas da versão iniciada, na TV, em 2005.

Depois da insistência de amigos recomendando a série, eu aceitei viajar com o Doctor e passei dias refletindo sobre o sentido de humanidade. Também já cheguei a pensar que ouvi o som da TARDIS, mas era só a máquina de lavar do vizinho. Achei que a TARDIS havia chegado, mas era só o vento assoviando. Olhei para o corredor pensando que poderia haver um Slitheen na cozinha. Pensei que as quatro batidas que o Mestre escuta pode estar tocando no nosso horário político. Enfim, a realidade consegue ter algumas fissuras depois que você assiste Doctor Who.

Se você não sabe muito bem do que se trata a série, o que precisa ter em mente é que o protagonista é o último dos Senhores do Tempo. Doctor – apenas Doctor – vem de Gallifrey e, após a Guerra do Tempo contra os Daleks, seu planeta e povo se extinguiram. A escolha foi viajar pelo tempo e espaço dentro da TARDIS (Time And Relative Dimension In Space), uma cabine policial azul que é maior por dentro, uma máquina do tempo. Contudo, um viajante não precisa viajar sozinho. Neste ponto entram as companions, personagens femininas que possuem um arco de história entre uma a duas temporadas, com quem dividimos a perspectiva e vivência diante das inúmeras viagens.

Acompanhar o Doctor também tem suas consequências. Se conhecemos os Oods escravizados, se ficamos diante da morte iminente de uma população por causa da erupção de um vulcão, se alguém resolve virar em outra direção e isso muda o conceito do universo, ou se vemos a crueldade dos Daleks e a inimizade dos Cybermen, é possível encontrar uma constante nessas camadas subjetivas do tempo: o Doctor buscando salvar a humanidade. Numa linha temporal em que se encontra a luz e a escuridão nas ruas de Londres ou em outro planeta, o Doctor revela a nós que os céus podem ser dos mais variados tipos, mas o ímpeto pelo poder e conquista podem se mostrar em inúmeras faces. O que o Doctor devolve nas suas várias regenerações é, ironicamente, várias faces de um mesmo desejo, mas oposto: o de consertar a humanidade com sua chave sônica.

A série leva o espectador a cantos inimagináveis. Descobre-se como a ficção literária pode alcançar os limites da realidade vivida aqui na Terra. E o conceito de tempo? Bem, ele é subjetivo. Você fica meio perdido no início, achando que precisa registrar tudo num caderninho (como o da River Song!) para não ser perder. Só que o tempo é mesmo diferente na série e o que vale é simplesmente entender que o tempo passa a ser composto por camadas, linhas temporais com pontos fixos que não podem ser modificados, mas com as nuances postas a teste, capazes de alterar o sentido de um planeta inteiro.  Apenas o Senhor do Tempo vai saber se pode alterá-lo ou não. Por isso, esqueça que o tempo é tão linear quanto o do relógio. Em Doctor Who o tempo é, como de fato ele deveria ser, muita, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, como se houvesse um bola cheia de wibbly wobbly timey wimey…é indefinível.

E isso nos leva ao meu ponto favorito na série. Mais do que aventuras com alienígenas, estrelas, planetas, encontros com figuras históricas e uma cabine azul voando, Doctor Who fala da humanidade. Sobre o planeta Terra. Você poderia pensar que alguém que vê e sabe sobre tudo no universo poderia simplesmente estar entediado com a vida na Terra. Bom, quanto às pequenas atividades cotidianas, sim. Mas nunca em relação aos humanos. O Doctor consegue ver como essa raça frágil persiste mesmo com tantas tentativas de se conquistar e destruir a Terra. É uma criação fantástica a raça humana. Quase ingênua ao guardar pequenos cubos que caem do céu porque são diferentes ou utilizar as mais diversas tecnologias como parte do cotidiano a ponto de abrir um espaço para que essa tecnologia quase os destrua. Bem, nós fazemos isso.

Doctor Who acaba por ser um conto de fadas moderno. Nós gostaríamos de encontrar um sentido maior para a nossa vida do que apenas acordar e ir trabalhar. A presença das companions no enredo faz essa sensação se fortificar: o humano sempre deseja ter um pouco do infinito nas mãos, conhecer mais do que ele imagina, ou ver diante dos seus olhos tudo aquilo que sempre idealizou. Por isso eu acho que não estamos tão distantes assim do Doctor. Podemos não ter uma TARDIS, mas todo dia é preciso encontrar um pequeno fato no espaço-tempo para nos motivar. Algo que dê um sentido à realidade crua. Seja uma história, uma amizade, um pequeno acontecimento. O Doctor simboliza isso, o sonho humano de conseguir superar a sua fragilidade e tocar os mistérios do universo. Muito mais do que usar a ciência: podemos fazer isso pela nossa capacidade mais mágica, a de olhar a nossa volta e reconhecer o outro e a vida que há nos detalhes. São eles que formam a totalidade do mundo.

A relação com a companion, seja Rose, Martha, Donna, Amy ou Clara, é a de que um Senhor do Tempo não pode viajar sozinho, não pode ver o universo sem esquecer que há essa existência para ele preservar. Doctor é esperança, no fim das contas. E mesmo nós, humanos, não podemos viajar sozinhos. O significado da história só existe mesmo quando compartilhado com o outro. Um breve olhar para tudo aquilo que já imaginamos sobre o universo, pois criando uma história é que nos tornamos humanos. Por isso cada vida influenciada pelo Doctor – da companion ao espectador – acaba não sendo mais a mesma, porque uma alternativa foi aberta no espaço-tempo.

A série

Como sempre o Doctor precisa explicar para sua nova companion que a TARDIS é maior por dentro e que ele é capaz de viajar no tempo e no espaço, aqui vão as informações básicas para que não se sinta perdido ao entrar nesse universo.

Doctor Who é uma série britânica com 53 anos, o que significa que até agora tivemos 12 atores interpretando suas respectivas versões do personagem, pois o Doctor tem a capacidade de regenerar em um novo rosto, um novo comportamento. A nova série iniciada em 2005 conta com o 9th (Christopher Eccleston), 10th (David Tennant), 11th Doctor (Matt Smith) e o atual, 12th, interpretado por Peter Capaldi. Como de costume, a série possui autores convidados, como Neil Gaiman, mas com o enredo principal desenvolvido por um único roteirista. Da 1a a 4a temporada o showrunner foi Russell T.Davies, quem trouxe de volta a popularidade da série na televisão britânica por um roteiro que se tornou clássico entre os enredos de Doctor Who. E, a partir da 5a temporada até o ano de 2017, Steven Moffat conduz a série, um showrunner que concedeu uma concepção mais atual e jovem para o universo whovian, o que atraiu um grande público também. Em 2017 a série volta em abril com Capaldi como 12th Doctor e uma nova companion, a Bill (Pearl Mackie). E será o ano de despedida de Moffat, que passará o bastão para Chris Chibnall assumir em 2018, roteirista responsável por séries como Broadchurch, alguns episódios de Doctor Who como autor convidado e a spin-off da série Torchwood.

Quais episódios posso assistir para começar?

“Em todo o tempo e espaço, todo lugar e nenhum, toda estrela que já foi…por onde você quer começar?

Bom, se você quiser começar por alguns episódios em específico para sentir se irá acompanhar a série, aqui vai uma pequena lista. Por que escolhi esses episódios? Porque são histórias independentes. O bom mesmo da série é acompanhar desde a 1a temporada (de 2005) até a atual, assistindo também o especial de natal ao fim de cada temporada. E depois ver a série clássica. Assim você vai notando como o enredo cresce e assume caminhos nunca imaginados. E o melhor da série são os arcos. Pontos mencionados lá no início fazendo todo o sentido numa season finale que os amarra. Mas há episódios que compensa ver antes para ter uma ideia de como a série é diversificada em termos de roteiro.

  1. Blink – 3×10: as weeping angels (anjos lamentadores) vão assustar o espectador que não deve piscar em nenhum segundo. O episódio é quase um especial de introdução às personagens mais geniais da série, criada por Steven Moffat. Acompanhamos uma moça que gosta de conhecer casas abandonadas, até que acontecimentos estranhos passam a ocorrer com os amigos mais próximos.
  2. Vincent and the Doctor – 5×10: a beleza desse episódio é difícil de descrever. O 11th Doctor e a companion Amy Pond viajam até o final do século XIX e conhecem simplesmente Vincent Van Gogh, pois precisam ajudá-lo com uma criatura que o tem aterrorizado. A fotografia do episódio recriando os quadros, a emoção ao ver o drama de um dos maiores pintores faz da história inesquecível.
  3. The Empty Child e The Doctor dances – 1×09/10: primeiro enredo escrito por Steven Moffat, o episódio duplo traz uma atmosfera de suspense, com uma criança que persegue uma jovem, usando uma máscara de gás em plena Segunda Guerra Mundial. Um episódio impecável, com uma bela atuação de Christopher Eccleston como 9th Doctor.
  4. The Doctor’s wife 6×04 – um presente de Neil Gaiman à série, o episódio traz a chance de conhecer um pouco mais sobre a relação entre o Doctor e a TARDIS, numa história poética e mágica, nos moldes bem clássicos dos enredos do autor.
  5. Midnight – 4×10: um dos episódios em que o 10th Doctor (David Tennant) é posto à prova numa viagem claustrofóbica e terrível, na qual pessoas são possuídas por uma criatura que existe nas palavras repetidas. O maior medo presente no enredo é ver que, muitas vezes, o ser humano pode ser facilmente manipulado e esquecer o que significa estar na pele do outro.
  6. The Sontaran Stratagem/The Poison Sky – 4×04/5: um episódio em que duas companions, Martha Jones e Donna Noble, ajudam o Doctor a descobrir o que são os dispositivos ATMOS espalhados no mundo e o caos ao qual a Terra está submetida.
  7. Deep Breath – 8×01: O episódio 1 da 8a temporada é a introdução ao 12th Doctor, e Peter Capaldi é imperdível. A história envolve um dinossauro que engole a TARDIS e o clima vitoriano londrino, mistura inusitada que só Doctor Who consegue fazer. Se quiser mais do Capaldi, o episódio 4 da mesma temporada, Listen, é um dos melhores por trazer uma atmosfera de suspense e o medo por aquilo que mora debaixo da nossa cama.
  8. Os especiais de Natal: alguns deles são interligados e anunciam acontecimentos para a temporada seguinte. Mas A Christmas Carol é uma bela e doce referência a Dickens e The Snowmen é quase um thriller na Londres vitoriana.
  9. O especial de 50 anos da série: apesar de ser um episódio que vale a pena esperar para assistir na ordem, após ter visto as temporadas que o precedem, é bom assinalar aqui a importância de assisti-lo, pois traz o encontro entre o 10th e o 11th Doctor. E foi um evento tão significante que exibiram em diversos países, nos cinemas.
  10. Os spin-offs e filmes: o spin-off mais atual é Class, que tem sido exibido uma vez por semana no mês de novembro de 2016, Confidential (2005), Torchwood (2005) e The Sarah Jane Adventures (2007), é recomendado assisti-los depois das temporadas atuais ou durante as primeiras. E em 2013, Mark Gatiss escreveu o roteiro do filme An Adventure in Space and Time, especialmente para os 50 anos de Doctor Who.
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Stranger Things e a bela celebração dos anos 80

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Publicado no site Notaterapia

A série original da Netflix, Stranger Things, foi um sopro de vida bem-vindo nos últimos meses para muitas pessoas. A doçura e o frescor das grandes descobertas da infância, os ritos de passagem e o heroísmo que os envolve vieram na forma de uma grande celebração e homenagem aos anos 80. Stranger Things tem gosto de nostalgia, de ímpeto em acrescentar um pacote de bolachas, um binóculo, uma lanterna e um gibi na mochila e conquistar o mundo. Com uma bandana na cabeça e, com certeza, uma bicicleta.

Este anseio por consertar os fatos, que temos na infância, com a simplicidade da imaginação, é uma característica que a série consegue expandir com a delicadeza que o período possui. A história de Stranger Things conta com o grupo adorável de quatro crianças: Mike, Dustin, Lucas e Will. Os quatro são o grupo perfeito dos arquétipos de enredos fantásticos, em que cada um tem sua personalidade, inteligência, humor e uma amizade posta à prova em um desafio que vai exigir uma grande jornada heroica. Isso ocorre quando Will é dado por desaparecido, e Joyce (Winona Ryder), sua mãe, contata o delegado Hopper (David Harbour) para investigar. O que parece um desaparecimento comum de uma criança se revela parte do mistério que envolve um laboratório que usa crianças para experimentos e acontecimentos sobrenaturais. Joyce acredita que o filho se comunica com ela a partir das luzes. E as paredes não são confiáveis.

O papel materno dado a Winona Ryder engrandece a participação da atriz na série. Ela concede força e sensibilidade a Joyce, e desejamos com emoção, na companhia da personagem, que aquelas luzes se comuniquem conosco. Além de Joyce, temos a personagem Eleven, a garota misteriosa de poucas palavras que possui um passado incomum, uma criança que recebe ajuda dos quatro meninos e logo se prova uma peça importante na história de Will, e ainda uma grande amiga. A atriz, Millie Brown, dá intensidade à personagem, por meio de seus olhares, e é um grande destaque entre o elenco. Assim como as crianças, que contam com a atuação perfeita de Noah Schnapp (Will), Finn Wolfhard (Mike), Caleb McLaughlin (Lucas) e Gaten Matarazzo (Dustin), os grandes responsáveis pelo carisma do grupo heroico.

Criada por Matt Duffer e Ross Duffer, a série é cautelosa em criar a atmosfera dos anos 80. Em nenhum momento ela sonha em ser mera cópia ou cair no pastiche. Ela tem sua própria originalidade, é uma série que possui como ponto forte o seu roteiro. Cheio de surpresas, com um arco bem amarrado, explicações interessantes e bem construídas dentro da Física e do gênero scifi, o roteiro dá vida a cada canto da pequena cidade onde a história de passa. Quando as crianças andam com suas bicicletas, temos a nostalgia de um público formado por ficções científicas que vão desde os tempos áureos de E.T. – O extraterreste, de Steven Spielberg, até os filmes mais maduros do gênero scifi como Alien, Star Wars e Contatos imediatos de terceiro grau. Contudo, a série ainda carrega a magia tão conhecida de enredos de C.S.Lewis, J.R.R.Tolkien – mencionado na série várias vezes –, Michael Ende com História sem fim e mesmo a geração atual formada pela magia de Harry Potter.

A série traz à tona o aspecto das cidades pequenas feitas por casas de madeira, ruas tranquilas, pinheiros, florestas misteriosas e casas aconchegantes, com quartos feitos por paredes cheias de pôsteres de bandas, com discos e fitas preciosas. A edição é muito bem executada também, pois se numa cena estão ocorrendo tiros, o som destes é logo unido à próxima cena com o som de tiros também. Ou quando foca-se numa lâmpada na casa de Joyce, e passamos para a lâmpada em outra casa. E ainda quando a cena promove uma tensão e a dilui, sem dar o tão esperado susto. São essas nuances que fazem da série uma boa composição. Além disso, a fotografia tem a simplicidade das tonalidades frias para compor todo o cenário de mistério da trama. Com a neblina azulada, os tons entram em contraste com as cores fortes das roupas infantis. Assim como as ótimas cenas do passado de Eleven em um espaço negro com apenas uma poça d’água refletindo a luz, para representar a grande solidão e claustrofobia da cena.

A tudo isso somado, há um quê de criaturas de Lovecraft, histórias bizarras de cidades locais, gênero policial, e o melhor de Stephen King. Como se pode ver, Stranger Things tem a preocupação de expandir suas referências e aprofundar a própria história. Primeiro, o roteiro da série busca convergir as ações de todos os personagens para uma única finalidade: encontrar Will e confrontar os eventos sobrenaturais. Joyce se une a uma investigação com o delegado Hopper. As crianças procuram pelo amigo junto a Eleven. E mesmo Nancy, personagem feminina a qual parece seguir o estereótipo da adolescente restringida apenas aos romances colegiais, cresce na história e toma parte deste confronto, igualmente, com Jonathan. Inclusive, este é um ponto forte de Stranger Things: não reduzir seus personagens aos estereótipos já desgastados, usados a partir da originalidade das inúmeras referências que tem do cinema e da literatura. E Nancy é a grande amostra disso: é uma garota que possui um enredo bem desenvolvido, que se apresenta determinada e forte – bem distante do estereótipo de menina frágil que deve ser salva -, bem como uma reafirmação de sua personalidade que vai além das relações amorosas e tentativas de ganhar um espaço entre os amigos do colégio, tendo relevância na trama.

Assim, Stranger Things tem gosto de uma nostalgia que insere novidade, também. Os roteiristas já avisaram que possuem mais de 30 páginas escritas sobre o mundo sobrenatural criado por eles, para a 2ª temporada. E isso soa bem promissor para o desenvolvimento proposto pela série. No fim, Stranger Things envolve o público com maestria, numa história onde mergulhamos nas sensações da infância e na beleza da fantasia. Ela promove uma homenagem, emociona por dar vida a esse mundo e tem grande mérito pelos personagens já memoráveis que trouxe à tela.

Para o público adulto, Stranger Things é a oportunidade de sentir a atmosfera, as sensações e as lembranças da infância e da adolescência. De revisitar nossos sonhos. E de conceder à rotina densa da fase adulta, das obrigações e do cansaço, aquele ânimo que uma criança tem diante de uma descoberta nova que traz da escola para casa. Uma curiosidade, um ânimo fresco que às vezes nos falta na rotina. Pensamos no tempo que não calculamos na infância, no tempo que não buscamos otimizar para render frutos no mercado de trabalho, um tempo fluido feito apenas das sensações simples e de conexão com o outro.

Em uma das cenas mais tocantes da série, podemos ouvir Heroes, de David Bowie, em uma versão densa de Peter Gabriel. É com este tom que a série mostra a que veio, um heroísmo que precisava desses personagens para abrir as portas do universo nostálgico da infância de seu público. E esse universo é tão amplo que pode ter gosto de games, de cinema, de livros infantis de mistério alugados na biblioteca, de bolacha compartilhada com os amigos no recreio, de tardes infinitas brincando, de carinho no abraço de um novo amigo. Mas, acima de tudo, Stranger Things carrega a magia e a força que uma ficção tem para tornar todos nós heróis por muitos dias.

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Game of Thrones |A excelente season finale em Os Ventos do Inverno

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Publicado no Notaterapia

(COM SPOILERS – revelações do enredo)

No domingo (26), foi ao ar a season finale da sexta temporada de Game of Thrones, episódio com o título de The Winds of Winter (Os Ventos do Inverno). Diversas tramas foram encaminhadas, com suas conclusões e aberturas para os enredos da próxima temporada, a qual retorna apenas entre abril e junho de 2017. De Winterfell a King’s Landing, passando para Além das Muralhas, personagens se viram confrontados dando passos novos em seus arcos.

Primeiro, a série contou com um belo trabalho de fotografia e trilha sonora. Os acordes curtos de piano, violoncelo e violino, bem sutis, concederam a atmosfera certeira dos personagens colocando suas vestimentas e objetos que qualificavam suas posições sociais, como a coroa, o vestido, o anel, logo no início do episódio. O perfil de Margeary desenhando o cenário, Tommen e sua tensão ao pegar a coroa, e Cersei em um ritual antecedendo seu instante de triunfo. As portas do Alto Septão sendo abertas e vistas de cima compuseram a tensão correta para o que seria o julgamento mais esperado de King’s landing.

Na sequência, Loras sacrifica o seu nome enquanto Margeary pressente que a espera por Cersei é parte de seu plano de quem não vai sucumbir aos preceitos da Fé Militante. Junto a isso, vemos, aos poucos, o plano de Cersei sendo executado até o último instante da grande cena catártica do Alto Septão explodindo no verde do fogo vivo. A antecipação da poça em verde com a vela derretendo foi o tom adequado para o que viria a ser o espetáculo de vingança de Cersei, a qual, em seguida, assume o trono como rainha de King’s landing.

Nesta virada da personagem, vemos que o seu comportamento já indica que Cersei aceitou as consequências de sua profecia. A morte de Tommen não a choca porque esperava que acontecesse de alguma forma. Inclusive, a cena foi muito bem executada. Se antes o episódio foi tomado por uma trilha sonora sofisticada e distinta do que ouvimos anteriormente, na série, a morte de Tommen é o silêncio que cria o clima para o seu suicídio, com a câmera estática. A composição minimalista surpreende o espectador e alimenta ainda mais a tensão de todo o episódio.

A Cersei que assume o trono é um dos últimos resquícios de suas qualidades como mãe protetora. Agora restou apenas a mulher que vai tentar, a todo custo, proteger-se da conclusão da profecia, que inclui ser morta pelo irmão mais novo e ser substituída por uma rainha mais bela. A derrocada de Cersei será mostrada, de fato, na próxima temporada, com mais cenas catárticas e possibilidades para outros personagens adentrarem no jogo pelo trono.

Daenerys foi outra personagem que, finalmente, viu seus planos tomarem forma em alto mar, com as velas tremeluzindo aos ventos, seus dragões marcados simbolizando a casa Targaryen. Ela se despede de Daario e se surpreende com o fato de não ter sentido nada ao deixá-lo em Meereen. A cena com Tyrion, concedendo-lhe o cargo de Mão da Rainha, foi bem construída e deu humanidade aos dois personagens. Tyrion a olha com encanto e veneração, um respeito que Daenerys ganhou aos poucos pelas suas ações. Ela é a figura na qual ele consegue acreditar, mesmo que Westeros seja a permanente dúvida sobre as pessoas corrompidas pelo poder. As atuações de Peter Dinklage e Emilia Clarke possuem delicadeza, e vemos uma rainha próxima de seu conselheiro, comentando sobre os seus temores e o seu futuro. Por fim, a cena, com sua simplicidade, fechou bem o arco da personagem e intensificou o significado de seu olhar no final do episódio, finalmente indo para Westeros.

Houve também a cena catártica de Jon Snow sendo reconhecido, pelas casas que lutaram por ele, como rei do Norte. A participação de Lyanna Mormont (Bella Ramsay) é bem-vinda e dá o verdadeiro significado de heroísmo à cena. Ela, com sua fala imponente e tão tenra idade, já conquistou o público. Entretanto, a cena que reproduz a legitimação de Robb Stark, pareceu por em dúvida a importância de Sansa no enredo. Pressionada por Mindinho, a jovem ainda não sabe bem como agir. Ela foi a responsável pela vitória na batalha, em razão de sua aliança com outra casa do Vale, aliança esta conquistada por Mindinho. Contudo, Sansa não confia nele, tampouco sente que é justo não obter seu espaço em Winterfell. Sansa trouxe sensatez e realidade para o Jon, o qual ainda age e vê os fatos com certo simplismo. Ele reconheceu que há muitos inimigos da Casa. Mas não concedeu justiça à irmã, dando-lhe espaço igual em Winterfell. Jon ainda pode errar em crer que os únicos inimigos são os White Walkers, e ignorar a perspicácia do Mindinho. Desta forma, a trama entre Sansa e Jon ainda é uma incógnita.

Continuando em Winterfell, Melisandre foi expulsa por Jon, em razão da morte de Shireen, punição exigida por Davos. Era esperada a postura justa de Jon, mas não pode ser, de fato, a última vez que este verá Melisandre. Seus poderes e contato com o Senhor ainda devem ser requisitados. E, ainda assim, soou estranho que apenas agora a série tenha feito este confronto. Será que era realmente necessária a saída de Melisandre depois de tanto tempo? Não era para o Davos já saber o que havia acontecido? E uma curiosidade é que ela, como Red Woman, consta na lista de Arya, e Melisandre está indo para o Sul. Haverá um encontro entre elas, na próxima temporada?

Sobre Arya, a personagem conseguiu executar um plano brilhante e concluiu uma das vinganças mais aguardadas. Após se ver livre da Casa do Preto e do Branco e afirmando que ela é uma garota que tem nome, e é uma Stark, Arya consegue chegar em As Gêmeas, castelo dos Frey. De longe, usando outra face, observa a conversa entre Jaime Lannister e Walder Frey. Depois, a personagem surpreende ao servir uma torta para ele dizendo que seus irmãos estariam lá dentro. É com choque que se constata que Arya matou todos e fez uma torta com a carne. E, assim, ela revela o seu nome e rosto, e mata Walder Frey, na mesma sala onde este massacrou sua família. A cena teve um plot muito inteligente e acabou por lembrar o enredo do filme musical Sweeney Todd. Nele, a personagem de Helena Bonham Carter propõe fazer tortas com carne humana, afinal, carne é cara. Arya, em um enredo paralelo, podia muito bem participar de uma audição do musical, pois sua personagem já tem as piores tortas de Westeros para oferecer. Carne dos Frey deve ser de qualidade tão ruim quanto a de Ramsay Bolton.

Neste mesmo cenário, a conversa entre Jaime e Frey tem um tom apropriado para o contexto. Jaime não está feliz em celebrar a conquista de Correrio e estar ao lado dos Frey. E quando este afirma que tem orgulho em ser regicida, a atuação sutil de Nikolaj Coster-Waldau demonstra a grande diferença entre Jaime e aquele ao seu lado: ele se arrepende por ter matado o próprio rei, mas se o fez, foi por um gesto heroico de salvar toda a cidade do fogo vivo. Jaime é este personagem o qual tem uma jornada de personalidade complexa a qual, nas duas últimas temporadas, tinha ficado um pouco para trás. Mas, esta cena, mostra que Jaime ainda pode ter um caminho mais forte na série, de quem ainda busca comprovar que seu nome pode ser aliado à justiça e aos bons atos.

Quanto aos demais plots, Sam chegou, por fim, na Cidadela. A grandiosidade da biblioteca, entre seus infinitos livros, foi honrada. A breve cena em que ele perpassa as estantes, emocionado, foi um detalhe que deu equilíbrio ao episódio. Tanto ele quanto Tyrion são dois personagens os quais levam a sério o que os livros têm a dizer. É ótimo que a série lembre deste ponto, pois guerras não se fazem apenas por batalhas e alianças, mas por conhecimento acerca do inimigo e da História também.

E é preciso comentar que a série, por ter tantos personagens para dar conta, erra em relação ao tempo de deslocamento entre as regiões. Brienne e Pod, por exemplo, poderiam ter aparecido por poucos segundos no episódio para demonstrar que chegaram em Winterfell. Não há nenhuma menção a eles, e esta ausência pode ter sido uma falha da série ou os dois personagens encontraram algum empecilho no meio do caminho. Terá ocorrido algum encontro com a Irmandade sem bandeiras? O ponto é que já está tarde demais para a personagem Lady Stoneheart, presente no plot da Brienne nos livros, aparecer. A esta altura, é praticamente impossível. Varys também se deslocou de Meereen a Dorne e conseguiu retornar para sair de Meereen com Daenerys. Nesta viagem, vale lembrar que Varys propõe às Filhas da Serpente uma aliança com Daenerys e Olenna Tyrell.

Ainda sobre o tempo na série, Arya foi de Braavos a Correrio com uma rapidez surpreendente. Resta pensar, então, que o episódio é um recorte condensado destes personagens, que os fatos não ocorrem todos, um após ao outro, e sim ao mesmo tempo. O problema é que, no enredo de Varys especificamente, a sua presença no navio de Daenerys não era exigida, e portanto, foi uma falha que se destacou, dada a distância enorme entre as regiões.

Por fim, a série optou por deixar a presença dos White Walkers para a próxima temporada. Contudo, Bran volta novamente ao passado em suas visões, e a teoria da Torre da Alegria foi confirmada: Jon Snow não é filho de Ned Stark, e sim de Lyanna e Rhaegar. Ou seja, Jon é parte Targaryen, parente de Daenerys. Ambos são, assim, o fogo e gelo, elementos que os fãs esperavam tanto pela confirmação. Se os personagens serão aliados ou inimigos, é algo que só será respondido daqui a um ano.

Sendo assim, a sexta temporada termina com dois episódios impecáveis. A Batalha dos Bastardos pode ser considerado o melhor episódio da série toda, e a season finale encaminhou com excelência os enredos que têm sido trabalhados ao longo de todos os anos de Game of Thrones. Ademais, a participação das personagens femininas se destaca e ganha novas formas neste contexto. Alianças estão sendo propostas, e tais personagens, aos poucos, se tornam protagonistas. O que sabemos, por ora, é que o hiato é uma noite escura e cheia de terrores e agora é uma espera ainda mais intensa, pois o inverno realmente chegou.

Ouça aqui a música que iniciou o episódio

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Doctor Who: a realidade e a ilusão no especial de Natal

drwhochristmasResenha publicada no site Zona Crítica

CONTÉM SPOILERS

Todo Natal é o último Natal. Com essa bela premissa, o especial de Natal do Doctor Who, nomeado Last Christmas (O Último Natal) prosseguiu com a atmosfera sombria de toda a 8ª temporada, mas revelou o espírito natalino como bem-vindo até mesmo ao 12th Doctor, que não gosta lá muito de abraços e momentos alegres e sublimes que a época implica.

O especial se inicia com a Clara acordando com o barulho repentino de um objeto colidindo em seu telhado e vozes. O trenó do Papai Noel havia quebrado no telhado de sua casa, e trazia junto seus ajudantes elfos e muitas tangerinas, frutas que o Papai Noel (interpretado por Nick Frost) supostamente gosta. O Doctor surge na cena pedindo que Clara entre na TARDIS. E paira no ar certa rivalidade entre Papai Noel e o Doctor.

Com esse início, o especial caminha a história para a presença de uma equipe de cientistas no Polo Norte na véspera de Natal, em que o desafio deles é passar por uma sala com criaturas aparentemente perigosas sem acordá-las. O grande perigo reside em criaturas chamadas Dream Crabs (Caranguejos dos Sonhos), que se prendem à face daqueles que eles atacam até sugar a sua vida, anestesiando-os, enquanto isso, numa vida de sonhos. É preciso sair deste sonho para voltar à vida.

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Em relação ao elenco, o especial adiciona a presença de Nick Frost, que está excelente como um Papai Noel irônico e capaz de conduzir o enredo a ponto de deixar o próprio Doctor se sentindo perdido, por um instante, em todo o caos entre a tripulação de cientistas. Há quase um duelo entre os dois personagens, já que consideramos Papai Noel irreal e o Doctor a única ajuda que poderíamos ter. O especial brinca muito com o real e a ilusão, nos levando a questionar se devemos acreditar em um deles ou em nenhum.

Jenna Coleman e Peter Capaldi retomam a parceria de seus personagens de uma forma sublime, muito bem conduzida pelo roteiro, e em uma grandeza de atuação ainda não vista na temporada. Fica evidente como a Clara é realmente importante para o Doctor e que as mentiras que um contou ao outro foi a maneira de se sacrificar pelos seus sonhos: Clara permanecer com Danny e o Doctor reencontrar Gallifrey. Neste episódio, que aposta na premissa do Natal como sendo o último, Clara precisa superar a morte de Danny, numa das cenas mais bem trabalhadas com o ator Samuel Anderson. Capaldi também consegue, mais uma vez, expandir as impressões que temos do Doctor, para culminar na cena em que ele conduz o trenó, todo alegre como uma criança na véspera de Natal.

O trabalho de Steven Moffat, showrunner e roteirista, foi um verdadeiro presente em forma de roteiro. Ele conseguiu a proeza de reunir o melhor do sci-fi com os elementos exigidos para um especial de Natal. Ele trata de redenção, morte e passado sem utilizar os sentimentalismos que identificamos em tantos enredos natalinos que buscam arrancar lágrimas como se fosse a grande exigência. Não, Moffat se encontra comedido neste especial sem deixar de explorar a densidade desses temas. Em A Christmas Carol (2010) vemos o clássico enredo da magia no dia do Natal numa Londres industrial e futurista tomando Charles Dickens como inspiração, em que existe um adulto de coração endurecido e uma infância sendo desvelada para a sua redenção, com a doçura de um belo enredo infantil. No caso do especial The Snowmen (2012), Moffat aposta mais na linguagem de um leve thriller, em que bonecos de neve ganham vida para conquistar a Londres vitoriana, onde conhecemos Clara Oswald, uma garçonete e babá que o 11th Doctor convida para ser sua companion. Nele, o Natal tem um toque de melancolia bem trabalhado juntamente ao humor.

Doctor-Who Team

Diante destes dois especiais, Last Christmas é bem distinto. A linguagem que Moffat opta por utilizar na constituição do roteiro é o grande protagonista, pois ele aposta novamente no seu talento – que já conhecemos – de sobrepor diversas camadas temporais, desta vez uma sobreposição de sonhos. Moffat consegue adivinhar o momento em que vamos acreditar que já estamos acordados. Ao encontrar Clara já idosa, depois de 62 anos esperando o Doctor, acreditamos que será o último Natal da companion. A verdade é que as opiniões podem se dividir: ao mesmo tempo em que teria sido doloroso vê-la se despedir naquela cena, teria sido um desfecho mais leve do que os de outras companions na série. Dentro das expectativas criadas a cada cena-sonho, foi inteligente Moffat ter se detido nesta parte da história, nos levando a crer que estávamos acordados e que seria o fim de Clara.

A companion, enfim, permanece para a próxima temporada. E Moffat ainda deixa aberta a possibilidade às crianças de que o Papai Noel existe, ao terminar com a tangerina na janela. No decorrer da história, descobrimos que o Papai Noel só foi uma ilusão que a tripulação trouxe à tona para tentar sobreviver ao ataque dos Caranguejos dos Sonhos, afinal estavam todos sonhando à beira da morte. Em algumas discussões, ficou a dúvida se a tangerina, sendo deste personagem ficcional, o Papai Noel, seria como um totem, o que indicaria que o final do episódio ainda era um sonho. Mas a probabilidade é de que Moffat a deixou no final para tranquilizar as crianças (e seus pais) de que o Papai Noel ainda pode existir.

Desta forma, o enredo do especial se constituiu com grande fluidez, em que o espectador se vê surpreso ao começar a duvidar de tudo o que está ocorrendo, depois de ser enganado pelo roteirista. É um especial realmente distinto, pois não usa o artifício do clima natalino a todo tempo. Este surge para coroar a história com muita delicadeza, muitas vezes em cenas que não se precisa de uma frase para enfatizá-lo. Este foi o grande mérito de Moffat: tratar do clima natalino como um período difícil para muitas das famílias que veem a época como a última reunião familiar. A promessa do roteirista, então, é fazer deste dia um momento em que se deslocar da realidade proporciona um encontro com o Doctor e o conforto para a solidão.

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Como está a 8a temporada de Doctor Who

Matéria publicada no site Zona Crítica

CONTÉM SPOILERS

A 8ª temporada da série britânica da BBC Doctor Who chegou ao episódio 7, com Kill the Moon, na semana passada. Com um enredo que vem dividir, de certa maneira, o andamento das viagens no espaço e tempo a bordo da TARDIS, vim comentar, então, o que se passou até agora nesta nova temporada, com o Doctor assumido por Peter Capaldi.

O personagem é um prato cheio para a série que já tem cinquenta anos marcados pelo Senhor do Tempo vindo de Gallifrey. A regeneração do 11th Doctor para o atual, o 12th, criou algumas expectativas para o modo com que Capaldi o assumiria. E está certo de que ele o assumiu muito bem. A nova faceta do Doctor é obscura, por vezes egoísta, deixa nas entrelinhas aquele heroísmo que era exposto com clareza pelos outros Doctors que saíam correndo para salvar a humanidade. Aqui, essa faceta é mais discreta. Por um lado, é inovador, por outro ainda temos aquela expectativa pelos episódios mais agitados quando se trata de invasões da Terra para ver mais do 12th em ação.

Capaldi conseguiu dar um toque obscuro que divide espaço com a comicidade. Em Deep Breath ele chegou confuso e pedindo o apoio de Clara, a companion que viu a regeneração do 11th para o 12th e está em dúvida se ainda conhece o Doctor, se ainda pode acompanhá-lo. Tanto que o próprio Doctor pergunta a ela se a companion crê que ele seja bom. Até aqui já sabemos que assumir o papel de alguém que salva os diversos mundos espalhados pelo universo não é fácil, é um peso inimaginável. Por isso Capaldi funciona tão bem, ele responde com sinceridade como não é nada fácil ser quem ele é, e que não é fácil para quem escolhe viajar com ele.

Em Into the Dalek o Doctor está arredio e instigado pela proposta de entrar e tentar curar um Dalek, seu maior inimigo. Mas é neste ponto que passamos a ver que este Doctor traz as obscuridades deixadas para trás. Ele tem ódio – como os Daleks têm – mas é um ódio que acaba por levá-lo aos atos mais dignos. Confuso? Esse ódio, ou pelo menos o ímpeto de desafiar tudo dá um formato ao 12th Doctor. Em Robot of Sherwood essa faceta se dilui um pouco para incluir a comicidade, porque o Doctor também é estranho. E sim, Capaldi me conquistou ainda mais na luta que trava com Robin Hood usando uma colher.

Em seguida, veio o melhor episódio até o momento, aquele que eu fiz questão de rever três vezes na mesma semana, decorar os poemas em inglês e comentar com todo mundo – do whovian à mãe – e traçar relações entre o episódio e a janela batendo no quarto. Foi Listen, um episódio impecável, precioso nas mãos de Moffat, que consegue misturar muito bem a poesia – acho que ele compreende muito bem o seu personagem – às viagens e presenças alienígenas do enredo sci-fi. Listen mostra que o Doctor tem medo. Que existe uma criatura debaixo da cama de todas as pessoas que já acordaram de um sonho e sentiram seu calcanhar ser agarrado ao sentar na cama e pisar no chão.

Você só precisa ouvir estas criaturas que poderiam estar conosco, essas que parecem estar ao nosso lado quando sentimos uma respiração na nuca e não vimos ninguém, quando simplesmente falamos sozinhos. Sabemos que estamos sozinhos, mas por que falamos em voz alta? Conjetura. Sabemos que há alguém nos ouvindo. É com esta premissa dada pelo Doctor – numa das melhores aberturas, com o personagem observando cenários espalhados pelo mundo – que o episódio nos conquista, porque fala do medo mais comum, aquele que muitos já sentiram, aquela pergunta que já nos fizemos. E se houver algo debaixo de nossa cama? E se nunca estivermos sozinhos? O episódio traz essa criatura aos nossos olhos, para dentro do quarto. E ainda cita a frase do primeiro episódio de Doctor Who, “fear makes companion of us all”, com o medo se tornando a nossa companhia, uma falha com a qual podemos conviver. Tudo bem se tivermos medo, se isso nos fizer heróis que comandam sem armas. Como o Doctor.

Até este ponto a formulação de Capaldi para o Doctor é brilhante. E se os próximos episódios apresentaram algumas falhas, o que se manteve intacto foi o trabalho do ator.Time Heist veio em seguida, com um enredo inspirado na atmosfera dos filmes de espionagem como James Bond e Missão Impossível. Começou bem utilizando deste artifício e inserindo novos personagens no enredo que podiam voltar, porque deixaram para trás a curiosidade sobre suas histórias. Doctor recebe uma ligação no telefone da TARDIS e leva Clara para roubar o banco de Karabraxos. A presença da criatura Teller, usada na segurança deste banco para detectar a culpa em um homem e assim transformar o seu cérebro numa “sopa” – sugando tudo o que há nele – é assustadora e poderia ter sido melhor aproveitada, até porque o enredo perde a força na sua síntese.

The Caretaker foi o sexto episódio e aí, neste ponto, eu fiquei meio preocupada. Para começar, é claro, preciso dizer que a atmosfera do episódio foi boa. Apostou em um humor ainda não visto na forma do Doctor, que passou a trabalhar como zelador na escola onde Clara dá aula, no codinome de John Smith, também usado várias vezes como disfarce pelo segundo, terceiro e décimo Doctor. O Doctor é muito inconveniente, e isso rende umas cenas cômicas, com ele construindo também objetos sônicos estranhos que parecem mais sucata do que a tecnologia que a gente conhece. A atmosfera do episódio lembra um pouco Caça-Fantasmas, sim. E tem até um momento ótimo e bem sutil em que o Doctor assovia Another brink in the wall, do Pink Floyd, quando a Clara está chamando atenção das crianças. Até aqui a história foi fluindo muito bem, pudemos acompanhar finalmente um pouco da rotina de Clara e o seu namoro com Danny, um personagem que terá importância no arco da temporada.

A questão é que neste episódio, começou a parecer mais confusa a caracterização da Clara. Ela se vê pressionada a escolher o relacionamento com Danny e a liberdade que sente ao conhecer o universo na companhia do Doctor. Sabemos que ele não é totalmente agradável como o 11th era. Mas também não é motivo para abandoná-lo. E também não há motivo para o Danny desejar comandar a vida da namorada, exigindo promessas, por conta deste contato com o Doctor. Por que não participar com ela destas viagens?

Enquanto isso, o episódio acabou por enfraquecer os três personagens, com um Doctor inconveniente repetindo uma ironia em relação ao Danny, o que pareceu apenas birra e até uma manifestação de preconceito. É verdade que o Doctor tem seus traumas em relação a soldados em seus tempos de guerra, mas o episódio poderia ter aberto mão de bater nesta mesma tecla por uma simples fala.

A interferência de Danny na amizade de Clara com o Doctor também complica o modo com que vemos esses três personagens. Ela viaja com o Doctor, ela conhece todas as regenerações dele. E chega uma pessoa e planta uma dúvida em sua mente a ponto de não se posicionar com firmeza? Clara demonstrou que era determinada e forte no decorrer da temporada, não dando espaço nem para o Doctor ser arrogante como costuma ser em alguns momentos. Ela busca ter um controle da situação. E, neste episódio, o roteirista perdeu a chance de dar voz a ela, de finalmente sabermos o que a fascina nas viagens e como ela gostaria que o Danny fizesse parte delas também, e como ela lida com a complexidade desse ser que tem tantos comportamentos em sua vida. Assim, o episódio que começou bem, acaba perdendo o propósito até mesmo em relação à criatura alienígena que o Doctor deveria combater na escola e enfraquece a caracterização dos três personagens.

Depois disso, esperei que Kill the moon viesse reestabelecer o cenário. A qualidade dos efeitos especiais e a trilha sonora souberam criar uma lua plausível, que teria perdido a gravidade e que estaria colocando em perigo a vida na Terra. O enredo traz aquela tensão já conhecida por ser necessário fazer escolhas. O episódio é ótimo, pois realmente instiga a pensar sobre a situação e trouxe de volta ao nível dos primeiros episódios, com uma agilidade na narrativa.

Porém, passei a semana inteira pensando sobre a pauta que ele levanta. E basicamente o enredo trata da legalização do aborto. Sim, isso não é imaginação minha. O Doctor abandona Clara, a estudante Courtney e a astronauta Lundvik, para que decidam em 45 minutos se elas vão matar a lua – que na verdade é um ovo que está incubando um filhote de uma criatura desconhecida – ou se vão matar esse filhote e salvar a humanidade, pois seria um perigo incalculável para a Terra a Lua deixar de existir e permitir que um alienígena de propósitos desconhecidos sobreviva nos céus.

O fato de o Doctor abandonar as três para fazer esta decisão foi bem ambígua para os fãs. Alguns creem que foi interessante ele respeitar a companion a ponto de deixar em suas mãos a escolha sobre seu próprio povo, os humanos. Por outro lado, imagine ser deixado nesta situação, à deriva numa lua prestes a ser destruída ou se destruir para dar lugar a uma criatura desconhecida. O abandono foi muito abrupto. Não dá para culpar a astronauta por desejar matar a lua tentando prever o futuro da humanidade. E se a Clara apertou o botão no último instante e deixou a criatura viver, não se pensou sobre o seu ato. Houve até mesmo um “plebiscito”, Clara pediu pelo voto dos habitantes da Terra e eles aprovaram que a criatura deveria morrer, apagando as luzes como resposta. E, num gesto de uma única pessoa, foi ignorada esta votação. Um gesto meio autoritário.

Não está aqui falar se o espectador deve ser a favor ou não da legalização do aborto. Mas o enredo poderia ter sido mais cuidadoso enquanto narrativa. Primeiro: sabemos que a série é para o público infantil também. Poderiam, sim, ter permanecido com o enredo, salvando a criatura. A ideia de salvá-la se assemelha ao enredo da baleia que funciona como fonte de vida no episódio 2 da 5ª temporada.

Como, então, propor uma alternativa? O Doctor permanecer com elas, tentar ponderar sobre a questão usando a TARDIS, que poderia expor algum conhecimento sobre essa criatura ser uma ameaça ou não. Descobrir mais sobre sua espécie. No fim, ela só foi uma mera criatura que apareceu no episódio para fazer os humanos olharem para os céus. Não poderia ter sido mais aproveitada? Nem vimos essa criatura de perto. E ainda seria necessário dar voz a essa ideia fantástica do enredo, em que você se vê compelido a escolher com os personagens, a votar, a pensar sobre um dilema moral. Porque no fim, essa complexidade moral que poderia render num bom texto, em belas falas e numa bela discussão, acabou tornando um pouco superficial a temática: levar os humanos a descobrir o universo depois do momento em que precisam tomar uma grande decisão, que nem se fez importante, porque no último segundo, a Clara apostou no desconhecido.

Assim, dá para notar que a 8ª temporada de Doctor Who está se construindo com grandes méritos e deixando algumas pequenas falhas em alguns episódios. No geral, tem sido uma temporada de grande qualidade. A escolha pelo Capaldi foi certeira e no episódio desta semana, Mummy on the Orient Express poderemos ver mais da atuação do Doctor e como a amizade com Clara está abalada ou não.

As únicas ressalvas, porém, em relação ao andamento da série são com o cuidado que precisa haver entre os roteiristas na caracterização dos personagens, pois às vezes eles soam meio incongruentes. Sem dúvida a série e o 12th Doctor trouxeram mais complexidade ao enredo, vemos um Doctor tentando acertar com Clara. Ele é um personagem egoísta, que gosta de expor o quanto sabe do universo, algo que não víamos com tanta clareza nas temporadas passadas. E a companion, agora, precisa lidar com o fato de estar numa viagem que, por vezes, pode ser perigosa.

Deixarei para comentar o episódio 8 numa próxima matéria com a segunda parte da temporada e a season finale. Mas já é possível adiantar que vemos em Clara uma tentativa – que é realmente difícil, quando nos colocamos no lugar dela – de compreender como o Doctor pode errar e mentir. E que, em alguns momentos, ele precisará esconder a verdade para que tudo se saia bem no final. E o mais importante: mesmo o Doctor não pode prever tudo. Como ele diz em Mummy on the Orient express, “Às vezes as escolhas que temos são apenas as ruins, mas você ainda precisa escolher”.

Moffat deixou lá no primeiro episódio e no final de alguns dos outros a pista de que a season finale será focada numa personagem até agora misteriosa para nós, a Missy, e o papel de Paraíso, ou Terra Prometida, um espaço que apareceu em alguns episódios com nomes distintos, às vezes sendo um jardim ou uma espécie de escritório. Qual é a conexão de Missy com o Doctor? Como ela conhece os seus passos? Ainda não foi tratado até esta primeira metade da temporada e agora esperamos que Steven Moffat passe a encaminhar os enredos para amarrar as poucas pistas que tivemos no final da temporada. E, assim, conseguir vê-la com o cenário todo completo, com um Doctor e uma companion complexos e ainda em vias de ser compreendidos pelo público.

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Bem, o que farei agora é quase o mesmo que estar em uma linha temporal diferente. Descobri que não postei no meu blog a resenha da 2a parte (mais a season finale) da 8a temporada de Doctor Who e vou postar agora. Ou seja, você está vendo este post de 2014 com uma alteração em 2015, sobre uma season finale que já passou haha O irônico é o início da minha resenha, eu acho que praticamente previ o meu erro.

No tempo humano posso até estar com um atraso de um mês, mas quando se trata de tempo e Doctor Who, posso dizer que estou relativamente atrasada para escrever essa resenha sobre o final da 8ª temporada. Então ela finalmente chegou. Se o 12th Doctor demorou duas semanas para trazer um café para a Clara, a resenha tem lá um atraso aceitável.

No dia 8 de novembro pudemos conferir a season finale da série britânica da BBC Doctor Who. Com uma temporada de 12 episódios, foi possível constatar, então, o arco proposto por Moffat lá em Deep Breath sendo, agora, concluído. Enquanto o Natal não chega com o especial da série, é válido fazer algumas considerações do que ocorreu até então e as expectativas deixadas para a próxima temporada. Para você não se sentir perdido nesta linha temporal, eu fiz uma matéria sobre a primeira metade da temporada, do episódio Deep Breath até o Kill the moon.

Se houve uma queda de qualidade em relação ao roteiro nos episódios The Caretaker e uma dúvida quanto à composição da Clara enquanto personagem em Kill the moon, em Mummy on the Orient Express, o oitavo episódio, pudemos conferir uma recuperação na amizade entre o Doctor e a Clara. Este seria o último destino para a companion que havia pedido para deixar de viajar com o Doctor. Além da ótima surpresa de ver Foxes cantando uma versão de Don’t stop me now, do Queen, com todo o charme do jazz (aqui), o episódio apresentou a perspicácia do Doctor em descobrir a origem da misteriosa múmia que perambulava pelo Expresso do Oriente sem ser visto pelos tripulantes. Uma múmia que, se vista por alguém, declarava que a pessoa estaria morta nos próximos segundos. Aqui o roteiro foi bem planejado, com algumas surpresas no enredo , fotografia e figurino bem equilibrados.

Mummy on the Orient Express foi seguido pelo excelente Flatline. Após as incongruências que me incomodaram quanto às alterações bruscas de roteiro no comportamento da Clara, em Flatline é possível vê-la em sua melhor forma (em Listen e Deep Breath ela está ótima também). No episódio, a TARDIS encolhe, e além de vermos uma versão adorável, como se fosse aquele toy que você comprou em um site gringo porque não resiste à cabine azul de polícia, temos o Doctor dentro da TARDIS encolhida. Como ele não consegue sair, precisa contar com a ajuda da Clara que, assim, assume o papel de Doctor para resolver essa falha e descobrir o que está ocorrendo em Bristol. Pessoas estão sumindo e, para homenageá-las, uma equipe de grafiteiros cria um memorial em que há as silhuetas daqueles que sumiram. Clara então, descobre, que aquele não é um memorial qualquer e que pode levá-los à recuperação daqueles que sumiram.

Flatline foi uma espécie de teste para ver se funcionaria ter uma versão feminina do Doctor. O episódio, escrito por Jamie Mathieson, traz um frescor à temporada por inserir elementos clássicos do enredo sci-fi, além das referências fantásticas ao mundo pop como A Família Addams. O episódio não perde o ritmo e nem o humor em nenhum momento e termina de modo misterioso, deixando uma abertura para o trabalho de Moffat na season finale.

In the Forest of the Night foi o décimo episódio e trouxe algumas semelhanças com contos de fadas clássicos e uma atmosfera semelhante às Crônicas de Nárnia. O episódio não colabora para o enredo geral da temporada, mas ele aparece como uma pausa aceitável antes de entrar nos dois episódios que constituem a season finale. Maebh bate na porta da TARDIS pedindo ajuda ao Doctor ao mesmo tempo em que Londres perde sua aparência cinzenta e é coberta por árvores. Em seguida descobrimos que o mundo inteiro está entre folhas. É função do Doctor, então, compreender qual é a ligação que há entre esse fenômeno e as vozes que a menina Maebh escuta. A relação entre a Clara e Danny Pink, o professor de matemática com quem ela trabalha, se estreita aqui, finalmente se mostrando mais realista e profunda. E não a comédia romântica esquisita do episódio The Caretaker.

In the Forest of the Night também dá espaço a um bom elenco de crianças que proporcionam ao episódio a delicadeza de um filme infantil. É verdade que o que foi qualidade do episódio inteiro acabou gerando um final bizarro, em que a menina Annabell, que estava sumida, surge dramaticamente de uma moita, em um final que gerou memes pela internet e o inevitável riso diante da cena mal feita. Também vale ressaltar que, com esse episódio, veio novamente a observação de que falta, na 8ª temporada, mostrar a grandiosidade do caos no planeta Terra que já é conhecida na série. No caso dos episódios Kill the Moon, In the Forest of the Night houve a chance de proporcionar essa experiência e isso não ocorreu.

Não é necessário transformar todo episódio no fim do mundo, como víamos na era do Russell T. Davies. De fato, funcionava em vários episódios e a verdade é que, às vezes, temos a nostalgia dos tempos do 10th. Mas Steven Moffat tem uma proposta diferente e igualmente válida à série no trabalho das temporadas anteriores, com uma linha temporal intrincada que amplia as chances de ver o fantástico de maneira nova e singular. O que aconteceu na 8ª temporada, porém, foi que os momentos em que era possível amplificar a dimensão desse caos na Terra, vimos o planeta esvaziado. O caos não foi representado. Nós o vemos apenas da lua, distante, as pessoas que votaram pela destruição da criatura que surgiu da lua pareciam abstratas e seus votos nem foram considerados, vale lembrar. In the Forest of the night, vemos apenas a cidade se recuperando. Mas é uma cidade vazia. Faltou, portanto, expor as pessoas que pertencem a esse planeta de modo que prossiga com o grande acerto da série, que é o contato humano e a admiração profunda que o Doctor sempre teve em relação ao planeta Terra.

Foi com essa expectativa que assisti aos dois episódios da season finale, Dark Water e Death in Heaven. O primeiro se inicia de modo surpreendente e desesperador, um grande acerto que conduz o enredo do episódio. Nele, finalmente vemos a relação da Clara e Danny ascender a um patamar significativo, e as pistas deixadas em episódios anteriores ganham forma. A tão esperada aparição da personagem Missy é o que agrada o espectador na finale. A crueldade com que ela mata, a sua identidade revelada no final do episódio, a versão que ela assume como uma Mary Poppins evil, tudo funciona em Missy. Moffat constituiu uma vilã cativante, tão perspicaz quanto o Doctor, irônica e com um humor afiado, que esperamos ver em futuros episódios.

Dark Water permite pensar sobre a vida após a morte de maneira criativa, envolvendo uma dimensão temporal, em que existe uma cidade para os mortos. E são esses mortos, adormecidos, que Missy pretende trazer novamente à vida. Da terra eles surgirão como Cybermen. Sim, eles estão de volta, como o exército de Missy. E é com essa premissa que seguimos para o último episódio, Death in Heaven. Novamente, a grandiosidade que se esperava ao presenciar a possibilidade de Missy conseguir um planeta povoado por Cybermen, de mortos voltarem agora na forma metálica de um ciborgue, se perde, em um roteiro que não parece com uma finale. A série teve acertos impecáveis em alguns episódios da temporada. A surpresa que temos ao saber que a Missy é uma regeneração do Master, Time Lord com quem o Doctor viveu em Gallifrey e inimigo recorrente na série clássica e que apareceu na 4ª temporada da nova série, se torna a promessa de uma grande história. Contudo, ela não é trabalhada de modo que a finale intensifique a rivalidade entre o Master e o Doctor e a urgência de salvar a Terra desta ameaça. Novamente, o planeta parece esvaziado e um arco que poderia ter rendido um grande enredo final perde sua dimensão diante de tantas histórias independentes nos episódios anteriores. O que poderia ser excelente soa apenas como bom e apropriado, sem um clímax na finale.

Isso não quer dizer, porém, que a série tenha sua qualidade ameaçada. Fica evidente que o Moffat está iniciando seu trabalho na composição do Doctor agora com Peter Capaldi, que tem um enorme potencial de tornar o 12th em uma versão muito profunda desse Time Lord que já viu o início e o fim dos tempos. O peso deste personagem é bem delineado em Listen, principalmente, e a 8ª temporada deixa no ar a expectativa de se ver muito mais do 12th como esse homem feito por um passado infinito e cheio de nuances.

Clara Oswald, a companion

Vale abrir um espaço aqui para falar um pouco sobre a composição da Clara como companion do Doctor. A liderança dela fica bem demarcada em Flatline e é conduzida com maestria pelo roteirista, e aqui novamente se insiste na comparação entre ela e o Doctor, que o Moffat, enquanto showrunner e roteirista da série, propõe em seus episódios.

O que ocorre é que o showrunner optou por construir essa comparação entre a companion e o Time Lord de modo que considerássemos que houve uma mudança no comportamento de Clara quando ela conheceu a nova faceta do Doctor. Se na era do 11th, com Matt Smith, Clara tinha ainda a doçura e a leveza que constituía a atmosfera deixada por Amy e Rory, da 5ª a 7ª temporada, na 8ª a impossible girl que a Clara foi dá lugar a uma personagem mais forte e mais convicta de sua importância.

Essa sua faceta surge, talvez, até mesmo como uma defesa diante do novo comportamento do Doctor, um sujeito já demarcado pelas guerras e mais sombrio e esquivo. É aceitável esse novo caminho que ela assume, uma mulher que ganha mais espaço no enredo, mais do que a Amy teve enquanto personagem que participa ativamente das cenas, na fase anterior. Mas há um problema que permeia a 8ª temporada: enquanto a Amy Pond – uma personagem que podia ter sido melhor trabalhada enquanto companion, mas que funciona porque é bem interpretada pela Karen Gillan – teve um enredo profundo e com arcos propostos em torno de sua vida e a de Rory, a história da Clara Oswald se mostrou bagunçada e confusa. Ela é a impossible girl e muito mais, uma mistura que poderia render um arco excelente, com uma complexidade bem amarrada.

Sabíamos que, ao adentrar na 8ª temporada, o enredo da Impossible girl como aquela que esteve em toda a linha temporal do Doctor havia ficado para trás. A questão é que esse fato – que deveria ganhar um destaque maior no enredo para aprofundar o psicológico da personagem – fica abandonado, esquecido. A Clara, em cada episódio, vinha com uma formulação distinta. E isso confunde, dificulta a identificação do espectador com ela. Há acertos na tentativa de torná-la mais ativa e importante, já que é preferível ver uma companion que nos represente enquanto personagem que pode viajar com o Doctor, e principalmente, que seja relevante na própria vida dele, que tenha seus próprios dilemas postos em contraste com a história incomensurável do universo.

Agora, para o especial de Natal, veremos Doctor e Clara conhecendo o Papai Noel, personagem que até, então, eu imaginava ser fictício entre os humanos da série. Parece que ele é tão invisível quanto o Doctor em suas ações anuais para trazer o Natal – ou salvar a Terra – conforme a Terra requisita. E, por enquanto, Moffat confirmou que Peter Capaldi permanece na 9ª temporada, mas ainda não sabemos se Jenna Coleman, a Clara Oswald, sai agora no especial de Natal ou se permanece pelo menos até metade da próxima temporada. Espero que ela fique e seu enredo seja amarrado de forma inteligente, para encerrar bem o sue longo ciclo. O que sabemos é que o ano de 2015 guarda infinitas viagens com o Doctor no interior da TARDIS.