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A morte das amoras

amoras

As manchas do crime residem escondidas na terra. Como mais um crime diário. O roxo se confunde com sangue, mas aos olhos humanos, é pisado e misturado pelo solado ao marrom. É só mancha de amora. Mas esquecem os homens que as amoras morrem em roxo, e não em vermelho. Roxo, quase preto, uma morte que ninguém vê.

Elas deixam as marcas no banco de concreto. Como que poças secando após as tempestades. As amoras se lançam ao chão como pequeninas ingênuas, de roxo incólume e doce, porque é assim que deve ser. Elas não pensam muito sobre o que encontram entre a trajetória que perpassa os galhos, o tronco viscoso, e o temido chão. Na verdade, as amoras não temem. Pela doçura ignorância, aquele é apenas o destino delas, morrem em roxo. Se morressem em vermelho, seriam notadas?

Muitos dos homens morrem em vermelho lançando-se ao chão. E, mesmo assim, deixam de ser vistos. Mais uma marca no jornal diário, mais uma conversa repetida entre outros humanos. O jornal é destroçado pela chuva, ou deixa mancha nas mãos. E vem o esquecimento. Tanto concreto quanto banco contam a história. Mas o Tempo precisa fazer seu serviço de tornar as manchas enegrecidas um mero esboço no cinza.

O sangue seca, e logo vira a mancha que evitamos ver. Aos poucos, os galhos acima do banco denunciam o que as amoras caídas já diziam. Todo o empreendimento das amoras era feito de garras marrons que secam. E assim começa o silencioso processo de árvore que abandona espírito. Ou espírito que abandona a árvore.

Ninguém nunca viu tal processo. Chega um dia e a árvore se esvai. As pessoas se espantam que o conhecido do primo da amiga deixou de existir, que se lançara ao abismo da morte. E logo o espanto também é digerido e esquecido. Nada incomoda, nem a morte dos homens nem a morte das amoras.

Tanto galhos quanto braços deixam de sustentar as amoras, um dia. Toda a grandiosidade daquele sistema que se sustenta em folhas, em seiva, em pele, em pensamento, se afeta pelas tempestades e pelas estações que passam. Assim como pessoas marcam os amores no tronco das árvores perdidas, as pessoas marcam os amores nas peles e poros.

Vendo, assim, as manchas no chão, o humano mais atento pode se perguntar como as amoras sabem que viveram o suficiente. Elas não sabem. Morrem dolorosamente com a promessa de enfeitarem os galhos com pingos roxos. Diferente dos humanos, as amoras não possuem sonhos e nem quem os quebre. Diante de roxo e vermelho espalhado pelo mundo, de quem seria a culpa de tão silenciosos crimes que perpassam o suspirar de cada dia?

créditos de imagem: watercolourflorals.blogspot.co.uk

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A polêmica da selfie

Publicada na minha coluna semanal do Fashionatto

cat-selfieNa semana que passou, fui bombardeada por selfies, notícias sobre selfies, polêmicas sobre selfies – as que quero tratar aqui, tweets sobre o mundo tecnológico. Resolvi, então, reuni-los aqui na coluna de hoje, para pensar um pouco sobre o assunto. O dicionário Oxford escolheu, em 2013, incluir “selfie” como a palavra do ano. Curioso contatar que “twerk” – a coreografia que Miley Cyrus fez no VMA do ano passado – e “binge-watch” (quem assiste muita televisão) competiu com o posto de palavra do ano, mas perdeu para a selfie. (aqui)

Utilizando a definição do Oxford, a selfie é “uma fotografia que a pessoa tira de si mesma, com um smartphone ou webcam, carregada em um site de mídia social”. Para quem está nas redes sociais, a selfie não é grande novidade. A impressão que dá, porém, é que o status de uma foto com um amontoado de rostos ou de si mesmo era um tanto esquisito ou, em alguns casos, narcisista se tirado e postado quase todos os dias, acabou por se tornar popular, com todo mundo falando em “vamos tirar uma selfie”, porque, claro, agora é tendência.

Para esse assunto, primeiro, vou colocar aqui que não sou enviada pelos deuses para trazer a palavra divina de que selfies são um mal da sociedade pós-moderna-líquida e precisam ser exterminadas. Dizer que é um mal é um termo pesado, pois em geral a selfie é algo comum. Obviamente, se você tem uma rede social, a selfie é a forma mais fácil de simplesmente tirar uma foto de si mesmo e atualizar o perfil. O curioso está na sua popularização repentina e nos extremos que pipocaram esses dias na mídia.

Relembrando um fato do início do ano, no Oscar, a apresentadora Ellen Degeneres proporcionou uma evidência maior à selfie quando postou uma foto– incrível, diga-se de passagem – com diversos atores consagrados na cerimônia do Oscar. Com isso, já dá para apontar uma primeira característica da selfie: ela permite a proximidade, no caso, humanizou os atores que sempre estão seguros de suas poses na maior cerimônia da área cinematográfica.

As redes sociais fazem isso por nós, já sabemos que elas prometem a proximidade e a quebra de fronteiras apenas com um clique. A selfie posiciona o sujeito no foco de sua foto, claro, mas permite a proximidade que teríamos da pessoa diante dela, presencialmente. Ficamos na altura dos olhos do observador, próximos. Em grupo, provavelmente encena-se a sensação de alegria genuína de pertencimento a um grupo enquadrado na foto, que precisou ser registrado. Dito isso, a selfie pode, sim, ter uma motivação ingênua e um mero registro a ser guardado ou divulgado por conta de um momento memorável.

Contudo, o problema vem a seguir. No dia 21, alguns sites (aqui) divulgaram que uma estátua do século XIX havia sido quebrada após um jovem subir na perna da estátua – sim, subir – para tirar uma selfie com a estátua. Uma estátua. Uma selfie com uma estátua. Do século XIX. Quebrada. Nesse momento, eu contenho aqui minhas mãos tremendo, os dentes rangendo e uma vontade de dar um tapa em uma pessoa que faz isso. Mesmo que não fosse uma estátua, que o tal ato de tirar uma selfie causasse um acidente – sei lá, tirar foto de si mesmo com um trem atrás que, por fim, acaba por atropelá-lo. Não faça isso – já é extremamente grave.

As câmeras não registraram a destruição dessa peça rara do século XIX ou talvez não queriam divulgá-lo. No momento, já estão trabalhando na sua restauração. O que nos faz pensar aqui é o que motiva alguém a querer tirar uma foto com uma estátua. Se você é estudante de Arte, pode até ser que lá no fundo você queira tirar uma foto com a Mona Lisa ao fundo, no Louvre. Ou com a Vênus de Milo. Provavelmente isso será um ímpeto de alguém que vê nas páginas dos livros essas imagens que sempre os encantou e, no fim, estar diante delas é tão inacreditável que o registro parece responder que sua existência é mesmo real.

Mas há uma sensação geral de querer registrar tudo numa viagem, quase inevitável quando já se tornou recorrente a frase “vou postar no facebook”. Ou checar suas atualizações no celular enquanto almoça com seus colegas. O problema está nessa distância que a tecnologia pode criar, no excesso que ela incita quando puxa o sujeito para um abismo de simulacros, num espaço em que ele acredita ter poder supremo para postar conteúdos que atinjam o outro – aqui entra o cyberbullying -, ou esquecer que há um mundo real acontecendo, pessoas reais existindo, enquanto prefere recriar a própria identidade nesse mundo efêmero.

E é muito difícil fugir disso. Nem sei qual solução se daria a isso. Provavelmente apenas um alerta que eu estou tentando repetir a mim mesma e que vou falar a você, meu querido  leitor, se ainda estiver aí depois de tudo o que escrevi: o mundo tecnológico acaba por trazer muitas pessoas para perto, que vivem em outros estados, países, que passam a estar na sua vida. E isso é ótimo, uma oportunidade para expandir suas opiniões, vivências.

Mas conhecê-los pessoalmente é, ainda, uma sensação que não dá para substituir. Mesmo que criem robôs futuramente, numa vida paralela em que se substitua humanos – estou falando em robôs mesmo? Meu Deus, preciso encerrar isso aqui – a presença do outro traz o inesperado. A surpresa, o choque de algo novo começar a existir numa convivência, é algo que nem a tecnologia ainda conseguiu inventar ou colocar num chip. O exato momento em que a imagem que você fazia do outro se modifica ainda não foi capturado, justamente porque é uma daquelas coisas que nem conseguimos explicar pela palavra.

Desta forma, não é necessário se prender em casa, jogar o notebook pela janela, ir viver na floresta, se mudar para uma caverna, a fim de evitar o mundo tecnológico. Mas até que ponto isso não está interferindo na maneira com que contemplamos as pequenas cenas do cotidiano? Se é que as contemplamos. Até nossa relação com a história e vivência que o outro tem para nos contar se tornou limitada a poucos caracteres, num desejo de que o outro conte logo porque o tempo é curto. Por isso, volto aqui, depois de todo esse caminho, à selfie. Será que a foto que tiramos – depois de mais de 50 versões até achar apenas uma boa, satisfatória aos olhos daquele que vai ver nosso perfil – fala mesmo sobre você? Se selfie envolve um retrato de si mesmo, onde se encaixa a nossa liberdade de registrar realmente um retrato que se oponha ao desejo do outro?

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Marina Franconeti escreve todas as terças-feiras para o Fashionatto.

fonte da imagem de capa: heavy.com

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Tornar-se mulher

Um poema atrasado para o Dia Internacional da Mulher!

De My Fair Lady* a Beauvoir**

Vê-se a construção da mulher

Vista-se e fale como a sociedade quer

E seja uma excelente esposa do lar

 

Hoje a mulher coloca seu scarpin

E vai trabalhar

Muitas vezes é o marido quem faz o jantar

Mas só isso basta para se ver emancipada?

 

Beauvoir já dizia

“Não se nasce mulher,

Torna-se mulher”

E é a cada dia

Que a mulher cria algo de sua autoria

♥♥♥

*My Fair Lady é um filme que narra a transformação de Eliza Doolitle, uma vendedora de flores ambulante com uma pronúncia péssima do inglês, em uma verdadeira dama.

**Simone de Beauvoir foi uma filósofa existencialista que, em diversas obras, tratou da questão da mulher na sociedade, como no livro O Segundo Sexo (vol. I e II)

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Ser utópico

 Após alguns meses, aqui está a minha redação do Enem 2009!

Na contemporaneidade é comum ouvir indivíduos dizendo que todos os políticos são corruptos. Ao falarem isso, cada um isenta-se desse “grupo” de corruptos e opta em permanecer, narcisicamente, fechado no próprio mundo. Mas, vivendo em sociedade, a grande questão é como estimular a ética coletiva em meio a tanta corrupção e receio de indignar-se com o que ocorre.

A filósofa Hannah Arendt contextualizou adequadamente o sentindo de conviver em sociedade: essa seria, metaforicamente, como uma “mesa”, em que aqueles que estivessem sentados permaneceriam com singularidade própria, as suas convicções, mas que, em face da mesa, buscariam um senso comum, ideias que pudessem ser justas a todos. A partir do momento em que o sujeito generaliza a corrupção, é como se a aceitasse e deixasse de buscar estabelecer culpas gradativas, isto é, punir aqueles que deixaram de exercer a autoridade (no sentido de conservar os direitos da sociedade).

Nesse ponto, na discussão acerca da culpa, Arendt também a diferenciou de responsabilidade. Ser responsável é aceitar transmitir preceitos, Cultura, História às próximas gerações; é não permitir a deterioração do mundo diante da nova geração que está se formando. E é exatamente da concepção de responsabilidade que a política necessita.

Portanto, estabelecer culpa a todos impede de haver justiça em sociedade. Dizer-se solitário por ser honesto é um equívoco, pois é função do sujeito cobrar justiça da autoridade que lhe representa. Como o filósofo do século XX, Isaiah Berlin, expressou, sonhar com um mundo igualitário em sua máxima expressão, é utópico demais. A ideia de liberdade e igualdade não consegue caminhar lado a lado, ambas se anulam entre si. Porém, é a utopia que move o ser humano a fim de tornar a sociedade a mais justa possível em face do impossível, da perfeição da utopia. É necessário construir um futuro baseado no passado e tentar alcançar as grandes narrativas, “repetir, repetir até ficar diferente”, como Manuel de Barros sabiamente escreveu.