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Vulgo Grace, de Margaret Atwood

Vulgo Grace-Margaret Atwood

Publicado no site Artrianon

Vulgo Grace, de Margaret Atwood

Rocco, 511 páginas.

A loucura não é uma ausência, nem um mudar-se para outro lugar, mas é outra pessoa que entra. Com essas palavras, a protagonista de Vulgo Grace, livro de Margaret Atwood, estabelece-se a possibilidade de que o terreno em que adentramos é o de alguém com um quadro de histeria. Em 1843, Grace Marks, com 16 anos, é levada ao tribunal do Canadá para ser julgada pelo assassinato brutal de Thomas Kinnear, seu patrão, e a governanta e amante dele, Nancy Montgomery. Para o tribunal, Grace teria ajudado ou sido mandante do crime, junto a James McDermott. O leitor é posto entre capítulos narrados em primeira pessoa, por Grace, e os capítulos do dr. Simon Jordan, o jovem estudioso de doenças mentais que é contratado para apresentar um relatório que inocente Grace, provando que ela possui o quadro de histeria.

Até o fim somos levados, com a mesma dúvida e tom investigativo de Jordan para compreender se Grace se lembra do crime e se possui alguma doença. Margaret Atwood, autora também de O conto da aia, faz um trabalho impecável ao impedir que o leitor engrandeça um personagem ou assuma apenas um lado da história. Embora sejamos facilmente conquistados por Grace. Ainda assim, tanto Jordan, o aparente salvador das jovens com seu conhecimento clínico que ele nem bem sabe se tem, e a acusada Grace Marks, que recua quando questionada sobre o crime, têm suas fraquezas. A melhor qualidade de Vulgo Grace são os fios complexos com os quais tece a trama e nos coloca no coração de Grace, mesmo preservando o seu mistério.

A história real pesquisada por Atwood e transformada em romance lança luz a inúmeros temas relevantes, bem como estabelece com extrema riqueza o cenário e os costumes do século XIX, no Canadá. A voz de sua protagonista é poderosamente construída, por sua complexidade e suas resistências, indo de prisões a asilos, e assistindo a morte de perto.

Vulgo Grace é um livro raro. Possui uma fluidez e sofisticação no uso da linguagem de forma tão bem equilibrada que logo passamos a ter nossa mente invadida pelas imagens da vivência de Grace, da pobreza, das casas onde trabalhou como empregada doméstica, e ainda as imagens belíssimas e simbólicas visualizadas pela garota. Atwood torna Grace uma heroína escorregadia, fascinante, muito humana e íntima. Recebemos a versão dos fatos narrados por ela, em primeira pessoa, numa escrita encantadora, como se conversássemos com a protagonista enquanto a jovem costura.

Contar a própria história, como Grace faz, parece um caminho para reconhecer se houve participação no assassinato. Somos conduzidos, no decorrer dos capítulos, a essa febril vontade de obter respostas, se ela matou ou não, se ela sabia o que estava fazendo, se havia um quadro de histeria e quem eram as pessoas que estavam na vida dela. Porém, mais do que isso, constatamos, colocando-nos no lugar de Grace por meio de sua narrativa, como era árduo ser uma jovem de 16 anos no século XIX: em meio a uma sociedade onde todas as simbologias e representações são tomadas por algum significado divino, com a Igreja predominando a narrativa das pessoas, a punição para que a mulher nunca olhe, de fato, o seu corpo pode levar a extremos. Essa pressão da religião exercida moralmente sobre a mulher levava a um imenso desconhecimento sobre o mundo, sobre a própria saúde, fazia confundir a realidade com a ilusão, e tornava a ingenuidade um perigo.

A Grace que nos relata a própria história precisou de anos para se entender e compreender o mundo, como se olhasse a si mesma do alto, estudando a jovem Grace. É com uma linguagem convincente e muito filosófica que Grace nos pontua perceber as idealizações que faziam dela: tanto o médico, que tem seu fetiche tácito por querer salvar a doce e inocente donzela com seus estudos, até os homens que culparam Grace, de início, por ter seduzido James McDermott para que cometesse um crime por ela. Essas suposições que faziam logo de uma mulher, naquele contexto, tornavam o julgamento um grande espetáculo que culminava na sede coletiva de ver o corpo feminino sendo enforcado no final de tudo.

Além disso, Vulgo Grace mostra realmente como o casamento significava algo bem distante da relação romântica. Após anos trabalhando como empregada – anos em que ela precisava manter sua reputação incólume para que as pessoas a indicassem de um emprego a outro -, o casamento significava simplesmente poder ter um terreno, comida e uma ocupação que não a levasse a trabalhar por todas as horas do dia. Se o homem era decente, em certa medida, melhor. Se era violento, a mulher precisava suportar.

Significava também não morrer após ser obrigada a abortar porque um homem deu um anel qualquer e prometeu casamento. Logo que a menina começava a apresentar transformações no corpo, passava a ser vista de forma sexualizada, enquanto os garotos de mesma idade eram só garotos. Esse contexto é apresentado por Atwood com uma verossimilhança surpreendente. Acaba por retratar uma época pela voz de uma personagem realmente inserida em seu tempo, e não uma versão contemporânea distante daquela realidade.

Na composição de imagens e referências poéticas do livro, menciona-se Dama do Lago (Lady of the Lake), presente na literatura medieval britânica, e o ideário dos mares revoltos e uma donzela no alto de um penhasco, ensandecida, cantando uma canção antes de se jogar. No livro é citado um dos cantos de Lady of the Lake, de Sir Walter Scott, próximo da realidade de Grace por ser deixada “entregue à loucura e à vergonha/que a privara da honra e arruinara sua reputação”. E remete-se ao simbolismo de John Everett Millais e John William Waterhouse.

John Everett Millais Ophelia
Ophelia, John Everett Millais
The Lady of Shalott, 1888 John William Waterhouse
The Lady of Shalott, John William Waterhouse

Em entrevista ao Huffpost Brasil, a historiadora Ashley Bunbury afirma que o que fez Grace Marks conseguir se livrar da pena de morte foi usar do próprio sistema patriarcal canadense, aplicando o ideal feminino da época – mulher casta, subserviente e religiosa -, para assim não ter sua condenação à forca. “Ela usou o cavalheirismo e o protecionismo do sistema legal do Canadá do século 19 ao colocar-se como uma mulher ‘digna’ da proteção da lei.”

A historiadora, ao cursar a área na Universidade Mount Royal, em Calgary, Alberta, pôde escrever um dos poucos artigos acadêmicos sobre o caso de Grace Marks. Publicado no periódico Mount Royal Undergraduate Humanities Review, o artigoproporciona uma leitura baseada nas transcrições do julgamento, reportagens de jornais da época e o diário de uma mulher que visitou Grace na prisão.

A narrativa de Margaret Atwood não confirma, porém, a culpa de Grace Marks no crime. Quanto a postura da real Grace Marks só ressalta a necessidade da réu em reforçar-se pelo ideal da mulher para, então, ser ouvida e clamar por alguma justiça se for inocente, ou seja, um sistema judicial que não tinha neutralidade alguma.

E, mais tarde, quando Grace Marks começa a apresentar sintomas de histeria, ela se depara com uma concepção de que a mulher, pura por natureza, estaria agindo de forma mais corrupta que o homem por demonstrar a loucura nesse corpo que deveria ser incólume. No tratamento, havia tanto o paternalismo em defender a mulher por essa suposta condição natural e a punição por desviar das expectativas sociais.

Assim, Vulgo Grace é uma obra que revela a riqueza que é o trabalho perspicaz de Margaret Atwood. Trata o feminino e a História com fidelidade sem deixar de lado a licença poética, como em suas demais obras publicadas pela editora Rocco, O conto da aia, A Odisseia de Penélope, entre outros. É muito fácil terminar Vulgo Grace com o desejo renovado de adentrar em toda a obra de Atwood e celebrar a mente dessa escritora que consegue visualizar com clareza a situação feminina no decorrer da História e os cenários políticos.

Em 2017, a Netflix lançou a minissérie Alias Grace, uma adaptação extremamente fiel ao livro. Dirigida por Mary Harron, usa o texto de Margaret Atwood diretamente como referência. A série consegue apresentar com exatidão o universo do livro e a beleza do texto, é uma grata surpresa para quem amou a leitura. Além disso, conta com a atuação de Sarah Gadon, perfeita ao encarnar a complexidade de Grace, conseguindo reproduzir os mesmos desvios que a narrativa faz pela voz da personagem.

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Referências bibliográficas:

A intrigante história real por trás de ‘Alias Grace’, série baseada no livro de Margaret Atwood

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Patti Smith e seu conselho aos jovens

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Publicado no site Notaterapia

Patti Smith é uma premiada musicista americana de punk rock, poeta e artista visual, que se tornou uma figura altamente influente na cena punk rock de Nova York com seu álbum de estreia Horses em 1975. Smith consegue aproximar rock e poesia com algo dos ultrarromânticos franceses, como Rimbaud e Baudelaire, por isso foi apelidada “a poetisa do punk”. Em 2007 ela foi introduzida no Hall da Fama do Rock and Roll, e em 2010 a revista Rolling Stone a colocou no 47º lugar da sua lista dos 100 Maiores Artistas. Entre seus muitos álbuns estão Horses (1975), Radio Ethiopia (1976), Easter (1978), Gone Again (1996) e Banga (2012).

A artista possui um trabalho destacável em diversas áreas. Música, fotografia, poesia, literatura. Compondo obras como Because the night, People have the power e Gloria, parcerias com Bruce Springsteen, R.E.M., Bob Dylan, Patti perpassou as décadas do rock presenciando as suas vertentes tanto como criadora quanto espectadora. O verso de Gloria, “Jesus died for somebody’s sins…but not mine” (Jesus morreu pelos pecados de alguém…mas não pelos meusse tornou um marco no discurso do punk rock.

Conheceu, quando jovem, Janis Joplin em seu auge. E viveu como jovem a época efervescente dos anos 70, entre o movimento hippie e punk. Passou fome e viu a pobreza de sua juventude tentando formar-se como artista em seus vinte anos.

Muitos estão descobrindo o trabalho de Patti, atualmente, com a tradução das publicações de suas memórias. O livro Só garotos (2010) e Linha M (2015) são dois legados literários preciosos. O primeiro, vencedor do National Book Award, relata o relacionamento amoroso e fraterno com o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Ambos extremamente jovens, perdidos e descobrindo os seus processos artísticos é uma obra essencial para quem é um artista iniciante. Pois revela como é o processo dos artistas, muito mais do que os resultados. Já Linha M é uma fase mais madura da escritora, com suas escritas povoando temas cotidianos.

Em agosto de 2012, ela concedeu alguns conselhos para o público jovem que a assistia no festival literário de Louisiana, na Dinamarca. O discurso tem grande simplicidade e carrega a doçura com que Patti olha para as novas gerações. Assim como em sua obra Só garotos, Patti consegue segurar nas mãos as palavras necessárias para falar sobre o mundo com sinceridade. Abaixo tem o vídeo e a tradução de seus conselhos:

“Um escritor, ou qualquer artista, não pode esperar ser abraçado pelo povo. Você sabe que eu fiz discos que parecia que ninguém os escutava, você escreve livros de poesia que talvez 50 pessoas leram, e você apenas continua fazendo o seu trabalho, porque precisa fazer, porque é sua vocação. Mas é lindo ser abraçado pelo povo.

Algumas pessoas me disseram: “Você não acha que esse tipo de sucesso estraga alguém como artista? Você sabe, se você é um roqueiro punk, você não quer ter um disco de sucesso”, e eu disse “Não, foda-se você”. É como se alguém fizesse seu trabalho apenas para algumas pessoas. Quanto mais pessoas você puder tocar, mais maravilhoso isso pode ser. Você não faz o seu trabalho e diz: “Eu só quero que as pessoas legais o leiam”. Você quer que todos sejam transportados, ou, felizmente, inspirados por ele.

Quando eu era muito jovem, William Burroughs me disse, e eu estava realmente lutando, nós nunca tivemos dinheiro, e o conselho que William me deu foi:

“Construa um bom nome. Mantenha seu nome limpo. Não faça promessas. Não se preocupe em ganhar muito dinheiro, ou ter sucesso, esteja preocupado em fazer um bom trabalho, fazer as escolhas certas e proteger seu trabalho, e se você construir um bom nome, eventualmente, esse nome será a sua própria moeda”

E eu lembro quando ele me disse isso e eu disse: “Sim, mas, William, meu nome é Smith, você sabe.” (é um sobrenome comum)

Apenas brincando, mas, para ser um artista, na verdade, ser um ser humano neste momento, é estranho. Você tem que passar pela vida, esperançosamente tentando se manter saudável, sendo tão feliz quanto você pode, e perseguindo, você sabe, fazendo o que você quer. Se o que você quer é ter filhos, se o que você quer é ser um padeiro, se o que você quer é viver na floresta, ou tentar salvar o ambiente, ou talvez o que você quer é escrever roteiros para séries de detetives.

Não importa, o que importa é saber o que você quer e persegui-lo, e entender que isso vai ser difícil, porque a vida é realmente difícil. Você vai perder pessoas que você ama, você vai sofrer mágoas, às vezes você vai ficar doente, às vezes você vai ter muita dor de dente, às vezes você vai ficar com fome, mas por outro lado, você vai ter as mais belas experiências. Às vezes apenas o céu, às vezes um trabalho que você faz que é tão maravilhoso, ou você encontra alguém para amar, ou seus filhos.

Há coisas bonitas na vida, então, quando você está sofrendo é parte do pacote.

Você sabe, você percebe isso: nós nascemos e também temos que morrer. Nós sabemos disso. Então, faz sentido que vamos ser muito felizes, e as coisas vão ser muito fodidas também. Apenas caminhe com isso. É como uma montanha-russa. Nunca vai ser perfeito, vão ter momentos perfeitos e, em seguida, pontos difíceis, mas tudo vale a pena, acredite em mim, eu acho que é.

Tenho certeza de que cada geração poderia dizer que o tempo deles era o melhor e o pior dos tempos. Mas acho que agora estamos em algo diferente que eu nunca vi. É um momento pioneiro, porque não há outro momento na história como agora. E é isso que faz com que seja único.

Não é único porque temos artistas de estilo renascentista, é único porque as pessoas…é a época das pessoas. Porque a tecnologia realmente democratizou a auto expressão. Em vez de um punhado de pessoas fazendo seus próprios registros ou escrevendo suas próprias músicas, todo mundo pode escrevê-las.

Todos podem postar um poema na internet e fazer com que as pessoas o leiam, tenham acesso, e acessem o que nunca tiveram antes, há possibilidades de destaque global, para derrubar essas corporações e governos que pensam governar o mundo, porque podemos nos unir como um só povo através da tecnologia.

Nós todos ainda estamos descobrindo isso, e que poder nós realmente temos, mas as pessoas ainda têm o poder, mais do que nunca, e eu acho que agora, estamos passando por esse doloroso tipo de adolescência. Mais uma vez, o que fazemos com essa tecnologia, o que fazemos com o nosso mundo, quem somos nós?

Mas também se torna emocionante. Você sabe, todos os jovens agora, as novas gerações, eles são pioneiros em um novo tempo.

Então, apenas, eu digo: fique forte, tente se divertir, mas fique limpo, fique saudável, porque você sabe, você tem muitos desafios pela frente e seja feliz”.

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A morte das amoras

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As manchas do crime residem escondidas na terra. Como mais um crime diário. O roxo se confunde com sangue, mas aos olhos humanos, é pisado e misturado pelo solado ao marrom. É só mancha de amora. Mas esquecem os homens que as amoras morrem em roxo, e não em vermelho. Roxo, quase preto, uma morte que ninguém vê.

Elas deixam as marcas no banco de concreto. Como que poças secando após as tempestades. As amoras se lançam ao chão como pequeninas ingênuas, de roxo incólume e doce, porque é assim que deve ser. Elas não pensam muito sobre o que encontram entre a trajetória que perpassa os galhos, o tronco viscoso, e o temido chão. Na verdade, as amoras não temem. Pela doçura ignorância, aquele é apenas o destino delas, morrem em roxo. Se morressem em vermelho, seriam notadas?

Muitos dos homens morrem em vermelho lançando-se ao chão. E, mesmo assim, deixam de ser vistos. Mais uma marca no jornal diário, mais uma conversa repetida entre outros humanos. O jornal é destroçado pela chuva, ou deixa mancha nas mãos. E vem o esquecimento. Tanto concreto quanto banco contam a história. Mas o Tempo precisa fazer seu serviço de tornar as manchas enegrecidas um mero esboço no cinza.

O sangue seca, e logo vira a mancha que evitamos ver. Aos poucos, os galhos acima do banco denunciam o que as amoras caídas já diziam. Todo o empreendimento das amoras era feito de garras marrons que secam. E assim começa o silencioso processo de árvore que abandona espírito. Ou espírito que abandona a árvore.

Ninguém nunca viu tal processo. Chega um dia e a árvore se esvai. As pessoas se espantam que o conhecido do primo da amiga deixou de existir, que se lançara ao abismo da morte. E logo o espanto também é digerido e esquecido. Nada incomoda, nem a morte dos homens nem a morte das amoras.

Tanto galhos quanto braços deixam de sustentar as amoras, um dia. Toda a grandiosidade daquele sistema que se sustenta em folhas, em seiva, em pele, em pensamento, se afeta pelas tempestades e pelas estações que passam. Assim como pessoas marcam os amores no tronco das árvores perdidas, as pessoas marcam os amores nas peles e poros.

Vendo, assim, as manchas no chão, o humano mais atento pode se perguntar como as amoras sabem que viveram o suficiente. Elas não sabem. Morrem dolorosamente com a promessa de enfeitarem os galhos com pingos roxos. Diferente dos humanos, as amoras não possuem sonhos e nem quem os quebre. Diante de roxo e vermelho espalhado pelo mundo, de quem seria a culpa de tão silenciosos crimes que perpassam o suspirar de cada dia?

créditos de imagem: watercolourflorals.blogspot.co.uk

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A polêmica da selfie

Publicada na minha coluna semanal do Fashionatto

cat-selfieNa semana que passou, fui bombardeada por selfies, notícias sobre selfies, polêmicas sobre selfies – as que quero tratar aqui, tweets sobre o mundo tecnológico. Resolvi, então, reuni-los aqui na coluna de hoje, para pensar um pouco sobre o assunto. O dicionário Oxford escolheu, em 2013, incluir “selfie” como a palavra do ano. Curioso contatar que “twerk” – a coreografia que Miley Cyrus fez no VMA do ano passado – e “binge-watch” (quem assiste muita televisão) competiu com o posto de palavra do ano, mas perdeu para a selfie. (aqui)

Utilizando a definição do Oxford, a selfie é “uma fotografia que a pessoa tira de si mesma, com um smartphone ou webcam, carregada em um site de mídia social”. Para quem está nas redes sociais, a selfie não é grande novidade. A impressão que dá, porém, é que o status de uma foto com um amontoado de rostos ou de si mesmo era um tanto esquisito ou, em alguns casos, narcisista se tirado e postado quase todos os dias, acabou por se tornar popular, com todo mundo falando em “vamos tirar uma selfie”, porque, claro, agora é tendência.

Para esse assunto, primeiro, vou colocar aqui que não sou enviada pelos deuses para trazer a palavra divina de que selfies são um mal da sociedade pós-moderna-líquida e precisam ser exterminadas. Dizer que é um mal é um termo pesado, pois em geral a selfie é algo comum. Obviamente, se você tem uma rede social, a selfie é a forma mais fácil de simplesmente tirar uma foto de si mesmo e atualizar o perfil. O curioso está na sua popularização repentina e nos extremos que pipocaram esses dias na mídia.

Relembrando um fato do início do ano, no Oscar, a apresentadora Ellen Degeneres proporcionou uma evidência maior à selfie quando postou uma foto– incrível, diga-se de passagem – com diversos atores consagrados na cerimônia do Oscar. Com isso, já dá para apontar uma primeira característica da selfie: ela permite a proximidade, no caso, humanizou os atores que sempre estão seguros de suas poses na maior cerimônia da área cinematográfica.

As redes sociais fazem isso por nós, já sabemos que elas prometem a proximidade e a quebra de fronteiras apenas com um clique. A selfie posiciona o sujeito no foco de sua foto, claro, mas permite a proximidade que teríamos da pessoa diante dela, presencialmente. Ficamos na altura dos olhos do observador, próximos. Em grupo, provavelmente encena-se a sensação de alegria genuína de pertencimento a um grupo enquadrado na foto, que precisou ser registrado. Dito isso, a selfie pode, sim, ter uma motivação ingênua e um mero registro a ser guardado ou divulgado por conta de um momento memorável.

Contudo, o problema vem a seguir. No dia 21, alguns sites (aqui) divulgaram que uma estátua do século XIX havia sido quebrada após um jovem subir na perna da estátua – sim, subir – para tirar uma selfie com a estátua. Uma estátua. Uma selfie com uma estátua. Do século XIX. Quebrada. Nesse momento, eu contenho aqui minhas mãos tremendo, os dentes rangendo e uma vontade de dar um tapa em uma pessoa que faz isso. Mesmo que não fosse uma estátua, que o tal ato de tirar uma selfie causasse um acidente – sei lá, tirar foto de si mesmo com um trem atrás que, por fim, acaba por atropelá-lo. Não faça isso – já é extremamente grave.

As câmeras não registraram a destruição dessa peça rara do século XIX ou talvez não queriam divulgá-lo. No momento, já estão trabalhando na sua restauração. O que nos faz pensar aqui é o que motiva alguém a querer tirar uma foto com uma estátua. Se você é estudante de Arte, pode até ser que lá no fundo você queira tirar uma foto com a Mona Lisa ao fundo, no Louvre. Ou com a Vênus de Milo. Provavelmente isso será um ímpeto de alguém que vê nas páginas dos livros essas imagens que sempre os encantou e, no fim, estar diante delas é tão inacreditável que o registro parece responder que sua existência é mesmo real.

Mas há uma sensação geral de querer registrar tudo numa viagem, quase inevitável quando já se tornou recorrente a frase “vou postar no facebook”. Ou checar suas atualizações no celular enquanto almoça com seus colegas. O problema está nessa distância que a tecnologia pode criar, no excesso que ela incita quando puxa o sujeito para um abismo de simulacros, num espaço em que ele acredita ter poder supremo para postar conteúdos que atinjam o outro – aqui entra o cyberbullying -, ou esquecer que há um mundo real acontecendo, pessoas reais existindo, enquanto prefere recriar a própria identidade nesse mundo efêmero.

E é muito difícil fugir disso. Nem sei qual solução se daria a isso. Provavelmente apenas um alerta que eu estou tentando repetir a mim mesma e que vou falar a você, meu querido  leitor, se ainda estiver aí depois de tudo o que escrevi: o mundo tecnológico acaba por trazer muitas pessoas para perto, que vivem em outros estados, países, que passam a estar na sua vida. E isso é ótimo, uma oportunidade para expandir suas opiniões, vivências.

Mas conhecê-los pessoalmente é, ainda, uma sensação que não dá para substituir. Mesmo que criem robôs futuramente, numa vida paralela em que se substitua humanos – estou falando em robôs mesmo? Meu Deus, preciso encerrar isso aqui – a presença do outro traz o inesperado. A surpresa, o choque de algo novo começar a existir numa convivência, é algo que nem a tecnologia ainda conseguiu inventar ou colocar num chip. O exato momento em que a imagem que você fazia do outro se modifica ainda não foi capturado, justamente porque é uma daquelas coisas que nem conseguimos explicar pela palavra.

Desta forma, não é necessário se prender em casa, jogar o notebook pela janela, ir viver na floresta, se mudar para uma caverna, a fim de evitar o mundo tecnológico. Mas até que ponto isso não está interferindo na maneira com que contemplamos as pequenas cenas do cotidiano? Se é que as contemplamos. Até nossa relação com a história e vivência que o outro tem para nos contar se tornou limitada a poucos caracteres, num desejo de que o outro conte logo porque o tempo é curto. Por isso, volto aqui, depois de todo esse caminho, à selfie. Será que a foto que tiramos – depois de mais de 50 versões até achar apenas uma boa, satisfatória aos olhos daquele que vai ver nosso perfil – fala mesmo sobre você? Se selfie envolve um retrato de si mesmo, onde se encaixa a nossa liberdade de registrar realmente um retrato que se oponha ao desejo do outro?

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Marina Franconeti escreve todas as terças-feiras para o Fashionatto.

fonte da imagem de capa: heavy.com

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Tornar-se mulher

Um poema atrasado para o Dia Internacional da Mulher!

De My Fair Lady* a Beauvoir**

Vê-se a construção da mulher

Vista-se e fale como a sociedade quer

E seja uma excelente esposa do lar

 

Hoje a mulher coloca seu scarpin

E vai trabalhar

Muitas vezes é o marido quem faz o jantar

Mas só isso basta para se ver emancipada?

 

Beauvoir já dizia

“Não se nasce mulher,

Torna-se mulher”

E é a cada dia

Que a mulher cria algo de sua autoria

♥♥♥

*My Fair Lady é um filme que narra a transformação de Eliza Doolitle, uma vendedora de flores ambulante com uma pronúncia péssima do inglês, em uma verdadeira dama.

**Simone de Beauvoir foi uma filósofa existencialista que, em diversas obras, tratou da questão da mulher na sociedade, como no livro O Segundo Sexo (vol. I e II)

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Ser utópico

 Após alguns meses, aqui está a minha redação do Enem 2009!

Na contemporaneidade é comum ouvir indivíduos dizendo que todos os políticos são corruptos. Ao falarem isso, cada um isenta-se desse “grupo” de corruptos e opta em permanecer, narcisicamente, fechado no próprio mundo. Mas, vivendo em sociedade, a grande questão é como estimular a ética coletiva em meio a tanta corrupção e receio de indignar-se com o que ocorre.

A filósofa Hannah Arendt contextualizou adequadamente o sentindo de conviver em sociedade: essa seria, metaforicamente, como uma “mesa”, em que aqueles que estivessem sentados permaneceriam com singularidade própria, as suas convicções, mas que, em face da mesa, buscariam um senso comum, ideias que pudessem ser justas a todos. A partir do momento em que o sujeito generaliza a corrupção, é como se a aceitasse e deixasse de buscar estabelecer culpas gradativas, isto é, punir aqueles que deixaram de exercer a autoridade (no sentido de conservar os direitos da sociedade).

Nesse ponto, na discussão acerca da culpa, Arendt também a diferenciou de responsabilidade. Ser responsável é aceitar transmitir preceitos, Cultura, História às próximas gerações; é não permitir a deterioração do mundo diante da nova geração que está se formando. E é exatamente da concepção de responsabilidade que a política necessita.

Portanto, estabelecer culpa a todos impede de haver justiça em sociedade. Dizer-se solitário por ser honesto é um equívoco, pois é função do sujeito cobrar justiça da autoridade que lhe representa. Como o filósofo do século XX, Isaiah Berlin, expressou, sonhar com um mundo igualitário em sua máxima expressão, é utópico demais. A ideia de liberdade e igualdade não consegue caminhar lado a lado, ambas se anulam entre si. Porém, é a utopia que move o ser humano a fim de tornar a sociedade a mais justa possível em face do impossível, da perfeição da utopia. É necessário construir um futuro baseado no passado e tentar alcançar as grandes narrativas, “repetir, repetir até ficar diferente”, como Manuel de Barros sabiamente escreveu.