Bordel-Museu: O sonho raro e estranho registrado por Baudelaire

Bordel-Museu: O sonho raro e estranho registrado por Baudelaire

Matéria publicada no site Literatortura 

courbet_portrait_baudelaire_1848_mediumO medo pode residir no inesperado do sonho. Nas verdades ocultas nos signos de um cenário que vemos apenas entre sombras e por trás das cortinas. Nas palavras podem morar mundos. E são as sensações de mistério e quase impotência diante das verdades ocultas da existência humana que encontramos ao ler o sonho do bordel-museu, escrito pelo poeta Charles Baudelaire, e abordado no livro A Folie Baudelaire, de Roberto Calasso. Neste livro, o autor italiano analisa o sonho de Baudelaire e a edição lançada em 2012 pela Companhia das Letras traz provavelmente a única tradução disponível em português do sonho. Pouco se conhece sobre este sonho que Baudelaire teria escrito à mão, em um registro veloz, para não perder o frescor das últimas imagens que viu ao acordar. Por isso, nesta matéria, como comemoração do Halloween, você poderá lê-lo.

Mas antes de conhecê-lo é necessário saber que Baudelaire transcreveu este sonho numa carta para Asselineau, um amigo que, posteriormente, cuidaria de reunir seus papéis. No dia 13 de março de 1856, numa quinta-feira, Baudelaire é acordado de um sonho pelo arrastar dos móveis de Jeanne, a cortesã com quem mantinha um relacionamento. Por que é válido conhecê-lo? O sonho, na leitura de Roberto Calasso, irá revelar muito do próprio contexto que Baudelaire vivenciava na época. E o mais curioso é constatar, enquanto leitor de ambos, que o sonho revela muito mais do autor francês que existe em nosso imaginário.

Há vários pontos que podem ser vistos no capítulo O sonho do bordel-museu que Roberto Calasso desenvolve em seu livro.  Mas preferi abordar apenas alguns deles e, principalmente, deixar aqui o sonho de Baudelaire para ser lido, um ótimo achado para repensar o grotesco e o estranho que conseguem ser poéticos também. Depois do sonho transcrito, há uma breve exposição do que Calasso interpretou dele e como podemos entendê-lo.

“Eram (no meu sonho) 2 ou 3 horas da manhã, e eu passeava sozinho pelas ruas. Encontro Castille, que tinha, creio, várias incumbências a cumprir, e eu lhe digo que o acompanharei e aproveitarei a carruagem para executar um encargo pessoal. Então, tomamos uma carruagem. Eu considerava meu dever oferecer à dona de uma grande casa de prostituição um livro meu que acabava de sair. Ao olhar meu livro, que eu trazia na mão, aconteceu de ser um livro obsceno, o que me explicou a necessidade de oferecê-lo a essa mulher. Ademais, em minha mente, essa necessidade era no fundo um pretexto, uma oportunidade para trepar, já que estava ali, com uma das moças da casa, e isso implica que, sem a necessidade de oferecer o livro, eu não ousaria ir a semelhante casa. Não digo nada de tudo isso a Castille, mando a carruagem parar à porta daquela casa e deixo Castille na carruagem, prometendo a mim mesmo não fazê-lo esperar muito. Logo depois de tocar e entrar, percebo que meu pau pende da abertura desabotoada da calça, e julgo indecente me apresentar assim, mesmo num lugar daqueles. Além disso, ao sentir os pés muito molhados, percebo que tenho os pés nus, e que os meti numa poça úmida na base da escada. Bah! – digo a mim mesmo -, vou lavá-los antes de trepar, e antes de sair da casa. Subo. A partir desse momento, o livro não aparece mais.

Encontro-me em vastas galerias, comunicantes entre si – mal iluminadas -, de aspecto triste e decadente, como os velhos cafés, os antigos gabinetes de leitura, ou as casas de jogo vagabundas. As moças, espalhadas por essas vastas galerias, conversam com uns homens, entre os quais vejo alguns colegiais. Sinto-me muito triste e muito intimidado; temo que vejam meus pés. Olho para estes e percebo que um traz um sapato. Pouco depois, percebo que ambos estão calçados.

O que me impressiona é que as paredes dessas vastas galerias estão ornadas de desenhos de todo tipo – emoldurados. Nem todos são obscenos. Há até desenhos de arquitetura e figuras egípcias. Como me sinto cada vez mais intimidado, e não ouso abordar uma moça, divirto-me em examinar minuciosamente todos os desenhos.

Numa parte recuada de uma dessas galerias, encontro uma série muito singular. Em meio a uma multidão de pequenas molduras, vejo desenhos, miniaturas, provas fotográficas. Representam pássaros coloridos com plumagens muito brilhantes, e cujo olho é vivo. Às vezes, há somente metades de pássaros. Às vezes representam imagens de seres estranhos, monstruosos, quase amorfos, como aerólitos. No canto de cada desenho, há uma anotação. – Tal moça, de tal idade…, deu à luz este feto em tal ano – e outras anotações do gênero.

Vem-me a reflexão de que esse tipo de desenho não é nem um pouco feito para inspirar ideias de amor.

Outra reflexão é esta: Realmente só existe no mundo um jornal, e é Le Siècle, que possa ser suficientemente estúpido para abrir uma casa de prostituição e para instalar ali, ao mesmo tempo, uma espécie de museu médico. De fato, penso de repente, foi Le Siècle que financiou esta especulação de bordel, e o museu médico se explica por sua mania de progresso, de ciência, de difusão das luzes. Então reflito que a estupidez e a tolice modernas têm sua utilidade misteriosa, e que muitas vezes, por uma mecânica espiritual, aquilo que foi feito para o mal se transforma em bem.

Admiro em mim mesmo a justeza de meu espírito filosófico.

Mas, entre todos aqueles seres, há um que viveu. É um monstro nascido na casa, e que se mantém eternamente sobre um pedestal. Embora vivo, faz parte do museu. Não é feio. Seu aspecto é até gracioso, muito moreno, de uma cor oriental. Há nele muito rosa e muito verde. Está agachado, mas numa posição esquisita e contorcida. Além disso, há algo negrusco que faz várias voltas em torno dele e de seus membros, como uma grande serpente. Pergunto-lhe o que é aquilo, e ele me diz que é um apêndice monstruoso que parte de sua cabeça, algo elástico como borracha, e tão comprido, tão comprido, que se ele enrolasse na cabeça como se fossem cabelos, o peso seria muito grande e absolutamente impossível de aguentar, e que por isso é obrigado a enrolá-lo ao redor dos membros, o que, aliás, faz um efeito mais bonito. Converso longamente com o monstro. Ele me informa de seus tédios e de seus pesares. Já faz muitos anos que é obrigado a permanecer naquela sala, sobre aquele pedestal, para a curiosidade do público. Mas seu principal aborrecimento é a hora da ceia. Como é um ser vivo, é obrigado a cear com as moças do estabelecimento, a caminhar cambaleando, com seu apêndice de borracha, até a sala da ceia, onde precisa mantê-lo enrolado em torno de si ou instalá-lo como uma pilha de cordas sobre uma cadeira, porque, se o deixasse arrastar-se pelo chão, isso faria sua cabeça tombar para trás. Além disso, é obrigado, pequeno e atarracado como é, a comer ao lado de uma moça alta e bem-feita. De resto, me dá todas essas explicações sem amargura. Não ouso tocá-lo, mas me interesso por ele.

Nesse momento (isto já não é sonho), minha mulher faz barulho com um móvel em seu quarto, o que me acorda. Acordo exausto, prostrado, com as costas, as pernas e os flancos moídos. Presumo que estava dormindo na posição contorcida do monstro”.

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A interpretação de Roberto Calasso para o sonho

Primeiro, a leitura do sonho, quase um conto, deixa uma sensação densa quando terminado, como se estivéssemos contorcidos na cama igual a Baudelaire. Para entendê-lo, Roberto Calasso irá apontar algumas interpretações para os elementos encontrados no sonho. Há uma insegurança, por parte de Baudelaire, em adentrar no bordel com os pés descalços, o que indicaria uma fragilidade de sua exposição enquanto autor. Parece que ele deseja, no sonho, entregar a uma prostituta a obra Histórias extraordinárias, de Poe, a qual ele mesmo traduziu à época. Há três elementos que Calasso aponta serem de suma importância, e na própria leitura do sonho, se mostram urgentes: Baudelaire entra no bordel com o genital à mostra, com o “dever” de entregar um livro que, nas palavras dele, “aconteceu de ser um livro obsceno”; o segundo elemento é seus pés descalços, que Baudelaire se sente envergonhado por expor – mais do que o órgão sexual. Os pés descalços trazem uma obscenidade maior: Baudelaire tem vergonha de existir e de levar o seu livro para o bordel e, ao entrar no recinto, não sente que sua presença seja digna. E o terceiro elemento será a presença do monstro.

A questão colocada por Calasso, na sequência, é concluir que não se trata da obra de Poe traduzida, mas sim As Flores do Mal, que Baudelaire leva para o bordel. Numa casa de prostituição, onde não existe o pudor e tudo é permitido, Baudelaire se sente envergonhado por introduzir a obscenidade ao levar o seu livro. Irônico, não? Antes mesmo de ter concluído sua obra, o sonho já parecia indicar o interesse do autor pela temática. Mas indica também a complexidade em assumi-la, afinal, Baudelaire sentia o peso que seu livro tinha em suas mãos no sonho. E o curioso é que As Flores do Mal foi publicado posteriormente e condenado na época justamente por “obscenidade”.

Além disso, para Calasso, Baudelaire se sente exposto, e há até mesmo o receio de que seja interpretado como um mero exibicionista. Os pés aparecem nus, Baudelaire vê e deseja pelos sapatos que surgem no sonho, o que mostra a oscilação do sujeito na modernidade: Baudelaire mantém a dúvida sobre a sua criação, mas deseja apresentá-la sem deixar de encontrar o peso de uma possível crítica feroz à sua obra. E esta obra parece ser mais obscena, para Baudelaire, do que um bordel.

Eu acrescento à interpretação de Calasso que as paredes têm imagens que alternam entre a obscuridade e quase um registro médico da mesma forma que existe uma interferência da ciência enquanto progresso no século XIX. Aos poucos o ideário de progresso passa a mostrar que há um caminho tortuoso e até mesmo sombrio e excludente, mesmo com uma herança de esclarecimento das Luzes. É o que Baudelaire presencia, este submundo no qual prostitutas e poetas são recusados por um contexto que pede o “progresso”. E neste bordel, a verdade fica exposta nas paredes, as imagens de fetos estão lá para serem lembradas das inúmeras perdas dessas mulheres que encontram apenas um caminho tortuoso pela frente.

O artista se sente vulnerável, tal qual Baudelaire com seus pés nus, no cenário onde tudo se mescla em nuances muito difíceis de serem diferenciadas: há a mistura entre a figura do poeta e do monstro, as imagens na parede, a obscenidade no bordel e no gesto de Baudelaire.

Por isso, identifico no sonho-conto uma grande representação do cenário da modernidade. O poeta se depara com o monstro porque nele reside o encanto daquele que encontra a essencialidade do mundo pelas palavras. O sonho fala a Baudelaire por enigmas que ele mesmo busca quando escreve. E isso não é fácil de carregar, é tão obsceno quanto andar descalço para os críticos e até mesmo ao público geral. É obsceno porque ocasiona o incômodo por ter algo diante de você, na palavra escrita, que possui um significado, mas está oculto aos seus olhos. E mesmo assim, o significado está pulsando nas palavras. É quase um sabor deixado na boca.

Baudelaire se identifica como monstro, primeiramente, porque nele está o ar do ser curioso e esquisito que o artista ganha ao preservar sua singularidade na massa. O artista se sente também numa exposição constante porque encontra a oposição do outro e ainda parece dever a ele uma investigação sobre o mundo. Como aliar os dois? É isso o que Baudelaire procura no monstro. Como Calasso diz, o autor estaria vendo a si mesmo. Ou acrescentando um ponto à conclusão dele, Baudelaire está identificando as várias complexidades ao ser um escritor. Ele teme pela obscenidade, ousadia e efeitos de suas palavras no texto, mas consegue ver o peso que carrega e a dignidade em ser um artista.

A tradução e a primeira análise do conto foram encontrados no livro A Folie Baudelaire, de Roberto Calasso, editora Companhia das Letras, 2012.

Galhos a dançar

Galhos a dançar

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Coluna semanal no Fashionatto

Há uma árvore lá na esquina que por sorte não caiu doente. Em tortuosa dúvida ela se inclina diante do passante sorridente. As mais novinhas espirram com o frio de junho, caindo no gramado suas pinhas, elas se encolhem com o vento soturno.

Já a árvore da esquina prefere a sua forma cultivar. Faz exercício todo dia no clima matutino que preenche a rua. Espreguiça os galhos retorcidos e não se esmorece diante do homem de terno que passa entediado pela sua rua, sem ao menos olhar para a forma da árvore.

Os galhos ela prefere sacudir ao som do mar que reside no seu mais puro sonho. É lá onde o mar dança uma valsa em ondas intensas azuis, com a espuma branca enquadrando-as nesse sonho doce da bela árvore. Mas as ondas vêm bater na falha de seu imaginário, onde o sonho desperta assustado e se desmancham na rua vazia de horizonte medonho.

A árvore não desejava mais viver no asfalto. O vento poluído era substituído por seu sonho de ter a maresia grudada ao seu tronco e da areia gostaria de tirar a poesia para a sua seiva. A verdade é que isso acontecia. No pequeno instante em que a árvore suspirava, esticava os galhos retorcidos, escuros e esperançosos em direção ao céu. Nesse momento, o vento soprava somente a ela.

Já se tentara muitas vezes a árvore cortar. Mas a sua curva que desenhava o céu, limpava o ar e costurava secretamente a nuvem, era muito mais forte do que a rua poderia sequer imaginar. No dia seguinte, ela se mostrara recuperada. As lágrimas pelas perdas dos galhos tortinhos reconstruíam a sua forma. Mas claro, os vizinhos desatentos não chegavam a ver essa magia estourar entre o concreto. O semblante da árvore permanecia como árvore torta dia após dia.

Ela tinha um misterioso contato com o inominável, com aquela essência que nem  bem sabemos como por em palavra, que brota entre a seiva da árvore e a composição do homem. Era no suspirar mais eterno que a árvore podia vivenciá-lo. Ninguém sabia, ninguém ouvia. Os galhos alcançavam o céu, se esticando em um crec-crec ignorado. Eles conseguiam valsar entre as nuvens brancas que emolduravam o azul marinho do céu, nuvens que formavam ondas musicadas e era lá – ah, sim, nesse suspiro – que a árvore sentia que era mais do que sua natureza permitia ser. Ela era uma nuvem que valsava ao ritmo do vento.

noite estrelada van gogh

créditos à imagem: The Great Wave at Kanagawa, Katsushika Hokusai, uma xilogravura do japonês Katsushika Hokusai feita entre 1830-1833. E A Noite estrelada, de Van Gogh (1889)

Aproveite e escute aqui (e veja o clipe lindo!) a música Submarines, de The Lumineers. A letra sobre um senhor ignorado por ser o único a ter visto um submarino foi uma inspiração para essa prosa poética.

Sinestesia e inspiração

Sinestesia e inspiração

Hoje o meu blog completa 2 anos e nada como postar um texto que aborda a inspiração para a escrita, um mundo à parte em que cabem as ficções e a imaginação sem limites, explorando a sinestesia das cores, da música e das texturas. Além disso, é uma relação ao tema do blog, um mundo lúdico em que um gato risonho pode muito bem aparecer e mostrar que o mundo é cheio de dúvidas. Boa leitura (:

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Focos de luzes. Vermelho. Azul. Amarelo. Delicadas aos meus olhos semi-cerrados. Não sei o que aconteceu. Até ontem deitei na cama esperando por repouso e hoje acordei diante de cores difusas. Posso estar sonhando dentro do meu sonho. Complexo para cogitar isso, não? Faço o esforço para me levantar…então sinto uma grama fresca roçar sob meus dedos. Abro os olhos lentamente. Um espetáculo aos meus olhos!

Uma profusão de cores, confetes a estourar rumo ao céu. Será que alcançam tamanha distância? Choveriam confetes coloridos, pintando a grama absurdamente verde? Não, eu não devia estar bem. Levar a sério uma explosão de confetes como se fosse um fenômeno natural? É um sonho, com toda certeza. Será?

Muitos palhaços dançavam à minha frente, convidativos, segurando a abertura de uma tenda enorme, azul. Ela se fundia ao céu.  Junto, uma banda empolgada proporcionava um som impossível de narrar. Talvez soasse como as músicas de Beirut. Cada instrumento compunha o espaço, o tempo, o mundo! Entorpecida pelo sono ou pela música, segui rumo à tenda, passando por muitos sorrisos e cores correndo à minha volta.

A questão é: não conseguia andar no interior da tenda. Havia pilhas de livros até o teto! Não conseguia visualizar o fim de tal pilha e nem o limite da tenda. Agora, olhando atentamente, onde estava o seu fim? Estava em um espaço infinito. Muitas pessoas, muitas mesmo, lançavam os seus olhares para o centro do picadeiro. O espetáculo comum de circo encantava o público: um elefante adornado por muito brilho tinha às suas costas uma garotinha se equilibrando, toda sorridente com uma sombrinha e um vestido lilás.

Percebi então que eu conhecia todas as pessoas naquele circo. Amigos, parentes, professores, escritores, filósofos, artistas. Todos dos quais eu gostava estavam lá. No mesmo sonho que eu. Bom, estavam no meu sonho, pelo menos. Numa fração de segundo, passaram a me olhar fixamente e a sorrir, sorrir, sorrir. Tudo ficou obtuso. Soava aos meus ouvidos “o caminho é por aí”, enquanto outra voz estridente dizia “melhor escolher outro caminho, menina!”. Parecia aquele gato sorridente de Alice no País das Maravilhas. Loucamente feliz, confuso, ambíguo. Ele queria definir a minha vida, mas simplesmente colocava o sim e o não no mesmo saco! Como escolher o meu caminho? Setas e mais setas começavam a surgir, o circo se desmanchava em aquarela desbotada, os sorrisos sumiam. Completamente sozinha num túnel pálido, restavam-me as setas para me guiar. Porém, eu me questionava: o lugar para onde elas desejam me enviar é para onde eu quero ir? Que caminho traçar?

Por que não retornar? Inspirei profundamente e segui em frente. As setas iam se desmanchando, corredores iam surgindo, a dificuldade de achar um caminho se acentuava. Precisava continuar, mesmo não sabendo em que resultaria. Não é isso o que os livros de auto-ajuda sempre dizem? Continuar em frente, o futuro é incerto, nunca desista…

Após alguns minutos de caminhada, um caderno gasto aparece à frente. Ao folhear as suas páginas, percebo que são os meus textos. O que faziam abandonados naquele lugar? Lembranças vêm à tona a cada trecho lido…”E espero pela admirável Morte, com seu manto negro, envolver-me e me levar, quem sabe, para uma próxima aventura…”, “Clara percebeu como ainda era a mesma menininha ajustando o terno diante da câmera e respirando fundo ao aceitar o peso de ser uma jornalista”. Eu estava em cada trecho escrito, eu era aquele caderno. E realmente estava sonhando, aquele lugar pertencia a mim. Lugar em que me resguardo para escrever?

Meus olhos já estavam sonolentos novamente e havia o pressentimento de que dormiria nesse mundo e acordaria naquele que se denomina realidade. Foi então que mais um trecho se destacou aos meus olhos: “Não denomino ao certo o que desejo/Tenho o ímpeto de um mundo retratar/Resguardo-me com cuidado a um lugarejo/A fim de me maravilhar com as cores a passar”. Aquele era o meu lugarejo. Focos de luzes voltam a me entorpecer, envolvem meus olhos sonolentos, contando uma história de ninar. Narram o meu mundo à espera de um retorno.

Repouso

Repouso

As cristalinas gotas caem do céu
Olhos, nariz e boca insistem em surgir
O lápis risca linhas difusas no papel
É no desenho que vejo meu sonho dormir
 
Não denomino ao certo o que desejo
Tenho o ímpeto de um mundo retratar
Resguardo-me com cuidado a um lugarejo
A fim de me maravilhar com as cores a passar