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Um resgate pelos livros não-lidos

Publicado no site Literatortura

books tumblrEm pleno Dia internacional do livro – fato esse que soube ao abrir o facebook – constato que sonhei algo bem estranho esta noite. Eu residia em algum lugar bem diferente da cidade de São Paulo e havia sido uma exigência do governador esvaziar inúmeras casas. Por isso, milhares de moradores foram obrigados a por seus pertences para vender na garagem. Isso gerou um caos entre as pessoas, uma correria e um desejo por proteger, corporalmente, os objetos que haviam ganhado do pai, da mãe, que tinham comprado com desconto na feirinha, no site. Tudo.

E, claro, eu briguei por causa dos meus livros. Até em meus sonhos eu acabo rindo da minha situação, minha vida à disposição dos livros, como se fossem autoridades. Achei engraçado e na hora eu constatei que estava sonhando, mas creio que eu quis continuar lá para ver a cena, até onde eu poderia chegar.

Eu agarrava os meus livros enquanto os outros tentavam barganhar. “Ei, quanto sai este livro grandão aqui?”. E eu olhava entristecida para o Outono da Idade Média e resmungava, “não está à venda”. Depois vinham as outras obras de estética, e meu sangue começava a fervilhar. Não era justo abrir mão de todos.

No sonho, me ocorreu a pergunta – já no estado em que eu compreendia que era um sonho: vale a pena salvar e proteger o livro não-lido ou aquele que já li e tenho boas memórias dele? Comecei a projetar uma nova cena naquela que eu observava no sonho, eu descartando facilmente os que eu não havia gostado. Mas era justo isso? Tentava também salvar, ao mesmo tempo, os livros que eu havia lido e me marcaram por toda a adolescência. Colocá-los em malas era fácil. O problema estava no fato de que eu queria salvar os que eu não havia lido.

O mistério de existir muitas, muitas páginas guardando segredos e mundos prontos para serem habitados, era o que me corroia enquanto eu via pessoas se adiantarem aos meus exemplares esfomeadas por livros de graça, como se fosse um bota-fora. Há alguns anos eu escrevi uma crônica colocando os meus livros não-lidos como ‘livros-promessa’ e que eles tinham um grande valor nesta questão que já me inquietava, se houvesse um incêndio, quais livros deveria salvar. Receio ainda não ter respostas.

Ocorre-me, também, que há algumas semanas eu sonhei também que vivíamos numa era apocalíptica – que, olha só a surpresa, tinha gigantes, dragões e estacionamentos destruídos, vai entender – e a urgência era escolher quais livros eu levaria comigo numa viagem sem volta. As livrarias estavam apinhadas de gente correndo para lá e para cá, e o exemplar do qual eu não queria desgrudar era O vermelho e o negro, de Stendhal. Mas eu não o li ainda! Nem tenho o livro, para dizer a verdade. Por que ele estava lá? Claro, porque na mesma semana eu vi o exemplar na livraria e pensei que eu queria lê-lo em breve.

No meu sonho de hoje, eu até cogitava se não valia a pena entrar em combate com os outros, de bradar ‘vou arrancar suas tripas se tu roubar esse livro agora’. Eu quero crer que a vontade mesmo era a de salvar livros que são mais importantes aos outros, mais do que para mim. De preservar a possibilidade de existir outras alternativas, em um pós-apocalipse onde o estado total seria muito incerto. O livro, muitas vezes, é isso. Não é apenas a chance de viver a experiência do outro, mas ver o outro, reconhecê-lo. Assumir que a realidade – sendo apocalíptica ou não – precisa ser superada. E ela é, quando um livro é aberto.

Por isso, aproveite não apenas o Dia internacional do livro. Aproveite todos os dias com este objeto mais misterioso que as tecnologias disponíveis. Eu, pelo menos, acho ainda muito estranho o que pode acontecer quando a gente abre esse bloquinho feito de papéis anotados por outra pessoa, as dúvidas ressurgem e as sensações se aproximam para serem vividas. Não dá para ser o mesmo depois que você o abre. Mas é bom correr o risco e depois ver o que aconteceu do outro lado.

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Rosa-púrpura no real

As roupas se penduram no varal
Tremem ao vento
Clamam por entre as pregas
A presença dessa ficção.
No varal suspendi minha bandeira
Implorando, acenando
Aos dias de casa cheia.
Volte, meu outro
Em que me vejo.
Outro que me acompanhava à padaria,
Chorava comigo no cinema.
Agora os filmes são solitários,
Até os atores espiam a plateia
Procurando você,
Meu outro eu
Quieto agora pela realidade cruel.
Os atores se ajuntam à tela,
Cogitam até sair à sua procura!
Em explosão de rosa púrpura
Você aparece na minha frente,
Preto e branco, adormecido.
De tanta espera o mundo envelheceu
As roupas e as lágrimas secaram.
Mocinha que espreita o horizonte
Fica para os trovadores.
É melhor as mentiras esquecer,
Com uma comédia blasé na TV,
E adeus à Ideia que foi você.
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Pés suspensos em devaneios

Hoje, André acordou diferente. Os pés formigavam quando levantou da cama. Parecia que não era mais um adolescente. Olhou-se no espelho, a barba por fazer o tornava mais adulto, mas não era isso. Os pés formigavam, o coração disparava.

Pode-se dizer que era um dia comum. André descia as escadas, sentava-se na mesa, cortava o pão, despejava o café na xícara. E tudo isso, agora, parecia ter um som diferente. Aliás, nunca reparara o quanto era sonoro o contato da faca com as casquinhas do pão. Escovar os dentes também parecia um gesto novo. E ele sentia ansiedade para estar do lado de fora.

Não é bem em casa que André sentia  os pés amarrados e seguros. Eles formigavam por desejar ir além das ruas que conhecia, do país que conhecia. Caminhavam por lojas, corredores, salas, aulas, cafés, livrarias, cinemas, museus, com o prazer da aventura de se surpreender com pequenos acontecimentos. Contato com o ar abafado depois que chovia, do vento bruto produzido pelo metrô que se aproximava, com gente de todas as expressões e roupas, com a luz da universidade que acabava no meio da aula, com a poluição, tudo possuía vida e era surpresa. Terra, concreto, pedrinhas, ideias se aglomeravam no solado ao voltar das ruas.

Após um dia cheio dessas sensações esquisitas, como se o mundo tivesse resolvido abrir seus olhos, André chegou em casa exausto e com os sapatos pesados, densos. Carregavam o mundo lá de fora. E a sujeira no tapete não era bem sujeira, era o que ele havia colhido em seu dia. O centro de São Paulo apinhado de gente, os vendedores ambulantes querendo vender, ternos, saias, saltos vestindo a cidade.

Era certo que devaneios André ainda tinha. Talvez tudo isso aí fosse devaneio. Mas, ora, eles são diferentes quando seus olhos e mente crescem. Havia pouco tempo em que começara a estudar o que gostava e parecia que o mundo ganhara mais peso. Antes apenas sombras nas quais ele acreditava, agora parecia que André visualizava o mundo desnudado e se encantava ainda mais com ele. Antes era fácil sonhar alto com o futuro. Agora, que ele começara a ser vivido, tornou-se mais concreto, espécie de uma escultura que finalmente ganhava os toques do visitante num museu, sem plaquinhas para proibir o contato com as sensações.

E, então, os devaneios passam a ser vistos como pipas enfeitando o céu. Quando brincam loucamente no azul, arriscam-se e, de repente se prendem ao telhado, até ao pneu do carro em movimento! Parecem desejar mais do que a liberdade dos céus. Elas querem um pouquinho de realidade. E, ao recebê-la, sabem o momento certo de se libertar mais uma vez, para se confundirem entre as nuvens.

E as sensações diárias não deixam de ser um despertador para a realidade mais imediata. Elas estão ali, prontas para serem encantadas. Talvez signifique achar graça da vida, mesmo quando se está melancólico e sozinho. Se antes os sapatos de André só encontravam sentido por entre os devaneios, agora eles sabem muito bem o passo que dão. Ainda possuem dúvidas. Mas ousam desgrudar-se do solo, vivendo entre mundos suspensos e maravilhosos, para logo voltarem ao chão. Mais vivos.

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Verde esperança

Maria era uma mocinha sonhadora.
No ano novo vestia branco
Crente de que paz iria garantir.
Mas de tão envolta em sonhos,
Maria  aceitava o que o mundo lhe dava.
E assim aguardava o seu destino.
Certo dia,
Maria resolveu viajar no ano novo.
Queria ver novos ares, revolucionar a sua vida!
Mas parecia que o ano novo não começaria bem.
A mala se extraviou
E sem seu branco Maria ficou.
Lojas fechadas, pessoas de branco na rua
E ela, raivosa e abandonada
Pelo próprio destino.
Ela queria se grudar em 2012, não deixá-lo para trás.
Como passar sem o branco?
Foi então que viu uma criancinha,
Trabalhando arduamente no dia do ano novo.
Já estava cansadinho de tanto vender
Lenços coloridos aos turistas felizes.
Maria se aproximou, logo se desanimou.
Não tinha branco, mais essa!
Foi então que a criancinha,
Vendo os olhinhos verdes da doce Maria
Já tristes e desamparados,
Repousou um lencinho verde nas mãos da moça.
Não aceitou nenhuma moedinha pelo lenço.
Mas fez um pedido:
Que Maria estivesse com ele à meia-noite.
Assim, o lencinho verde
Uniu duas pessoas improváveis
Enrolando-os em verde esperança
De que seus sonhos pudessem voar coloridos
Como fogos de artifício.
Com esperança os dois sorriam
Para ver se o ano novo poderia ser melhor.
Já havia começado bem.
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Contar os estilhaços

Era um sonhador o Josué.
Só se perdia em contas!
Ao ponto de ônibus ele ia a pé
Contando ladrilhos,
Em somas soltas.
O número regia o seu mundo,
Contava copos, coisas, cartas,
Até as frutas do seu Raimundo,
Pra registrar tudo feito atas.
Mas os estilhaços do coração
Josué não conseguia contar.
Tudo se encontrava no chão,
Amor pisado, esperança a chorar.
Ah, que dó ver aqueles pedacinhos!
Infinitas dores esparramadas
De beijos, gritos e carinhos.
Mais um entre as almas rejeitadas.
Josué tentava contá-los em vão
Talvez um jeito de somar.
No caderno, sua dor virava borrão
Que borracha alguma sabia apagar.
O campo do amor era probabilidade
Mas incerto, um quase-sim, quase-não,
Que arrebata em qualquer idade.
Aceite a verdade, Josué!
São infinitos seus estilhaços
E você existe pra amar.
Feita de ilusões e abraços 
A paixão não serve pra calcular.
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Do anúncio à arte

João trabalhava numa agência publicitária. Ele projetava desenhos para pequenos anúncios publicitários. Pasta de dente que prometia um sorriso branco, um lápis de cor que possibilitava o melhor desenho, o desodorante que atrairia todas as mulheres quando usado. Vivia imerso num mundo de sorrisos imediatistas, anúncios que serviam para o hoje e, amanhã, já estavam no lixo. Desenhos feitos por ele meramente produzidos e dispensados após terem feito o seu trabalho de persuasão.

O chefe de João não era lá muito agradável. Na verdade, ele era bem populista. Como os anúncios, ele se desmanchava em sorrisos pelos corredores, mas sala adentro falava o quanto a Maria havia engordado, se ela estava com problemas em casa. Falava também do rapaz da copiadora, “aquele lá tem um olhar soturno, parece prestes a dar um golpe na empresa. Ou será terrorista?”. Imaginação fértil e maldosa. É, ele vivia num mundo paralelo em que todos poderiam trai-lo, indo trabalhar para o concorrente. Ah, palavra que soava terrível. Concorrente. Tal qual os anúncios pregados pela empresa, o chefe de João era falsamente animado, parecia ser o modelo perfeito de chefe por conta de sua agradabilidade. Mas, no fim, ele era um tipo de líder descartável, não agregava nada à equipe. Tão falso quanto o sorriso branco prometido pelo anúncio, nunca conquistado, o oposto do que dizia na propaganda.

E João o incomodava. Ele tinha um espírito empreendedor, seja lá o que for isso. Ele não almejava ser apenas um desenhista de anúncios efêmeros. Em seu íntimo, ele queria ser um artista! Chegava tarde à noite e ia pintar as suas aquarelas, finalizar quadros à óleo, mundos retratados por ele que, apesar dos tons fortes e meio surrealistas, pareciam mais reais do que aquilo que ele pintava nos anúncios. Seus quadros não possuíam a promessa fútil que a sociedade atual tanto adora perseguir. Não, seus quadros carregavam na tinta colorida para que essa se fizesse presente até o último ponto branco da tela; que chamasse a atenção do observador por trazer lembranças adoráveis da infância, talvez dos doces coloridos que João comia após o jantar, com a mãe. Ah, ele ainda não sabia definir qual era a sua arte, mas sabia muito bem que ansiava mais por um legado na parede de um museu do que um anúncio lançado à infinitude das ruas e dos outdoors.

Certo dia, ele passou em frente à sala do chefe e o ouviu falando ao telefone.

-Esses empregados tem me decepcionado e muito – disse o chefe – Em alguns vejo a facilidade de convencer a produzir tal anúncio do jeito que eu quero…aí fica fácil transformar o que eles têm de bruto naquilo que eu quero e com o qual eu vou lucrar muito, né? Mas tem um em particular que me incomoda…o João, que faz os desenhos, sabe? Ele me parece disperso. Vem com ideias novas demais, não gosto muito disso. Essa história de ser visionário é modinha depois que se falou tanto em Steve Jobs. Ser inovador, criativo…aff, não me importo com isso, quero conquistar o mercado e só. E esse garoto…parece que não tá aqui na empresa. Quando discorda de alguma coisa, logo fala e vem com projetos novos. E os outros ficam entusiasmados…perco o meu posto de chefe. Eu sou um líder, é a mim que eles devem seguir!

Houve uma pausa, o chefe ouvia o seu interlocutor. E então respondeu:

-Hum, não acho que esse garoto seja um grande perigo…ah, vai, ele não desenha muito bem. OK, ele desenha. Mas vai passar a vida indo de agência em agência, fazendo aqueles sorrisos tolos de pasta de dente, já tá condicionado a isso. Duvido que vai conseguir alguma coisa além desses anúncios. Essa é a verdade, há gente que nasceu pra ser mandada porque tem talento limitado – acrescentou o chefe – Bom, agora preciso ir, meu caro. Depois nos falamos!

Não deve ser muito agradável ouvir isso de alguém que lhe parecia legal, pelo menos. Quer dizer, será que tenho talento o suficiente para pintar obras de verdade? E então foi essa a hora em que sentimentos romperam. De respeito à raiva foi-se num instante. João se questionava: quem esse cara pensa que é? Ele, João, até simpatizava com o seu chefe, mas e aquele sentimento colérico que estava agora despontando em seu interior? Mesmo que tenha despontado abruptamente, parece que tal sentimento já existia antes de tão intenso e certeiro. Mas não existia. De tanto formular uma imagem da pessoa que perfeitamente conquista a quem está ao seu redor pela retórica, João foi se emaranhando pela palavra sedutora de alguém que se mostra num espetáculo em que é o personagem heroico. Contudo, agora, por um simples telefonema, mostrara-se ardiloso e terrivelmente objetivo.  “João, você pode ser quem quiser, meu garoto”, ele disse, certa vez. “Você tem um futuro promissor aqui na agência, eu irei te dar só chances de crescer!”. Ah, controlar-se é difícil. João não poderia dizer que essa foi uma decepção trágica digna de um mito grego. O respeito fora embora, esmaeceu diante dessa pintura. Imagem que antes se mostrara colorida, agora se distorcia num horror expressionista.

Não, João deveria provar que merecia algo melhor. A sua arte merecia isso. Não era justo que ele passasse noites tentando pintar uma nova realidade na tela em branco e se deixar, ao acordar, corroer-se por aquela que lhe era imposta.

Então ele voltou à sua mesa, já vazia de trabalhos, estava naquele momento definido por ele como “limbo”, aguardando um novo projeto ou o que o chefe iria mandar que ele fizesse. Já havia recebido o salário do mês, estava tudo certinho. Parece que o dia havia lhe dado uma pausa apenas para decidir. Pegou o pouco que tinha nas gavetas, pôs numa caixinha de papelão.

Com passos decididos, João entrou na sala do chefe. Disse que estava cansado do seu trabalho e que procuraria por outro mais criativo. Estava exausto, após anos, em lidar com sorrisos de pasta de dente que se esmaeciam assim que ele lhes dava o último retoque. E também não acreditava naqueles lápis de cor que vendia. Eram tão fracos, não tinham o direito de se auto-titularem a solução para os artistas que querem uma obra feita às pressas. É isso. Agora, livrando-se desses signos vazios, das promessas tolas que ele era obrigado a vender por seus traços, buscaria um modo mais sincero de pincelar a realidade.

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Todo mundo

Todo mundo já se viu sozinho na multidão
Apertou-se ao casaco querendo fugir
Resistindo à dor que sonha um dia sorrir
Nas tardes que contemplam o chão.

 

O calafrio denuncia o medo de escolher
Como dar aos dias uma utilidade,
Analisar os limites para viver.
A escolha é a dolorosa liberdade.

 

O passado já está todo emaranhado,
O coração, com a tristeza, acostumado
Pulsa no casaco com uma mera lembrança,
Vestindo a face da desiludida criança.

 

Sonhos no bolso pedem o fôlego de uma nova vida
Mas encontram as asas destruídas no chão.
Voar se torna restos de uma expectativa diluída
A revolucionária vida que se reduzira em ínfimo grão.

 

Todo mundo já sorriu com os olhos devastados,
Tentou arrumar a própria casa com as emoções confusas.
Viu o céu outrora azul se fechar em temores resignados.
E quis ser racional apesar das ideias difusas.

 

Todo mundo passa a ver que a vida é um turbilhão,
Aprende-se que o humor vive ao lado da melancolia.
O segredo é fazer de tal antítese uma harmonia
E não olhar um mundo vivo na escuridão.