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Me vê uma colher de surrealismo

Nesta manhã eu tomei uma colher de surrealismo. Misturado ao cereal e ao leite cândido, os floquinhos coloridos do surrealismo se dissolveram e me puxaram para aquela piscina branca. O surreal brincava com a rima do cereal, como uma palavra atrevida que sabia o sentido engraçadinho que podia provocar no ouvinte.

Com o coração agitado, eu dançava com os floquinhos, com as cores, com os sonhos mais bizarros da noite que coloriam aquela massa informe de leite e surrealismo. Um senhor de cartola, um trompete, um bebê desfigurado cantando, e eu sei lá o que queria dizer isso. O encanto se dissolvia, a vontade de sair de mim mesmo emergia pesadamente, depois cessando e me deixando com a dor amortecida, como se repousasse de volta ao travesseiro.

Eu mergulhara fundo para um campo desconhecido, no qual a música que eu ouvi antes de dormir ressoava pelo desespero que me movia para lá e para cá naquela piscina de sonhos. Nela, eu via refletida os mundos infinitos dos quais sou feito. Neguei muitos daqueles pedaços, mas eles vinham me cutucar no café da manhã agora meio indigesto.

O relógio escorria pela colher junto ao leite. Eu tentava correr pulando de um ponteiro ao outro como se fosse um obstáculo. Você vai se perguntar como é que da tigela fui à colher. Vou ficar sem responder porque não precisa ter um sentido lógico aqui. O surrealismo me fazia retroceder, seguindo pelo sentido anti-horário, tentando arduamente voltar ao sonho, mas as grandes barras do ponteiro me empurravam para o inevitável. Era melhor pular da colher à tigela e tentar sair do devaneio.

Normalmente, as pessoas despejam o café na xícara, comem maquinalmente o pão francês com manteiga, num estado de torpor que eu nem sei bem explicar. É como se estivéssemos dormindo por dentro, à espera da realidade colocar a mão em nossos ombros e as atividades diárias caírem sobre nossas cabeças em um só segundo, como um cobertor posto às nossas costas por um dia inteiro.

Mas se lá atrás, abrigar-se no cobertor posto às costas era o ato de uma criança que saía no corredor sonolenta, com expectativas, no dia de seu aniversário, hoje parece que esse cobertor foi posto pelo desconhecido que vem me acordar. Como um peso.

Por isso, pegar uma colherada de surrealismo no fundo da caixa de cereal é o mesmo que engolir a angústia da própria existência ao mesmo tempo em que se resiste ao desespero do mundo que nos espera lá fora. Eu poderia muito bem só tomar o meu café e imaginar que é só um café. Mas precisamos do surrealismo dissolvido ao leite para sobreviver a nós mesmos.

dalí cereal surrealismo

*minha prosa poética inspirada na imagem acima, desconheço o autor. Foi quase instantânea a vontade de escrever quando a vi (:

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Salvador Dalí e as propagandas: elas interferem no valor do trabalho artístico?

Matéria publicada no site Literatortura

Salvador Dalí é conhecido como um pintor da corrente artística surrealista, uma das vanguardas europeias que começou a se manifestar em 1919, com André Breton. Alguns o identificam pelo bigode incomum ou pelo quadro A persistência da memória, com a figura intrigante de um relógio derretendo em meio a um deserto. O que não é muito comentado por aí é que Dalí gravou uma série de comerciais para marcas como Chocolates Lanvin, Alka-Seltzer (um antiácido efervescente) e o conhaque Veterano. Segundo o biógrafo Meryle Secrest, Dalí recebeu pelo menos 10 mil dólares entre uma propaganda e outra. Por isso, André Breton, o fundador da corrente surrealista, criou para o artista um apelido que agora faz bastante sentido: Avida Dollars. O nome era ao mesmo tempo um anagrama para “Salvador Dalí” e baseado na frase francesa “avide à dollars”, que significa “faminto por dólares”.

O Surrealismo tem suas origens ligadas ao expressionismo, com a revalorização do passado ao trazer novamente à tona escritores como Sade, Baudelaire e Rimbaud. Tanto o surrealismo quanto o expressionismo buscavam a emancipação total do homem, indo além da lógica e da razão. Podemos identificar essa intenção nas obras de Dalí. Ele busca o contato com o inconsciente, um homem livre dos grilhões psicológicos e culturais. Por conseguinte, ele recorre ao misticismo, à magia oculta: a busca é pelo homem primitivo.

Talvez a dúvida que possa surgir àqueles que admiram Dalí é se o fato de ter feito tantas propagandas diminuiria o valor de sua obra e o enfoque do trabalho como artista, a liberdade do homem ao desprender-se de pré-determinações culturais. Possivelmente, Dalí fez as propagandas porque, em parte, precisava do dinheiro e, também, porque extraía certa diversão no fato de vender um produto de modo que incorporava um pouco do tom cômico o qual ele mesmo aparentava ter como artista.

A utilização da figura de Dalí é justamente um chamativo para essas propagandas. Quando ele diz“Je suis fou du chocolat Lanvin”, que significa “eu sou louco pelo Chocolate Lanvin”, parece um trocadilho inofensivo. O estereótipo criado em torno de Dalí é o de um artista que aparenta insanidade devido aos signos incomuns que se apresentam em seus quadros. Falar que é louco pelo chocolate traça um paralelo com a própria figura do artista e a necessidade de provar esse chocolate, já que até Dalí se rende a ele. Não convence? Eu me convenci. E não pelo chocolate, mas porque quem o disse foi Dalí. Está aí o segredo do convencimento da propaganda: ela produz um fetiche pelo produto de uma maneira sutil, provoca a consumir justamente traçando uma referência com algo que admiramos ou desejamos ser.

Para os surrealistas, os objetos tomavam um significado distinto do sentido dado pela indústria cultural. Se esta definia o objeto como mercadoria consumível, os surrealistas apreciavam justamente a preservação daquilo que já era considerado obsoleto ou meramente comum. Eles recuperavam artefatos a fim de preservar o tom originário deles, como algo que possuiria sempre um caráter de novo, renovando-se em si mesmo. Por que isso? Tais objetos oníricos possuíam em si os resquícios de uma lembrança, pronta para vir à superfície quando contemplada pelo indivíduo, que recorda de alguma experiência por meio desse artefato. Poderia ser algum objeto comum abandonado que ganha um novo contexto pelas mãos do artista, como é o caso do Telefone Afrodisíaco, de Dalí.

Se, então, Dalí identificava o caráter originário e único de um objeto, soa contraditório participar de propagandas nas quais justamente incitam o tratamento do objeto como algo meramente consumível e descartável. As obras de Dalí podem ser banalizadas quando entendidas como uma mera imagem reproduzida incansavelmente em produtos consumíveis, fato que se torna sintomático a partir da metade do século XX. Tanto que hoje você pode encontrar em sites o famigerado relógio derretendo da obra de Dalí como um artefato para colocar em sua prateleira. O consumo aqui se torna sinônimo de status quo e degenera em consumismo de massa, por uma ânsia de possuir diante do fetiche produzido pela mercadoria nos indivíduos, agora reduzidos ao público consumidor.

Assim, voltamos à questão inicial: o fato de ter participado de propagandas prejudica o trabalho do artista? De forma alguma. Não se diminui o significado do discurso empregado na obra por causa da postura do artista fora de seu ateliê. É válido o que a obra diz por si mesma. Certamente, podemos ver uma contradição entre o discurso do Surrealismo, a valorização dos objetos em sua peculiaridade e a postura do artista em divulgar uma marca que tem só como intuito a venda e o mercado. Mas não podemos afirmar que o fato de Dalí aparecer em propagandas destrói o que fez em vida mediante o seu trabalho. A verdade é que Dalí via na performance a possibilidade de criar uma caricatura de si mesmo. Talvez resida aí a ironia: ele mesmo faz uma desconstrução da figura do artista isolado no ateliê, o que funcionava como mais uma polêmica, e se coloca no âmbito público, o qual negaria a obra dele. De qualquer forma, fica como mais uma peculiaridade do perfil admirável de Salvador Dalí.

Clique abaixo para visualizar cada uma das propagandas de Dalí:

Chocolates Lanvin

Corona

Hotel Saint Regis

fonte.

Revisado por: Patricia Oliveira.

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Do anúncio à arte

João trabalhava numa agência publicitária. Ele projetava desenhos para pequenos anúncios publicitários. Pasta de dente que prometia um sorriso branco, um lápis de cor que possibilitava o melhor desenho, o desodorante que atrairia todas as mulheres quando usado. Vivia imerso num mundo de sorrisos imediatistas, anúncios que serviam para o hoje e, amanhã, já estavam no lixo. Desenhos feitos por ele meramente produzidos e dispensados após terem feito o seu trabalho de persuasão.

O chefe de João não era lá muito agradável. Na verdade, ele era bem populista. Como os anúncios, ele se desmanchava em sorrisos pelos corredores, mas sala adentro falava o quanto a Maria havia engordado, se ela estava com problemas em casa. Falava também do rapaz da copiadora, “aquele lá tem um olhar soturno, parece prestes a dar um golpe na empresa. Ou será terrorista?”. Imaginação fértil e maldosa. É, ele vivia num mundo paralelo em que todos poderiam trai-lo, indo trabalhar para o concorrente. Ah, palavra que soava terrível. Concorrente. Tal qual os anúncios pregados pela empresa, o chefe de João era falsamente animado, parecia ser o modelo perfeito de chefe por conta de sua agradabilidade. Mas, no fim, ele era um tipo de líder descartável, não agregava nada à equipe. Tão falso quanto o sorriso branco prometido pelo anúncio, nunca conquistado, o oposto do que dizia na propaganda.

E João o incomodava. Ele tinha um espírito empreendedor, seja lá o que for isso. Ele não almejava ser apenas um desenhista de anúncios efêmeros. Em seu íntimo, ele queria ser um artista! Chegava tarde à noite e ia pintar as suas aquarelas, finalizar quadros à óleo, mundos retratados por ele que, apesar dos tons fortes e meio surrealistas, pareciam mais reais do que aquilo que ele pintava nos anúncios. Seus quadros não possuíam a promessa fútil que a sociedade atual tanto adora perseguir. Não, seus quadros carregavam na tinta colorida para que essa se fizesse presente até o último ponto branco da tela; que chamasse a atenção do observador por trazer lembranças adoráveis da infância, talvez dos doces coloridos que João comia após o jantar, com a mãe. Ah, ele ainda não sabia definir qual era a sua arte, mas sabia muito bem que ansiava mais por um legado na parede de um museu do que um anúncio lançado à infinitude das ruas e dos outdoors.

Certo dia, ele passou em frente à sala do chefe e o ouviu falando ao telefone.

-Esses empregados tem me decepcionado e muito – disse o chefe – Em alguns vejo a facilidade de convencer a produzir tal anúncio do jeito que eu quero…aí fica fácil transformar o que eles têm de bruto naquilo que eu quero e com o qual eu vou lucrar muito, né? Mas tem um em particular que me incomoda…o João, que faz os desenhos, sabe? Ele me parece disperso. Vem com ideias novas demais, não gosto muito disso. Essa história de ser visionário é modinha depois que se falou tanto em Steve Jobs. Ser inovador, criativo…aff, não me importo com isso, quero conquistar o mercado e só. E esse garoto…parece que não tá aqui na empresa. Quando discorda de alguma coisa, logo fala e vem com projetos novos. E os outros ficam entusiasmados…perco o meu posto de chefe. Eu sou um líder, é a mim que eles devem seguir!

Houve uma pausa, o chefe ouvia o seu interlocutor. E então respondeu:

-Hum, não acho que esse garoto seja um grande perigo…ah, vai, ele não desenha muito bem. OK, ele desenha. Mas vai passar a vida indo de agência em agência, fazendo aqueles sorrisos tolos de pasta de dente, já tá condicionado a isso. Duvido que vai conseguir alguma coisa além desses anúncios. Essa é a verdade, há gente que nasceu pra ser mandada porque tem talento limitado – acrescentou o chefe – Bom, agora preciso ir, meu caro. Depois nos falamos!

Não deve ser muito agradável ouvir isso de alguém que lhe parecia legal, pelo menos. Quer dizer, será que tenho talento o suficiente para pintar obras de verdade? E então foi essa a hora em que sentimentos romperam. De respeito à raiva foi-se num instante. João se questionava: quem esse cara pensa que é? Ele, João, até simpatizava com o seu chefe, mas e aquele sentimento colérico que estava agora despontando em seu interior? Mesmo que tenha despontado abruptamente, parece que tal sentimento já existia antes de tão intenso e certeiro. Mas não existia. De tanto formular uma imagem da pessoa que perfeitamente conquista a quem está ao seu redor pela retórica, João foi se emaranhando pela palavra sedutora de alguém que se mostra num espetáculo em que é o personagem heroico. Contudo, agora, por um simples telefonema, mostrara-se ardiloso e terrivelmente objetivo.  “João, você pode ser quem quiser, meu garoto”, ele disse, certa vez. “Você tem um futuro promissor aqui na agência, eu irei te dar só chances de crescer!”. Ah, controlar-se é difícil. João não poderia dizer que essa foi uma decepção trágica digna de um mito grego. O respeito fora embora, esmaeceu diante dessa pintura. Imagem que antes se mostrara colorida, agora se distorcia num horror expressionista.

Não, João deveria provar que merecia algo melhor. A sua arte merecia isso. Não era justo que ele passasse noites tentando pintar uma nova realidade na tela em branco e se deixar, ao acordar, corroer-se por aquela que lhe era imposta.

Então ele voltou à sua mesa, já vazia de trabalhos, estava naquele momento definido por ele como “limbo”, aguardando um novo projeto ou o que o chefe iria mandar que ele fizesse. Já havia recebido o salário do mês, estava tudo certinho. Parece que o dia havia lhe dado uma pausa apenas para decidir. Pegou o pouco que tinha nas gavetas, pôs numa caixinha de papelão.

Com passos decididos, João entrou na sala do chefe. Disse que estava cansado do seu trabalho e que procuraria por outro mais criativo. Estava exausto, após anos, em lidar com sorrisos de pasta de dente que se esmaeciam assim que ele lhes dava o último retoque. E também não acreditava naqueles lápis de cor que vendia. Eram tão fracos, não tinham o direito de se auto-titularem a solução para os artistas que querem uma obra feita às pressas. É isso. Agora, livrando-se desses signos vazios, das promessas tolas que ele era obrigado a vender por seus traços, buscaria um modo mais sincero de pincelar a realidade.