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OBRA DE ARTE DA SEMANA | Saturno devorando um filho, de Goya

Francisco_de_Goya,_Saturno_devorando_a_su_hijo_(1819-1823)

GOYA, Francisco de. Saturno devorando um filho, 1819-1823, 1,43 m x 81 cm

Publicado no site Artrianon (especial de Halloween)

Olhar para essa pintura de Goya, chamada Saturno devorando um filho (1819-1823), já provoca choque e asco, o que normalmente afasta o espectador. Contudo, ela tem uma história curiosa e revela muito da singularidade do trabalho de Goya, um pintor que conhecia o Iluminismo, a exaltação da razão como verdade, mas que identificava também os crimes e o horror causados justamente pela desculpa da razão na arquitetura das guerras. E, principalmente, Goya sabia como desconstruir o ideal do eu, expondo a corrupção social.

Com a criação dos Cadernos, Goya constitui um espetáculo do horror, que nada mais é do que um registro dos atos vis do homem. Quando se passa a ver essa grande soma de gravuras feitas pelo pintor, é como se questionar como fica, então, o ideal do eu, o homem como a maior manifestação da racionalidade, diante dos crimes cometidos em guerras, a desigualdade entre os sexos, o estupro, a morte dos filhos pelos próprios pais.

É preciso dizer, primeiro, que Saturno se trata de uma pintura a óleo sobre reboco que fazia parte da decoração dos muros da casa que Francisco de Goya adquiriu em 1819 chamada a Quinta del Sordo. O que hoje está exposto no Museu do Prado é a transposição do reboco para tela, feita em 1873 por Salvador Martínez Cubells, encomendado por Frédéric Émile d’Erlanger. A obra faz parte de uma coleção de 14 cenas chamada Pinturas Negras.

Saturno devorando um filho representa o deus Chronos, ou Saturno segundo a mitologia romana, no ato alegórico em que ele comia os filhos que teve com a esposa Reia, por ter medo de ser destronado por um deles. Por isso, o deus Chronos é aquele que governa o Tempo. Matando seus filhos, era possível manter-se na mesma posição de poder.

Na mitologia, porém, vale remarcar que a origem de Chronos, essa figura criada pela seita órfica, vem do titã Cronos, que comeu os seus filhos para que não se rebelassem contra ele e lhe tomassem o poder da Terra como ele fez com o seu pai, Urano. Isso é narrado na Teogonia, de Hesíodo, em que Cronos teria castrado o pai com um golpe de foice, casou-se com Reia e devorou os filhos para impedir que tirassem seu posto. Restou apenas Zeus, que Reia salvou enrolando uma pedra no cobertor a qual foi engolida por Cronos sem que esse notasse. Assim, Zeus pôde crescer a salvo.

Com efeito, o modo com que Cronos derrotou Urano é importante para entender parte da representação de Saturno na pintura de Goya. Nela, o personagem assume uma forma distorcida, de braços e pernas magros como as de um idoso. São seus olhos e a voracidade com que engole o filho que dão a ele a força e a ameaça do tempo devorador. É possível notar também que, ao redor da virilha, Goya faz uso de sombras que colocam em dúvida se ele foi castrado ou não. O pintor compõe a luz por um amarelo ocre que se mistura ao marrom e ao preto, sendo o vermelho opaco que escorre pelo corpo a cor mais forte.

De modo geral, essa figura é quase inumana. Goya a constitui de forma a soar distante do aspecto humano. Entretanto, é seu rosto, a marca máxima da loucura, que ganha traços mais definidos e remete à humanidade. Além disso, é preciso pensar sobre a forma do corpo que ele devora. Como observa Tzevtan Todorov em Goya à sombras da luzes, pode ser visto como um corpo feminino pela curva da cintura. Diz Todorov que na antiga fotografia desse painel pintado por Goya, “o personagem estava com o sexo em ereção”, detalhe perdido ou dissimulado no momento em que ela foi transferida para a tela (TODOROV, 2014, p.207). É curioso esse tipo de observação pois se esquece que os filhos de Saturno teriam sido tanto homens quanto mulheres, mas comumente se representa o titã comendo bebês ou rapazes jovens.

Tanto o corte do pênis promovido por Cronos em relação ao pai Urano, quanto o seu destino repetido pelas mãos de Zeus, faz lembrar também que na mitologia Vênus nasce da mistura de esperma e sangue derramados de Urano, castrado por seu filho Cronos na disputa de poder. Se considerarmos a forma do corpo em Saturno como feminina, essa desigualdade entre os sexos é tema recorrente das obras de Goya. Todorov aponta para esse retrato do casamento como espaço também de violência, em que tanto o homem quanto a mulher matam e abusam, e sendo o divórcio impossível na Espanha daquele contexto, a legenda que Goya insere na obra Capricho 75 é muito relevante: o casal aparece como presos um ao outro, capturados pelas garras de uma ave noturna, com a legenda “não há ninguém que nos desate?”.

Apesar de Goya demonstrar que a brutalidade masculina contra a mulher seja mais forte, por meio de várias gravuras de estupro e guerras, ele apresenta também o canibalismo de Saturno pela forma de uma bruxa mascarada de caveira que come criancinhas, em Mulher má (álbum D GW 1379). É possível que Goya tenha visto o quadro Saturno, de Rubens (1636), em que a forma devorada é um bebê ainda não desmembrado.

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Seja um personagem mitológico que devora os filhos, seja uma bruxa que come criancinhas, com essas narrativas Goya revela o horror do ato humano. Ele faz lembrar que o homem não é feito tão somente de racionalidade e controlado por regras na dita civilização. Ele faz escolhas e possui “impulsos” os quais podem ganhar a forma destrutiva e doentia do canibalismo, da agressão, do estupro. A guerra nada mais é do que a morte e a violência tornadas um ato normalizado.

Desta forma, Saturno devorando seu filho não é apenas sobre uma referência mitológica. Ela expõe a guerra dos sexos e traz à tona o desvario nesta outra narrativa sobre o mundo, muitas vezes tornada um espetáculo esvaziado na mídia atual ou uma história a ser escondida por ser vil. Goya vive “à sombra das luzes”, termo esse escolhido por Todorov no título de sua obra. Apesar de viver por entre os ideais do Iluminismo, Goya soube manter a lucidez quanto à complexidade contraditória do mesmo homem que pode criar pela razão ou destruir em nome dela.

A obra de Goya é, portanto, uma cirurgia sem anestesia. O espetáculo da violência ganha o filtro artístico de sua pintura pois desvela o horror ignorado. Por toda parte do mundo, em qualquer momento da história, esses atos se repetem à sua maneira. Saturno carrega nas mãos que devora o filho a lembrança de que, não importa o século ou de qual narrativa fazemos parte, todos somos filhos do tempo e ele nos devora vorazmente para manter seu poderio.

Referências bibliográficas

TODOROV, Tzvetan. Goya – à sombra das luzes. Tradução Joana Angélica d’Avila Melo – 1a ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2014

Teogonia, de Hesíodo (domínio público)

Museu do Prado 

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A flama de mais uma idade

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A flama de mais uma idade pulsa no centro do bolo. Inicia-se como leve amarelo para explodir em pequenos raios estrelados. Da fonte amarela divergiam inúmeras estrelas morrendo no ar, contemplada por gritos e palmas. O espetáculo no topo do chocolate durava pouco. Soava como convenção em celebrações. Mas ninguém dava atenção à flama que nascia forte e morria nas cerejas. E se o tempo que aquela vela durava fosse o tempo de um ano, se visto do espaço ou em outra linha temporal? E se o nosso arrastar dos anos for só aquela vela que explode e deixa fumaça até sumir?

Imaginei gerações explodindo naquela vela em gritos. Idades já mortas. Ou outra linha temporal em que acender a vela não importa porque os segundos massacram. Sem motivação para celebrar, neste mundo alternativo, se pessoas vêm e vão com mais rapidez do que o apagar da vela. Uma distopia não muito distante do fato de que pessoas sempre somem nas chamas. A diferença entre esta distopia e o mundo daqui seria apenas a distância dos tempos, dos segundos da flama, da convenção decidida pelos relógios.

Por que acendê-la, então? Se irá apagar-se e ser esquecida abandonada ao lado do bolo que, antes belo, se encontra destroçado pelas fatias que faltam. Nem bolo vai restar mais. Porém, tudo precisa restar, ficar? Lotado seria este mundo se todos os séculos convivessem ao mesmo tempo. Nem século teria. Talvez bolos destroçados a cada ano sejam necessários, porque o homem precisa se fundar pelas marcações do tempo. É a única coisa que temos nas mãos. Tempos diferentes, tempos que se deixam marcar, tempos recontados pelos livros. Tempos esquecidos. E o tempo das velas. Pode não ter durado muito, mas ela se ergueu ao topo e fundou céu estrelado na montanha de chocolate, no fundo escuro da sala de estar. Velas são capazes de tragar, como buracos negros, as faces sorridentes de pessoas. E, por breves segundos, a vela é de todos os olhares. A única fonte de luz vista por todos aqueles vinte pares de olhos.

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E ainda é meio-dia

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O sol a pino anunciando a parcela

De dia quase inesgotável

De mais rotina vista da janela,

De doçura inefável.

E, veja só, ainda é meio-dia.

Situado em tal eternidade,

O sol promete inícios longínquos,

O almoço é engolido com ansiedade,

Das expectativas de sóis oblíquos.

Mas já é meio-dia.

Tempo esse que se consome em vão,

Na promessa de instantes vindouros,

De manhã esmorecida em sofreguidão.

O meio-dia é morte e vida em louros,

Marcados a pino com o que ficou,

Que, teimoso, resiste pelo porvir.

Mas, ainda assim, que inferno!

De dourado forte, solar e mortífero eterno

É este meu meio incólume meio gasto meio-dia.

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Apartamento em Paris é reaberto após ficar 70 anos intacto

Matéria publicada no site Causas Perdidas

Normalmente, algumas pessoas tiram férias e deixam suas residências por poucas semanas ou até meses. Houve, porém, um apartamento em Paris que foi deixado isolado por 70 anos. A primeira coisa que me vem à mente é: o pó. Mas, felizmente, o pó desse período extenso repousava docemente por mobílias belíssimas, inesperadamente bem conservadas, nesse apartamento que teve sua história conservada por entre as paredes. Inimaginável o mundo que ele parece simbolizar por trás da porta principal.

O belo espaço preservado, o qual pertenceu à neta da atriz e última socialite parisiense Marthe de Florian, foi pago, mês após mês, durante muitas décadas, mas sem ter sua porta aberta pelo proprietário por todo esse tempo, deixando-o não apenas abandonado, mas também intacto. Isso ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.

A proprietária inicialmente abandonou o seu rico apartamento a fim de escapar do ataque nazista. Ela nunca retornou à sua casa, a qual agora foi nomeada como uma espécie de “cápsula do tempo”, mas em forma de um apartamento parisiense estilo rococó. Os herdeiros da luxuosa proprietária decidiram fazer um inventário do apartamento quando eles descobriram que o interior foi preservado e que lá havia muitos tesouros.

Um deles, por exemplo, inclui um quadro pintado pelo famoso artista italiano do século XIX, Giovanni Boldini. A obra traz uma mulher que foi retratada para se assemelhar a Marthe de Florian aos 24 anos de idade. O lar encapsulado pelo tempo também revelou o romance com o artista por meio de uma pilha de cartas de amor trocadas entre eles. O apartamento, que provou ser tão rico de posses quanto de segredos, é fechado ao público, apesar de existirem algumas especulações que fazem isso mudar.

O curioso contraste entre a figura americana de Mickey Mouse e o imponente e esquisito avestruz empalhado, os livros e manuscritos empilhados nos móveis de madeira muito sofisticada, o estofamento das poltronas elegantes, a cortina densa que ocultou o sol por todo esse tempo, o espelho que via à espreita o tempo congelado no apartamento. Esse é o cenário com que a família de Marthe se deparou e o qual pode ser visto nas fotos abaixo.

 

Não é à toa que encontrar esse apartamento intacto traga à tona a sensação de que o tempo parou. Os móveis carregam consigo parte da história de seus moradores, mas, também, do contexto social a sua volta. Em um episódio do documentário Mundo Museu, exibido pelo canal Globosat, é possível conhecer as mais variadas mobílias no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Os proprietários Fábio Prado e Renata Crespe, casal muito influente no início do século XX, colecionavam utensílios raros e mobílias dos últimos quatro séculos, hoje expostos no museu.

A concepção dos vidros, da madeira entalhada, dos compartimentos secretos nas escrivaninhas, são elementos que fazem de tais objetos uma manifestação cultural. Com efeito, espera-se que as mobílias se adequem às necessidades de seus proprietários. Ademais, a conservação do material se mostrava importante em razão do significado que tal objeto tem enquanto status: uma coleção de talheres de prata dizia muito sobre a família em suas recepções sociais; a porcelana e utensílios considerados de preço elevado, quando comprados e exibidos, pareciam dizer tacitamente que o proprietário tinha bom gosto e riqueza.

Nota-se, portanto, que as mobílias possuem segredos históricos e mantê-las em casa revela que o sujeito não as compra somente por necessidade, mas pelo valor cultural agregado a ela. A redescoberta desse apartamento parisiense acaba por remeter ao significado do gabinete de curiosidades, na História. Durante os séculos XVI e XVII, era comum ver tais gabinetes, locais em que se guardavam objetos raros ou incomuns aos olhos de quem os descobriram, sendo formados por utensílios exóticos, fósseis, animais empalhados, instrumentos técnicos avançados. Posteriormente, eles viraram a instituição que constitui o museu, por volta do século XIX.

Gabinete Worm Ole, do Museu Wormianum, 1655

O gabinete de curiosidades foi de suma importância durante o Renascimento, tanto como um local físico onde armazenar os mais distintos objetos, quanto uma representação cultural da interpretação dos sujeitos que estavam começando a se ver como descobridores. Veja só, não era difícil encontrar objetos de cunho religioso ou até mesmo frascos com substâncias misturadas prometendo curas e amores eternos. Isso é uma amostra de que tais gabinetes não possuíam um método rígido na escolha dos objetos a serem guardados.

Os gabinetes acabavam por ser um lugar onde o poder místico da ciência era reafirmado como uma área que começava a se ver como detentora do conhecimento acerca da Natureza. Não deixamos de reparar nisso na reunião desses objetos: o sujeito que os guardou é um pesquisador, das mais diferentes formas (sendo supersticioso ou lógico), propondo uma interpretação sobre o que encontra. Contudo, nesse momento a Natureza ainda encerra em si mesma o misticismo que fascina esses pesquisadores. Como ela parece ser harmônica e superior à mente humana, resta ao pesquisador guardar o que lhe interessa: os objetos que parecem falar sobre a Natureza.

O curioso está no ato de guardar. Ele nos dá o poder da interpretação, da teoria sobre o objeto. Mas esse ainda tem o mistério na sua essência, portando a riqueza infinita do mundo nos produtos mais bizarros. Interessamo-nos pelos pontos de passagem entre um reino e outro, o abismo em que o conhecimento humano parece não chegar; e pelo acidente efêmero do encontro com um fóssil, uma peça da toilette, um vaso.

O gabinete de curiosidades se interessa pelo exótico de outras culturas, como objetos antigos, um registro em um papiro, múmias egípcias, sapatos indianos. As coleções dos séculos XVI e XVII passam a manifestar, portanto, a curiosidade do homem que vê nas Navegações, a possibilidade de conhecer o mundo e conquistá-lo. Os gabinetes de curiosidades não deixaram de ser uma representação também do interesse sobre a anatomia que, posteriormente, nota-se nos chamados “teatros de anatomia”, onde eram guardados esqueletos a fim de auxiliarem nos estudos de escolas de medicina. Os órgãos humanos incitavam, nos pesquisadores, a mesma necessidade de conhecer os mistérios da Natureza presentes na composição de si mesmos.

Evidentemente, não apenas podemos dizer que objetos têm as marcas físicas que a História deixa neles, como o desgaste e o pó, mas também algo que vai além de sua determinação espacial: a memória encapsulada, deixada em suspensa, aguardando o olhar de qualquer indivíduo para ser reavivado.

O apartamento parisiense redescoberto lembra, pois, o gabinete de curiosidades devido à junção de objetos incomuns às mobílias bem conservadas. Porém, mesmo que vejamos a semelhança entre ambos, é importante destacar que o gabinete pressupõe que os objetos armazenados nele tenham sido descobertos pelo homem, carregando em si o caráter de objeto a ser pesquisado por alguma razão. O pesquisador tem o poder de afirmar se esse objeto tem alguma peculiaridade para ser guardado, até mesmo um valor financeiro inestimável para a sociedade. É verdade que o quadro de Boldini foi redescoberto e entraria no gabinete como objeto admirável por seu preço e singularidade. Mas esse valor dado à obra de arte iniciou-se com o museu estabelecido como instituição, portanto, o sucessor do gabinete de curiosidades. Assim, permanece a dúvida se é possível que uma obra de arte tenha espaço no gabinete.

Os demais objetos do apartamento, por sua vez, teriam sido mais do que relíquias com as quais a pessoa sortuda que abriu a porta se deparou. Certamente, para quem está fazendo o inventário do que encontrou, deve ser uma fonte de renda. Mas um boneco do Mickey, um avestruz ou até a pilha de cartas podem ter um valor simbólico. E esse ocorre pelo que foi afirmado antes: o objeto tem em si uma história oculta. Pode não ter significado para quem o encontra, mas ele o teve no passado da proprietária. Chegamos ao ponto mais fascinante, pensar em tudo o que fora abandonado. O que ela sentira ao se desvencilhar daqueles objetos, das cartas trocadas com o artista, fugindo do ataque nazista a sua cidade?

Podem ser utensílios cotidianos, mas carregam a história do dono, a sensação ao comprá-los, o que foi vivenciado ao lado de tais objetos, a estranheza na sua escolha em ter um avestruz empalhado. A disposição dos móveis e a escolha dos objetos do apartamento, como parte da identidade do proprietário, falam, pelas entrelinhas, com o pó sutilmente repousando nessa história deixada para trás. Desta forma, o apartamento parisiense aguça nossa curiosidade não só como pesquisadores, mas, no revela, também, a possibilidade de nos enxergarmos enquanto sujeitos que lamentariam, por tanto significado e história, em deixar seu lar para trás.

Gravuras dos gabinetes de curiosidades:Link

Fonte das informações históricas sobre os gabinetes: Link

Arquivo online disponibilizado pelo Museu da Casa Brasileira sobre os equipamentos, usos e costumes: Link

Revisado por Karol Vieira

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Tempo, dono dos ritmos

Ouço o velhinho bradar o perigo dos próximos meses, enquanto as pessoas andam na rua, revirando os olhos ao humilde senhor que pedia dinheiro. “O tempo está se esgotando, está sim…corre pelos dedos”, murmura o velhinho, em devaneios ao encarar a fonte de água à sua frente, na praça. Com a água escorrendo tal qual a sua vida, o velhinho vê o tempo terminar como se fosse a gota ao tocar o frio mármore da fonte, após deslizar por todo o corpo da jovem retratada na escultura. A frase, ignorada pelos passantes, deixa-me desolado. O abandono do velhinho, a fonte e o acelerado cotidiano. O esgotamento e tudo não passa de uma incógnita. Sempre foi, mas desta vez…não visualizo nada para esse futuro. Às vezes surge a dúvida se é uma melancolia que logo será anestesiada pela TV ou pela ocupação com algum objeto inútil. Ou uma melancolia simplesmente esmagada por esse mesmo tempo que me consome. Jovem, mas com o sentimento de que já estou atrasado. Com o corpo intacto de rugas, mas com um casaco de moletom puído envolvendo-me tal qual uma nostalgia por um tempo que nem sequer vivenciei.

Vejo pessoas realizando sonhos que gostaria que fossem meus. Parece-me que ouço dos outros “ah, lá vai o Daniel, as costas curvadas, o casaco puído, a alma sem sonhos”. Hm, creio que seja minha consciência, só isso. Tem pessoas que  bradam por aí o que consideram ser uma conquista satisfatória ao que se espera deles como vivência. Um emprego com um excelente salário, o envolvimento com inúmeras pessoas, as viagens. Eu gosto de ser um ato falho, de dizer que estou em crise. Sou ser humano, e isso já está raro de se ver por aí.

Eu sei que tenho ideias povoando a minha mente, um mundo em que misturo ficções, conversas, acontecimentos corriqueiros que se transformam em histórias, refrões de músicas, poemas. Mas quando penso o que eu imortalizaria nas palavras e nos atos, sou tomado por um esgotamento. O signo, a palavra, tudo já parece ter sido dito. Surge uma palavra interessante para um poema, corro, escrevo e aí vejo que outro, melhor do que eu, já o fez há alguns séculos. E, olha aí, será que já estou clichê fazendo desse texto metalinguístico? Falo e falo sobre a dificuldade de escrever por meio da escrita e…o que eu estou contando? Talvez não seja nada de significativo.

Eu não quero a novidade. Eu quero o novo. Podem ser histórias semelhantes ao passado, afinal o homem é uma repetição. Mas quero mudar a estrutura, quero soar fresco a essa geração de pastiche. O que penso me parece ser real. As ficções se grudam em mim, não consigo mais sair desse vício.

Eu sei agora que, com o Tempo, é melhor fazer um acordo. Vou ficar onde estou. Não quer dizer sucumbir a ele e viver correndo atrás de não sei o quê, como eu faço. Voltar ao passado é bom, mas chega de me hospedar nele. Tempo, esse dono de ritmos, vou recriá-lo. Não mais o do relógio, mas o da minha experiência e o dos meus passos. Assim, talvez eu veja que a minha necessidade não é a de ter um casaco novo, mas de fazer do meu moletom puído o invólucro do qual um olhar voltado ao presente se descortine.

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Ensaio sobre Alice no País das Maravilhas

Muita gente – há exceções, claro – não gostou da versão cinematográfica de Alice no País das Maravilhas, dirigida por Tim Burton. Assisti ao filme, já escrevi o que eu achei, mas assim que o filme terminou, resolvi que leria o livro de Lewis Carroll, afinal é um clássico literário. E fico fascinada por obras que são classificadas como infantis, pois pode acreditar, muitas apresentam ideias interessantes nas entrelinhas. Por isso, resolvi escrever um ensaio sobre o livro, que está aí embaixo! Boa leitura : )

Ensaio sobre Alice no País das Maravilhas