OBRA DE ARTE DA SEMANA| A loucura da noiva de Lammermoor, de Emile Signol

OBRA DE ARTE DA SEMANA| A loucura da noiva de Lammermoor, de Emile Signol

A loucura da noiva de Lammermoor emile signol

Publicado no site Artrianon (junho)

A obra A loucura da noiva de Lammermoor (La Foule da la fiancée de Lammermoor) (1850), de Emile Signol, é o vislumbre do horror da morte. Baseado no romance homônimo de Sir Walter Scott, a história trágica compõe com Une légende de Montrose a terceira obra de Contes de mon hôte. A referência é a vida de Lucy, filha de Sir William Ashton, em um contexto de rivalidade ancestral entre as famílias da jovem e de seu futuro marido. O casamento era a promessa de tempos pacíficos. Porém, a mãe de Lucy, Lady Ashton, teria provocado grandes desentendimentos os quais originaram um casamento forçado e o triste fim da jovem protagonista, que em um rompante de loucura, esfaqueia o marido e morre em terríveis convulsões.

O quadro de Signol encerra o instante no qual a jovem matou o marido e se refugia na lareira, com todo o aposento se desmanchado na sua loucura. Os olhos, quando aliados à observação do sangue em suas vestes e mãos, provocam a sugestão da morte recém-cometida, e faz pensar no que virá depois. O olhar de Lucy é o registro do momento em que ela se dá conta brevemente do que cometera, mas o ato se mantém distante pois é revestido, ainda, por sua insanidade, de quem teme por ser visto pela própria loucura.

É muito recorrente na literatura do período o fim de uma personagem feminina ser pela loucura. Constantemente associada a mulher à ideia de uma fraqueza dos nervos, esse imaginário criado no século XIX tanto pela pintura quanto pela literatura definem o feminino pelo perigo do descontrole. Não se pode afirmar categoricamente que foi isso o que se passou na história real em que Sir Walter Scott se inspira, pois era uma saída confortável dizer que essa mulher a qual assassinou o marido tenha agido assim por ter essa propensão “natural” à loucura.

 Havia o temor tácito, no próprio matrimônio dos moldes do século XIX, de que a mulher poderia sucumbir não à loucura, mas à recusa de servir. Ambas se associam, com o argumento da loucura sendo usado para simplificar e anular expressões psicológicas da mulher e sua voz. Significava a ruína do matrimônio e da formulação em vida dessa família burguesa, pois se uma mulher enlouquece no ambiente doméstico é porque o marido não soube controlar. Ou seja, mulher, casa e família são o trio de posses e, se um lado se rompe, a perpetuação do nome e título masculino falham.

Sabe-se, hoje, que por “loucura” havia diversas respostas plausíveis para diagnosticar o quadro psicológico de uma mulher. Inclusive tendo a clausura, o isolamento e a situação abusiva do matrimônio como agravantes ou causas de um quadro que não podia ser meramente resolvido com a internação forçada e violenta. Por isso, essa expressão da loucura associada ao feminino é frequentemente usada para anular a atividade da mulher e sua autonomia.

No caso, o que se destaca no quadro de Signol é que a personagem é posta em um espaço ambíguo: apesar do uso da loucura feminina como argumento redutor do gênero, ela ainda tem lugar ativo nesta história. Em vez de se tratar do corpo feminino desfalecido pela loucura e haver uma erotização dessa morte, o pintor encapsula a máxima do horror no olhar da personagem ainda viva ao constatar o que aconteceu. E a história se torna sugestiva. Se essa mulher está encolhida com sangue nas vestes e uma faca na mão, isso a coloca no centro da ação narrativa. Por isso o horror, para o olhar do século XIX, se concentra no fato de que o sangue nas vestes não é o da jovem donzela, mas sim do único ao qual ela pertenceria, o marido, encerrando assim o contrato de servidão ao matrimônio.

Tendo em vista que o horror é uma sensação provocada por uma impressão bem particular, diante de um fato exposto aos olhos ou a presença de um pensamento, isso revela que ter o leve vislumbre do choque nas faces femininas é ter, ainda, o segredo nunca revelado, de uma intimidade a qual o voyeur masculino não consegue acessar. Ele nunca compreenderá o que se passa na mente dessa mulher. A bem da verdade, a loucura feminina como perigo é justamente pela anunciação de que existe um ser pensante nesse corpo que recebe inúmeras projeções eróticas masculinas. A beleza posta em relação à morte, do corpo feminino desnudo na privacidade de seu quarto, tentando gritar e pedir pela vida que reside do outro lado, constrói o voyeurismo para o observador que participa da cena. O retrato de Lucy em seu instante de loucura ainda se aproxima da intimidade do leito e do instante que ninguém teria presenciado – a morte do marido, o rompante de loucura e o fim de Lucy–, da mesma forma que o desposar da donzela reside na intimidade com o marido.

            Por isso, do quadro de Signol emana um poder muito pulsante do perigo de uma liberdade em um espaço onde a autonomia reside nas mãos do outro. O horror se concentra no fato de que essa liberdade só acontece com o corte abrupto e, ainda assim, por se tratar de uma mulher, o imaginário do século traz a loucura como a punição e o único destino possível para essa ação. Mesmo para quem tenha agido em função de si mesma, possivelmente por proteção, a ideia de predisposição feminina à loucura se conecta ao horror do que é desconhecido e ao assombro pelo descontrolável na condição humana.

Referências bibliográficas

A exposição Visages de l’effroi: violence et fantastique de David à Delacroix (Musée de la vie romantique, 2015)

Musée des Beaux Arts 

5 contos para ler no Halloween – parte II

5 contos para ler no Halloween – parte II

poe2

Publicado no site Notaterapia

Como o Halloween está chegando, a vontade de ler obras temáticas aumenta. O mês ganha ares misteriosos, pelo anseio de ser surpreendido por algumas obras, e o desconhecido do medo que a literatura consegue ceder ao leitor. O mais curioso, porém, é quando alguns autores têm a proeza de causar medo ou chocar neste formato.

O medo fundante por poucas páginas, em breves palavras que já situam o leitor em uma atmosfera, ou criando proximidade com o personagem, acabam por formar um todo interessante na forma do conto. E assim encontramos histórias inesquecíveis.

A lista abaixo traz apenas alguns enredos que podem ser lidos no mês do Halloween, caso queira entrar na atmosfera assustadora. Com certeza há muitos outros contos que poderiam entrar aqui. Mas as histórias abaixo são daquelas que forçam o leitor a se ver checando o seu travesseiro à noite antes de dormir. Ou se assustando com o peculiar interesse de um jovem pelos dentes da prima. Ou ter medo de uma aparente garotinha inocente.

Se quiser ler mais, a parte I da lista se encontra aqui. As listas buscam citar autores de diferentes nacionalidades, para assim conhecermos mais e mais obras. Boa leitura!

  • O modelo de Pickman, de H.P.Lovecraft (1927)

O conto O modelo de Pickman convida o leitor a descer ao porão de um pintor que diz retratar o horror por meio da observação. O narrador é uma das testemunhas que conta a história, após ter aceitado um passeio junto ao artista. São obras indescritíveis, que nunca seria exibidas por encerrarem o próprio horror. O cenário são igrejas, cemitérios, lugares abandonados. E o choque fica por conta da figura de demônios no primeiro plano. Porém, é o modelo do artista, descrito no conto, que choca e parece olhar diretamente ao leitor no final do conto. A narrativa nos faz visualizar as criaturas, que, aos poucos são descritas como criaturas caninas com traços semelhantes aos humanos. É impossível ficar alheio às últimas palavras de Lovecraft.

  • Travesseiro de penas, de Horacio Quiroga (1917)

Alicia e Jordan são recém-casados. Apesar dos ditos “sonhos infantis” e idealizações de Alicia sobre seu marido, os dias de lua-de-mel revelaram um marido frio e recluso. Alicia sentia que ele podia amá-la, mas por vezes duvidava de seus sentimentos. Aos poucos, ela foi assumindo o papel de esposa, aguardando o marido voltar do trabalho. Nesse intervalo, Alicia dormia e vivia o confinamento do lar. Com o tempo, ela adoece, mostrando-se pálida e magra. Jordan tenta de todas as formas ajudar com algum tratamento e fica ao lado da esposa. Mas Alicia definha. Os dias de Alicia e a expectativa do que ocorre que a jovem movem o conto para um clímax o qual Quiroga fecha com as melhores frases finais. Elas ficam na mente do leitor após o final da leitura. Porque a solução encontrada por Quiroga no enredo é fazer o medo e o terror serem exprimidos pela coisa mais trivial do cotidiano, um travesseiro.

  • Berenice, de Edgar Allan Poe (1835)

No início do conto de Edgar Allan Poe, um dos maiores autores do gênero terror, somos apresentados ao personagem Egeu. Ele narra a peculiaridade de sua juventude e o aparecimento de uma espécie de neurose, a monomania. Ele era capaz de passar dias esgotando uma única frase em latim ou observando o tomo de um livro. Logo os dentes e o sorriso da prima Berenice ganham o foco de sua atenção. Ele descreve a beleza e as particularidades dos dentes dessa jovem que era o contrário dele, muito doce, feliz, espalhando alegria pela casa. Quando Berenice adoece, é a fase que Egeu amou a prima. Porém, a amava com o cérebro, analisando cada particularidade, gesto da jovem, como objeto de estudo. É essa loucura e fixação do narrador que faz de Berenice um dos contos mais chocantes da literatura. Com final trágico, Poe consegue criar dúvida na mente do leitor, que se vê encaixando os fatos até o final aterrorizante da obra.

  • A morta, de Guy de Maupassant (1887)

O conto A morta apresenta o desespero de um protagonista que perdeu a amada. Composto por diversas frases exclamativas, o lamento do personagem vai ganhando corpo até um momento muito estranho que ocorre diante de seus olhos, no cemitério. As últimas frases do conto são as responsáveis pelo destino do personagem e pelo horror com o qual ele se defronta.

  • Miriam, de Truman Capote (1945)

H.T.Miller, Miriam, é uma viúva reclusa a qual tem uma rotina muito simples. Numa noite de inverno, ela resolve ir ao cinema. Já na fila, a senhora conhece uma garotinha de cabelos brancos e sobretudo azul, que também se chama Miriam. Elas entram juntas na sala após Miller pagar os ingressos para a garota. Após se despedirem, tarde da noite, alguém bate na porta. É a garotinha Miriam, muito insistente, que aos poucos começa a se mostrar perturbadora por conta de seu comportamento evasivo. No conto, Capote cria uma atmosfera tensa, numa narrativa bem construída. O final tem algumas interpretações possíveis sobre o paradeiro de Miriam. Além do teor fantástico, o horror também consiste na sensação de impotência diante das investidas das pessoas, a perda de liberdade e a loucura.

Coração a delatar melancolia

Coração a delatar melancolia

O clichê do dia frio e nublado, ouvir um blues e jazz. A voz doce de Norah Jones e as palavras duras e frias das páginas de Poe. Melancolia em ambos. Mas em uma há melancolia tranquila, comum à vida. Em outro é a melancolia destrutiva, da vida que nunca viu um feixe de luz e já apagou o passado, de tão longínquo, e a esperança do futuro, tão tolamente idealizada. Paz? Talvez só na primeira. A doçura de Jones consegue oscilar entre a melancolia e o contentamento, sem explicação. Poe está enterrado em si mesmo, com o coração a delatar a sua tristeza e a palpitar por todos os cômodos da consciência do escritor e do leitor. O terror finca palavras duras à alma já perdida do leitor, gruda nela, enterra sua sensação no fundo dessa alma. Mas o horror enterrado continua a palpitar como se estivesse vivo, igual a Berenice em seu conto. Jones consegue resgatar o sorriso doce e saudável da moça Berenice, em Poe. Se sua música for ouvida junto à leitura, milagrosamente ampara. O horror é sentido, mas no final do conto, abraça a tristeza e se faz sentir com um pouquinho de doçura. Poe e Norah Jones juntos? Possível apenas num dia nublado, música e conto, um servindo como remédio para a dor do outro.