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Crítica | Millennium: A Garota na Teia de Aranha

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Um passado traumático, um rompimento e um lançar-se no abismo para se salvar. Essa é a história que compõe Lisbeth Salander, uma anti-heroína que ataca homens que agridem mulheres. A personagem, presente na trilogia de livros Millennium – Os homens que odeiam as mulheres, de Stieg Larsson, icônica no cinema com duas adaptações, uma americana, a outra sueca, retorna agora com a continuação de dois livros, escrita por David Lagercrantz.

Desta vez ela é contratada por Balder (Stephen Merchant) para recuperar um programa de computador Firefall, o qual dá acesso a um material bélico perigoso em escala mundial. Nesta missão, a personagem acaba por ganhar diferentes tipos de inimigos, e precisa encarar o passado que a assombra, ao mesmo tempo que protege uma criança, a qual a faz lembrar de sua infância com a irmã.

O título do filme possui múltiplos sentidos: assim como Lisbeth é posta como a presa na teia, ela é caçadora nata, enquanto precisa lidar com a perseguição de um grupo nomeado Os Aranhas. Todo o filme trabalha sutilmente com essas referências, assim como alia as cores vermelho e preto para criar a ideia de que, ao final, a batalha de Lisbeth com o passado é associada às jogadas em um tabuleiro de xadrez.

A atriz Claire Foy, escolhida para o papel de Lisbeth, consegue criar uma personagem com traços fortes, sagaz nas estratégias que usa para fugir e atacar, uma fortaleza pela qual não permite que as emoções penetrem. A atriz, premiada pelo excelente trabalho em The Crown com um Emmy, um Globo de Ouro e três indicações ao BAFTA, entrega uma ótima performance. Contudo, o roteiro fraco não permite que Claire protagonize cenas explorando com mais profundidade os dilemas de sua personagem. É possível notar o esforço da atriz em se preparar fisicamente para a personagem, em uma mudança surpreendente, da qual saiu rapidamente da corte britânica para a composição rebelde de Lisbeth Salander.

Por vezes, o roteiro se perde em soluções que parecem um tanto absurdas para a trama. Mas o grande problema é a superficialidade dos personagens, e mesmo uma falta de compreensão, tanto do roteiro quanto da direção, da relevância icônica de Lisbeth. Os vilões do filme são estereotipados e se torna difícil levá-los a sério. O drama entre Lisbeth e a irmã se apresenta de forma superficial, principalmente a participação da irmã como vilã. Todo o problema vivido com o pai, a situação de abuso, se mostra uma desculpa mal desenvolvida para reunir as personagens, levando-as a agir de forma duvidosa e acaba por reduzir a vítima de abuso a um papel de culpada ou de algoz e enlouquecida.

Há alguns momentos que a direção consegue sustentar a tensão do filme, como as cenas de luta, a explosão no apartamento de Lisbeth, constituindo cenas bem coreografadas e uma câmera mais trêmula. Porém, o diretor Fede Alvarez não consegue dar muita personalidade à direção do filme, tornando-se também um tanto arrastado.

Sendo assim, Lisbeth Salander teria ainda mais poder, na trama, se o roteiro tivesse construído personagens e motivações mais sólidas em torno da protagonista. A grande qualidade do filme acaba por residir na competência de Claire Foy em dar conta de uma personagem icônica, concedendo uma versão alternativa, com olhos expressivos, com emoções pesadas e uma intensidade na tentativa de acertar o caos. Ela consegue aliar força e fragilidade, dando um aspecto muito humano a Lisbeth Salander, prosseguindo, à sua própria maneira, com o legado de uma anti-heroína que se esconde nas trevas gélidas da Suíça a fim de furar o poder vinculado à violência masculina contra as mulheres.

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Canção de Ninar, de Leïla Slimani

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Canção de ninar, de Leïla Slimani

Editora Planeta, 191 páginas.

A obra vencedora do Prêmio Goncourt, escrita pela autora franco-marroquina Leïla Slimani, é um retrato sombrio e realista da maternidade no mundo contemporâneo. A sua premissa já é lançada na primeira sentença do livro: “o bebê está morto”. E assim começamos esse thriller sobre uma babá e uma família, em que ela, aos poucos, se torna indispensável.

Louise é a forma da perfeição das babás idealizadas pelas famílias que desejam dar andamento em suas carreiras e serem livres enquanto os filhos são educados por aquela que cuida da casa zelosamente o dia inteiro. Quase uma bonequinha loira, de unhas enfeitadas e maquiagem bem feita, ela desempenha à vontade a sua função de cuidar das crianças. Fora da casa, porém, Louise é posta à margem: sente-se só, em uma moradia em péssimas condições e sem uma história própria. Pois a cada trabalho, é uma família diferente e um vínculo rompido.

O ponto perturbador e muito válido deste livro é que ele relativiza a maternidade: para uma relação saudável, a privacidade, os desejos e as aspirações da mulher não podem ser ignoradas. Se uma mulher não deseja ser mãe, ela não deveria estar sob a pressão de sê-la. E, assim como bebês são postos no mundo, mães também passam a integrá-lo de forma diferente. Que tipo de suporte psicológico elas recebem com essa responsabilidade? Os parceiros realmente ajudam nessa transição, a cuidar dos filhos e da casa?

Além disso, o livro problematiza o fato de que inúmeras famílias se criam a cada dia, deixando nas mãos das babás o cuidado, a formação das crianças, sem de fato participarem da vida delas. Por sua vez, essas babás, em grande parte, são mães, que deixam seus filhos com outras pessoas, ou os deixam à mercê no mundo ou se veem obrigadas a se dedicar à formação de outras crianças e se encontram esgotadas ou sem nenhum vínculo com seus próprios filhos.

Felizmente, a obra não se torna um retrato maniqueísta das relações. Os personagens têm camadas complexas bem delineadas na escrita direta e exata da autora. Reconhecemos, primeiro, o drama de Myriam, uma mãe que logo se vê na solidão e tristeza do lar, da responsabilidade por duas vidas, e o abandono de sua carreira promissora em Direito assim que se formou, para cuidar da primeira filha. Em face disso, ela vê o conflito de encontrar, no marido, essa suposta ingenuidade de quem desconhece a densidade do que é assumir o papel materno aos olhos da sociedade, e a rotina cheia de instantes opressores.

Slimani consegue a façanha de retratar personagens com grande humanidade, pois percebemos seus dilemas sabendo o que os levou até pontos importantes de suas vidas. A construção de Louise é um caso à parte: se começamos com uma premissa intensa e dolorosa, a narrativa alcança a proeza de não mover o leitor pelo ódio, mas sim suspendendo o juízo para que conheçamos quem são esses personagens e que peças eles assumem na história.

Dito isso, Canção de ninar é uma leitura áspera, provocante, que não deixa o leitor tirar os olhos da página até terminar. A grande qualidade do livro de Leïla Slimani é fazer com que os personagens respirem e que suas vidas soem fáceis de visualizar. Tal como a canção de ninar cantada por nossos pais ou babás, com a delicadeza do canto mas com as ameaças do mundo na letra da canção, o livro é assustador por revelar com tanta sinceridade as histórias que se passam em inúmeros lares.

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Oscar 2015 | O abutre

Direção: Dan Gilroy

Com Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Riz Ahmed

Indicado ao Oscar 2015 na categoria de Melhor roteiro original. Mas merecia figurar entre os indicados a Melhor Ator pelo trabalho de Jake Gyllenhaal.

o abutre posterA disputa pelo destaque no jornal matinal americano ganha formas realistas no filme O abutre. Lou Bloom está desempregado e, após presenciar um acidente, conclui que a única saída que tem é se tornar um cinegrafista freelancer. Ele acompanha os acidentes pelo rádio policial interceptado e corre para a cena do crime ou acidente para registrar, ao mesmo tempo que a polícia, o que podem ser cenas que ganharão destaque no jornal matinal do dia seguinte. É com essa premissa que O abutre se torna um título justificável na forma de Lou e uma mídia sangrenta, que se intitula virtuosa por apresentar os crimes diários de uma sociedade bilateral que coloca a periferia como apenas a violência pura contra os cidadãos de bem da dita classe média.

Nos primeiros instantes do filme somos apresentados a um protagonista que tem em mente todos os artifícios que esta mesma sociedade vende como fórmula simples de sucesso: ser proativo, ter olhos clínicos e inovadores para os negócios. Mas a ironia é que esta sociedade é, na verdade, bem seletiva e desigual, a ponto de promover durante anos essas premissas de sucesso que, muitas vezes na realidade, são vazias diante do fato de que Lou as sabe e não encontra nenhuma oportunidade de emprego depois de ter seu histórico manchado por um roubo e ser marginalizado por ela. Há promessas vazias de sucesso e Lou escolhe, assim, um trabalho que envolve questões morais bem delicadas.

Registrar vítimas acidentadas, violar cenas de crimes se torna, assim, um prazer imenso para Lou. O filme ganha uma atmosfera sombria de um thriller bem trabalhada pela direção de Dan Gilroy, pois não mente. Ele expõe o que se vê na TV e não sustenta saídas facilitadas em que o protagonista é posto apenas como uma criatura desumana e o jornal um veículo assustador. Essa perspectiva vem junto com certo fascínio pela persistência de Lou e até mesmo pelo talento que ele tem com os takes que revelam uma emoção distinta ao captar uma cena. É com grande perspicácia que o filme trabalha de modo que o espectador reúna o choque em ver que alguém que, ao mesmo tempo sorri docemente e se preocupa em ser receptivo para agradar o outro, e extrai imagens com uma frieza de um diretor de cinema que encara aquela realidade como uma mera cena falsificada pelas câmeras.

O poder de ter a câmera na mão transforma o filme em um enredo sedutor. O roteiro, indicado ao Oscar 2015, tem o mérito de construir um personagem do qual conseguimos extrair camadas muito complexas. E, principalmente, inserido em uma mídia americana que pouco se critica, uma mídia que por incrível que pareça consegue ser mais pesada do que a brasileira ao expor os crimes. Por aqui, os jornais de fim de tarde repetem notícias e frases exaltando como o cidadão se encontra numa sociedade do medo, um medo que é gerado, olha só, também por esta repetição exaustiva de um jornalismo embrutecido por premissas estúpidas. Resume crimes em pautas diárias apenas para preencher o espaço dado pela televisão. O que a mídia americana faz, porém, é usar esse mesmo artifício e ainda expor, sem pensar, as próprias vítimas ensanguentadas na tela, para um público que acha que deseja ver isso, que já se acostumou com aquele discurso fraco de que é necessário ver como é de verdade esta sociedade violenta.

O trabalho de Lou, esta pessoa que inicialmente não se via importante nesta sociedade que o recusa, agora tem nas mãos o poder de registrar e manipular sentimentos de um público. De, finalmente, atravessar os limites apenas pelo prazer de se ver como o primeiro a registrar uma cena. Aqui, o trabalho de Jake Gylhenhaal, que tem escolhido projetos muito ousados nos últimos anos (Os Suspeitos, O Homem duplicado, O segredo de Brokeback Mountain), se apresenta de forma tão absoluta que só existe Lou Bloom na tela, um personagem que já se impõe como mais uma faceta inesquecível entre os últimos thrillers produzidos pelo cinema. Com sua expressão assustadora que logo se rompe em um sorriso, Jake consegue fazer com que Lou Bloom confunda o espectador entre a simpatia e o horror pela sua personalidade.

E o mais sério é que Lou Bloom é mais realista do que podemos imaginar, ele tem muito dos jornalistas que seguem com este trabalho e carrega um pouco também do olhar do espectador que tem essa curiosidade misteriosa em ver fatos violentos. O abutre demonstra, com seu roteiro sincero, que há algo de errado e muito mais profundo nas alianças sórdidas entre este cinegrafista e o veículo que transmite o material. Um interesse e um vício ainda difícil de definir por estas cenas cotidianas que revelam apenas um ponto de vista. O abutre acaba por assinalar que, muitas vezes, o horror não está no sangue e nem na morte das vítimas, mas sim na apropriação de cidadãos anônimos que estão à espreita para tornar cada ato em um mero motivo para sustentar sua fabricação de um medo feito em estúdio. E que invade a sua casa a cada manhã, com a presença discreta e sagaz de um abutre ao canto.