OBRA DE ARTE ESPECIAL DE HALLOWEEN| São Bartolomeu esfolado, de Marco d’Agrate

OBRA DE ARTE ESPECIAL DE HALLOWEEN| São Bartolomeu esfolado, de Marco d’Agrate

Publicado no site Artrianon

A estátua de São Bartolomeu esfolado, feita pelo escultor Marco d’Agrate em 1562 para a Veneranda Fabbrica do Duomo di Milano chama atenção pelos seus detalhes, poesia e certa obscuridade de seu tema. Atualmente, fica entre o altar da Apresentação e o de St. Agnes Duomo de Milão, em um pedestal alto, na ala direita do transepto da Catedral.

são bartolomeu esfolado

São Bartolomeu é um dos doze apóstolos de Cristo, executado por sua fé cristã, retratado na escultura com base na iconografia pela qual ele é identificado após a pena sofrida. Não há evidências de uma “introspecção psicológica” ou fé expressa no martírio de Bartolomeu. Ele se confunde mais com uma ode à anatomia humana e faz um encontro entre ciência e fé. O trabalho de Marco d’Agrate não é o de enfatizar o gesto do Santo em misericórdia ou em sacrifício. Demora um pouco para se compreender a história que envolve a estátua e delimitar o que significa o suposto pano que ele segura.

são bartolomeu esfolado detail

A curiosidade que o século XVI carrega pela anatomia humana recebe destaque na obra, em que cada filamento, ossatura se constitui de forma tão perfeitamente talhada no mármore que a surpresa é a de ver exposto o interior do corpo humano. O primeiro trabalho científico sobre anatomia de Andrea Vesalio, sobre o estudo de autópsia do corpo humano e a dissecção de cadáveres, foi publicado em Veneza em 1453. Vale destacar também o grande apelo da anatomia nos trabalhos e pesquisas de Leonardo Da Vinci e o valor dado ao desenho do corpo humano como máxima expressão da proporcionalidade e perfeição da Natureza.

Trata-se, portanto, de um personagem bíblico exposto mais como humano do que santo. A história de São Bartolomeu é que ele foi esfolado vivo. E a surpresa causada pela estátua é que o elemento o qual se parece com um manto, na verdade, é a pele que o santo carrega nos ombros e ao redor do corpo, referência à tortura infligida. Até o século XIII-XIV, o apóstolo era retratado vestido segurando um livro e uma faca, alusão ao Evangelho proclamado e martírio sofrido. Começaram a retratar a agonia do santo a partir do Renascimento. Enquanto o ícone do santo com a própria pele removida da carne foi finalmente santificado depois que Michelangelo, no século XVI, o retratou dessa maneira no Julgamento Universal na Capela Sistina do Vaticano.

La statua di San Bartolomeo scorticato,  Duomo di Milano

O trabalho de Marco d’Agrate é o de um exímio escultor que presentifica não só a ameaça da morte, mas o horror também do sacrifício em vida em uma pena tão duramente infligida. Afinal, trata-se de um santo esfolado vivo. Em forma escultural ele, então, contempla-nos ainda vivo. O exercício da estátua, pelo artista, se constitui como um grande ensaio acadêmico a fim de apresentar a estrutura corporal, o humano e o santo entre músculos e ossos.

Há, ainda, um fato curioso, dado o uso do mármore. O material anuncia a ideia da vida petrificada, como se guardasse uma origem perdida em seu interior, uma vida humana por debaixo da pedra, a qual o artista traz à luz. “A natureza parece agir ‘como um pintor’”, afirma Didi-Huberman em A pintura encarnada. O corpo em mármore “poderia evocar algo como uma origem perdida da figuração dos corpos, momento em que a figura teria sido, miticamente, (quase) um corpo”. No caso, a ironia do poético se concentra no fato de que Marco d’Agrate apresenta a forma da morte e da vida nessa figura impossível do corpo sem pele, expondo aquilo que comumente é velado: o universo particular e interior dos corpos, as camadas até se chegar ao esqueleto e às ruínas.

Ao pé da estátua, uma curta inscrição diz: “Non me Praxiteles, sed Marcus finxit Agrates”, referia-se ao “medo” do escultor, pois ele temia não ter o valor necessário para essa tarefa de representar São Bartolomeu, e que ela deveria ser tarefa concedida à Praxiteles, um dos escultores mais habilidosos e famosos de Atenas na Grécia Antiga.

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Outra versão de São Bartolomeu, ainda de Marco d’Agrate, datada de 1556, fica na frente da Certosa de Pavia, onde o escultor trabalhou por um longo tempo criando muitas estátuas. O delicado acabamento da superfície fez com que a escultura fosse movida para o interior. Primeiro, atrás do coro da catedral, e depois em seu local atual, seguindo uma ordem capitular de 1664, ordenando “um local mais adequado para a admiração dos intelectuais de arte”.

Depois de quase cinco séculos desde sua criação, escolho a estátua de São Bartolomeu, de Marco d’Agrate, nessa semana em que se comemora o Halloween não pela suposta característica sinistra que lhe concedem, a de ver um santo sem pele, mas pela grandiosidade de se admirar a morte e a vida entrelaçadas na existência do corpo humano. Todo esse monumento abaixo das peles que vivifica os corpos e o quanto a pele, por sua vez, se faz ao mesmo tempo como proteção e contato com o mundo. Desfiar-se da própria pele não deixa de ser uma morte simbólica, acontecendo inúmeras vezes na própria vida. A iconografia de São Bartolomeu acaba por apresentar o belo gesto que reside em segurar a pele como manto e se expor, vulnerável e humano, ao mundo.

Fonte:

DIDI-HUBERMAN, Georges. A pintura encarnada. Georges Didi-Huberman ; tradução de Osvaldo Fontes Filho e Leila de Aguiar Costa. São Paulo, Escuta, 2012

The statue of St Bartholomew in the Milan Duomo (Duomo de Milano)

De castelo à pensão

De castelo à pensão

O tempo me duvida,
E me esvazia.
Zomba, o deus soberano.
Os deuses de outrora deixaram seus fantasmas na Terra,
Perseguindo-nos com sussurros
E a maldição dos segundos que passam.
Deixam-nos nesse entrelaçar nas dúvidas vis, nas dores,
Mantos que só resvalam pelo homem
E voltam à constelação.
Mas deixam o vestígio no chão
Como terra sagrada,
Presente aos homens.
Nessa brevidade do viver terreno,
Ocupo um reino que pulsa pequeno demais para mim.
Ele incha e me abriga, ele encolhe e me sufoca.
Reino que escolhi.
Compõe-se de mitos já ouvidos em canções de ninar,
De um tempo distante de tudo. Minha herança. 
E nesse ínterim,
Torna-se fácil fazer uma descoberta:
Essa cidade é grande demais para mim.
Cidade-reino, de pessoas desconhecidas,
De amigos antigos,
Um reino na minha cabeça.
Só é um reino porque ele me parece meu.
Mas a verdade é que de reino
Ele se converte em democracia
Disposto a mudar sua política.
As bandeiras ao vento desse castelo
Acenam para a entrada de novos moradores,
Novos desbravadores,
Sozinhos nessa vida terrena
E que anseiam pelo expandir da palavra.
Vejo-me numa épica destruição do castelo
Pelas mãos dos outros.
Com essas paredes por vezes inúteis
É fácil ver a solidão cada vez mais se fortificar.
Pois então o castelo vira pensão,
Com uma infinidade de pessoas,
Casa agora em expansão.
Vida convertida
Na impressão
Nunca mais esquecida
Da areia que cai dos meus dedos.
Da morada inaugurada
Mais uma vez em mim.
Entre dois versos

Entre dois versos

Isso é a vida real?
Isso é só fantasia?
Vivemos entre os dois versos
Que carregam na interrogação 
O peso da escolha.
Fantasia inebriante, alucinógena felicidade,
Ilusões de um estar profundo no eu.
Realidade bruta, com as palavras do dicionário
Martelando a folha de papel,
Tinta e curvas, letras.
O ponto final é definitivo,
A vírgula, um intervalo, comparação
Entre os dois mundos que me envolvem.
Mas e se houver uma vírgula na qual me seguro
Titubeante, entre os dois versos?
Os dois lados irreconciliáveis,
O doce e o amargo,
Existem nesse curvar da ponte que me sustenta,
E me empurra para um caminho estranho:
Eu mesma, nascida na linguagem.
Vírgula que se prende às trincas do asfalto
Faz sentenças diversas na realidade concreta
E permeia essas trincas com poesia viva,
Ambígua,
Pacificadora dos extremos.
Amor

Amor

Amor
Dir. Michael Haneke
França/Alemanha/Áustria – 2013
Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert
 

amouremmanuellerivaAmor é um filme independente, do diretor Michael Haneke, o mesmo do premiado A fita branca. Após assistir ao filme, é uma surpresa pensar na sua indicação ao Oscar 2013. Não em relação à qualidade – que é muito boa -, mas por ter o perfil que se denomina como cult, muitas vezes contemplado só quando se trata de Melhor filme estrangeiro. E, principalmente, pelo retrato difícil que faz da velhice, sem glamour ou sentimentalismos. Não é um filme fácil, que se vê para passar o tempo, somente. E, muito menos, um filme com diálogos que empurram o espectador a uma estrutura previsível. Ele se sustenta com o término da sessão e nos empurra a uma reflexão que, talvez, dure a vida inteira.

O filme conta a história de um casal idoso, professores de música, que estão vivendo bem, saem para assistir a concertos musicais. Tudo se torna melancólico e intenso quando Anne sofre um pequeno derrame ou apresenta alguma doença que a leva a perder, aos poucos, as habilidades motoras e a lucidez. O seu marido, Georges, é quem dá a sua prova de amor ao ficar do lado da esposa em cada momento no qual ela enfraquece.s, sem a pretensão de indicar acontecimentos lineares, só ruma para o final que já conhecemos. E, mesmo assim, o filme nos acerta em cheio com a vulnerabilidade dos personagens. E por que não a nossa, também, quando se trata da morte?

No apoio que Georges dá à Anne não se derruba lágrimas, não se diz te amo. Quando Anne grita de dor, o simples fato de Georges acariciar a mão dela a acalma.  Ele aguenta todas as situações, surpreso ou talvez até entediado quando vê a filha desmoronar de tristeza e choque com a doença da mãe. É ele quem se encontra no cotidiano de Anne, optou  por transformar a dor da esposa em algo com o qual deveria se habituar. Quando se ama, até mesmo a dor do outro deve ser compartilhada, sem o alarde do mundo exterior. É simplesmente sentida.

Há pequenos momentos em que o diretor aposta em simbologias, como um pombo que aparece no apartamento. Ele é um personagem que surge no enredo para representar justamente a força do amor de Georges. As ações que ele resolve tomar são explicadas quando se depara com esse pombo. É ele quem aparece como certo fantasma da vida que Georges e Anne levavam antes da doença. E quando o pombo voa, preserva viva as lembranças da primeira vida que o casal levava até esse último momento, que pôs à prova esse amor que os sustentava na banalidade do dia a dia.

Ademais, na mobília do apartamento em que vivem, agora no período da doença, se cristalizam as memórias de um passado irrecuperável. Quando Georges olha para o piano e lembra da esposa tocando, a realidade logo o retira dos devaneios e a música que ele ouve – antes tocada pela esposa – agora se torna dolorosa demais, como os móveis e os livros que já foram tocados por Anne, encerrando neles a vivacidade da amada.

Sendo assim, Amor consegue apostar num retrato honesto da vida, sem enfeites que poderiam prejudicar a veracidade de cenas tão comuns na nossa vida. A ida a um concerto, as refeições com a família, o choque da perda de um ente querido. E, principalmente, se vê como a morte, mesmo que pressentida em todo o filme e em toda a vida, surpreende e expõe a fragilidade humana.

Ofício

Ofício

Ideias discorrem pela caneta
Esboço que já respira e incendeia.
No tempo legislador da ampulheta,
Ao acordar, a vida me esbofeteia.
 
Busco nas esquinas a epifania.
Foge de meu traço a imaginação?
O mundo me reprime em anarquia
Do infinito busco uma só visão.
 
Avante à luta! Com um lápis e espada 
Torno em escrever heroico meu ofício! 
É da luta que crio grande arte.
 
Assim, são as ruas meu baluarte,
Construção poética do artifício 
Em calçada viva, minha morada.
 

(Soneto decassílabo, com rimas em abab e cdeedc)

Balanço

Balanço

Era noite. O céu parecia um manto escuro incrustado por delineadas estrelas. A escuridão do céu juntava-se a escuridão da rua. Cachorros latiam, buzinas soavam distantes. Apenas havia uma casa acesa, a luz tímida de uma varanda.

A casa possuía um aspecto antigo, encantador, em estilo vitoriano. Pintada na cor branca, tinha dois andares e uma varanda com pilastres adornados por pequeninas flores e folhas.

Nesta varanda havia um homem sentado numa cadeira de balanço. Aparentava estar abatido, com um olhar perdido. O pescoço estava fraco, pendendo a um lado, os olhos cheios de areia. Era jovem, porém o sofrimento que sentia o envelhecia. A gravata estava sem nó, a meia, caída, a barba comprida. Naquele retirar de peças de roupa, pretendia também se desvencilhar da dor. Não entendia como aquilo ocorrera repentinamente; num instante, o sorriso esboçava-lhe o rosto e, numa fração de segundos, o mundo perdera o sentido, o rosto desconhecia o sorriso, como se fosse um estranho.

Pensava na esposa, em silêncio, na sala. O pranto frágil da mulher descia-lhe pela face de encontro à mesa em que se debruçava. As flores estavam murchas, não havia vida na casa. O silêncio mórbido permeava os cômodos, os cantos, a pele, os órgãos.

Em determinado momento, o homem ouviu uma voz. Na verdade, era um riso infantil. Olhando-o estava um menino com a pele branca como leite, o rosto corado, cachos louros emoldurando o rosto.

A voz delicada do menino, semelhante a um canto, exclamou “Papai!”. O homem ergueu o filho, o abraçou ardentemente. “Meu menino voltou!” pensou o homem. Pobre pai.

Jogou o menino para o alto, aquela imagem pura, a fim de pegá-lo e vê-lo sorrir. Mas no espaço não havia cachos esvoaçando no vento da noite; havia apenas um espaço vazio, cinzas que desciam e asfixiavam o pai. O menino não voltara, estava morto. A imagem pura se desfizera como pó.

Fora tudo um sonho ou fruto de uma memória abalada pelo sofrimento, que possuía um tênue fio de esperança em segurar novamente o corpo pequeno do filho.

O homem voltou a sentar na cadeira de balanço. Sentia-se como um pêndulo, aquele vai-e-vem, o balanço que constatava a morte do filho. O sofrimento ia e vinha como o balanço da cadeira, a amargura amordaçava a boca.

Entretanto, um sentimento aflorara no homem. Uma voz severa penetrou em sua mente. Queria despertar o homem de todo o sofrimento. A voz misteriosa dizia:

– Eu que moro no abismo, que liberto as auroras do meu peito, digo: Seu filho não morreu! Os sentimentos que ele aflorou em você sempre o acompanharão, a fé irá te salvar. Seu filho tornou-se uma pequenina estrela, uma árvore em suas mãos, que fora cultivada com grande amor. Sempre permanecerá com você, ele não morreu! Crianças, eternamente, irão nascer, e são todos seus filhos, que sonham com um mundo de liberdade. Portanto, enxugue as lágrimas, suspire, faça a barba, tire a gravata, console sua mulher que chora.

O balanço parara. Até parecia que o seu próprio respirar se suspendera apenas para ouvir aquela voz que, até então, encontrava-se perdida em tanta lama, areia e lágrima. Esse homem, derrotado pelo drama, parecia encontrar uma ínfima esperança. Ah, que alívio brotava-lhe na face! Um pouco de cor retomava o seu lugar, anistiava a palidez que tomara sua face por meses. Ou anos?

A morte poderia ser terna. No instante em que ela se acomoda, na mais repentina epifania, o homem constata que se encontra inerte diante de sua magnitude. O filho se fora, mas o pai ainda estava lá. Sempre seria pai. Mesmo que rasgado por dentro, o balanço cessara.

Não era mais necessário sentar-se naquela cadeira para tentar retomar aquele segundo que estivera em sua mão no passado. Mão que segurava o filho, para não cair. Levantando-se da areia na qual estivera preso por tanto tempo, o homem encontrou seus olhos límpidos, não possuíam mais a areia e a dor do filho morto. A cadeira de balanço continuou com o seu vai-e-vem, mas agora viva e sozinha, leve, como um lembrete da decisão que tomara. Era o balanço final do filho morto, o sofrimento que, aos poucos, deixaria de ir e vir.

Há quase 3 anos eu escrevi esse conto e guardei. É uma releitura do poema Balanço do filho morto, de Vinicius de Moraes (leia aqui). Como hoje seria o aniversário de Vinicius, nada mais justo do que publicar esse conto, que revisitei hoje, acrescentei frases, mas relembrei a mesma intensidade que senti ao escrevê-lo. Isso só cresce!