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Série de fotos expõe a mítica união entre mulher e Natureza

Matéria publicada nos sites Literatortura e Fashionatto

Ao longo dos séculos na Literatura e na Arte, a figura feminina esteve, muitas vezes, vinculada ao teor mítico da Natureza. Ela nutre a terra, o

vento movimenta as árvores, os animais conseguem seu sustento pelo mistério da vida. Era assim que se visualizava a Natureza, como uma entidade nunca plenamente compreendida, dotada de magia. E a mulher como procriadora, capaz de conceber uma nova vida, tal qual a Natureza.

Essa concepção da mulher que vemos na poesia e na arte pode ser encontrada também na fotografia de Katerina Plotnikova. A artista cria uma atmosfera nebulosa que revela um mundo semelhante aos contos de fada. Seu trabalho expõe mulheres jovens em vestidos esvoaçantes, com animais em torno, como se fossem as princesas ingênuas de um conto de fadas dos irmãos Grimm. Ou, no ensaio em questão, a mulher como alegoria da Natureza.

Fica evidente a inspiração de Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz em algumas das criações da fotógrafa. Mais do que uma foto, ela traça um diálogo com a aura que as ficções criaram em torno da menina e da mulher. A nudez soa como uma Vênus perdida numa floresta, ou, no caso das meninas com cervos e raposas, a descoberta do mundo pelos olhos inocentes da infância.

O tratamento dado às cores pela fotógrafa transforma o que seriam meras fotos coloridas em uma cena real do que é, contrariamente, uma ilusão. Incomoda a beleza das fotos. E, por um momento, parece que acreditamos na mitologia e nos contos de fadas. Mas nota-se que a fotógrafa busca justamente brincar com o que é estranho e irreal. A presença dos animais selvagens, quietos e tranquilos nos colos das garotas, está lá para mostrar que é uma ficção. E que a artista está fundando um novo mundo pela imagem.

Podemos dizer que essa aproximação da mulher à Natureza, presente no ensaio de Katerina, lembra os versos do poema Ariana, a mulher, de Vinicius de Moraes. Ariana e as mulheres no ensaio se encontram também na terra e na essência dos animais, como se fossem uma só:

“Baixei à terra de joelhos e a boca colada ao seu seio disse muito docemente – Sou eu, Ariana…

Mas eis que um grande pássaro azul desce e canta aos meus ouvidos – Eu sou Ariana!

E em todo o céu ficou vibrando como um hino o muito amado nome de Ariana.

Desesperado me ergui e bradei: Quem és que te devo procurar em toda a parte e estás em cada uma?

Espírito, carne, vida, sofrimento, serenidade, morte, por que não serias uma?

Por que me persegues e me foges e por que me cegas se me dás uma luz e restas longe?”

Katerina deixa bem claro o quanto idealizou a ficção para o seu trabalho artístico. “A fotografia tornou-se parte de mim. O tempo todo fico pensando em como implementar um novo design. Onde posso encontrar um cervo filhote? Como faço para colocar uma cadeira na árvore? Como posso fazer um balanço pendurado no céu?”. É surpreendente ver o quanto conseguimos acreditar, por um momento, na bela ilusão criada pela fotógrafa.

Fonte.

Dá vontade de colocar tudo aqui, mas o trabalho da fotógrafa é extenso (mais de 100 fotos). Para conferir mais, clique aqui.

Revisado por Amanda Prates

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Balanço

Era noite. O céu parecia um manto escuro incrustado por delineadas estrelas. A escuridão do céu juntava-se a escuridão da rua. Cachorros latiam, buzinas soavam distantes. Apenas havia uma casa acesa, a luz tímida de uma varanda.

A casa possuía um aspecto antigo, encantador, em estilo vitoriano. Pintada na cor branca, tinha dois andares e uma varanda com pilastres adornados por pequeninas flores e folhas.

Nesta varanda havia um homem sentado numa cadeira de balanço. Aparentava estar abatido, com um olhar perdido. O pescoço estava fraco, pendendo a um lado, os olhos cheios de areia. Era jovem, porém o sofrimento que sentia o envelhecia. A gravata estava sem nó, a meia, caída, a barba comprida. Naquele retirar de peças de roupa, pretendia também se desvencilhar da dor. Não entendia como aquilo ocorrera repentinamente; num instante, o sorriso esboçava-lhe o rosto e, numa fração de segundos, o mundo perdera o sentido, o rosto desconhecia o sorriso, como se fosse um estranho.

Pensava na esposa, em silêncio, na sala. O pranto frágil da mulher descia-lhe pela face de encontro à mesa em que se debruçava. As flores estavam murchas, não havia vida na casa. O silêncio mórbido permeava os cômodos, os cantos, a pele, os órgãos.

Em determinado momento, o homem ouviu uma voz. Na verdade, era um riso infantil. Olhando-o estava um menino com a pele branca como leite, o rosto corado, cachos louros emoldurando o rosto.

A voz delicada do menino, semelhante a um canto, exclamou “Papai!”. O homem ergueu o filho, o abraçou ardentemente. “Meu menino voltou!” pensou o homem. Pobre pai.

Jogou o menino para o alto, aquela imagem pura, a fim de pegá-lo e vê-lo sorrir. Mas no espaço não havia cachos esvoaçando no vento da noite; havia apenas um espaço vazio, cinzas que desciam e asfixiavam o pai. O menino não voltara, estava morto. A imagem pura se desfizera como pó.

Fora tudo um sonho ou fruto de uma memória abalada pelo sofrimento, que possuía um tênue fio de esperança em segurar novamente o corpo pequeno do filho.

O homem voltou a sentar na cadeira de balanço. Sentia-se como um pêndulo, aquele vai-e-vem, o balanço que constatava a morte do filho. O sofrimento ia e vinha como o balanço da cadeira, a amargura amordaçava a boca.

Entretanto, um sentimento aflorara no homem. Uma voz severa penetrou em sua mente. Queria despertar o homem de todo o sofrimento. A voz misteriosa dizia:

– Eu que moro no abismo, que liberto as auroras do meu peito, digo: Seu filho não morreu! Os sentimentos que ele aflorou em você sempre o acompanharão, a fé irá te salvar. Seu filho tornou-se uma pequenina estrela, uma árvore em suas mãos, que fora cultivada com grande amor. Sempre permanecerá com você, ele não morreu! Crianças, eternamente, irão nascer, e são todos seus filhos, que sonham com um mundo de liberdade. Portanto, enxugue as lágrimas, suspire, faça a barba, tire a gravata, console sua mulher que chora.

O balanço parara. Até parecia que o seu próprio respirar se suspendera apenas para ouvir aquela voz que, até então, encontrava-se perdida em tanta lama, areia e lágrima. Esse homem, derrotado pelo drama, parecia encontrar uma ínfima esperança. Ah, que alívio brotava-lhe na face! Um pouco de cor retomava o seu lugar, anistiava a palidez que tomara sua face por meses. Ou anos?

A morte poderia ser terna. No instante em que ela se acomoda, na mais repentina epifania, o homem constata que se encontra inerte diante de sua magnitude. O filho se fora, mas o pai ainda estava lá. Sempre seria pai. Mesmo que rasgado por dentro, o balanço cessara.

Não era mais necessário sentar-se naquela cadeira para tentar retomar aquele segundo que estivera em sua mão no passado. Mão que segurava o filho, para não cair. Levantando-se da areia na qual estivera preso por tanto tempo, o homem encontrou seus olhos límpidos, não possuíam mais a areia e a dor do filho morto. A cadeira de balanço continuou com o seu vai-e-vem, mas agora viva e sozinha, leve, como um lembrete da decisão que tomara. Era o balanço final do filho morto, o sofrimento que, aos poucos, deixaria de ir e vir.

Há quase 3 anos eu escrevi esse conto e guardei. É uma releitura do poema Balanço do filho morto, de Vinicius de Moraes (leia aqui). Como hoje seria o aniversário de Vinicius, nada mais justo do que publicar esse conto, que revisitei hoje, acrescentei frases, mas relembrei a mesma intensidade que senti ao escrevê-lo. Isso só cresce!

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Poeta

A verdade é que eu queria ser poeta
Daqueles que, numa mesa de bar,
A alegria e dor num copo se faz cultivar
E do real esse vagabundo é um profeta.
 
Ou o poeta de alma desgraçada
Com a alegria pendendo, cansada 
Ultrarromântico desiludido
com o mundo e consigo.
 
Ou quem da infância extrai beleza
Emociona pela delicadeza.
Mesmo já adulto tem dramas incertos
Quanto a si mesmo e seus versos.
 
Mas aqui estou
Achando que escrevo poesia
Falando com nostalgia,
Em frente ao computador.
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Autodestruição

Sentada no ponto de ônibus, esperava o transporte que a levaria novamente para casa. Há alguns meses – não lembrava exatamente o tempo, talvez seis meses – pegara esse mesmo caminho. Tudo porque estava sem um caminho pelo qual caminhar.

Aquela mulher marcada pelo tempo, pequeninas rugas aparentes, fizera escolhas erradas. Obviamente, algumas escolhas foram certas. Talvez a de estar ali, à espera de um novo transporte. “Deixei uma garrafa com um restinho de vinho em casa”, pensou a senhora. Em outros tempos, esse resto seria o seu consolo. Agora, se se entregasse ao vinho ou a qualquer outra bebida, o seu fim estaria novamente próximo.

A rua deserta mostrava o quanto perdera. Não tinha filhos, foi casada por um bom tempo, mas o companheiro desistiu dela.

A senhora tinha um sentimento de autodestruição. Infeliz, percebera que não tinha nada. No momento, possuía apenas uma mala com poucos pertences. Fora derrotada pelos vícios. Tornou-se egocêntrica, alcoólica e destruiu a si mesma.

O transporte chegou. Deu o dinheiro ao cobrador, sentou-se. O dia estava nublado. Nada como o clichê dos romances, em que o sujeito caminha a um futuro ensolarado. Não sabia se seria iluminado, no caso dela. Porém, tentaria.

A rua anteriormente deserta agora começava a apinhar-se de gente. “Estou voltando à vida”, pensou exultante. Um leve sorriso cobria-lhe a face. Um pequeno rubor que antes se escondia também apareceu, timidamente. Mais pessoas foram enchendo o ônibus. Jovens conversando sobre a prova que tiveram na manhã, enquanto ouviam uma música aleatória no Ipod. Certamente, uma música para relaxar diante do desafio que enfrentaram. A senhora também tinha uma forte ligação com a música. Porém, as noites em que não conseguiu compor ao piano foram preenchidas pela bebida e a decepção por fracassar.

Em casa, deixara um vaso de flores precisando novamente de seus cuidados. A flor sobrevivia apenas pela água que recolocava no vaso. E ela, viveria pelo o quê? Teria que descobrir.

Roupas para passar, uma cadeira vazia, uma cama por arrumar. Uma casa silenciosa, pedindo para ouvir o som do piano. O resto de vinho. Este não teria espaço mais debaixo da cama como uma garantia de neutralizar os pesadelos que tinha. Ela deixou em casa apenas Quintana e Vinicius esperando pela sua companhia, noites aprofundadas pela poesia. Platão também a aguardava. Talvez apenas eles a esperassem, em papéis e brochuras.

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O dia da Criação

Nada como começar esse blog com a crônica que escrevi, O dia da criação, uma releitura do poema de Vinicius de Moraes. A crônica ficou entre as cinco finalistas do concurso estadual promovido pela Companhia das Letras em homenagem ao poeta.

O sábado é o tempo presente, o aqui e agora. É impossível escapar da realidade de que o domingo é imprevisível e que possuímos apenas o sábado para valorizar a nossa existência. “Hoje é sábado, amanhã é domingo. Não há nada como o tempo para passar”. Se Deus tivesse descansado no Sexto Dia, não haveria o ser humano. Como seria o mundo sem a nossa presença?

 É no presente, sábado, que observamos a ação humana no mundo. Ao ler o jornal, deparo-me com os absurdos cometidos pelo Homem: a mulher que apanha e cala; as criancinhas que não comem; o piquenique de políticos; adolescências seminuas; um grande aumento de consumo. Tudo isso foi feito pelo Homem. Se Deus não tivesse nos criado, haveria injustiça e maldade?

Será culpa do Homem, ao olhar para uma criança de rua passando fome, simplesmente desprezá-la e deixá-la à mercê do mundo? As crianças são abandonadas; são como andarilhas, vagam pelo mundo sem orientação de um tutor que possa zelar por elas. Nem os pais, nem o governo procuram mais responsabilizar-se pelas crianças, pois querem ver-se livres de obrigações, o que implica na isenção da transmissão da História da Humanidade às próximas gerações.

A imagem do jovem é construída com grande apelo sexual, que expõe o adolescente de forma precoce ao mundo adulto. Quando passam a integrar, antes do tempo, o mundo público, a criança e o jovem sentem-se perdidos e encontram nos objetos consumíveis uma forma de aproveitar a vida. Estamos nesse mundo narcísico, cada qual na própria “ilha”. Tudo isso é o que presenciamos no “sábado”, é preciso apenas olhar em volta.

Então, como seria se não houvesse seres humanos? Deus teria descansado no sábado após a divisão das luzes e trevas, a separação das águas, a fecundação da terra e a gênese dos animais. Não haveria a maldade, o egoísmo e a vontade do poder. Entretanto, Deus perderia a oportunidade de construir o homem à sua imagem e semelhança. Com a criação do homem, foi possível a construção da História. O fato de sermos uma substância pensante diferencia-nos dos animais. E foi o uso da razão que trouxe a luz do conhecimento ao mundo. Muito desse conhecimento possibilitou que o Homem prolongasse a própria existência ao contar as conquistas do passado, a História. Porém, em momentos como a Segunda Guerra Mundial, o desejo de poder falou mais alto e a ação humana originou uma barbárie.

Contudo, retorno à pergunta inicial: como seria o mundo sem a nossa presença? Não haveria a História para ser transmitida aos demais povos, não haveria os sentimentos que predominam a existência humana como a felicidade, o amor, a amizade. Imagina não presenciar o milagre da vida, o momento do indivíduo nascer a partir da dor do parto? Talvez seríamos apenas pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas. Não sofreríamos os males do amor, sentimento que engrandece o ser humano; não suaríamos o “pão nosso de cada dia”.  Seria apenas a beleza das terras e das águas, a paz e o poder dos astros, a pureza dos animais.

Em vez de descansar, Deus optou em fazer o Homem à sua imagem e semelhança, que possuísse tanto uma parte material, o corpo, quanto uma parte imaterial, o espírito. Portanto, mesmo que tenha originado a maldade, as desavenças, há também coisas boas construídas a partir do Homem. E, hoje, pode acontecer de tudo nesse mundo paradoxalmente fascinante e imperfeito. Constituir o hoje é garantir um futuro baseado no passado, nos erros e acertos do Homem, porque simplesmente “hoje é sábado, amanhã é domingo e a vida vem em ondas como o mar”.