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Crítica | A favorita

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Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 18 de outubro a 1 de novembro. Veja a programação aqui

Publicado no site A Toupeira

Inglaterra, século XVIII. O cenário é suntuoso. A corte se diverte por entre corridas de patos, caçada de gansos, enquanto compete para ver quem consegue manipular mais a rainha a seu favor, em guerra contra a França. A corrupção se infiltra da alta corte até a cozinha, dos bosques às carruagens. É um mundo muito difícil de preservar a inocência e mesmo de sobreviver.

Em meio a essa vida supérflua, que relativiza o sentido de existência, a rainha Anne, interpretada por Olivia Colman, vive por entre o adoecimento do corpo e a doença da própria corte. Após 17 gravidezes mal sucedidas, problemas de gota, ela é debochada pela própria corte. É imensamente insegura e, apesar de ter na Duquesa de Malborough (Rachel Weisz) a única pessoa para amar, encontra nela também mais um reforço para medos e neuroses.

O filme A Favorita, do diretor Yórgos Lánthimos, perpassa, em forma de capítulos, a vivência da rainha e de duas mulheres a sua volta, a duquesa e a recém-chegada Abigail (Emma Stone), criada que aos poucos ascende socialmente dentro da corte. À princípio, a expectativa é que A Favorita fosse um filme de comédia e mesmo com uma ênfase no trio romântico lésbico. Há uma relação romântica entre Anne e a duquesa, Anne e Abigail. Porém, nenhum filme de Yórgos é o que parece. E, logo, essas relações se revelam como uma forte e vil rede de intrigas abusivas, fadada à autodestruição e ao domínio do outro.

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Yórgos tem como marca registrada, em seus filmes como The Lobster (2015) e O sacrifício do cervo sagrado (2017), a apatia de seus personagens. Diálogos um tanto mortificados, pessoas que tomam atitudes bizarras que fogem tanto da lógica quanto da convenção social. E um permanente clima tenso entre homem e sociedade. Mas em A Favorita ele dá um salto: seus três pilares da história, três personagens femininas, são passionais, intensas, explosivas, de uma complexidade rara de se ver no retrato cinematográfico do feminino.

Elas são vítimas e são algozes. A cada situação, em vez de Yórgos diminuí-las por seus atos vis, elas se tornam ainda mais fascinantes e sem se encaixar em respostas definitivas. E não deixam de assustar. O mérito do diretor é de instaurar o desconforto, de perturbar. Felizmente, ele consegue fazê-lo de uma forma sutil, um trabalho muito cauteloso em roteiro e em direção: em vez de optar pela imagem gráfica, Yórgos tece a obscenidade de forma oblíqua. Choca mais a sugestão dos atos do que mostrar os atos em si.

O erotismo também é uma marca interessante em sua obra. Raramente Yórgos mostra o sexo de forma romântica ou de forma violenta e explícita. E, ainda assim, ele consegue falar de sexo como um complexo jogo de poder entre gêneros e classes.  Em A Favorita, o sexo tem diversas versões: ele é a relação íntima, mas principalmente é a forma de poder usada para dominar. Em vários momentos, o filme cita o estupro como prática normatizada, e percebe-se como é terrível a existência para a mulher no período. Com isso, Yórgos vai às últimas consequências sobre o tema, em seu filme, e acaba por aliar o sexo ao terror e ao suspense.

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A presença de Olivia Colman como a protagonista é um caso à parte. Acompanhando a carreira dela, é possível ver que Olivia consegue dialogar tanto com o humor quanto com o drama. Indicada cinco vezes ao BAFTA e vencedora de três por Accused (2010), Twenty Twelve (2011), Broadchurch (2013), tem ainda na estante o Globo de Ouro uma indicação ao Emmy por The Night Manager (2016). A atriz coleciona prêmios e é considerada o tesouro nacional do Reino Unido. Em 2019, será a rainha Elizabeth II na série da Netflix The Crown e Madame Thénardier em Les Misérables (2018), pela BBC. Mas, no cinema, ela tem sido mais reconhecida nos últimos anos. O seu desempenho em A Favorita é claramente o caso de uma indicação ao Oscar. Em toda a sua carreira, Olivia consegue fornecer o máximo de humanidade às suas personagens. Em vez de serem mulheres intocáveis em mundos artificiais, onde a gente consegue perceber que estamos vendo uma ficção, ela praticamente cria um novo ser que respira, quando atua. Ela dá à rainha a possibilidade de ser vítima e algoz, de ser paranoica, autodestrutiva, infantil, inocente, sensível, uma rainha completamente distante das idealizações da coroa. Em comparação com todas as produções em que Olivia esteve, essa é uma das mais ousadas da sua carreira.

Mesmo já tendo visto Olivia Colman em várias performances, foi como assisti-la pela primeira vez. Há inúmeras cenas, no filme, em que a atriz consegue trabalhar muito bem com a distorção de suas expressões faciais. Ao final, temos dificuldade até mesmo de reconhecê-la. Pois todos, na corte, sem exceção, são corrompidos e corrompem os outros. Especificamente, numa cena de um baile, a câmera demonstra a transformação milimétrica de sua expressão contente até o desespero e o choro. Se de início olhamos a rainha de frente, ao final a olhamos por um ângulo oblíquo, deformado, o símbolo de uma corte que, se olharmos de perto, é só formada por lama.

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Apesar de Olivia Colman ser a alma do filme, Rachel Weisz e Emma Stone estão brilhantes em seus desempenhos. A primeira consegue dar charme, inteligência e autoridade para a duquesa, que é quem dá as ordens, de fato, no reino. E Stone constitui o olhar inocente do espectador, de quem vê a corte de fora e teme se corromper ao adentrá-la. O filme torna as duas criminosas e pessoas vulneráveis, em mulheres que tentam a todo custo sobreviver, pois a outra face da realidade para a mulher é a pobreza, o estupro, a prostituição.

Assim, A Favorita é um filme sincero que, mesmo se anunciando como uma comédia de humor mordaz, não esconde sua face perturbadora. É o bizarro de Yórgos na sua melhor forma. Não vemos uma corte dourada, com cupcakes delicados e tons pastéis como a de Maria Antonieta (2006). É um dos poucos retratos realistas de uma monarquia movida pelo ódio, pela ganância e pelo sangue. Para o espectador não há muito para onde escapar, pois até o dourado e a madeira dos salões pesam nos ombros, e pisam sobre os ideais de igualdade e liberdade política do iluminismo e sobre a inocência.

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Crítica | O sacrifício do cervo sagrado

Publicado no site CF Notícias

O sacrifício do cervo sagrado, dirigido por Yórgos Lánthimos, é um filme que se constrói tendo como base os atos de uma tragédia grega. Inspirado em Ifigênia em Áulis, de Eurípides, encontramos no filme os ecos da obra com reconstruções inteligentes, tratando sobre a morte, o sacrifício, o poder da medicina equiparado ao divino, e a dúvida sobre o que é justiça.

A história do filme mostra a vida do eficiente cardiologista Steven (Colin Farrell) casado com Anna (Nicole Kidman), e os dois filhos do casal, Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). De início, o jantar entre a família parece uma encenação: uma família perfeita, que troca elogios polidos, e que as crianças são tranquilas e têm uma boa relação entre si. Porém, o pai tem um segredo: ele almoça frequentemente com o adolescente Martin (Barry Keoghan), filho de um paciente que morreu numa cirurgia feita por Steven. Se ele tenta compensar a morte com a sua presença na vida de Martin, por remorso ou para evitar possíveis escândalos, pouco sabemos.

O primeiro ponto relevante a se considerar sobre O sacrifício do cervo sagrado é que ele paira entre o terror psicológico e um drama de teor fantástico. Lánthimos opta por não conceder respostas definitivas sobre a sua proposta. Contudo, sem que isso prejudique o desenvolvimento do tema dado. A sua direção é seca, direta, e não deixa de mostrar a violência. A trilha sonora tem importante participação, pois em alguns momentos do filme ela aumenta de volume até se tornar angustiante estar na poltrona assistindo aquela situação.

Os diálogos entre os personagens são desprovidos de emoções. Lánthimos consegue revelar, ao espectador, o quão forçados e mesmo ridículos são os diálogos repetidos entre as pessoas a ponto de serem palavras esvaziadas. Quando Martin, o filho do paciente morto, começa a cobrar mais a presença de Steven, percebemos que o filme vai além, instaurando um caos na vida do médico que inicia um questionamento em cadeia sobre as atitudes de todos os personagens presentes. A trama possui grandes surpresas que merecem ser preservadas, para que assim o espectador adentre realmente nela.

Colin Farrell interpreta bem a inércia e a aceitabilidade com que Steven lida com os fatos. O ponto é que, sem optar por colocar a culpa apenas em uma figura, Lánthimos destrincha o comportamento de cada um, ao mesmo tempo em que recua e deixa dúvidas para nós interpretarmos. A esposa de Steven também manifesta certa dose de frieza em aceitar as coisas como elas estão. Tanto que o casamento dos dois se dá apenas à favor de Steven, numa relação em que Anna vê normalidade em ser apenas uma boneca anestesiada para o marido.

Quando a filha do casal, Kim, tem a sua primeira menstruação, os pais contam aos outros. Mas a garota, logo que passa por isso, parece crer que apenas por estar menstruando ela precisa se comportar como as demais mulheres. O seu amadurecimento não é espontâneo: é com frieza que a garota escolhe começar a agir como os outros sem qualquer tipo de questionamento ou emoção. Ao mesmo tempo, parece que os pais não observam essa mudança de comportamento na filha, nem sequer a orientam, enquanto médicos, sobre educação sexual e o que significa menstruar.

O filho mais novo, Bob, também possui um comportamento peculiar. Apesar de ele soar o mais inocente entre a família. Ele observa Martin com um possível rancor, soa adulto quando fala sobre suas preferências musicais, e não esboça emoções no decorrer do filme diante dos acontecimentos. Em geral, o trabalho de Lánthimos é nos dar uma família que encena o seu papel, mas parece esvaziada de qualquer sentido.

O sangue é um elemento essencial no filme de Lánthimos. Aparece na primeira cena, é citado como menstruação de Kim, está na violência, e mesmo na aparição de um simples ketchup. O sangue remete à Cristo, à inocência do cervo sacrificado, ao mesmo tempo em que está na violência entre os homens.

A ciência, no contexto do filme, serve como contraponto à Natureza: fazendo uso dela, alguém que deveria prezar pela vida destruiu uma por ego e irresponsabilidade. Por isso, o filme inteiro parece ser uma resposta revoltada da Natureza ou de alguma divindade não definida que cobra aqueles que agem em nome do poder ilusório que a Medicina pode dar como controle da vida.

Enfim, o filme revela uma frieza perturbadora nas decisões de seus personagens. Com uma trama que envolve o espectador na dúvida sobre a sequência dos acontecimentos, em O sacrifício do cervo sagrado é possível ser levado pela angústia de buscar entender até onde vai o fantástico da história e permanecer pensando no filme após a sessão.

As referências à peça Ifigênia em Áulis, de Eurípides (CONTÉM SPOILERS)

Em comparação à tragédia grega de Eurípides, o filme demonstra que os atos de Steven não possuem heroísmo. Porém, não são apenas os seus atos: toda a trama do filme retira a dose de heroísmo. O médico é posto na situação de Agamêmnon: desafiando as ordens naturais matando um paciente ou, no caso da peça, matando uma corça e se vangloriando como melhor caçador que a deusa Ártemis. Por ter cometido esse ato vil, a divindade exige uma troca: que haja o sacrifício do cervo, a vida de um dos filhos em troca da vida do paciente.

O filme de Lánthimos não anuncia uma divindade. Fica no ar esse teor fantástico que é, propositalmente, um elemento que destoa de toda a objetividade e rigidez dos personagens e da visão atual da Medicina e da Ciência: a capacidade de dar respostas sobre a Natureza. Nenhum dos personagens vai a fundo pensar sobre o que está acontecendo. Parece ser, assim, só um acerto de contas do universo com uma morte que não era planejada.

Na peça, Ifigênia é a pureza na forma da garota virginal, filha de Agamêmnon, que seria oferecida como sacrifício. Já no filme, isso pende entre Kim, Bob e Anna. Pois os três seriam, à princípio, inocentes diante das escolhas de Steven. Ainda assim, a figura de Kim, por ter passado por um rito de passagem ao menstruar, é importante para entender as diferenças com a peça.

O confronto de Agamêmnon, aquilo que ele teme, é a fúria de Ulisses e do exército grego. No caso do filme seria a revelação da verdade de que Steven teria matado o paciente por erro médico, causado pelo alcoolismo dele, o que o faria perder a posição de cirurgião. A cena em que vemos Steven discursando para a comunidade médica apresenta aqueles à quem Steven deveria uma explicação, é o coletivo que o julgaria por seus atos.

Ainda na peça de Eurípides, Agamêmnon tenta casar a filha Ifigênia com Aquiles, como um plano ardiloso para escapar das exigências da deusa. O ponto é que na peça, a mãe e Aquiles tentarão de todas as formas impedir a morte de Ifigênia. O choque em O sacrifício do cervo sagrado é que pouco fazem pela cura dos filhos. A mãe cuida deles, mas não questiona, de fato, o marido. Se fôssemos imaginar uma situação como essa, em que as duas crianças começam a apresentar sintomas que a Medicina não sabe explicar de jeito nenhum, seria compreensível, no desespero de um pai e uma mãe, a busca por qualquer tratamento de cura, pesquisa, ajuda de outras pessoas.

Na trama, Martin seria Aquiles, o qual se mostra furioso por ser usado no plano de Agamêmnon, que  deseja casar a filha com Aquiles a fim de enganar a deusa. No filme, quando Kim se despe para Martin, é mais pela honra dele (que só deseja ver a morte do pai ser substituída pela morte de um dos filhos) que ele não aceita Kim. Não é por desconforto ou altruísmo em preservá-la. Em comparação com a peça, Aquiles resolve defender Ifigênia mais pela sua honra, não parar salvar a inocência da jovem. Em O sacrifício do cervo sagrado, Martin está mais focado em obter o que ele chama de justiça pela honra do pai (com o qual ele é muito parecido – a honra do pai é a sua honra), do que a preocupação em ver Kim, uma garota inocente, querer algo que nem sabe bem o que é. Tanto que a garota estranhamente reproduz a posição inerte da mãe, demonstrando que conversa alguma sobre educação sexual ocorreu em família.

Steven e Anna parecem concluir muito tarde o que poderá acontecer. Por fim, a peça de Eurípides termina com um tom de heroísmo dado à Ifigênia que aceita sacrificar-se pelo bem coletivo como a salvadora da Grécia. Diante disso, a deusa Ártemis troca o corpo de Ifigênia por uma corça morta, terminando em comoção. No filme, a garota Kim propõe se sacrificar. Porém, antes ela tenta arrastar-se e fugir de alguma forma de sua família. O seu pedido pela morte parece, na obra de Lánthimos, mais uma vontade de dar fim à situação de dor e limitação: inicialmente ela pede para Martin curá-la e fugirem. Não importam os pais. Ela não tem vínculo com eles. Como a garota não consegue satisfazer seu desejo, ela se arrasta fugindo dos pais. Kim só pede para ser sacrificada porque não quer mais viver aquela situação. Aqui, não há altruísmo. É só desespero.

Ainda assim, no filme Kim permanece viva. A corça simbólica da tragédia grega é o corpo de Bob, o ser mais inocente da família por ainda ser uma criança. Porém, há uma distinção importante: na peça, a deusa intervém. No filme, ficamos em dúvida se o tiro foi por acaso em Bob ou se Steven, mesmo encapuzado, escolheu matá-lo.

Toda essa análise demonstra que O sacrifício do cervo sagrado teve seu roteiro cuidadosamente feito tendo como base o clássico grego, mas com uma releitura própria e realista com a situação contemporânea.

 

Referências bibliográficas (sobre a sinopse de Ifigênia em Áulis)

VARGAS, Terezinha da Cunha; POLLO, Vera. “Ifigênia em Áulis”: a guerra, as núpcias e a morte (Contribuições psicanalíticas para uma leitura da tragédia)