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Oscar 2022 | O beco do pesadelo: Del Toro volta com remake circense e dramático

montagem: Marina Franconeti

Você vê um filme de Guillermo Del Toro e já pensa no encanto dos monstros que vão aparecer. Mas desta vez O beco do pesadelo pende mais ao realismo do que às suas histórias insólitas como um peixe se apaixonando por uma moça ou uma garota adentrando em um labirinto mágico.

Remake do filme clássico de 1947, Nightmare Valley (O beco das almas perdidas), a versão de Del Toro tem tudo a ver com a sua linguagem cinematográfica particular. O filme se passa em um circo decadente, onde há uma variedade de artistas circenses tentando sobreviver. O ator Bradley Cooper interpreta muito bem a jornada do protagonista Stanton Carlisle. Quando ele, um forasteiro, chega no circo de horrores, muda tudo. Desde o seu funcionamento até instaurar tensões e se apaixonar por Molly (Rooney Mara). O filme se divide em três atos acompanhando a ascensão e a queda do personagem, mais os dramas do circo e sua relação com os demais.

O “bom selvagem” de Rousseau

Um dos números principais se concentra na espetacularização de um homem nomeado como O selvagem. Acompanhando um pouco dos resquícios do tema circense dos freek shows, O beco do pesadelo toca mais na ferida filosófica deste conflito entre homem e “selvagem”, do que criar mais uma imagem que explora os definidos “freeks”.

Del Toro sempre teve uma sensibilidade a esse assunto. Em vez de debochar daquele que seria o “esquisito”, ele reverte e bota o monstruoso como o ser humano, e o monstro numa versão humanizada. Assim, em O beco do pesadelo a equipe do circo vai sendo apresentada com calma, principalmente se concentrando no fator social: aquelas pessoas passam fome, sofrem de exclusão social em diversos níveis, e não estão na tela para serem debochadas.

É preciso dizer aqui que a figura do selvagem nos filmes do Del Toro não se apoiam nos estereótipos de minorias de povos originários, como já significou em séculos passados. O selvagem é o humano que se corrompe, e o humano em sua obra é homem e branco. E muitas vezes a corrupção vem pelo desespero e pela ganância, totalmente atrelados ao próprio sistema capitalista. No entanto, a dita selvageria vem justo daquilo que se diz “civilizado” e, que no fundo, não é.

Del Toro parece fazer uma retomada com ressalvas do tema do bom selvagem nos textos do filósofo Rousseau, onde o selvagem é incorruptível, bom e também associado à natureza, até que a sociedade o corrompe. A selvageria em Del Toro ocorre por duas formas: aquele que é classificado pela sociedade como “selvagem” tem, na verdade, o último traço de humanidade (sendo ele um personagem humano ou um monstro). E o humano em sua história, muitas vezes perde a humanidade e se torna monstruoso por promover a destruição de seus iguais.

Em O beco do pesadelo, a figura do selvagem é a corrupção última do humano pelo capitalismo: aquele homem animalizado e servindo de atração para render dinheiro a outras pessoas tão pobres quanto ele. Qualquer um pode se transformar nessa pessoa. O que vale dizer é que “selvagem” é o termo usado no circo, mas o filme a todo instante mostra que há uma pessoa por trás daquela conotação pejorativa, e que em uma sociedade tão desigual, qualquer um pode cair e não ser ajudado por ninguém.

Por isso O beco do pesadelo é um filme mais sério e forte no tema que assume, do que uma magia doce que toca a infância. Às vezes O beco do pesadelo soou como um artigo temático de Del Toro, a base da qual ele tira suas inspirações estéticas, o que é interessante para identificar os temas de sua obra. Entre suas obras, ela não é uma das melhores, talvez porque seja irresistível o trabalho lúdico que Del Toro faz com seus modelos de monstros e magia. No entanto, O beco do pesadelo serve bem às duas horas e meia, com uma boa cutucada social sobre o abandono humano no mundo e as ilusões do capital.

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