O Rei de amarelo, de Robert W. Chambers

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Resenha publicada no site Indique um livro

Uma peça que conduz o personagem ao desespero sem fim ao notar que, talvez, não haja saída para o próprio mundo. Que o encontro com a peça é o mesmo que o encontro com a morte na forma do Rei, do amarelo, de Carcosa. Palavras que supostamente atingem o ponto mais extremo do belo aproximam o leitor da loucura. Cada pessoa que se depara com a capa de amarelo pardo, quase peçonhento, se vê numa vida de sofrimento interminável. Esta é a história que permeia quatro dos dez contos do livro O Rei de Amarelo, escrito por Robert W. Chambers em 1895 e traduzido agora pela editora Intrínseca.

Os contos são interligados e apresentam personagens de diferentes épocas, as quais com muita atenção passamos a identificar como próximas ou distantes por elementos que aparecem em um ou outro conto. O livro de Chambers ficou reconhecido como um dos precursores do terror cósmico, da chamada weird fiction que apresenta uma mistura entre o terror e o gênero sci-fi. Ele inspirou autores como Lovecraft, Neil Gaiman, Stephen King, distopias do século XX e até mesmo a série True Detective.

E mais ainda: Chambers, neste único volume de contos do gênero publicado em 1895, constrói um enredo futurista com o espírito decadentista do XIX. O cenário é o que podemos considerar uma sociedade totalitária nos Estados Unidos, em que o governo instituiu uma Câmara Letal onde as pessoas podem se suicidar. É desta forma que somos apresentados ao primeiro conto, O reparador de reputações. Nele, ficamos horrorizados tanto por esse cenário – com a perspicácia do autor – e o sonho do protagonista, Castaigne, em desejar uma melhora de vida, aceitando participar de um projeto ambicioso com o misterioso Sr.Wilde, clara referência ao autor Oscar Wilde.

O cenário do primeiro conto retorna em pequenas nuances no segundo conto, mas parecendo ser uma realidade alternativa. Em A máscara, Chambers ironiza o formato das novelas românticas e a literatura policial, além de expor o avanço da ciência como uma proximidade ao vício pela imortalidade. É um conto com belas imagens na narrativa, como a presença do mármore, o lírio e a doçura de Geneviève. No Pátio do Dragão vemos um conto mais breve, que traz um jogo narrativo muito inteligente, pois aos poucos passamos a questionar o que pode ser real ao personagem.  Já O Emblema Amarelo é o melhor da coletânea e tem uma atmosfera bem mais sombria que os demais, alternando entre sonho e realidade como uma forma de mostrar que o terror pode estar em ambos os mundos.

Depois destes quatro contos, o livro segue com A Demoiselle d’Ys, o qual conduz o leitor a imaginar como seria Carcosa, o local onde reside o Rei, além de propor uma narrativa romântica em meio à viagem no tempo. Ele é seguido por uma pequena prosa chamada O paraíso do profeta, que precisa ser relida devido às mensagens nas entrelinhas para se compreender como o homem está sempre entregue à perdição.

Na sequência, a coletânea insere os quatro contos restantes que são independentes da trama dos quatro primeiros, pois são contos fantásticos e românticos, A rua dos Quatro Ventos, de escrita leve e delicada ao contar a rotina do protagonista com uma gata misteriosa, A rua da primeira bomba,com uma narrativa doce que se passa na Paris em pleno bombardeio prussiano entre 1870-1871, A rua da Nossa Senhora dos Campos, que apresenta uma riqueza de detalhes na descrição dos jardins onde o protagonista estuda, e por fim Rue Barrée, que conta com um desfecho inteligente e alegórico. Estes contos estão na coletânea, pois essa separação entre ruas também sugere as realidades alternativas e, dentro dos enredos, há determinados elementos que proporcionam pequenas infelicidades aos personagens que acabam por servir como uma referência à presença da peça. É como se o autor indicasse que em qualquer situação, haverá esse acaso infeliz. Porém, nestes últimos contos mais realistas, Chambers apresenta a possibilidade de se conviver isso, que a existência pode ser feita dessas camadas.

O Rei de Amarelo é uma obra que só foi traduzida este ano, pela primeira vez, ao português, numa bela edição da Intrínseca (e com cheiro de giz de cera, devo ressaltar, para quem gosta de cheiro de livros). A letra, a diagramação, a capa em amarelo pardo e o desenho com traços de art nouveaucompensam a espera por este livro que poucas pessoas conhecem.

É com facilidade que o leitor se vê absorto na leitura de O rei de amarelo. Além de ser próximo de um exercício investigativo, a obra bem construída por Chambers nos leva a desejar conhecer mais do mundo que parece estar debaixo da pele, vivo numa peça, na mente humana, nos pátios vazios e igrejas, no desejo por alcançar a perfeição ao criar uma obra. Os personagens dos contos são pintores porque eles estão próximos do belo e do intento de traduzir o indizível numa obra de arte. Carcosa, o lugar que pertenceria ao Rei, seduz porque é o desconhecido. O amarelo que reluz dela, na mente destes personagens que desejam ler a peça até o final, demonstra que é a ilusão a grande companheira da Morte. A loucura do próprio homem instável.

E uma dica: compensa bastante acompanhar a leitura com as notas de rodapé ao fim de cada conto, durante a leitura, pois elas são pistas para que você passe a identificar as nuances da narrativa que indicam a possibilidade de dimensões alternativas. Por isso, é bom ler a nota assim que ela for indicada no texto. E ainda há uma excelente introdução de Carlos Orsi no volume, que explica a dimensão da obra e a sua influência para outros autores.

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