Os 217 anos de Delacroix e seus diários

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delacroixjournalTer nas mãos o diário de alguém é uma experiência, no mínimo, curiosa. Como se fosse necessário embrenhar-se pelas confissões de um desconhecido durante a madrugada, com a lanterna acesa e escondido de olhares à espreita. Esta é a primeira impressão que temos ao imaginar-se lendo um diário. Agora, pense como é ter em mãos o volume de um diário acalentado por um pintor excepcional. A atmosfera é tão misteriosa quanto a que foi narrada. Encontrar na biblioteca o primeiro dos três volumes dos Diários do pintor romântico Eugène Delacroix, no idioma original, é o mesmo que acessar e respirar, por uma janela, o século XIX. E é em vista do aniversário do pintor, comemorado no dia 26 de abril, que aqui você poderá conhecer alguns trechos traduzidos, por mim, do primeiro volume. Breves comentários sobre pintores, sobre sua criação, e o que significa ser artista.

Em 26 de abril de 1798, nascia Eugène Delacroix, em Charenton-Saint-Maurice. Como parte de uma família tipicamente burguesa, recebeu sua educação artística, após perder o pai aos sete anos, no Lycée Impérial. Em março de 1816, iniciou, então, os estudos na Beaux Arts. Curiosamente, no mesmo ano, Delacroix ingressou na Cabinet des Estampes da Biblioteca Nacional, onde copiava, por muitos anos, manuscritos do período medieval.

Com uma educação admirável em música, Delacroix também era um grande leitor de latim e grego, além de contemplar as obras de Dante Alighieri, Virgílio, Shakespeare, Racine, Voltaire e Lorde Byron. Não é à toa que o artista transferiu às telas cenas literárias, como A barca de Dante (1822), Hamlet e Horácio no cemitério (1835).

A obra mais conhecida de Delacroix

O quadro A Liberdade guiando o povo às barricadas (1831) se inscreve em um ideário de heroísmo, personificado na forma de uma mulher, no caso pertencente à classe operária e que comanda uma multidão. Engana-se quem crê que Delacroix decidiu fazer da Liberdade e sua obra a grande e única representação da República. Em meio a tantas definições da Liberdade como alegoria nas artes, o momento que fervilhava na História acabou por dar à figura da Liberdade a representação que o povo via nela.

Após uma desilusão política, de uma expectativa por um liberalismo que não veio, Liberdade guiando o povo foi exposta mais uma vez em 1848 (depois de ser ocultado em exposições várias vezes) e ganhou uma nova conotação. Este período também pode ser encontrado em Os Miseráveis, de Victor Hugo, e não é aleatório o fato de que algumas edições trazem a obra de Delacroix na capa. A Liberdade acabou erguendo a bandeira que muitos que a seguiam desejavam segurar nas mãos. Por isso, quando pensamos em heroísmo que caminha entre corpos desfalecidos, mas sem temor, não é incomum lembrar desta Liberdade.

O grande representante do Romantismo

Falar de Delacroix é trazer à tona, obviamente, a densidade de um século que começava a lidar de forma distinta com o tema proposto pela Academia, a nudez feminina e, por consequência, a presença constante e quase fantasmagórica dos grandes nomes da pintura, evocados nos Salões e entre os críticos, como Rafael, Leonardo, Rubens, Caravaggio.

Diante disso, é ilusão, em primeiro lugar, crer que uma obra artística encontrou recepção calorosa desde sempre. Estudando não apenas o trabalho de Delacroix, mas o de Ingres, de Manet, e outros pintores do século XIX  – para não ir tão longe-, é possível encontrar uma linha tênue entre o breve reconhecimento na época e o processo de criação que avançava baseado na intenção do próprio pintor.

Para tratar rapidamente de Romantismo, é só mencionar a referência à obra Sardanapalus – a tragédia, do autor-símbolo do Romantismo Lorde Byron, no quadro A morte de Sardanapalo (1827). A história é a do rei assírio que precisa por fim a todos os seus bens – o que incluía o harém de escravas e seu ouro – e se suicida por entre o fogo a fim de não se entregar. Na obra literária, o personagem soa mais heróico e se entrega ao fogo junto com sua amante Myrrha. Porém, com três cores, o cenário é outro pelas tintas de Delacroix. O vermelho que tinge a cena, a pele perolada das jovens entregues à morte e o dourado que ostenta a riqueza do personagem se somam em uma espécie de vórtice atormentado, que converge para o espanto diante do olhar complacente de Sardanapalo. A obra provoca, assim, o horror diante da morte e placidez do personagem, e engrandece as figuras femininas, que lutam em um último instante de vida. O heroísmo, aqui, ganha novas faces.

Diálogos com o passado

Delacroix via em Rubens e Géricault a realização do que ele queria alcançar com suas obras. Nos Diários, Delacroix enaltece Géricault, “que sublime modelo e que precioso presente deste homem extraordinário” (DELACROIX, p. 66). Mas Delacroix não expunha o claro e o escuro de Géricault que, por sua vez, se seguia de Caravaggio. A cor era o grande princípio do pintor romântico e uma característica que advinha, em certa medida, de Rubens.

Oposição ao neoclassicismo

Não tem jeito, quando falamos sobre a biografia de alguém, os conflitos sempre retornam. Só que, neste caso, havia uma grande oposição entre Delacroix e simplesmente o pintor neoclassicista Ingres. Por parte de Delacroix, a relação era de admiração, tanto que coloca Ingres, nos seus Diários (p.74) entre os artistas em que encontra um trabalho de grande mérito, assim como em Velasquez, Leonardo, Bertin. Por outro lado, Delacroix incomodava Ingres, que chegou a afirmar que ele e Géricault eram “apóstolos do feio”. O grande ponto que se apresenta como a distinção entre ambos é que Delacroix era um colorista, algo que Ingres abominava e defendia a sua submissão total à linha. Este era o seu princípio, em um trabalho que poderia chegar a durar décadas, para alcançar, enfim, o Ideal que ele defendia pela execução da linha.

Por isso que, ao observar suas obras, o destaque dado à linha fica claro nas formas de A Grande Odalisca, O banho turco. A questão é que não dá para afirmar que os dois estão tão distantes assim. A cor em Ingres é também participativa da obra e a linha se apresenta em Delacroix, com um arabesco unido à cor. Em A morte de Sardanapalo (acima), é bem interessante constatar como a linha e a cor formam, juntas, um vórtice que converge ao personagem, porém é a cor, ainda, que tem a grande função de destacar a morte. Por isso, é muito mais complicado colocar os dois tão distantes assim, já que compartilhavam o mesmo século.

A viagem ao Marrocos

Em 1832, Delacroix fez uma viagem ao Marrocos. O quadro Mulheres da Argélia (1834) apresenta como o pintor visualizou o Oriente pelo exotismo idealizado nas paredes adornadas por azulejos, a porta em vermelho vibrante, os tons complementares das vestimentas femininas em grande contraste. Toda a atmosfera se torna pulsante e viva, e é ela que foge, em certa medida, do imaginário do século XIX de um Oriente feito apenas por odaliscas sedutoras.

Nos Diários, vol.1, Delacroix relata sobre as colunas de mármore brancas que encontra, os locais visitados, almoços com o cônsul, é um mundo se descortinando ao pintor que vivia em torno da vida parisiense.

Os Diários de Delacroix

Em três volumes, cada um tendo por volta de 700 páginas, Delacroix relata a sua vida. É um diário que tem comentários sobre música, pintura, e não escapa aos devaneios do artista sobre alguma mulher que conhece em seu meio. Fala dos pintores que o inspiram, das cópias de obras em que trabalha indo ao Museu do Louvre. E o curioso é encontrar até mesmo algumas breves tabelas de gastos com o almoço, o jantar, as tintas.

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Infelizmente, não há tradução destes Diários (chamado de Journal), há apenas a versão original, em francês, em poucas bibliotecas. É por isso que resolvi traduzir alguns trechos do volume 1, disponível na biblioteca Florestan Fernandes, da USP (tem os outros volumes também). É uma forma  de conhecer um pouquinho das palavras de Delacroix no dia de seu aniversário.

Sobre o processo de criação: “Fazemos sempre coisas as quais não estavam nos planos, e por conseqüência são (escolhas) ruins. Mais as fazemos, mais as encontramos. A cada instante, me vêm excelentes ideias, e no lugar de colocá-las em execução, no momento onde elas são sonhadas do charme que emprestam da imaginação na disposição onde ela se encontra no momento, nós prometemos em fazer mais tarde, porém, quando? Nós esquecemos, nós não encontramos mais nenhum interesse àquele que surgiu próprio à inspiração (…) Elas estarão lá, então, postas em reserva para esperar friamente o retorno, e jamais a inspiração do momento irá animá-las com o sopro de Prometeu: será necessário tirá-las da gaveta, quando for preciso fazer um quadro! Esta é a morte do gênio. O que se passa essa noite? Eu estou, há uma hora, ponderando entre (as ideias de quadros) Mazeppa, Don Juan, le Tasse, e cem outras ideias” (DELACROIX, p.73).

Este trecho é muito, muito importante pelo simples fato de Delacroix demonstrar, claramente, que o pintor, sobretudo o artista romântico, não é um gênio. Suas ideias não são postas no quadro depois de rompantes apaixonados e delirantes que a inspiração os deu, como se tende a crer quando definimos o romantismo. É um trabalho de ponderação, escolha, execução, e mesmo o de descartar ideias.

Sobre pintura: “A primeira coisa e mais importante na pintura são os contornos. O resto será extremamente negligenciado que, se eles estão lá, a pintura é fechada e terminada” (DELACROIX, p. 69). Isso faz pensar com mais profundidade a questão de nomear Delacroix apenas como um colorista, como se o trabalho da linha, responsável pelo contorno, fosse só mérito e escolha de Ingres.

“Quando você descobrir uma falha em você, em vez de dissimulá-la, suprima uma parte do papel e seus erros, corrija-se. Se a alma combate somente com o corpo! Mas ela tem também más inclinações, e é necessário que uma parte, a mais reduzida, mas a mais divina, combata a outra sem descanso. (…) Quando eu faço um belo quadro, eu não escrevo um pensamento. É isso o que eles dizem. Que eles são simples! Eles suprimem da pintura todas suas vantagens. O escritor diz quase tudo para ser compreendido. Na pintura, ele se estabelece como um ponto misterioso entre a alma dos personagens e a do espectador. Ele vê as figuras, da natureza exterior, mas ele pensa interiormente, da verdade pensada que é comum a todos os homens: àquelas que dão um corpo ao escritor, mas alterando sua essência delineada. Também os espíritos grosseiros são mais mudos os dos escritores do que dos músicos ou dos pintores. A arte do pintor é tão íntima do coração dos homens que ela parece mais material, porque nele, como na natureza exterior, a parte é feita vastamente à qual é terminada e à qual é infinita, isso quer dizer que a alma encontra o que mexe interiormente nos objetos e que afetam os sentidos”. (DELACROIX, p.17-18)

“Cada homem se inquieta muito mais com a menor de suas misérias do que com as incomparáveis calamidades de uma nação inteira” (DELACROIX, p. 18).

Referência bibliográfica: DELACROIX, Eugène. Journal. Tome premier, 1822-1852. Nouvelle édition, publiée d’après le manuscrit original avec une introduction et des notes par André Joubin. Paris: Librairie Plon, 1932.

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2 comentários sobre “Os 217 anos de Delacroix e seus diários

  1. Texto de alta qualidade, parabéns! Roubando as palavras de Delacroix, diria que a autora se exprime animada pelo “sopro de Prometeu”.

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    • Plinio, que ótimo receber o seu comentário, espero que tenha gostado bastante! Os encontros do clube de leitura com certeza se somaram às minhas leituras. E não tem como não ficar animada com Delacroix, agora se Prometeu soprou por aqui e foi responsável pela ‘animação’, eu já não tenho certeza haha muito obrigada!

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