Oscar 2016 | A garota dinamarquesa

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Indicado a quatro categorias: Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor atriz coadjuvante (Alicia Vikander), Melhor Figurino, Melhor Design de Produção

Foi no corpo do pintor de paisagens Einar Mogens que Lili Elbe nasceu. Mas apenas revelou-se existir desde sempre quando o pintor começa a posar para os quadros da esposa Gerda quando as modelos estavam ausentes. Esta é a história do filme dirigido por Tom Hooper (O Discurso do Rei), adaptação de um romance inspirado na vida das pintoras dinamarquesas Lili Elbe e Gerda Wegener.

O filme apresenta a descoberta da independência de duas mulheres. Gerda deseja ser artista reconhecida e vive a dificuldade de estar à sombra do marido, pintor de paisagens admirado entre os salons. Ela é determinada e busca no universo do ballet e no feminino a inspiração para seus quadros. E é, então, em um destes momentos que Einar se encontra também, ao tocar os tecidos, colocar as meias de seda e o sapato, encantando-se pelo gesto feminino com o qual ele se identificava. Ambos resolvem, então, criar esta personagem chamada Lili apenas como brincadeira. Contudo, Lili sempre existiu e Einar a negava. O que acompanhamos, então, é a tentativa de Einar em assumir-se como Lili e as implicações em seu casamento com Gerda.

O curioso é constatar que o filme não explora exatamente o histórico de Einar. Por vezes, de início, parece simplificar um pouco e se arriscar em reduzir Lili em uma escolha despertada apenas pela sedução de tecidos. Contudo, felizmente, a atuação de Eddie Redmayne aprofunda a personagem. Se o ator surpreendeu pela exatidão de gestos ao interpretar o físico Stephen Hawking em Teoria de Tudo, apesar de estar em um filme que não correspondeu tanto a excelência de sua atuação, em A Garota Dinamarquesa Eddie Redmayne convence quem tinha receio que fosse apenas um nome que Hollywood exaltou na época do Oscar. A impressão inicial, dada pelo trailer, é que não havia muito a que se contar no filme e que o risco era apresentar um filme fraco que se sustentasse apenas na necessidade de ser premiado por contar com um nome de peso e uma cinebiografia que é, naturalmente, admirada pela premiação.

Há também o problema de representatividade da comunidade trans. Sabemos que, infelizmente, não se contrata uma atriz transexual para interpretar o papel e o quanto isso indica a dificuldade de povoar uma indústria que exclui e é heteronormativa e branca. Tanto que o Oscar 2016 já começou com a polêmica de não ter nenhum ator negro indicado.

Visto isso, porém, a atuação de Eddie Redmayne é delicada em sua proposta e é claro o respeito pela sua caracterização. Lili encontra apoio nos objetos que circundam o universo dito feminino porque, no fim das contas, ela não se sente uma personagem como Lili. Os objetos acabam por permitir que se sinta livre, como Lili. O personagem, na verdade, o qual ela precisa sempre interpretar aos outros, é Einar. O terno já não é mais confortável em seu corpo. E muito menos o seu corpo. O incômodo em existir de tal forma, sem corresponder aos seus desejos e à identidade de seu próprio corpo, é um ponto extremamente bem desenvolvido na trama.

O filme erra de alguma forma quando busca simplificar as duas personagens como se fossem opostas, Lili em sua identidade como se fosse o puro feminino – a imagem da mulher que se veste com todos os adornos ditos femininos -, enquanto Gerda tem gestos abertos, mais duros e ousados, que seriam vistos à época como masculinizados. O que faz do filme A garota dinamarquesa, porém, é a atuação de Eddie Redmayne e Alicia Vikander. É o comprometimento de ambos na criação destas duas personagens que transforma o filme em um belo e emocionante espetáculo sobre a força de duas mulheres.

Durante o filme, é possível imergir no universo dessas duas personagens e compreender a dificuldade de Gerda em lidar com as mudanças do marido e o amor que dedica a Lili. No fim das contas, o filme reforça também a amizade entre mulheres, uma sororidade que funciona como a força que Lili precisa para ser a primeira transexual a tentar a cirurgia de mudança de sexo.

Ademais, a fotografia e figurino são de beleza extrema. Vemos a Copenhagen feita por canais e reflexos d’água encantadores – e não é à toa que fascinou o olhar de Einar como pintor -, e o universo feminino dos anos 20 construído em torno das duas personagens por meio de objetos, roupas, luvas, pele e tecidos que, somados, exercem a força de reconstruir uma época perdida.

Contudo, a direção de Tom Hooper é um caso à parte. O diretor, já interessado em dirigir filmes de época, peca em Os Miseráveis pela excessiva preocupação em dar conta de todas as músicas, criando um espetáculo visando apenas o diferente (como exigir que os atores cantassem em cena), deixando de lado a grandiosidade do próprio livro clássico e se esquece de situá-lo dignamente no século XIX. E em O Discurso do Rei sua direção é um tanto repetitiva e não se abre às possibilidades de grande desenvolvimento na história de seus personagens, optando em abordá-lo apenas por um viés cômico.

Embora Hooper tenha este histórico, A Garota Dinamarquesa é mais bem-sucedido. O diretor se preocupa em dar vida à cidade que é cenário importante, por meio da excelente fotografia, e situa bem os anos 20 pela estética da época. Mesmo assim, pode ser considerado mais um filme biográfico que adapta livremente a história de duas pessoas. Sem dúvida o filme só se amplia graças às atuações de Eddie Redmayne e Alicia Vikander. As cenas de nudez são belamente construídas, e há certa coragem na maneira com que o filme é conduzido neste ponto. Porém, ainda não é o suficiente. O roteiro deixa de trazer mais ao filme a complexidade que era a cirurgia de mudança de sexo, de expor mais situações às quais estas personagens se encontravam, de fato. Por conta desta necessidade de simplificar Gerda e Lili, deixam de mencionar o erotismo corajoso das obras da pintora Gerda Wegener e o fato de que Lili passou por cinco cirurgias numa tentativa de também construir o aparelho reprodutor feminino. Assim, o filme perde a chance de falar mais pela comunidade trans e toda a marginalidade social ainda enfrentada, além de apresentar mais sobre a vida das duas.

No fim, o que dá dignidade ao filme A Garota Dinamarquesa é ainda a beleza estética de sua produção e a riqueza na atuação de Eddie Redmayne e Alicia Vikander, que humanizam suas personagens e é o responsável por emocionar diante do filme. Tal trabalho torna o filme em um grande drama que, pelo menos, introduz o interesse por duas figuras históricas que merecem ser reconhecidas pelo grande público, Lili Elbe e Gerda Wegener.

Se quiser conhecer o trabalho da pintora Gerda Wegener, o site Nota Terapia fez um ótimo post a respeito, aqui.

Há também o depoimento concedido pela cartunista Laerte ao site UOL, aqui

E o romance que originou o filme foi escrito por David Ebershoff, editora Fábrica 231.

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