Fluam, minhas lágrimas, disse o policial, de Philip K. Dick

Resenha publicada no site Indique um livro

Editora Aleph – 255 pgs, 2013

A começar pela capa que proporciona a ilusão óptica de estar tremeluzindo, o livro Fluam, minhas lágrimas, disse o policial, de Philip K. Dick, é uma viagem completa entre a realidade e as nossas percepções. O livro conta a história de Jason Taverner, um dos apresentadores mais bem sucedidos da TV. O cenário é Los Angeles, 11 de outubro de 1988. Tudo muda e se torna atordoante quando Jason acorda num hotel caindo aos pedaços nos arredores da cidade sem saber como foi parar lá, com o terno amassado e um maço de dinheiro no bolso. Logo descobre que todos os seus dados foram apagados: ele não existe.

O objetivo, agora, é descobrir como isso aconteceu, se é possível reverter essa situação entrando em contato com alguém que saiba de sua existência e entender se está numa realidade paralela ou não. Dick constrói seus personagens complexos com eficácia nesse cenário distópico de uma sociedade que envia estudantes e professores a campos de trabalhos forçados, depois de uma guerra civil ter assolado o país, entre governo e estudantes. Além disso, é uma sociedade com práticas eugênicas, eliminando negros e formando uma raça híbrida nomeada Seis. Os cidadãos vivem à margem da sociedade, tentando falsificar os documentos a fim de evitarem os campos de trabalho, vivem acuados entre informantes e oficiais da polícia.

A história de Dick não é óbvia. A leitura flui com rapidez e a curiosidade pelo destino de Jason vai se alimentando no decorrer das páginas, incluindo a vontade de compreender um título de tamanha poesia. É verdade que o final é um tanto apressado. Mas Dick tem o talento de inserir uma poética dolorosa nessa distopia e humanizar seus personagens sem precisar apelar a sentimentalismos, o que conta como pontos positivos à obra. Jason não é o tipo de protagonista com o qual temos total simpatia, mas abruptamente nos vemos ao lado dele, com a mesma sensação claustrofóbica imaginando a dor de não existir aos outros no mundo.

Curioso ver que papéis fazem-no ser alguém. Diante do policial Felix Buckman, porém, Jason parece representar algo a mais e, apesar da oposição que deveria haver entre a lei que o policial representa e a subversão que é Jason, algo reacende em Buckman: a compaixão pelo indivíduo e a curiosidade diante do outro. E tais sentimentos não são fáceis de digerir. Tudo isso construído com sutileza pela narrativa de Dick.

É um romance que trata da subjetividade, sobre como podemos contemplar de diversas formas uma mesma situação e definir se é real ou não. Porém, mais do que isso, vemos o quanto Jason, mesmo diante dessa situação absurda, parece estar anestesiado. O desespero está a sua volta, nas pessoas que conhece e falam sobre o valor de amar. Mas ele está lá, perdido, e nem sabe mais o que sentir ou se vale a pena sentir. O livro deixa no ar a dúvida ao leitor, sobre qual realidade ele gostaria de habitar. Parece que ambas são absurdas e densas. E que, talvez, nunca seja possível compreendê-las. Por isso mesmo, o melhor seria deixar fluir as lágrimas sem questionamento. Assim, o desafio de ler Dick consiste nesse mesmo movimento, levando a sério o enredo com o qual ele nos instiga, degustando os momentos em que a narrativa se intensifica e faz a distopia surpreender.

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