Apartamento em Paris é reaberto após ficar 70 anos intacto

Matéria publicada no site Causas Perdidas

Normalmente, algumas pessoas tiram férias e deixam suas residências por poucas semanas ou até meses. Houve, porém, um apartamento em Paris que foi deixado isolado por 70 anos. A primeira coisa que me vem à mente é: o pó. Mas, felizmente, o pó desse período extenso repousava docemente por mobílias belíssimas, inesperadamente bem conservadas, nesse apartamento que teve sua história conservada por entre as paredes. Inimaginável o mundo que ele parece simbolizar por trás da porta principal.

O belo espaço preservado, o qual pertenceu à neta da atriz e última socialite parisiense Marthe de Florian, foi pago, mês após mês, durante muitas décadas, mas sem ter sua porta aberta pelo proprietário por todo esse tempo, deixando-o não apenas abandonado, mas também intacto. Isso ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial.

A proprietária inicialmente abandonou o seu rico apartamento a fim de escapar do ataque nazista. Ela nunca retornou à sua casa, a qual agora foi nomeada como uma espécie de “cápsula do tempo”, mas em forma de um apartamento parisiense estilo rococó. Os herdeiros da luxuosa proprietária decidiram fazer um inventário do apartamento quando eles descobriram que o interior foi preservado e que lá havia muitos tesouros.

Um deles, por exemplo, inclui um quadro pintado pelo famoso artista italiano do século XIX, Giovanni Boldini. A obra traz uma mulher que foi retratada para se assemelhar a Marthe de Florian aos 24 anos de idade. O lar encapsulado pelo tempo também revelou o romance com o artista por meio de uma pilha de cartas de amor trocadas entre eles. O apartamento, que provou ser tão rico de posses quanto de segredos, é fechado ao público, apesar de existirem algumas especulações que fazem isso mudar.

O curioso contraste entre a figura americana de Mickey Mouse e o imponente e esquisito avestruz empalhado, os livros e manuscritos empilhados nos móveis de madeira muito sofisticada, o estofamento das poltronas elegantes, a cortina densa que ocultou o sol por todo esse tempo, o espelho que via à espreita o tempo congelado no apartamento. Esse é o cenário com que a família de Marthe se deparou e o qual pode ser visto nas fotos abaixo.

 

Não é à toa que encontrar esse apartamento intacto traga à tona a sensação de que o tempo parou. Os móveis carregam consigo parte da história de seus moradores, mas, também, do contexto social a sua volta. Em um episódio do documentário Mundo Museu, exibido pelo canal Globosat, é possível conhecer as mais variadas mobílias no Museu da Casa Brasileira, em São Paulo. Os proprietários Fábio Prado e Renata Crespe, casal muito influente no início do século XX, colecionavam utensílios raros e mobílias dos últimos quatro séculos, hoje expostos no museu.

A concepção dos vidros, da madeira entalhada, dos compartimentos secretos nas escrivaninhas, são elementos que fazem de tais objetos uma manifestação cultural. Com efeito, espera-se que as mobílias se adequem às necessidades de seus proprietários. Ademais, a conservação do material se mostrava importante em razão do significado que tal objeto tem enquanto status: uma coleção de talheres de prata dizia muito sobre a família em suas recepções sociais; a porcelana e utensílios considerados de preço elevado, quando comprados e exibidos, pareciam dizer tacitamente que o proprietário tinha bom gosto e riqueza.

Nota-se, portanto, que as mobílias possuem segredos históricos e mantê-las em casa revela que o sujeito não as compra somente por necessidade, mas pelo valor cultural agregado a ela. A redescoberta desse apartamento parisiense acaba por remeter ao significado do gabinete de curiosidades, na História. Durante os séculos XVI e XVII, era comum ver tais gabinetes, locais em que se guardavam objetos raros ou incomuns aos olhos de quem os descobriram, sendo formados por utensílios exóticos, fósseis, animais empalhados, instrumentos técnicos avançados. Posteriormente, eles viraram a instituição que constitui o museu, por volta do século XIX.

Gabinete Worm Ole, do Museu Wormianum, 1655

O gabinete de curiosidades foi de suma importância durante o Renascimento, tanto como um local físico onde armazenar os mais distintos objetos, quanto uma representação cultural da interpretação dos sujeitos que estavam começando a se ver como descobridores. Veja só, não era difícil encontrar objetos de cunho religioso ou até mesmo frascos com substâncias misturadas prometendo curas e amores eternos. Isso é uma amostra de que tais gabinetes não possuíam um método rígido na escolha dos objetos a serem guardados.

Os gabinetes acabavam por ser um lugar onde o poder místico da ciência era reafirmado como uma área que começava a se ver como detentora do conhecimento acerca da Natureza. Não deixamos de reparar nisso na reunião desses objetos: o sujeito que os guardou é um pesquisador, das mais diferentes formas (sendo supersticioso ou lógico), propondo uma interpretação sobre o que encontra. Contudo, nesse momento a Natureza ainda encerra em si mesma o misticismo que fascina esses pesquisadores. Como ela parece ser harmônica e superior à mente humana, resta ao pesquisador guardar o que lhe interessa: os objetos que parecem falar sobre a Natureza.

O curioso está no ato de guardar. Ele nos dá o poder da interpretação, da teoria sobre o objeto. Mas esse ainda tem o mistério na sua essência, portando a riqueza infinita do mundo nos produtos mais bizarros. Interessamo-nos pelos pontos de passagem entre um reino e outro, o abismo em que o conhecimento humano parece não chegar; e pelo acidente efêmero do encontro com um fóssil, uma peça da toilette, um vaso.

O gabinete de curiosidades se interessa pelo exótico de outras culturas, como objetos antigos, um registro em um papiro, múmias egípcias, sapatos indianos. As coleções dos séculos XVI e XVII passam a manifestar, portanto, a curiosidade do homem que vê nas Navegações, a possibilidade de conhecer o mundo e conquistá-lo. Os gabinetes de curiosidades não deixaram de ser uma representação também do interesse sobre a anatomia que, posteriormente, nota-se nos chamados “teatros de anatomia”, onde eram guardados esqueletos a fim de auxiliarem nos estudos de escolas de medicina. Os órgãos humanos incitavam, nos pesquisadores, a mesma necessidade de conhecer os mistérios da Natureza presentes na composição de si mesmos.

Evidentemente, não apenas podemos dizer que objetos têm as marcas físicas que a História deixa neles, como o desgaste e o pó, mas também algo que vai além de sua determinação espacial: a memória encapsulada, deixada em suspensa, aguardando o olhar de qualquer indivíduo para ser reavivado.

O apartamento parisiense redescoberto lembra, pois, o gabinete de curiosidades devido à junção de objetos incomuns às mobílias bem conservadas. Porém, mesmo que vejamos a semelhança entre ambos, é importante destacar que o gabinete pressupõe que os objetos armazenados nele tenham sido descobertos pelo homem, carregando em si o caráter de objeto a ser pesquisado por alguma razão. O pesquisador tem o poder de afirmar se esse objeto tem alguma peculiaridade para ser guardado, até mesmo um valor financeiro inestimável para a sociedade. É verdade que o quadro de Boldini foi redescoberto e entraria no gabinete como objeto admirável por seu preço e singularidade. Mas esse valor dado à obra de arte iniciou-se com o museu estabelecido como instituição, portanto, o sucessor do gabinete de curiosidades. Assim, permanece a dúvida se é possível que uma obra de arte tenha espaço no gabinete.

Os demais objetos do apartamento, por sua vez, teriam sido mais do que relíquias com as quais a pessoa sortuda que abriu a porta se deparou. Certamente, para quem está fazendo o inventário do que encontrou, deve ser uma fonte de renda. Mas um boneco do Mickey, um avestruz ou até a pilha de cartas podem ter um valor simbólico. E esse ocorre pelo que foi afirmado antes: o objeto tem em si uma história oculta. Pode não ter significado para quem o encontra, mas ele o teve no passado da proprietária. Chegamos ao ponto mais fascinante, pensar em tudo o que fora abandonado. O que ela sentira ao se desvencilhar daqueles objetos, das cartas trocadas com o artista, fugindo do ataque nazista a sua cidade?

Podem ser utensílios cotidianos, mas carregam a história do dono, a sensação ao comprá-los, o que foi vivenciado ao lado de tais objetos, a estranheza na sua escolha em ter um avestruz empalhado. A disposição dos móveis e a escolha dos objetos do apartamento, como parte da identidade do proprietário, falam, pelas entrelinhas, com o pó sutilmente repousando nessa história deixada para trás. Desta forma, o apartamento parisiense aguça nossa curiosidade não só como pesquisadores, mas, no revela, também, a possibilidade de nos enxergarmos enquanto sujeitos que lamentariam, por tanto significado e história, em deixar seu lar para trás.

Gravuras dos gabinetes de curiosidades:Link

Fonte das informações históricas sobre os gabinetes: Link

Arquivo online disponibilizado pelo Museu da Casa Brasileira sobre os equipamentos, usos e costumes: Link

Revisado por Karol Vieira

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