Gravidade

Dir. Alfonso Cuarón
Roteiro de Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón
Com Sandra Bullock, George Clooney
EUA, 2013
 
Indicado ao Oscar 2014 nas categorias: Melhor filme, Melhor diretor, Melhor atriz, Melhor fotografia, Melhor montagem, Melhor trilha sonora, Melhor design de produção, Melhor edição de som, Melhor mixagem de som, Melhores efeitos visuais
 

Gravidade-poster-Sandra-Bullock-310ago2013-01A Terra à distância, brilhando num azul perolado mesclado pelo marrom terroso, vidas incontáveis e acontecimentos que parecem grandiosos, mas à luz da imensidade do Universo são minúsculas. É assim que vemos a Terra surgir no filme Gravidade, de Alfonso Cuarón. O sentimento de que pouco vale a pena aqui em relação às estrelas e planetas parece entrar em choque no filme do diretor. Enquanto conhecemos a história de Ryan, não é incomum transitar entre a sensação de que, no fim, as coisas não têm sentido para o simples milagre que é respirar. Essa dualidade é uma marca genial do enredo.

Ryan Stone (Sandra Bullock) é uma astronauta à serviço numa expedição prestes a finalizar um trabalho simples, no espaço. Quer dizer, não é um trabalho fácil. Consertar coisas em gravidade zero é uma tarefa árdua amenizada pela presença de Matt (George Clooney), o qual tenta deixar a situação a mais comum possível, contando sobre sua vida e cantando. Mas logo uma imprevisível chuva de destroços de um satélite russo recém-destruído atinge a pequena tripulação e os separa. Começa, então, a terrível jornada de Ryan em voltar à sua equipe e sobreviver.

Como você lida com a solidão? Imagine isso intensificado de uma maneira inimaginável, com você sozinho à deriva no espaço. A dimensão do filme de Cuarón atinge um nível formidável de uma imagem que não temos do espaço. Claro que não é cientificamente correto, mas isso não importa. A construção do enredo no espaço é só uma representação de uma história que daria certo em qualquer lugar. A questão é que a situação em que Ryan se encontra desafia qualquer fato que já imaginamos. E é papel do Cinema conseguir aumentar a realidade para que possamos ver a ficção na nossa própria vida.

No decorrer do filme, temos a mesma aflição (ainda intensificada com o trabalho sutil do 3D) que Ryan sente ao se desvencilhar de destroços, cordas e tentar encontrar algum lugar em que possa respirar. O trabalho que Sandra Bullock faz corporalmente exposta e pequenina no espaço e grande demais em sua vestimenta, desejando ao máximo sair dela e sentir o ar nos pulmões, é indescritível. Em nenhum momento há exagero nas suas expressões e desespero, nem na caracterização do espaço.

E pode-se dizer que o espaço de Cuarón é uma cabine claustrofóbica. Na verdade, foi esse o trabalho que Bullock precisou fazer: manter contato com o diretor e Clooney apenas pelas suas vozes, no escuro. O espectador se sente num vazio ao mesmo tempo em que está tão exposto aos perigos por sua fragilidade que parece haver alguém à nossa espreita, observando o momento em que Ryan irá sucumbir. É um filme desesperador e muito bem construído, de roteiro simples o qual vai crescendo aos poucos. É verdade que muitos poderiam afirmar que Gravidade precisaria ter um enredo maior. Mas se tivesse, será que alcançaria com tanta profundidade essa sensação? Será que daria o realismo necessário à história?

A trajetória de Ryan em tentar se salvar é praticamente um renascimento. Vemos a personagem morrer simbolicamente quando entra em contato com o espaço atacando-a pelos destroços. Depois a vemos renascer em cenas emblemáticas como a sua entrada lenta numa cápsula, em que ela fica em posição fetal. Essa liberdade que ela sente ao estar no seu lugar respirando atinge em cheio o espectador.

Ryan não precisa falar muito para se comunicar conosco. O pouco que sabemos de seu passado nos faz conectá-la, pela imaginação, à Terra. E vemos, assim, a dimensão do que é estar no espaço e querer recomeçar uma vida aqui. Como voltar? A dificuldade parece até insustentável para entendermos. Aceitamos acompanhá-la e ficamos sem ar durante todo o filme. Assim, o trabalho de Cuarón é envolver a sinestesia do espectador à de sua personagem e desafiar até mesmo o modo com o qual se constrói um filme, apresentando uma obra que é grandiosa nos detalhes que traz à luz e nos sentimentos mais humanos que presenciamos: o desejo de estar no solo fazendo parte de uma história e de uma vida.

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