Oscar 2015 | Livre

Direção: Jean-Marc Vallée

Com Reese Witherspoon, Gaby Hoffmann, Laura Dern

Indicado a duas categorias do Oscar 2015: Melhor atriz (Reese Witherspoon) e Melhor atriz coadjuvante (Laura Dern).

livre-posterCheryl Strayed é uma heroína belamente humanizada no filme Livre, de Jean-Marc Vallée, diretor de Clube de Compras Dallas. Com o objetivo de exorcizar o mal que permeia o seu passado doloroso após a morte da mãe e com a intenção de “caminhar até voltar a ser a menina que a mãe criou”, a jovem resolve completar a trilha de 1700 quilômetros pela costa do Oceano Pacífico, a PCT, do México ao Canadá. Sem experiência em trekking e tentando lidar com as dificuldades climáticas à falta de água pelo trajeto, Cheryl completa três meses e vê a dor do passado surgir a cada instante que caminha. Uma dor tão intensa quanto o peso que carrega na mochila.

A história real da jovem, adaptação de suas memórias, é valiosa em expor mais uma narrativa sobre uma pessoa que busca redenção heroicamente por um desafio inimaginável. Contudo, diferente de alguns deles como Na Natureza selvagem – com o qual é comparado – ou o recente 127 horas, Livre é um filme que investe mais na introspecção de sua personagem, pela recuperação sem a ênfase desta caminhada como uma grande aventura. Ela é tida mais como uma autopunição, pelos cortes e marcas no corpo feitos pela mochila, pelo peso quase impossível de carregar, pela descrença que os outros têm de ver uma mulher desejar completar uma trilha difícil até mesmo para quem tem experiências com trekking.

O filme eleva a sua qualidade ao explorar a personagem por meio da excelente atuação de Reese Witherspoon. Mais conhecida pelo adocicado Legalmente Loira, a atriz tem investido em papéis mais complexos nos últimos anos, o que vale lembrar de seu bom desempenho em Johnny & June. Porém, é com Cheryl Strayed que se torna possível encontrar uma força genuína bem construída por Reese, sem exageros e com humanidade, numa atuação que faz o drama de Cheryl ser bem recebido pelo espectador. A sua atuação, aliada à direção de Vallée, que investe em flashbacks descontínuos, na apresentação do enredo por camadas e numa bela fotografia, faz de Livre um filme com um resultado emocional positivo e aprofundado.

Cheryl troca o sobrenome para “Strayed” com o intuito de adotar para si o espírito errante que precisa para essa tarefa. O curioso é constatar que fazer essa trilha não consiste em uma mera fuga ou passatempo: Cheryl demonstra lidar melhor com a solidão, as necessidades básicas que a trilha exige e a vida selvagem que presencia do que a responsabilidade de estar entre adultos numa cidade. A trilha é o grande experimento de um sentido existencial ignorado, por vezes, nesta concepção de vida urbana. Com isso, o filme consegue conduzir o espectador à experimentar uma trilha em sua exaustão mais realista, sem exagerar em momentos de diálogos solitários que poderiam soar falsos ou em colocar perigosos ficcionais na estrada. O que Cheryl enfrenta na trilha é o que se enfrentaria, de fato, a dificuldade em se alimentar, a dor corporal e, o mais doloroso que se encontra a qualquer canto, a urgência de uma mulher em não confiar na presença masculina.

Com este ponto, pode-se dizer que a peculiaridade de Livre está no investimento em uma temática sobre o feminino. Mais do que uma relação amorosa, o sofrimento de Cheryl é levado a sério pois compreende-se a premissa de que uma jovem pode encontrar o caos em sua vida após perder a mãe, com quem tem um passado de boas memórias e arrependimentos também. Essa premissa é suficientemente forte para dar ao ato de Cheryl uma base para o objetivo de sua trilha. A tentativa de voltar a ser a filha que ela foi aponta para algo ainda mais profundo: não é possível ser apenas filha ou apenas mãe porque é uma função requisitada pela sociedade. Cheryl e sua mãe lidam com esse mesmo dilema em períodos diferentes. É preciso reunir essas identidades a uma mais forte ainda. Cheryl percebe que perdeu aquilo que dava estabilidade à sua vida. E mais ainda, perde quem realmente era seu modelo. O que resta, então, de sua personalidade?

Todo o trabalho do filme aponta para o desejo dessas duas figuras femininas em transgredir, de alguma forma, a representação acabada que dão a elas. Desde abandonar o marido, estudar até experimentar o perigo ou fazer uma trilha. Isso é fundamental para acompanhar a narrativa, pois não foi uma mera vontade de acordar e pegar uma mochila. Foi porque todas as alternativas de Cheryl se esgotaram, todos os pontos em que ela encontrava a sua identidade se esvaíram. A caminhada, porém, não é para se punir pelo que fez aos outros apenas, mas principalmente entender por que fez determinadas escolhas e destruiu a si mesma. Assim, Cheryl passa a lidar com o fato de que a perfeição pode estar nas marcas de seu corpo, que há dignidade no pó que suja as suas vestes.

O título em inglês, Wild, com referência ao selvagem, é mais apropriado para lembrar que Cheryl lida com um embate entre sua mente e o corpo, que se torna muito mais presente pelas dores e necessidades. A trilha parece ser realmente a melhor forma de encontrar uma nova saída sem deixar de lembrar de cada falha e dor em seu mais puro significado. Pelas lembranças do passado apresentadas em um flashback descontínuo, o filme Livre ganha muito mais do que incluir apenas aventura e ações épicas. Ele representa com lirismo as infinitas dores que a mente e o corpo possuem numa trilha que vai além dos mil e setecentos quilômetros.

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