O encanto vitoriano no especial de Sherlock

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Publicada no site Literatortura

SEM SPOILERS

Dois anos se passaram e o detetive, finalmente, retornou ao 221b Baker Street. Ou sempre esteve por lá, em uma espécie de palácio mental coletivo, adormecido, apenas esperando para o instante em que a ficção o despertaria para o episódio mais aguardado. No primeiro dia de 2016 foi exibido, pela BBC, o especial em que Sherlock Holmes e John Watson retornaram um tanto diferentes para os seus lugares. Em trajes vitorianos, a série contemporânea de Steven Moffat e Mark Gatiss trouxe os ares da Londres feita por carrocerias, cartas e cachimbos, um século XIX sentido pelas palavras de Sir Arthur Conan Doyle, finalmente às telas.

De início, a escolha de situar o especial na época de origem do personagem britânico parecia ser apenas uma saída para acalmar os corações de fãs deixados à mercê do terror do hiato. Dois anos sombrios de muita espera. Imagine aguardar por uma temporada composta por apenas três episódios, de qualidade inquestionável, com um final capaz de deixar qualquer um ansioso por respostas. Felizmente, a escolha por retratar o episódio na era vitoriana foi muito feliz e bem justificada. Se a espera foi longa, ela foi merecida, resultando no melhor episódio de todas as temporadas de Sherlock.

Sem revelar os detalhes que tornam o episódio fantástico, podemos dizer que ele foi feito em camadas. Coordenadas pela excelência da interpretação de Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, a sensação é de que todos estão nostálgicos, o clima tácito é de alívio em fazer tais personagens existirem. Eles estão de volta. Mas agora, temos a chance de ver Sherlock Holmes vitoriano, dos livros, em atuação. A trama conta com o mistério de uma noiva que se suicida diante de uma multidão e que, em seguida, retorna dos mortos para assassinar seu marido. A dúvida acerca do sobrenatural, já vista em O cão dos Baskervilles, retorna neste episódio, e sim, você irá hesitar diversas vezes, sem saber qual será a resposta dada pelo episódio.

A genialidade do roteiro envolve cada frase dita, milimetricamente disposta para que o espectador se lembre que há muito tempo as ouviu, proferidas pelos mesmos personagens, mas em nossa época. O prazer de ouvir Sherlock Holmes recitando seu endereço clássico é impossível de se explicar. Esse episódio tão bem escrito, em camadas que colocam em dúvida a sanidade de seus personagens e a do próprio espectador – que entenderá tudo apenas no desfecho, como um detetive que junta as peças -, faz jus à figura do grande detetive da literatura. Somos tragados pela excelente fotografia e os recursos narrativos que a série apresenta com criatividade, como a de colocar Sherlock Holmes diante da cena do crime narrando cada detalhe e seu significado; os movimentos em câmera lenta; os gestos poéticos na beleza dos figurinos; o humor sórdido do protagonista; e finalmente, o amor pelo texto de Doyle, como as referências aos contos O carbúnculo azul e As cinco sementes de laranja.

O enredo da noiva que volta à vida também traça uma correspondência com outro detalhe do enredo de Sherlock que, por sua vez, busca compreender o desfecho deste caso para entender o que ele mesmo vivencia em outro. Vemos as fragilidades de Sherlock Holmes, mais uma vez, expostas, e a profundidade de sua relação com John Watson. Ele é como o ponto fixo que consegue resgatá-lo em suas inúmeras quedas. E este personagem se mostra cada vez mais envolvido com o detetive, em um jogo no qual ele conhece bem o amigo, mas sabe identificar qual versão de Holmes ele criou a partir de seus escritos.

No fim, o especial The Abominable Bride é uma grande homenagem tanto à arte da escrita, como a capacidade de se criar labirintos de ficções para sobreviver ou compreender a profundidade do que é dito real, quanto uma verdadeira aula de roteiro e direção. Porém, mais do que isso, o especial de Sherlock alcança o máximo de uma epifania: Sherlock Holmes é o grande personagem da literatura que sobrevive a qualquer século.

Não importa quantas adaptações forem feitas, há uma essência desta mente brilhante preservada pelo encanto que o fez nascer pelas mãos de Conan Doyle. Esta beleza da palavra que sobrevive ao tempo a série apresentou como a sua mais importante premissa, que será descoberta profundamente pela sua experiência de espectador. Para Sherlock Holmes as cortinas de Baker Street sempre vão se levantar para que se conte uma nova história. Ele existe em cada canto da Londres atual, literária, imaginária, e bem, sobrevive a todos os tempos.

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