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O universo das fábulas em Aurora, All My Demons Greeting Me As A Friend (2016)

(Foto: Decca Records)

A beleza do trabalho de Aurora é algo que rende muito texto e muito encantamento. A cantora norueguesa, conhecida por ter feito trilha sonora de filmes como Frozen e ter virado hit no tik tok com a música Runaway, tem um vasto universo oculto em seus álbuns que merece ser explorado e conhecido. Como uma floresta rara a ser preservada e honrada.

No dia 21 de janeiro de 2022, a cantora lança seu mais novo álbum The Gods We Can Touch. Sobre ele falarei mais detidamente em outra matéria, que poderá ser lida na semana que vem. Será um especial de três matérias sobre os álbuns de Aurora, para aproveitar a oportunidade. Antes disso, quero trazer um pouco da beleza assombrosa que reside em outras de suas obras, as quais merecem ser ouvidas.

All My Demons Greeting Me As A Friend (2016)

Aurora é compositora desde a infância, tendo faixas criadas desde os 9 anos de idade. É surpreendente o nível de maturidade e inteligência das letras, falando de sentimentos muito humanos. No álbum com o título traduzido Todos os meus demônios me recebendo como amigos já expõe nele a criatividade profunda de Aurora. Tem um misto de delicadeza e melancolia nesse mundo à parte com a estética pastel, marrom e tons frios da capa, fazendo alusão à garota que é parte lagarta, parte borboleta. Aurora representa a fase de transição da adolescência, com a preservação desses itens tão frágeis da infância, que os adultos dizem que se deve deixar para trás. Ela transforma o casulo em vários sentidos, desde o isolamento da tristeza até o período da transformação.

(Foto: Decca Records)

O desejo pela liberdade

Runaway é uma faixa que expõe um sonho de Aurora e o desejo de voltar para casa, para a terra à qual se pertence. Ela cantou essa música na ONU, nada mais simbólico do que cantar sobre o amor pela terra que se carrega em si mesmo. É curioso ver que ela inicia um álbum que tem o tom de fábula e da protagonista que cai num universo mágico, justamente pelo seu sentido invertido: o eu lírico quer voltar para casa, mesmo que tudo seja belo. E isso já está dado logo na primeira faixa, e não no fim. Este tom de fábula vai ganhando corpo no restante do álbum, com a ironia de Conqueror, em que se deseja que a fantasia a possua, já que os dias e as manhãs estão tristes e esse conquistador, intitulado para salvá-la, nunca chega.

Com o mesmo frio invernal de Runaway, Aurora faz uso da melancolia associada a essa fase e à neve em Winter Bird, no caso um eu lírico que perdeu alguém. Da mesma forma em que a personagem tenta escapar e encontrar a liberdade no clipe de Running with the wolves e Conqueror, em Winter Bird o casulo aprisiona enquanto drones observam esse personagem enclausurado:

Minhas lágrimas estão sempre congeladas
Eu posso ver o ar que respiro
Tenho meus dedos desenhando imagens
No vidro em minha frente
Deite-me junto ao rio congelado
Onde os barcos passaram por mim
Tudo que eu preciso é me lembrar
De como era me sentir viva

Pressionada contra o meu travesseiro
Como o Sol de inverno que envelhece
Acordo todas as manhãs apenas
Para lembrar que você foi embora
Então, eu me afasto novamente
Ao inverno eu pertenço

Os temas da liberdade, solidão e saudade de quem amamos permeiam todo o álbum. Em Running with the wolves e Warrior ainda se evocam esses desejos, músicas que já são clássicos de Aurora. O álbum como um todo tem a grande maioria das faixas conhecidas. Temos um eu lírico que sente o mundo, mas deseja liberdade e correr com os lobos. Na segunda, é o desejo de resistir a um mundo brutal sendo um “guerreiro do amor”, combatendo muros de controle de pensamento e crueldade.

O coração da mensagem de Aurora, em todos os seus álbuns, sempre me parece estar em Through the eyes of a child: veja o mundo pelos olhos e por meio da pele de uma criança. Sinta tudo, deixe as pessoas participarem e passarem pela vida. A parte final da música é um dos vocais mais lindos.

O vínculo humano

Home, Half the world away e Lucky parecem fazer um conjunto com Runaway, entre a vontade de sair do mundo, de voltar a um terreno seguro e constatar que se tem sorte de se estar vivo. A parte mais preciosa da vida são todos os rostos que já vimos.

Dias intermináveis de reclamações
Forçando a luz para nossas veias
Mantendo a esperança em nossas mentes
Um dia a vida será gentil

Nós não estamos vivos
Nós estamos sobrevivendo a cada hora

(…)

Envolvido dentro de um casulo feito de carne e ossos
Realmente não importa de onde você vem

Nós estamos em casa

Home, Aurora

Junto a esses temas tão humanos, Aurora lança aquilo que vira o grande assunto que unifica os álbuns: o fato de que partilhamos o mesmo planeta e a mesma natureza, sendo necessário preservar esses vínculos e o meio ambiente.

Outro conjunto existente no álbum é Under the water e Black Water Lillies, pelo tema intenso da água, mas com Wisdom Cries, apresenta-se outra característica peculiar da obra de Aurora: o encontro do clássico, lírico, com outras experimentações, desde o rock até o electro pop.

O tema da morte

Murder song e I went too far são composições muito profundas que ressoam demais com a vida humana. A primeira se assemelha a um conto, a uma história de alguém sob ameaça do outro diante da morte, enquanto a segunda envolve o sentido de morte de si mesma numa relação, quando se cruza as fronteiras daquilo que é saudável para nós.

Eu fui longe demais quando estava implorando de joelhos
Quando eu cortei minhas mãos, para que você pudesse ficar aí e me ver sangrar
Eu fui longe demais e beijei o chão sob seus pés
De pé no meu sangue, tinha um gosto agridoce

Pedindo: Me dê um pouco de amor, me dê um pouco de amor e me abrace

I went too far, Aurora

Dores humanas, desejo por liberdade e expansão, o amor envolvido na terra e na casa onde habitamos, esta é a perspectiva que Aurora nos oferece, tão jovem, com algumas letras ainda de sua infância e adolescência, no álbum All My Demons Greeting Me As A Friend. Inclusive, o álbum também tem o single acústico All my demons, onde o eu lírico deseja desbravar o mundo e enfim, se encontrar amigavelmente com seus demônios:

Estou ficando cansada e estou envelhecendo
E a estrada que eu caminho, eu caminho sozinha
E eu me pergunto se acho que posso
Dar uma olhada, dar uma olhada no outro lado

Por cinco dias vou me afastar
Da vida solitária, estou farta da dor
E eu me pergunto se acho que posso
Dar uma olhada, dar uma olhada no outro lado

(…)

Faço minhas malas, eu conheço a estrada
Escrevo as palavras e aqui vou eu
Em direção a paz que preciso encontrar
Eu vou ficar bem, vou ficar bem do outro lado

Todos os meus demônios, me cumprimentando aqui como uma amiga (Ooh)
Estou em casa, esperando a hora de esquecer
Paz no meu corpo e alma (Ooh)

All my demons, Aurora

Desta forma, Aurora consegue criar sensações e imagens muito especificas com a escolha do arranjo em cada faixa, enquanto dispõe de um talento enorme para escrever letras impecáveis. Deixo as palavras de Nature Boy abaixo para finalizar, cover que Aurora fez de Frank Sinatra, pois ela tem a energia de uma fábula sussurrada em uma taverna medieval, uma pequenina e doce história.

Havia um menino
Um menino encantado e muito estranho

Dizem que ele vagou para muito longe, muito longe
Por terra e mar
Um pouco tímido e de olhar triste
Mas muito sábio era ele

E então um dia
Um dia de sorte ele cruzou o meu caminho
Então nós falamos de muitas coisas
Tolos e reis
Então ele me disse
A maior coisa que você vai aprender
É amar e ser amado de volta

(Foto: Decca Records)

Para ler mais a respeito de Aurora, escrevi aqui uma matéria sobre um concerto disponível no YouTube em que ela canta em um bosque, é lindíssimo.

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