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Sempre vivemos no castelo, de Shirley Jackson: o coração da casa é a cozinha

foto: Marina Franconeti

O que poderia ser mais inocente do que um pequenino açucareiro e uma mesa de chá? É com esta imagem tão pueril que a autora norte-americana Shirley Jackson escreve Sempre vivemos no castelo, publicado em 1962, invertendo o instante da reunião familiar em volta da comida para uma cena de assassinato.

A obra de Shirley Jackson, autora referência em terror, pende entre uma história misteriosa de um assassinato por envenenamento numa família, e o isolamento das casas e da própria sociedade. O mundo lá fora é hostil, e o de casa pode ser idealizado, protegido. No entanto, é no coração dessa família que ocorre um envenenamento: cianureto no açucareiro. Quem envenenou a família inteira, sobrando apenas Constance, Merricat e o tio Julian? Foi planejado ou não?

O caso ficou famoso na cidade, e Constance inocentada no tribunal, mas se isolou na confortável moradia dos Blackwood. Ela, com 28 anos, e a irmã que narra a história, Merricat em seus 18 anos, cuidam do tio idoso e da casa enorme da família. Vivem em um mundo de encantamento feito de jardins, gatos, objetos preciosos enterrados na propriedade, compotas e comidas deliciosas. Totalmente paradas no tempo.

Até que um intruso aparece: o primo Charles, um sujeito muito suspeito. De resto, a história de Shirley Jackson pode ser lida buscando esses mistérios, sem saber muito de sua trama, habitando a mansão junto com as personagens. Principalmente, sorvendo esse mundo particular da mansão isolada.

A casa e as mulheres

Shirley Jackson lança luz à vida doméstica das mulheres. Toda a casa tem detalhes observados pela autora e, na perspectiva das personagens, pires de chá, prataria, xícaras, se tornam parte da narrativa. Objetos com vida. Sendo as mulheres quem têm contato com a cozinha, com o espaço deixado à margem num lar dos anos 60, ele se torna o espaço central da história.

Se Merricat quebra uma louça, tem aqui a expressão do desgosto. Se um intruso pega um pires extremamente antigo, de uma bisavó, que as meninas nem conheciam, para usar como mero cinzeiro, é Shirley Jackson deixando evidente a invasão ao estado puro e protegido da casa. Um pires cor-de-rosa com folhas douradas na borda: a casa invadida pela sujeira e hostilidade.

O legado das mulheres na casa é a dispensa feita de inúmeras compotas que estão impróprias para consumo, mas são como uma biblioteca do trabalho invisível dessas mulheres na cozinha, preservadas até o fim. Merricat e Constance sabem da preciosidade que as compotas e os temperos têm. E a tarefa de gerenciar uma casa inteira e cuidar dos outros é a única dada às jovens. Constance assume esse papel de mulher que nunca deve estar esgotada com o trabalho doméstico. Servindo sempre, transformando a horta em alimento, lavando os pratos e sendo mãe da própria irmã.

O intruso como fantasma

Charles, na trama, vem como um fantasma muito real invadindo a casa. Deseja ser servido, vira a autoridade na moradia simplesmente por ser homem. Mesquinho, espaçoso, no seu tom de voz tem uma violência e tensão que é deixada bem clara pela autora. Ele acha que pode assumir a posição paterna. Está dada a permanente tensão nas casas em que a disputa de poder entre gêneros é completamente desigual nos anos 60.

Aqui tem esse interessante encontro entre o clássico do gótico – como em A assombração da Casa da Colina – com o fato de que Charles é de carne e osso. Ele é o fim da paz idealizada naquele lar, uma desarmonia entre o trio.

A casa e a família das garotas são intrusos na tranquilidade falsa da cidade pequena, operando também como fantasmas no decorrer da história, já que a casa se ergue como ameaça pelas histórias verdadeiras e contadas, e as meninas são apenas essa assombração do crime.

O medo da comunidade é o pecado, a ideia de que uma família foi destruída por um familiar no momento mais sagrado de uma reunião, a refeição. Comer aquilo que as mulheres preparam é um ato de confiança cega, já que ninguém sequer ousa imaginar que mulheres podem ser seres além da pureza ideal. “E se as outras mulheres na comunidade resolverem fazer o mesmo que as meninas?”, devem imaginar os personagens. A suspeita decai sobre as duas jovens solteironas, e toda a cidade se abala com isso.

A autora reúne essa suposta delicadeza feminina com a brutalidade da ideia de um assassinato. A todo instante temos uma visão da delicadeza de Constance e Merricat em seu mundo privado, mas como elas veem o assassinato? Elas seriam capazes de algo assim? Isso é um mistério.

As irmãs Blackwood

Constance é a inocente, doce figura da jovem de sua época, feita para se casar. Cozinha de tudo, praticamente por mágica. Sem se esgotar. Pelo menos aparentemente. Em contrapartida, Merricat é uma jovem rebelde, volta cheia de terra e descabelada dos passeios e se confunde com a liberdade de seu gato Jonas. Mas, no fim, as duas são crianças demais. Constance, em razão de seu isolamento e responsabilidade adquirida quando muito nova, e Merricat por não estudar, não ter amigos, e querer proteger a irmã. O comportamento de Merricat é o de uma criança mimada que tem apenas um universo com duas pessoas numa cidade que as odeia. Por isso, a sua visão de narradora é desse recorte isolado. Como se não houvesse mais nada.

E realmente não tem. Quando as duas se unem para sobreviver de qualquer forma, é porque elas sabem no fundo que só podem contar uma com a outra. Nem se menciona o horror do mundo, mas ele invade a casa de qualquer jeito.

Este choque das personagens femininas com o mundo é uma marca nas histórias de Shirley Jackson. Eu teorizei aqui, numa resenha do conto da autora A Loteria, sobre o choque com a tradição. O mesmo ocorre em Sempre vivemos no castelo, porque as irmãs presenciam a reação da população quanto ao crime cometido. Parece que o horror está mais na massa que vira uma voz violenta e assassina, do que no envenenamento.

Em contraste a essa sociedade cruel, Shirley Jackson mostra a delicadeza e a inteligência criativa das jovens protagonistas e o apoio que elas encontram na natureza. O gato é humanizado, ele e o bosque, os jardins, a horta, tudo o que a natureza cede, não julga as garotas e nem têm segundas intenções. Então se a comunidade acha que as garotas estão isoladas, infelizes, elas se erguem firmes e eternas. Parece até que a natureza ajuda a sarar a ferida na casa: criam-se videiras quase como se o terreno cuidasse das meninas, mais do que qualquer adulto.

A comunidade perigosa usa do ódio para se impor. Depois, usam a culpa para aparentar arrependimento. O que é interessante é Merricat reparar que mulheres estavam cozinhando para elas, enviando comida. Não se sabe se por remorso ou se elas entendiam o que se passava com as irmãs: uma hora a comida ia acabar. Nas mãos das mulheres está, como demonstra Shirley Jackson, a verdadeira sobrevivência. Porque de tão treinadas para cozinhar e alimentar famílias enormes, elas sabiam e muito. A ponto de reerguer um castelo e de recriar felicidade, mesmo que o mundo estivesse inteiro odiando-as.

Neste ponto, Sempre vivemos no castelo é forte. Mesmo que haja uma ambiguidade nesse isolamento, podemos nos perguntar se é saudável para elas, naquele caso não tem mundo além dos muros daquela cidade. Tudo o que elas têm é a casa e a natureza.

Lembrando que castelos têm torres onde inimigos eram assassinados, quartos e cozinhas, fortes de proteção, bibliotecas, hortas. E remorsos. Sempre vivemos no castelo reinventa o lar quando as meninas reinventam o sentido de família, fazendo da cozinha um forte de resistência feminina, firmes tais quais as suas antepassadas na estante, sobrevivendo pela memórias dos doces e das geleias.

Escrevi aqui sobre A assombração da casa da Colina, de Shirley Jackson, obra que toca também no tema da relação da casa, da mulher e dos fantasmas da personagem com a mãe. E ainda abordei o choque entre tradição e cultura no conto A Loteria.

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