Atores veteranos, grandes diretores e as cinebiografias

Com grandes estreias no final do semestre – três biografias, Elsa & Fred com dois grandes veteranos do cinema e a vontade de falar sobre os diretores atuais – o Zona Crítica organizou suas já tradicionais listas. Abaixo você pode conferir as minhas indicações e o link para acessar as listas completas!

Melhores atores veteranos 

Judi Dench: Vencedora do Oscar e de 6 BAFTA, Judi Dench encantou não apenas o cinema, mas o teatro e a televisão. Já interpretou a dona do Folies Bergère no filme não tão bem sucedido Nine (vale pela Judi cantando entre plumas rosas), a fria e rígida Lady Catherine de Bourgh em Orgulho e Preconceito (2005) ou ainda suas participações como a personagem M em James Bond. Os dois últimos grandes sucessos foram O Exótico Hotel Marigold e Philomena – que concorreu ao Oscar 2014, ambos apresentando a terceira idade como uma fase que precisa ser protagonista de filmes que os tomam com humanidade. O trabalho de Judi é de uma beleza que se destaca justamente pela sutileza com que ela trata os sentimentos humanos em seus personagens. Philomena, por exemplo, é frágil e destemível ao mesmo tempo. Vale acrescentar que a atriz está envolvida em vários projetos, incluindo um filme em produção, da BBC, que adapta a obra Richard III, de Shakespeare.

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Melhores e piores cinebiografias

Frida (a melhor): Este é um ótimo filme para compreender a profundidade da arte na vida de Frida Kahlo como forma de sobrevivência. O filme expõe a biografia da pintora de modo que possamos entender as camadas de simbolismo na sua própria pintura. Pelo menos foi a maneira que eu passei a me interessar mais pelas obras dela quando era adolescente e descobri uma pintura que explora cores fortes, aparentemente alegres, para situar a mulher de uma maneira heróica, porém, humana, dando espaço para uma mistura entre alegria e melancolia. Vemos as fases de vida de Frida no filme e como elas se refletem na composição dos quadros. Como ela viveu a sua vida, o romance conturbado com o artista Diego Rivera e o desejo de Frida em encontrar a liberdade para criar.

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Melhores diretores da atualidade

Wes Anderson: Wes Anderson criou uma estética própria aos seus filmes, uma paleta de cores pastéis, takes que se assemelham à dramaticidade do teatro, uma trilha sonora indie, o gosto pelo curiosamente estranho e os enredos agridoces. Moonrise Kingdom, Os Excêntricos Tenenbaums, A vida marinha de Steven Zissou e O Grande Hotel Budapeste poderiam muito bem ser crônicas de um universo de Anderson. Eles têm em comum uma narrativa que expõe os pequenos casos e as pessoas com comportamentos singulares como verdadeiros protagonistas: é o escoteiro que foge para viver seu primeiro amor, são as histórias do passado de um hotel, ou até mesmo uma raposa que lidera a sua família no stop motion O Fantástico Sr.Raposo. E o melhor nos filmes de Anderson é como o próprio filme sabe que é artifício. Ele sabe que é um filme, que há um espectador e como o humor irá funcionar justamente pelo ator e pelo espectador guardarem o segredo: estamos vendo uma ficção. Os atores formulam personagens com as reações caricatas porque, no fim, um filme é ainda uma história, uma produção humana. E estamos lá para ouvir uma que será singular, e poderá ser contada de várias formas. E a de Anderson é uma grande peça teatral, um conto que explora as maravilhas dos pequenos fatos curiosos.

Michael Haneke: Não é por causa das indicações recentes ao Oscar que Haneke consta nesta lista. O seu trabalho, em filmes como Amor e A fita branca, demonstram como o diretor parece capturar as emoções humanas direto da fonte. Ele não utiliza subterfúgios para que essa emoção seja exaltada, que se destaque aos nossos olhos. Ela é comedida e, por isso mesmo, muito realista. Ver o envelhecimento e a proximidade da morte em Amor, o peso da convivência de décadas e a responsabilidade até mesmo pela saúde do outro soam aqui, com o trabalho de Haneke, tudo aquilo com o qual nos deparamos e preferimos não discutir. Por isso o silêncio fala bastante nos filmes de Haneke. Ou o P&B em A fita branca dá o tom certo para a atmosfera sombria que se constitui no filme, numa narrativa que é sombria justamente pelos pontos principais que Haneke explora: a violência e a vulnerabilidade humana. Somos feitos de inúmeras camadas sociais, culturais, mas principalmente escolhas e atos que constituem a nossa identidade. Ver isso na tela com uma clareza que aparece em cena, muitas vezes sem explorar frases explicativas demais, mas expondo a verdade, é a grande façanha de Michael Haneke.

Doctor Who: antes do especial de Natal, vamos falar da season finale

Matéria publicada no site Zona Crítica

COM SPOILERS

No tempo humano posso até estar com um atraso de um mês, mas quando se trata de tempo e Doctor Who, posso dizer que estou relativamente atrasada para escrever essa resenha sobre o final da 8ª temporada. Então ela finalmente chegou. Se o 12th Doctor demorou duas semanas para trazer um café para a Clara, a resenha tem lá um atraso aceitável.

No dia 8 de novembro pudemos conferir a season finale da série britânica da BBC Doctor Who. Com uma temporada de 12 episódios, foi possível constatar, então, o arco proposto por Moffat lá em Deep Breath sendo, agora, concluído. Enquanto o Natal não chega com o especial da série, é válido fazer algumas considerações do que ocorreu até então e as expectativas deixadas para a próxima temporada. Para você não se sentir perdido nesta linha temporal, eu fiz uma matéria sobre a primeira metade da temporada, do episódio Deep Breath até o Kill the moon (aqui).

Se houve uma queda de qualidade em relação ao roteiro nos episódios The Caretaker e uma dúvida quanto à composição da Clara enquanto personagem em Kill the moon, em Mummy on the Orient Express, o oitavo episódio, pudemos conferir uma recuperação na amizade entre o Doctor e a Clara. Este seria o último destino para a companion que havia pedido para deixar de viajar com o Doctor. Além da ótima surpresa de ver Foxes cantando uma versão de Don’t stop me now, do Queen, com todo o charme do jazz (aqui), o episódio apresentou a perspicácia do Doctor em descobrir a origem da misteriosa múmia que perambulava pelo Expresso do Oriente sem ser visto pelos tripulantes. Uma múmia que, se vista por alguém, declarava que a pessoa estaria morta nos próximos segundos. Aqui o roteiro foi bem planejado, com algumas surpresas no enredo , fotografia e figurino bem equilibrados.

Mummy on the Orient Express foi seguido pelo excelente Flatline. Após as incongruências que me incomodaram quanto às alterações bruscas de roteiro no comportamento da Clara,em Flatline é possível vê-la em sua melhor forma (em Listen e Deep Breath ela está ótima também). No episódio, a TARDIS encolhe, e além de vermos uma versão adorável, como se fosse aquele toy que você comprou em um site gringo porque não resiste à cabine azul de polícia, temos o Doctor dentro da TARDIS encolhida. Como ele não consegue sair, precisa contar com a ajuda da Clara que, assim, assume o papel de Doctor para resolver essa falha e descobrir o que está ocorrendo em Bristol. Pessoas estão sumindo e, para homenageá-las, uma equipe de grafiteiros cria um memorial em que há as silhuetas daqueles que sumiram. Clara então, descobre, que aquele não é um memorial qualquer e que pode levá-los à recuperação daqueles que sumiram.

Flatline foi uma espécie de teste para ver se funcionaria ter uma versão feminina do Doctor. O episódio, escrito por Jamie Mathieson, traz um frescor à temporada por inserir elementos clássicos do enredo sci-fi, além das referências fantásticas ao mundo pop como A Família Addams. O episódio não perde o ritmo e nem o humor em nenhum momento e termina de modo misterioso, deixando uma abertura para o trabalho de Moffat na season finale.

O Doctor saindo da TARDIS encolhida é o mesmo que tentar sair do ônibus todo dia.

In the Forest of the Night foi o décimo episódio e trouxe algumas semelhanças com contos de fadas clássicos e uma atmosfera semelhante às Crônicas de Nárnia. O episódio não colabora para o enredo geral da temporada, mas ele aparece como uma pausa aceitável antes de entrar nos dois episódios que constituem a season finale. Maebh bate na porta da TARDIS pedindo ajuda ao Doctor ao mesmo tempo em que Londres perde sua aparência cinzenta e é coberta por árvores. Em seguida descobrimos que o mundo inteiro está entre folhas. É função do Doctor, então, compreender qual é a ligação que há entre esse fenômeno e as vozes que a menina Maebh escuta. A relação entre a Clara e Danny Pink, o professor de matemática com quem ela trabalha, se estreita aqui, finalmente se mostrando mais realista e profunda. E não a comédia romântica esquisita do episódio The Caretaker.

In the Forest of the Night também dá espaço a um bom elenco de crianças que proporcionam ao episódio a delicadeza de um filme infantil. É verdade que o que foi qualidade do episódio inteiro acabou gerando um final bizarro, em que a menina Annabell, que estava sumida, surge dramaticamente de uma moita, em um final que gerou memes pela internet e o inevitável riso diante da cena mal feita. Também vale ressaltar que, com esse episódio, veio novamente a observação de que falta, na 8ª temporada, mostrar a grandiosidade do caos no planeta Terra que já é conhecida na série. No caso dos episódios Kill the Moon, In the Forest of the Night houve a chance de proporcionar essa experiência e isso não ocorreu.

Não é necessário transformar todo episódio no fim do mundo, como víamos na era do Russell T. Davies. De fato, funcionava em vários episódios e a verdade é que, às vezes, temos a nostalgia dos tempos do 10th. Mas Steven Moffat tem uma proposta diferente e igualmente válida à série no trabalho das temporadas anteriores, com uma linha temporal intrincada que amplia as chances de ver o fantástico de maneira nova e singular. O que aconteceu na 8ª temporada, porém, foi que os momentos em que era possível amplificar a dimensão desse caos na Terra, vimos o planeta esvaziado. O caos não foi representado. Nós o vemos apenas da lua, distante, as pessoas que votaram pela destruição da criatura que surgiu da lua pareciam abstratas e seus votos nem foram considerados, vale lembrar. In the Forest of the night, vemos apenas a cidade se recuperando. Mas é uma cidade vazia. Faltou, portanto, expor as pessoas que pertencem a esse planeta de modo que prossiga com o grande acerto da série, que é o contato humano e a admiração profunda que o Doctor sempre teve em relação ao planeta Terra.

Foi com essa expectativa que assisti aos dois episódios da season finale, Dark Water e Death in Heaven. O primeiro se inicia de modo surpreendente e desesperador, um grande acerto que conduz o enredo do episódio. Nele, finalmente vemos a relação da Clara e Danny ascender a um patamar significativo, e as pistas deixadas em episódios anteriores ganham forma. A tão esperada aparição da personagem Missy é o que agrada o espectador na finale. A crueldade com que ela mata, a sua identidade revelada no final do episódio, a versão que ela assume como uma Mary Poppins evil, tudo funciona em Missy. Moffat constituiu uma vilã cativante, tão perspicaz quanto o Doctor, irônica e com um humor afiado, que esperamos ver em futuros episódios.

Dark Water permite pensar sobre a vida após a morte de maneira criativa, envolvendo uma dimensão temporal, em que existe uma cidade para os mortos. E são esses mortos, adormecidos, que Missy pretende trazer novamente à vida. Da terra eles surgirão como Cybermen. Sim, eles estão de volta, como o exército de Missy. E é com essa premissa que seguimos para o último episódio, Death in Heaven. Novamente, a grandiosidade que se esperava ao presenciar a possibilidade de Missy conseguir um planeta povoado por Cybermen, de mortos voltarem agora na forma metálica de um ciborgue, se perde, em um roteiro que não parece com uma finale. A série teve acertos impecáveis em alguns episódios da temporada. A surpresa que temos ao saber que a Missy é uma regeneração do Master, Time Lord com quem o Doctor viveu em Gallifrey e inimigo recorrente na série clássica e que apareceu na 4ª temporada da nova série, se torna a promessa de uma grande história. Contudo, ela não é trabalhada de modo que a finale intensifique a rivalidade entre o Master e o Doctor e a urgência de salvar a Terra desta ameaça. Novamente, o planeta parece esvaziado e um arco que poderia ter rendido um grande enredo final perde sua dimensão diante de tantas histórias independentes nos episódios anteriores. O que poderia ser excelente soa apenas como bom e apropriado, sem um clímax na finale.

Isso não quer dizer, porém, que a série tenha sua qualidade ameaçada. Fica evidente que o Moffat está iniciando seu trabalho na composição do Doctor agora com Peter Capaldi, que tem um enorme potencial de tornar o 12th em uma versão muito profunda desse Time Lord que já viu o início e o fim dos tempos. O peso deste personagem é bem delineado em Listen, principalmente, e a 8ª temporada deixa no ar a expectativa de se ver muito mais do 12th como esse homem feito por um passado infinito e cheio de nuances.

Clara Oswald, a companion

Vale abrir um espaço aqui para falar um pouco sobre a composição da Clara como companion do Doctor. A liderança dela fica bem demarcada em Flatline e é conduzida com maestria pelo roteirista, e aqui novamente se insiste na comparação entre ela e o Doctor, que o Moffat, enquanto showrunner e roteirista da série, propõe em seus episódios.

O que ocorre é que o showrunner optou por construir essa comparação entre a companion e o Time Lord de modo que considerássemos que houve uma mudança no comportamento de Clara quando ela conheceu a nova faceta do Doctor. Se na era do 11th, com Matt Smith, Clara tinha ainda a doçura e a leveza que constituía a atmosfera deixada por Amy e Rory, da 5ª a 7ª temporada, na 8ª a impossible girl que a Clara foi dá lugar a uma personagem mais forte e mais convicta de sua importância.

Essa sua faceta surge, talvez, até mesmo como uma defesa diante do novo comportamento do Doctor, um sujeito já demarcado pelas guerras e mais sombrio e esquivo. É aceitável esse novo caminho que ela assume, uma mulher que ganha mais espaço no enredo, mais do que a Amy teve enquanto personagem que participa ativamente das cenas, na fase anterior. Mas há um problema que permeia a 8ª temporada: enquanto a Amy Pond – uma personagem que podia ter sido melhor trabalhada enquanto companion, mas que funciona porque é bem interpretada pela Karen Gillan – teve um enredo profundo e com arcos propostos em torno de sua vida e a de Rory, a história da Clara Oswald se mostrou bagunçada e confusa. Ela é a impossible girl e muito mais, uma mistura que poderia render um arco excelente, com uma complexidade bem amarrada.

Sabíamos que, ao adentrar na 8ª temporada, o enredo da Impossible girl como aquela que esteve em toda a linha temporal do Doctor havia ficado para trás. A questão é que esse fato – que deveria ganhar um destaque maior no enredo para aprofundar o psicológico da personagem – fica abandonado, esquecido. A Clara, em cada episódio, vinha com uma formulação distinta. E isso confunde, dificulta a identificação do espectador com ela. Há acertos na tentativa de torná-la mais ativa e importante, já que é preferível ver uma companion que nos represente enquanto personagem que pode viajar com o Doctor, e principalmente, que seja relevante na própria vida dele, que tenha seus próprios dilemas postos em contraste com a história incomensurável do universo.

Agora, para o especial de Natal, veremos Doctor e Clara conhecendo o Papai Noel, personagem que até, então, eu imaginava ser fictício entre os humanos da série. Parece que ele é tão invisível quanto o Doctor em suas ações anuais para trazer o Natal – ou salvar a Terra – conforme a Terra requisita. E, por enquanto, Moffat confirmou que Peter Capaldi permanece na 9ª temporada, mas ainda não sabemos se Jenna Coleman, a Clara Oswald, sai agora no especial de Natal ou se permanece pelo menos até metade da próxima temporada. Espero que ela fique e seu enredo seja amarrado de forma inteligente, para encerrar bem o sue longo ciclo. O que sabemos é que o ano de 2015 guarda infinitas viagens com o Doctor no interior da TARDIS.

Bordel-Museu: O sonho raro e estranho registrado por Baudelaire

Matéria publicada no site Literatortura 

courbet_portrait_baudelaire_1848_mediumO medo pode residir no inesperado do sonho. Nas verdades ocultas nos signos de um cenário que vemos apenas entre sombras e por trás das cortinas. Nas palavras podem morar mundos. E são as sensações de mistério e quase impotência diante das verdades ocultas da existência humana que encontramos ao ler o sonho do bordel-museu, escrito pelo poeta Charles Baudelaire, e abordado no livro A Folie Baudelaire, de Roberto Calasso. Neste livro, o autor italiano analisa o sonho de Baudelaire e a edição lançada em 2012 pela Companhia das Letras traz provavelmente a única tradução disponível em português do sonho. Pouco se conhece sobre este sonho que Baudelaire teria escrito à mão, em um registro veloz, para não perder o frescor das últimas imagens que viu ao acordar. Por isso, nesta matéria, como comemoração do Halloween, você poderá lê-lo.

Mas antes de conhecê-lo é necessário saber que Baudelaire transcreveu este sonho numa carta para Asselineau, um amigo que, posteriormente, cuidaria de reunir seus papéis. No dia 13 de março de 1856, numa quinta-feira, Baudelaire é acordado de um sonho pelo arrastar dos móveis de Jeanne, a cortesã com quem mantinha um relacionamento. Por que é válido conhecê-lo? O sonho, na leitura de Roberto Calasso, irá revelar muito do próprio contexto que Baudelaire vivenciava na época. E o mais curioso é constatar, enquanto leitor de ambos, que o sonho revela muito mais do autor francês que existe em nosso imaginário.

Há vários pontos que podem ser vistos no capítulo O sonho do bordel-museu que Roberto Calasso desenvolve em seu livro.  Mas preferi abordar apenas alguns deles e, principalmente, deixar aqui o sonho de Baudelaire para ser lido, um ótimo achado para repensar o grotesco e o estranho que conseguem ser poéticos também. Depois do sonho transcrito, há uma breve exposição do que Calasso interpretou dele e como podemos entendê-lo.

“Eram (no meu sonho) 2 ou 3 horas da manhã, e eu passeava sozinho pelas ruas. Encontro Castille, que tinha, creio, várias incumbências a cumprir, e eu lhe digo que o acompanharei e aproveitarei a carruagem para executar um encargo pessoal. Então, tomamos uma carruagem. Eu considerava meu dever oferecer à dona de uma grande casa de prostituição um livro meu que acabava de sair. Ao olhar meu livro, que eu trazia na mão, aconteceu de ser um livro obsceno, o que me explicou a necessidade de oferecê-lo a essa mulher. Ademais, em minha mente, essa necessidade era no fundo um pretexto, uma oportunidade para trepar, já que estava ali, com uma das moças da casa, e isso implica que, sem a necessidade de oferecer o livro, eu não ousaria ir a semelhante casa. Não digo nada de tudo isso a Castille, mando a carruagem parar à porta daquela casa e deixo Castille na carruagem, prometendo a mim mesmo não fazê-lo esperar muito. Logo depois de tocar e entrar, percebo que meu pau pende da abertura desabotoada da calça, e julgo indecente me apresentar assim, mesmo num lugar daqueles. Além disso, ao sentir os pés muito molhados, percebo que tenho os pés nus, e que os meti numa poça úmida na base da escada. Bah! – digo a mim mesmo -, vou lavá-los antes de trepar, e antes de sair da casa. Subo. A partir desse momento, o livro não aparece mais.

Encontro-me em vastas galerias, comunicantes entre si – mal iluminadas -, de aspecto triste e decadente, como os velhos cafés, os antigos gabinetes de leitura, ou as casas de jogo vagabundas. As moças, espalhadas por essas vastas galerias, conversam com uns homens, entre os quais vejo alguns colegiais. Sinto-me muito triste e muito intimidado; temo que vejam meus pés. Olho para estes e percebo que um traz um sapato. Pouco depois, percebo que ambos estão calçados.

O que me impressiona é que as paredes dessas vastas galerias estão ornadas de desenhos de todo tipo – emoldurados. Nem todos são obscenos. Há até desenhos de arquitetura e figuras egípcias. Como me sinto cada vez mais intimidado, e não ouso abordar uma moça, divirto-me em examinar minuciosamente todos os desenhos.

Numa parte recuada de uma dessas galerias, encontro uma série muito singular. Em meio a uma multidão de pequenas molduras, vejo desenhos, miniaturas, provas fotográficas. Representam pássaros coloridos com plumagens muito brilhantes, e cujo olho é vivo. Às vezes, há somente metades de pássaros. Às vezes representam imagens de seres estranhos, monstruosos, quase amorfos, como aerólitos. No canto de cada desenho, há uma anotação. – Tal moça, de tal idade…, deu à luz este feto em tal ano – e outras anotações do gênero.

Vem-me a reflexão de que esse tipo de desenho não é nem um pouco feito para inspirar ideias de amor.

Outra reflexão é esta: Realmente só existe no mundo um jornal, e é Le Siècle, que possa ser suficientemente estúpido para abrir uma casa de prostituição e para instalar ali, ao mesmo tempo, uma espécie de museu médico. De fato, penso de repente, foi Le Siècle que financiou esta especulação de bordel, e o museu médico se explica por sua mania de progresso, de ciência, de difusão das luzes. Então reflito que a estupidez e a tolice modernas têm sua utilidade misteriosa, e que muitas vezes, por uma mecânica espiritual, aquilo que foi feito para o mal se transforma em bem.

Admiro em mim mesmo a justeza de meu espírito filosófico.

Mas, entre todos aqueles seres, há um que viveu. É um monstro nascido na casa, e que se mantém eternamente sobre um pedestal. Embora vivo, faz parte do museu. Não é feio. Seu aspecto é até gracioso, muito moreno, de uma cor oriental. Há nele muito rosa e muito verde. Está agachado, mas numa posição esquisita e contorcida. Além disso, há algo negrusco que faz várias voltas em torno dele e de seus membros, como uma grande serpente. Pergunto-lhe o que é aquilo, e ele me diz que é um apêndice monstruoso que parte de sua cabeça, algo elástico como borracha, e tão comprido, tão comprido, que se ele enrolasse na cabeça como se fossem cabelos, o peso seria muito grande e absolutamente impossível de aguentar, e que por isso é obrigado a enrolá-lo ao redor dos membros, o que, aliás, faz um efeito mais bonito. Converso longamente com o monstro. Ele me informa de seus tédios e de seus pesares. Já faz muitos anos que é obrigado a permanecer naquela sala, sobre aquele pedestal, para a curiosidade do público. Mas seu principal aborrecimento é a hora da ceia. Como é um ser vivo, é obrigado a cear com as moças do estabelecimento, a caminhar cambaleando, com seu apêndice de borracha, até a sala da ceia, onde precisa mantê-lo enrolado em torno de si ou instalá-lo como uma pilha de cordas sobre uma cadeira, porque, se o deixasse arrastar-se pelo chão, isso faria sua cabeça tombar para trás. Além disso, é obrigado, pequeno e atarracado como é, a comer ao lado de uma moça alta e bem-feita. De resto, me dá todas essas explicações sem amargura. Não ouso tocá-lo, mas me interesso por ele.

Nesse momento (isto já não é sonho), minha mulher faz barulho com um móvel em seu quarto, o que me acorda. Acordo exausto, prostrado, com as costas, as pernas e os flancos moídos. Presumo que estava dormindo na posição contorcida do monstro”.

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A interpretação de Roberto Calasso para o sonho

Primeiro, a leitura do sonho, quase um conto, deixa uma sensação densa quando terminado, como se estivéssemos contorcidos na cama igual a Baudelaire. Para entendê-lo, Roberto Calasso irá apontar algumas interpretações para os elementos encontrados no sonho. Há uma insegurança, por parte de Baudelaire, em adentrar no bordel com os pés descalços, o que indicaria uma fragilidade de sua exposição enquanto autor. Parece que ele deseja, no sonho, entregar a uma prostituta a obra Histórias extraordinárias, de Poe, a qual ele mesmo traduziu à época. Há três elementos que Calasso aponta serem de suma importância, e na própria leitura do sonho, se mostram urgentes: Baudelaire entra no bordel com o genital à mostra, com o “dever” de entregar um livro que, nas palavras dele, “aconteceu de ser um livro obsceno”; o segundo elemento é seus pés descalços, que Baudelaire se sente envergonhado por expor – mais do que o órgão sexual. Os pés descalços trazem uma obscenidade maior: Baudelaire tem vergonha de existir e de levar o seu livro para o bordel e, ao entrar no recinto, não sente que sua presença seja digna. E o terceiro elemento será a presença do monstro.

A questão colocada por Calasso, na sequência, é concluir que não se trata da obra de Poe traduzida, mas sim As Flores do Mal, que Baudelaire leva para o bordel. Numa casa de prostituição, onde não existe o pudor e tudo é permitido, Baudelaire se sente envergonhado por introduzir a obscenidade ao levar o seu livro. Irônico, não? Antes mesmo de ter concluído sua obra, o sonho já parecia indicar o interesse do autor pela temática. Mas indica também a complexidade em assumi-la, afinal, Baudelaire sentia o peso que seu livro tinha em suas mãos no sonho. E o curioso é que As Flores do Mal foi publicado posteriormente e condenado na época justamente por “obscenidade”.

Além disso, para Calasso, Baudelaire se sente exposto, e há até mesmo o receio de que seja interpretado como um mero exibicionista. Os pés aparecem nus, Baudelaire vê e deseja pelos sapatos que surgem no sonho, o que mostra a oscilação do sujeito na modernidade: Baudelaire mantém a dúvida sobre a sua criação, mas deseja apresentá-la sem deixar de encontrar o peso de uma possível crítica feroz à sua obra. E esta obra parece ser mais obscena, para Baudelaire, do que um bordel.

Eu acrescento à interpretação de Calasso que as paredes têm imagens que alternam entre a obscuridade e quase um registro médico da mesma forma que existe uma interferência da ciência enquanto progresso no século XIX. Aos poucos o ideário de progresso passa a mostrar que há um caminho tortuoso e até mesmo sombrio e excludente, mesmo com uma herança de esclarecimento das Luzes. É o que Baudelaire presencia, este submundo no qual prostitutas e poetas são recusados por um contexto que pede o “progresso”. E neste bordel, a verdade fica exposta nas paredes, as imagens de fetos estão lá para serem lembradas das inúmeras perdas dessas mulheres que encontram apenas um caminho tortuoso pela frente.

O artista se sente vulnerável, tal qual Baudelaire com seus pés nus, no cenário onde tudo se mescla em nuances muito difíceis de serem diferenciadas: há a mistura entre a figura do poeta e do monstro, as imagens na parede, a obscenidade no bordel e no gesto de Baudelaire.

Por isso, identifico no sonho-conto uma grande representação do cenário da modernidade. O poeta se depara com o monstro porque nele reside o encanto daquele que encontra a essencialidade do mundo pelas palavras. O sonho fala a Baudelaire por enigmas que ele mesmo busca quando escreve. E isso não é fácil de carregar, é tão obsceno quanto andar descalço para os críticos e até mesmo ao público geral. É obsceno porque ocasiona o incômodo por ter algo diante de você, na palavra escrita, que possui um significado, mas está oculto aos seus olhos. E mesmo assim, o significado está pulsando nas palavras. É quase um sabor deixado na boca.

Baudelaire se identifica como monstro, primeiramente, porque nele está o ar do ser curioso e esquisito que o artista ganha ao preservar sua singularidade na massa. O artista se sente também numa exposição constante porque encontra a oposição do outro e ainda parece dever a ele uma investigação sobre o mundo. Como aliar os dois? É isso o que Baudelaire procura no monstro. Como Calasso diz, o autor estaria vendo a si mesmo. Ou acrescentando um ponto à conclusão dele, Baudelaire está identificando as várias complexidades ao ser um escritor. Ele teme pela obscenidade, ousadia e efeitos de suas palavras no texto, mas consegue ver o peso que carrega e a dignidade em ser um artista.

A tradução e a primeira análise do conto foram encontrados no livro A Folie Baudelaire, de Roberto Calasso, editora Companhia das Letras, 2012.

Mickey Mouse e um zumbi no curta-metragem para o Dia das Bruxas

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Matéria publicada no Zona Crítica

Na sexta-feira, dia 31, é comemorado o Halloween, o dia das bruxas. O costume é norte-americano, mas quando o mês de outubro se inicia, é quase inevitável a vontade de procurar por enredos sombrios. No caso, não é bem sombrio. O Halloween também pode ser comemorado ao aliar o humor das animações infantis às surpresas de uma criatura assustadora.

Mickey Mouse, o rato mais conhecido na história do cinema, ganhou um curta-metragem que retoma a atmosfera de suas histórias clássicas. O rato magrelo de calças vermelhas – que se tornavam pretas nas películas P&B – desta vez se vê face a face a uma versão zumbi do Pateta.

O curta-metragem “Amigo Zumbi” foi escrito e dirigido por Aaron Springer, para o especial anual de curtas para o Halloween. Mickey não encontra uma ferramenta para consertar o motor de seu carro, mas se depara com um zumbi despedaçado, com os ossos à mostra e incrivelmente lento. Os detalhes da animação, a sincronia entre a trilha e a corrida desesperada de Mickey dão o tom de humor já conhecido dos estúdios Walt Disney em seus curtas ao breve enredo. Uma boa forma de entrar no clima do Halloween!

Você pode assistir AQUI 

O Rei de amarelo, de Robert W. Chambers

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Resenha publicada no site Indique um livro

Uma peça que conduz o personagem ao desespero sem fim ao notar que, talvez, não haja saída para o próprio mundo. Que o encontro com a peça é o mesmo que o encontro com a morte na forma do Rei, do amarelo, de Carcosa. Palavras que supostamente atingem o ponto mais extremo do belo aproximam o leitor da loucura. Cada pessoa que se depara com a capa de amarelo pardo, quase peçonhento, se vê numa vida de sofrimento interminável. Esta é a história que permeia quatro dos dez contos do livro O Rei de Amarelo, escrito por Robert W. Chambers em 1895 e traduzido agora pela editora Intrínseca.

Os contos são interligados e apresentam personagens de diferentes épocas, as quais com muita atenção passamos a identificar como próximas ou distantes por elementos que aparecem em um ou outro conto. O livro de Chambers ficou reconhecido como um dos precursores do terror cósmico, da chamada weird fiction que apresenta uma mistura entre o terror e o gênero sci-fi. Ele inspirou autores como Lovecraft, Neil Gaiman, Stephen King, distopias do século XX e até mesmo a série True Detective.

E mais ainda: Chambers, neste único volume de contos do gênero publicado em 1895, constrói um enredo futurista com o espírito decadentista do XIX. O cenário é o que podemos considerar uma sociedade totalitária nos Estados Unidos, em que o governo instituiu uma Câmara Letal onde as pessoas podem se suicidar. É desta forma que somos apresentados ao primeiro conto, O reparador de reputações. Nele, ficamos horrorizados tanto por esse cenário – com a perspicácia do autor – e o sonho do protagonista, Castaigne, em desejar uma melhora de vida, aceitando participar de um projeto ambicioso com o misterioso Sr.Wilde, clara referência ao autor Oscar Wilde.

O cenário do primeiro conto retorna em pequenas nuances no segundo conto, mas parecendo ser uma realidade alternativa. Em A máscara, Chambers ironiza o formato das novelas românticas e a literatura policial, além de expor o avanço da ciência como uma proximidade ao vício pela imortalidade. É um conto com belas imagens na narrativa, como a presença do mármore, o lírio e a doçura de Geneviève. No Pátio do Dragão vemos um conto mais breve, que traz um jogo narrativo muito inteligente, pois aos poucos passamos a questionar o que pode ser real ao personagem.  Já O Emblema Amarelo é o melhor da coletânea e tem uma atmosfera bem mais sombria que os demais, alternando entre sonho e realidade como uma forma de mostrar que o terror pode estar em ambos os mundos.

Depois destes quatro contos, o livro segue com A Demoiselle d’Ys, o qual conduz o leitor a imaginar como seria Carcosa, o local onde reside o Rei, além de propor uma narrativa romântica em meio à viagem no tempo. Ele é seguido por uma pequena prosa chamada O paraíso do profeta, que precisa ser relida devido às mensagens nas entrelinhas para se compreender como o homem está sempre entregue à perdição.

Na sequência, a coletânea insere os quatro contos restantes que são independentes da trama dos quatro primeiros, pois são contos fantásticos e românticos, A rua dos Quatro Ventos, de escrita leve e delicada ao contar a rotina do protagonista com uma gata misteriosa, A rua da primeira bomba,com uma narrativa doce que se passa na Paris em pleno bombardeio prussiano entre 1870-1871, A rua da Nossa Senhora dos Campos, que apresenta uma riqueza de detalhes na descrição dos jardins onde o protagonista estuda, e por fim Rue Barrée, que conta com um desfecho inteligente e alegórico. Estes contos estão na coletânea, pois essa separação entre ruas também sugere as realidades alternativas e, dentro dos enredos, há determinados elementos que proporcionam pequenas infelicidades aos personagens que acabam por servir como uma referência à presença da peça. É como se o autor indicasse que em qualquer situação, haverá esse acaso infeliz. Porém, nestes últimos contos mais realistas, Chambers apresenta a possibilidade de se conviver isso, que a existência pode ser feita dessas camadas.

O Rei de Amarelo é uma obra que só foi traduzida este ano, pela primeira vez, ao português, numa bela edição da Intrínseca (e com cheiro de giz de cera, devo ressaltar, para quem gosta de cheiro de livros). A letra, a diagramação, a capa em amarelo pardo e o desenho com traços de art nouveaucompensam a espera por este livro que poucas pessoas conhecem.

É com facilidade que o leitor se vê absorto na leitura de O rei de amarelo. Além de ser próximo de um exercício investigativo, a obra bem construída por Chambers nos leva a desejar conhecer mais do mundo que parece estar debaixo da pele, vivo numa peça, na mente humana, nos pátios vazios e igrejas, no desejo por alcançar a perfeição ao criar uma obra. Os personagens dos contos são pintores porque eles estão próximos do belo e do intento de traduzir o indizível numa obra de arte. Carcosa, o lugar que pertenceria ao Rei, seduz porque é o desconhecido. O amarelo que reluz dela, na mente destes personagens que desejam ler a peça até o final, demonstra que é a ilusão a grande companheira da Morte. A loucura do próprio homem instável.

E uma dica: compensa bastante acompanhar a leitura com as notas de rodapé ao fim de cada conto, durante a leitura, pois elas são pistas para que você passe a identificar as nuances da narrativa que indicam a possibilidade de dimensões alternativas. Por isso, é bom ler a nota assim que ela for indicada no texto. E ainda há uma excelente introdução de Carlos Orsi no volume, que explica a dimensão da obra e a sua influência para outros autores.

13 animações essenciais para entrar no espírito do Halloween

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Matéria publicada no site Literatortura

Tempestades que levam a castelos e casas mal-assombradas, criaturas estranhas que usam máscaras, caveiras e fantasmas dançando, a loucura como a origem do pior medo. Estas são as mais diversas histórias que podemos encontrar no gênero do terror. E melhor ainda se forem carregadas pelo humor e pela atmosfera bizarra das animações criadas no século XX por grandes estúdios como Walt Disney.

Nesta matéria, você poderá conhecer curtas de animação de grandes estúdios que produziram filmes adoráveis inspirados nos mais diversos clichês que, pelo desenho, podem ou não assustar. É aí que reside a surpresa. Por que ver animações para entrar no espírito do Halloween? Porque em qualquer época do ano podemos ter interesse por essas narrativas. Mas quando o mês de outubro se inicia, paira um manto sombrio pelas mentes humanas capaz de aguçar a nossa curiosidade para o estranho, o desconhecido e a vontade de sentir o medo. Porque, afinal, o terror faz com que a gente se sinta no limite de nossas fragilidades, em quase uma aventura em que ficamos entre acreditar ou não numa nova realidade.

E as animações? Elas trazem a magia que a criança tem ao ver que o medo pode ser convertido em algo engraçado, que uma caveira pode, no fim, nos surpreender e dançar. E assim diluir os medos. A época é de histórias de terror, abóboras, doces, fantasmas, filmes, e animações para entrar no clima do mês do Halloween. Abra a porta, distribua os doces e se deixe assustar ou se divertir com as fantasias e histórias a seguir!

Clique no título de cada animação para assisti-las. Tem para todos os gostos, Disney, Coragem o cão covarde, Popeye, Grinch, e muito mais!

Disney: The Skeleton Dance (1929)

Esta curta é um dos mais clássicos da história da Disney. Criado em 1929, a inspiração é a lenda medieval Danse Macabre, na qual a Morte convida os corpos abandonados no cemitério a regressar ao mundo dos vivos para uma dança até o amanhecer. É com humor que a Disney toma o enredo, tornando-o divertido e espirituoso pelos gestos dos esqueletos que acompanham a música e os movimentos certeiros que os personagem trazem a cada trecho. Carl Stalling, compositor da música, numa entrevista em 1971, falou sobre sua inspiração “Desde que eu era criança eu desejava ver esqueletos reais dançando e eu sempre gostei de ver atos no vaudeville com esqueletos dançantes. Como criança, nós gostamos de todas essas imagens e histórias obscuras”. Veja os ossos estalarem!

Mickey Mouse: The Haunted House (1929)

A animação é quase uma celebração à Morte com Mickey. O curta, também de 1929, traz esqueletos dançantes. Ao entrar numa casa para se abrigar de uma tempestade, Mickey descobre que não fez uma boa escolha: é uma casa mal-assombrada. Nela, a Morte o orienta a tocar piano enquanto os esqueletos dançam graciosamente como se estivessem em um salão do século XIX até se apresentarem pelos passos do vaudeville. Destaque para o relógio que sacode a cintura para lá e para cá (quase no ritmo do próprio pêndulo!) e a Morte regendo a música e a festa. Esqueletos dançando e tocando acabou se tornando um clássico, por isso tem também o Skeleton Frolic, que você pode ver aqui 

Gasparzinho: Boo or not to boo? (1951)

Quem não lembra do Gasparzinho? Ou Casper, the friendly ghost. Aqui, o simpático fantasminha deseja fazer amigos, após ler um livro de autoajuda que o faz se sentir confiante para aproveitar o Halloween. Mas os vizinhos estão aterrorizados com ele e abandonam o pequeno na festividade. Em sua tristeza, Gasparzinho acaba conhecendo uma menina que não se mostra assustada com ele, convidando a dançar e revelando que possui mais em comum com ele do que Gasparzinho imagina. O charme da história começa pelo título, uma referência ao ser ou não ser de Hamlet, “assustar ou não assustar?” e as cenas dos vizinhos se assustando são ótimas e criativas.

Coragem o cão covarde: A Máscara

Para ilustrar o clima do Halloween dá para lembrar das aventuras vividas por Coragem em Lugar Nenhum, localizado em um ponto do Kansas, com seus donos Muriel e Eustácio. Na fazenda inóspita e solitária, Coragem via surgir alienígenas, assassinos, criaturas estranhas que desejavam apenas a morte. Para combatê-los, o cãozinho pesquisava no computador para descobrir o que deveria fazer, tentando alertar seus donos, que sempre o ignoravam. O desenho tem uma atmosfera sombria e pesada, com um mal-estar que permanece até o fim. E é com o episódio A Máscara que dá para notar como o desenho consegue trazer uns temas bem densos e adultos para o público infantil. Nele, Coragem é atormentado por uma criatura que se infiltra em sua casa usando uma máscara bem aterrorizante. Mas tem alguns outros que vale muito a pena conferir, que são mais leves, como o divertido O Demônio do Colchão , inspirado em O Exorcista.

Scooby Doo

O clássico cãozinho detetive e medroso – provavelmente a inspiração para o Coragem que veio antes nesta lista – foi a diversão de muitas tardes de sábado. A bordo de uma van toda psicodélica, Scooby ajudava os amigos Fred, Velma, Salsicha e Daphne a desvendar mistérios em pântanos, casas e castelos mal-assombrados. O grande mérito do desenho, além da comédia por parte de Scooby e Salsicha, era mostrar que nem toda criatura esquisita poderia, de fato, existir. Na maioria dos casos, ficava provado que em vez de contar com o sobrenatural, os crimes eram causados por humanos mal-intencionados. Há muitas versões e episódios de Scooby por aí, e que são difíceis de achar, por isso fica este aqui com as melhores cenas para recuperar a nostalgia de acompanhar esse grupo de detetives.

O Gato Félix: Halloween (1927)

Este é um vídeo bem curtinho de uma animação do Gato Félix, que resolve, na noite de Halloween, pregar peças nos amigos usando uma abóbora como máscara. Até que ele é assustado por um porco fingindo ser um fantasma. Um ótimo trocadilho com a expressão “espírito de porco”, além da bela sequência instrumental.

Popeye: Shiver Me Timbers! (1934)

Quem cresceu vendo o marinheiro Popeye se convenceu até mesmo de que espinafre podia garantir uma força heroica. Em Shiver Me Timbers (1934), Popeye se depara com um navio fantasma atracado na praia e resolve subir nele, mesmo que tenha uma placa avisando para ninguém entrar. A sincronia entre as cenas e os sons é bem calculada, com as tábuas do navio se deslocando a cada passo de Popeye ou as vezes em que ele se balança de um lado ao outro batendo no mastro do navio. Mas sempre ao fim Popeye come todo o espinafre de sua lata e fica forte para combater os perigos, até mesmo os sobrenaturais. O curta tem detalhes primorosos, como a onda raivosa que investe contra Popeye ou as luzes piscando vertiginosamente enquanto Popeye está entre fantasmas.

Mickey Mouse: The Mad Doctor (1933)

A tempestade inicial no curta de 1933 da Disney quase força o espectador contra o vento da mesma forma que faz com Mickey, de tão realista. Os relâmpagos sonoros e os raios prateados contrastam com o preto e branco da animação, para anunciar que o perigo está em um castelo, para onde Pluto é levado. Mickey chega até ele para salvar o cãozinho e presencia morcegos assustadores, vários obstáculos em um túnel, caveiras escondidas nos degraus da escada e um médico em um manto negro, que possui planos terríveis para Pluto em seu laboratório. O curta é bem criativoe cada obstáculo neste castelo começa a causar uma aflição e um pouco de desespero pelo Mickey não conseguir sair.animação possui uma atmosfera que o faz ser um dos melhores curtas com Mickey.

Grinch: Halloween is Grinch Night (1977)

Se Grinch tem o desejo de destruir o Natal, imagine se ele puder destruir uma época em que o horror já é bem-vindo como a atmosfera do Halloween. A animação musical de 1977 traz a estética psicodélica e surreal já conhecida nas ilustrações do personagem, preserva os trocadilhos inteligentes na língua inglesa e provocou medo nas crianças que não simpatizaram com Grinch.

The Devil’s Ball (1934)

Este aqui é mais uma animação para os amantes de cinema terem a chance de ver como é possível encontrar um curta em stop-motion criado em 1934, é uma preciosidade. Em preto e branco, a animação tem uns detalhes bem expressivos, como um diabo alto e magro, bonequinhas de porcelana, um misterioso esqueleto de peixe que flutua e uma adorável bailarina passando pó no rosto. A qualidade e o movimento dos personagens em cena, enquanto brinquedos, são ótimas. O curta foi realizado por Johnny Legend and Shout! Factory e, na verdade, The Devil’s Ball é uma pequena história que faz parte da animação The Mascot, a qual mais tarde foi reeditada em um único curta metragem.

Tom & Jerry: Wot a night (1931)

Não, não é o gato e o rato. Mas sim os dois motoristas de taxi que estrelaram curtas de animação entre 1931 e 1933. O curta em questão se inicia com uma ótima sequência na chuva, onde o táxi mergulha com fluidez em poças, as gotas são pequenos traços que cortam a cena, e os fantasmas no castelo dão o tom bizarro ao curta.

Pato Donald: Trick or Treat (1952)

Os sobrinhos do Pato Donald resolvem visitá-lo no Halloween com suas fantasias, enquanto são observados por uma bruxa. Porém, o Pato resolve aplicar umas travessuras de mau gosto em vez de dar os doces. Indignada, a bruxa resolve ajudar os pequenos tentando pregar um peça em Pato Donald.

The Tell Tale Heart, conto de Edgar Allan Poe (1953)

Para finalizar, Edgar Allan Poe não pode se ausentar da lista. No curta de 1953, é contada a história do conto O coração denunciador, em que o personagem passa a se sentir perseguido pelo olho de vidro de um velho, e resolve matá-lo para acabar com seu tormento. Porém, a loucura poderá afundá-lo ainda mais. O curta, diferente dos anteriores, possui uma atmosfera mais sombria e a narração é tão impecável que causa arrepios aos alternar entre os sussurros assustados e os gritos repentinos.

Fonte: aqui e aqui

Sábado do vídeo | Neil Gaiman comenta a sua obra e a experiência em clubes de leitura

Matéria publicada no site Literatortura 

No início de setembro, Neil Gaiman divulgou um vídeo que veio com a promessa de responder perguntas feitas por e sobre clubes de leituras. Para funcionar como um pacote completo. E já que praticamente toda entrevista ou vídeo liberado por Gaiman possui grandes frases que se tornam inesquecíveis, este é mais um daqueles momentos em que ele novamente sabe como conversar com seu leitor. E ainda, como tratar a literatura com simplicidade e um carinho genuíno.

Neil demonstra uma grande estima pelos clubes de leitura, pois foi a um deles que o escritor concedeu o seu livro Deuses Americanos, colocando os participantes como os primeiros leitores do livro que ainda não havia sido publicado. Mais do que um teste para saber quais perguntas os participantes deste clube fariam sobre a obra, foi um modo agradável de descobrir mais sobre a própria obra e a relação com o leitor. E não ficou apenas em Deuses Americanos. Gaiman também cedeu mais duas obras a esse clube do qual participava para que discutissem antes da publicação.

“Eu passava uma maravilhosa tarde com eles tomando chá, comendo cookies, respondendo às questões, o chá e os cookies eram obviamente um pouco mais importantes, com as questões em segundo lugar”, brinca Neil no vídeo. E ele acrescenta “Vocês que participam de clubes de leitura leem livros como algo coletivo e prazeroso, vocês possuem opiniões muito fortes e nunca são educados e se você é um entusiasta por respostas exatas ou possui um entusiasmo ao pensar que um livro não deveria ser apenas queimado, mas possivelmente explodido e alvejado por uma artilharia antes que ele se queime, você está sempre apaixonado”.

Esta é uma bela compreensão sobre o embate do leitor com o livro em um clube de leitura: a obra não deve receber uma única qualificação e ser “queimada” por isso. Mas sim ser posta na mesa, entre tantos leitores diferentes, e ser questionada, atacando-a por todas as partes antes que se cogite deixar a obra de lado – por ora – ou qualificá-la com uma resposta unilateral. E é o que fazemos em um clube de leitura, maravilhar-se com os diferentes caminhos que um livro pode ganhar.

Um exemplo disso. Eu participo de um clube focado em livros de arte e, até então, eu tinha uma visão um tanto limitada sobre Delacroix e Ingres. Foi só trazer à tona as observações do autor do livro e colocar os quadros na mesa, com as diferentes observações dos participantes, que a obra passou a existir para mim. Por isso, assistir ao vídeo do Neil Gaiman nos leva a entender como é bom perguntar. É um processo de investigação que precisa ser preservado não apenas em clubes, mas nas leituras diárias, a todo instante. E um escritor precisa abrir espaço para o diálogo com seus leitores.

E este é só o início do vídeo, o qual traz diversas respostas às perguntas dos leitores sobre o último livro publicado por Gaiman, O Oceano no fim do caminho. Foi questionado se ele se inspirou em alguma memória de infância, detalhes sobre possíveis nomes ao narrador, entre outras questões específicas do enredo. Uma resposta para o leitor que ficou instigado com o livro e um exercício para o autor saber o que sua obra trouxe à superfície, com diferentes perspectivas. No fim, esta é uma nova vida que se concede ao livro. Envia-se uma mensagem à espera da resposta do outro para que a obra expanda o seu universo em novas partículas em forma de ideias e novas histórias.

Para assistir ao vídeo, clique AQUI 

(O vídeo tem legenda em inglês para ser ativada. Há alguns errinhos, mas dá para acompanhar)

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