Doctor Who: Uma viagem pelo espaço e tempo

Matéria publicada no site Zona Crítica

Dois meses viajando pelo tempo e espaço na TARDIS – que é maior por dentro – me levou a este estado em que passei a me reconhecer como uma whovian novata. Eu assisti a série Doctor Who, as temporadas da nova versão iniciada em 2005. Depois da insistência de amigos, eu aceitei viajar com o Doctor e passei dias refletindo sobre o sentido de humanidade. Também já cheguei a pensar que ouvi o som da TARDIS, mas era só a máquina de lavar do vizinho. Achei que a TARDIS havia chegado, mas era só o vento assoviando. Olhei para o corredor pensando que poderia haver um Slitheen na cozinha. Pensei que as quatro batidas que o Mestre escuta pode estar tocando no nosso atual horário político. Enfim, a realidade consegue ter algumas fissuras depois que você assiste Doctor Who.

Se você não sabe muito bem do que se trata a série Doctor Who, o que precisa ter em mente é que o protagonista é o último dos Senhores do Tempo. Doctor – apenas Doctor – vem de Gallifrey e, após a Guerra do Tempo contra os Daleks, seu planeta e povo se extinguiram. A escolha foi viajar pelo tempo e espaço dentro da TARDIS (Time And Relative Dimension In Space), uma cabine policial azul que é maior por dentro, uma máquina do tempo. Contudo, um viajante não precisa viajar sozinho. Neste ponto entram as companions, personagens femininas que possuem um arco de história entre uma a duas temporadas, com quem dividimos a perspectiva e vivência diante das inúmeras viagens.

Acompanhar o Doctor também tem suas consequências. Se conhecemos os Oods escravizados, se ficamos diante da morte iminente de uma população por causa da erupção de um vulcão, se alguém resolve virar em outra direção e isso muda o conceito do universo, ou se vemos a crueldade dos Daleks e a inimizade dos Cybermen, é possível encontrar uma constante nessas camadas subjetivas do tempo: o Doctor buscando salvar a humanidade. Numa linha temporal em que se encontra a luz e a escuridão nas ruas de Londres ou em outro planeta, o Doctor revela a nós que os céus podem ser dos mais variados tipos, mas o ímpeto pelo poder e conquista podem se mostrar em inúmeras faces. O que o Doctor devolve nas suas várias regenerações é, ironicamente, várias faces de um mesmo desejo, mas oposto: o de consertar a humanidade com sua chave sônica.

A série leva o espectador a cantos inimagináveis. Descobre-se como a ficção literária pode alcançar os limites da realidade vivida aqui na Terra. E o conceito de tempo? Bem, ele é subjetivo. Você fica meio perdido no início, achando que precisa registrar tudo num caderninho (como o da River Song!) para não ser perder. Só que o tempo é mesmo diferente na série e o que vale é simplesmente entender que o tempo passa a ser composto por camadas, linhas temporais com pontos fixos que não podem ser modificados, mas com as nuances postas a teste, capazes de alterar o sentido de um planeta inteiro.  Apenas o Senhor do Tempo vai saber se pode alterá-lo ou não. Por isso, esqueça que o tempo é tão linear quanto o do relógio. Em Doctor Who o tempo é, como de fato ele deveria ser, muita, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, como se houvesse um bola cheia de wibbly wobbly timey wimey…é indefinível.

E isso nos leva ao meu ponto favorito na série. Mais do que aventuras com alienígenas, estrelas, planetas, encontros com figuras históricas e uma cabine azul voando, Doctor Who fala da humanidade. Sobre o planeta Terra. Você poderia pensar que alguém que vê e sabe sobre tudo no universo poderia simplesmente estar entediado com a vida na Terra. Bom, quanto às pequenas atividades cotidianas, sim. Mas nunca em relação aos humanos. O Doctor consegue ver como essa raça frágil persiste mesmo com tantas tentativas de se conquistar e destruir a Terra. É uma criação fantástica a raça humana. Quase ingênua ao guardar pequenos cubos que caem do céu porque são diferentes ou utilizar as mais diversas tecnologias como parte do cotidiano a ponto de abrir um espaço para que essa tecnologia quase os destrua. Bem, nós fazemos isso.

Doctor Who acaba por ser um conto de fadas moderno. Nós gostaríamos de encontrar um sentido maior para a nossa vida do que apenas acordar e ir trabalhar. A presença das companions no enredo faz essa sensação se fortificar: o humano sempre deseja ter um pouco do infinito nas mãos, conhecer mais do que ele imagina, ou ver diante dos seus olhos tudo aquilo que sempre idealizou. Por isso eu acho que não estamos tão distantes assim do Doctor. Podemos não ter uma TARDIS, mas todo dia é preciso encontrar um pequeno fato no espaço-tempo para nos motivar. Algo que dê um sentido à realidade crua. Seja uma história, uma amizade, um pequeno acontecimento. O Doctor simboliza isso, o sonho humano de conseguir superar a sua fragilidade e tocar os mistérios do universo. Muito mais do que usar a ciência: podemos fazer isso pela nossa capacidade mais mágica, a de olhar a nossa volta e reconhecer o outro e a vida que há nos detalhes. São eles que formam a totalidade do mundo.

A relação com a companion, seja Rose, Martha, Donna, Amy ou Clara, é a de que um Senhor do Tempo não pode viajar sozinho, não pode ver o universo sem esquecer que há essa existência para ele preservar. Doctor é esperança, no fim das contas. E mesmo nós, humanos, não podemos viajar sozinhos. O significado da história só existe mesmo quando compartilhado com o outro. Um breve olhar para tudo aquilo que já imaginamos sobre o universo, pois criando uma história é que nos tornamos humanos. Por isso cada vida influenciada pelo Doctor – da companion ao espectador – acaba não sendo mais a mesma, porque uma alternativa foi aberta no espaço-tempo.

A série

Como sempre o Doctor precisa explicar para sua nova companion que a TARDIS é maior por dentro e que ele é capaz de viajar no tempo e no espaço, aqui vão as informações básicas para que não se sinta perdido ao entrar nesse universo.

Doctor Who é uma série britânica com quase 51 anos, o que significa que até agora tivemos 11 atores interpretando suas respectivas versões do personagem, pois o Doctor tem a capacidade de regenerar em um novo rosto, um novo comportamento. A nova série iniciada em 2005 conta com o 9th (Christopher Eccleston), 10th (David Tennant), 11th Doctor (Matt Smith) e o atual, 12th, interpretado por Peter Capaldi. Como de costume, a série possui autores convidados, como Neil Gaiman, mas com o enredo principal desenvolvido por um único roteirista. Da 1a a 4a temporada o showrunner foi Russell T.Davies, quem trouxe de volta a popularidade da série na televisão britânica por um roteiro que se tornou clássico entre os enredos de Doctor Who. E, a partir da 5a temporada até o presente, Steven Moffat assumiu o cargo, dando uma concepção mais atual e jovem para a série, o que atraiu um grande público também.

Quais episódios posso assistir para começar?

“Em todo o tempo e espaço, todo lugar e nenhum, toda estrela que já foi…por onde você quer começar?

Bom, se você quiser começar por alguns episódios em específico para sentir se irá acompanhar a série, aqui vai uma pequena lista. Por que escolhi esses episódios? Porque são histórias independentes. O bom mesmo da série, pelo menos como foi para mim, é acompanhar desde a 1a temporada (de 2005) até a atual, assistindo também o especial de natal ao fim de cada temporada. E depois ver a série clássica. Assim você vai notando como o enredo cresce e assume caminhos nunca imaginados. E o melhor da série são os arcos! Pontos mencionados lá no início fazendo todo o sentido numa season finale insana. Mas há episódios que compensa ver antes para ter uma ideia de como a série é diversificada em termos de roteiro.

  1. Blink – 3×10: as weeping angels (anjos lamentadores) vão assustar o espectador que não deve piscar em nenhum segundo. O episódio é quase um especial de introdução às personagens mais geniais da série, criada por Steven Moffat. Acompanhamos uma moça que gosta de conhecer casas abandonadas, até que acontecimentos estranhos passam a ocorrer com os amigos mais próximos.
  2. Vincent and the Doctor – 5×10: a beleza desse episódio é difícil de descrever. O 11th Doctor e a companion Amy Pond viajam até o final do século XIX e conhecem simplesmente Vincent Van Gogh, pois precisam ajudá-lo com uma criatura que o tem aterrorizado. A fotografia do episódio recriando os quadros, a emoção ao ver o drama de um dos maiores pintores faz da história inesquecível.
  3. The Empty Child e The Doctor dances – 1×09/10: primeiro enredo escrito por Steven Moffat, o episódio duplo traz uma atmosfera de suspense, com uma criança que persegue uma jovem, usando uma máscara de gás em plena Segunda Guerra Mundial. Um episódio impecável, com uma bela atuação de Christopher Eccleston como 9th Doctor.
  4. The Doctor’s wife 6×04 – um presente de Neil Gaiman à série, o episódio traz a chance de conhecer um pouco mais sobre a relação entre o Doctor e a TARDIS, numa história poética e mágica, nos moldes bem clássicos dos enredos do autor.
  5. Midnight – 4×10: um dos episódios em que o 10th Doctor (David Tennant) é posto à prova numa viagem claustrofóbica e terrível, na qual pessoas são possuídas por uma criatura que existe nas palavras repetidas. O maior medo presente no enredo é ver que, muitas vezes, o ser humano pode ser facilmente manipulado e esquecer o que significa estar na pele do outro.
  6. The Sontaran Stratagem/The Poison Sky – 4×04/5: um episódio em que duas companions, Martha Jones e Donna Noble, ajudam o Doctor a descobrir o que são os dispositivos ATMOS espalhados no mundo e o caos ao qual a Terra está submetida.

Bienal do Livro | O dia em que eu conheci Pedro Bandeira

Matéria publicada no site Literatortura

pedro bandeira droga da amizadeA Bienal de São Paulo terminou neste domingo (31), mas como em toda a sua edição, o encontro que um fã pode ter com seu escritor favorito deixa lembranças que vão além do evento. Na terça-feira (26) foi o momento aguardado por dez anos: conhecer Pedro Bandeira.

O primeiro livro que li do autor foi Droga da obediência, para um trabalho de escola. Achei curiosa a presença de adolescentes tentando desvendar um mistério, como se fossem detetives tão bons quanto Sherlock Holmes, e logo me vi muito envolvida. O crime ainda ocorria nos colégios de São Paulo e essa atmosfera próxima da minha vivência acabou me conquistando. Eu ficava imaginando como seria legal resolver um mistério na minha própria escola.

Depois desse livro, passei a procurar loucamente pelos outros livros em sebos e livrarias. Veio Droga do Amor, Droga de Americana, Pântano de Sangue, Anjo da Morte.  Os Karas, grupo composto por Magrí, Miguel, Chumbinho, Calu, Crânio já tinha entrado na minha vida para ficar. E se hoje eu não lembro dos enredos com tantos detalhes, alguns flashes do cenário e dos personagens acabaram grudando na minha memória, onde as palavras do autor vivem.

Conhecer Pedro Bandeira, então, foi o momento em que essas pequenas sensações guardadas lá atrás voltaram, da leitora de 11 anos descobrindo ainda o que significava ser leitora. Bandeira é adorável tanto quanto as suas histórias. Uma garotinha chegou a perguntar qual era a inspiração dele e o autor respondeu “é você”. Os personagens que ele criou são do leitor e o leitor ao mesmo tempo, como ele diz. São livres para se tornarem o que o jovem e a criança estão vivendo. Por isso, os Karas somos nós. Ao procurar os outros livros nos meus 11 anos de idade, fazia com que eu me sentisse um pouco como Magrí procurando as pistas para desvendar o mistério. Eu fazia isso buscando histórias.

Bandeira comentou diversos pontos interessantes sobre sua carreira. Começou a escrever romances com quarenta anos, antes disso trabalhava como jornalista. Quando criou O mistério de feiurinha, onde recria os contos de fadas, pensou por buscar a psicologia da infância neles. Ele explica que se chapeuzinho vermelho utiliza uma capa vermelha e foge do lobo mau, é um indicativo da sua passagem à adolescência e a descoberta de que nem todos que a procuram no bosque podem ser bem-intencionados. Se a madrasta da Branca de Neve deseja matar a mocinha é porque ela tenta a todo custo matar o próprio conceito de beleza que a aterroriza quando se olha no espelho esperando a beleza eterna, o ato é uma amostra da inveja e do desejo irrefreável pela juventude.

Esses enredos são universais pois preservam uma herança cultural em forma de alegoria para os primeiros conhecimentos da criança sobre o mundo. A criança se vê literalmente no personagem da história, é assim que se encaixa e se descobre no mundo. E o mais curioso é que ao notar que Pedro fala com propriedade sobre os contos de fadas, ele também encontrou esse ponto universal na adolescência. “Os meus Karas são como os Três Mosqueteiros”. Por isso seus personagens são tão palpáveis. Tanto que o autor disse cuidar mais do personagem, para que a gente se encontre nele, do que no cenário. Pois o que fica é a experiência pelos olhos dele.

O autor também comentou que trouxe os Karas de volta no livro A Droga da amizade, lançado nesta edição da Bienal. A dificuldade foi lidar com o fato de que seus personagens cresceram muito e hoje os tempos são outros. Para desvendar um mistério, a internet acabaria por cortar muitos dos passos que antes envolviam o processo de achar as pistas para o grupo. Bandeira tentou fazer A Droga Virtual, mas a cada instante vinha um novo software e o enredo parecia atrasado. Assim, A Droga Virtual foi enxugado e se tornou Droga de Americana.

Com essa dificuldade, Pedro achou que não voltaria aos Karas. Mas então veio a ideia de apresentar as origens do grupo e como estão atualmente. Por isso, Bandeira trabalhou em A Droga da amizade aos poucos por 14 anos e o tornou um livro de nostalgia, trazendo os personagens para os dias atuais e mostrando o que aconteceu com aqueles jovens curiosos, hoje adultos, casados, com uma carreira consolidada.

Este presente aos fãs que cresceram revela muito da relação de Pedro Bandeira com seus leitores. Quando questionado se haveria uma dica, uma fórmula para quem deseja escrever para o público infanto-juvenil, Bandeira se mostra simples, dizendo que precisa saber ouvir o leitor jovem, escrever e se colocar como ele no enredo. E deixá-lo livre para recriar o personagem de acordo com sua própria experiência.

Foi bem rapidinho que eu consegui um autógrafo do Pedro, havia muitas crianças em volta dele e pouco tempo, já que haveria apenas a palestra. Mas ele fazia aquilo com tanto gosto e carinho, olhava para as crianças como se realmente as conhecesse. Bom, ele as conhece. Eu quase caí, quase saí correndo pela Bienal gritando com o livro autografado na mão. Já foi difícil voltar a respirar.

Estar na pequena plateia sentada no chão assistindo o Pedro falar nessa conversa na terça-feira, com crianças ansiosas por conhecê-lo e adultos ansiosos por conhecer a mente que os despertou ao mundo dos livros, foi o mesmo que conhecer o grande contador de histórias que mora na nossa imaginação. Pedro já se tornou um amigo de longa data. Vê-lo tão pertinho foi o mesmo que dar vida a esses anos cultivando o amor pelos livros. Várias gerações se encontrando para ouvir um escritor jovial e doce, que conhece como ninguém o desafio que é ser criança e adolescente.

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Sábado do vídeo | Conheça o filme da BBC Van Gogh – Pintando com palavras

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Especial Sábado do Vídeo publicado no site Literatortura

Sempre é tempo de pensar em Vincent Van Gogh. Hoje o artista é venerado pelas formas criadas dentro da tela. Crianças e adultos conseguem visualizar a beleza pulsante e viva nos seus quadros e ele está presente na educação formal das escolas. Mas sabe-se que Van Gogh só vendeu um quadro em vida. Que tinha um relacionamento ao mesmo tempo conturbado e de cumplicidade com seu irmão Théo, a quem dirige diversas cartas que hoje podemos ler em Cartas a Théo. Sabe-se também que cortou a orelha e que viveu uma vida entre surtos de esquizofrenia. Mas ele não reside apenas nesses detalhes curiosos, reproduzidos durante os anos.

Van Gogh virou parte da tradição artística. Definido pelos historiadores da arte como um pós-impressionista, Van Gogh sabia da vida parisiense que se alterava no final do século XIX. Sabia dos impressionistas, assim como admirava as obras de Jean François-Millet (considerado o precursor do realismo), Delacroix, Rembrandt, considerados românticos.

Van Gogh tinha um olhar aberto às mais diversas expressões artísticas, e se formou como pintor partindo dos artistas do passado. Reproduzia quadros de seus artistas favoritos, apoiava-se neles para, então, encontrar a sua própria linguagem. Certamente isso todos faziam. Porém, é um ponto que se costuma esquecer: pintores estudavam a perspectiva e o belo renascentista, Belas Artes tinha grande valor e artistas eram considerados dignos quando seguiam a técnica ou uma temática comum.

O artista holandês não teve uma vida fácil. E para conhecê-la nada como assistir ao filme-documentário feito pela BBC em 2010. Quem dá vida ao pintor é o ator Benedict Cumberbatch, que interpreta Sherlock Holmes na série contemporânea também feita pela BBC, além de Khan em Star Trek, Smaug em O Hobbit. A atuação do britânico soa simples, extremamente poética, de uma beleza teatral. Mas ela ganha vida mesmo por causa do texto, uma adaptação das próprias cartas escritas por Van Gogh ao irmão. E ele fala diretamente ao espectador.

O filme é uma daquelas obras que compensa pegar quase uma hora e meia para assistir e conhecer a vida do pintor. A emoção que brota da vida de Van Gogh e da composição simples do documentário acabam por impulsionar o espectador. Gera uma emoção bem forte, uma certeza de que Van Gogh merece ser admirado. Ele vivia a sua arte e viver pela arte se mostra algo tão doloroso e urgente, mas dá a sensação de que compensa receber pequenos instantes que acabam se tornando infinitos ao ver a obra pronta. Uma obra sem crítica, sem público.

Isso dói, é verdade. Mas era admirável como Van Gogh continuava criando, apesar da solidão cruel, das desventuras, do abandono. Talvez seja por isso que as obras de Van Gogh falam sobre algo a mais. Quase sussurram segredos sobre a natureza e sobre os homens. Mostra as cores que precisamos ver, as mais variadas realidades que o mundo pode ter. Ele nos espanta porque fala sobre o diferente, o incomum à percepção. Van Gogh carrega nas tintas tanto quanto a vida havia cultivado um peso difícil para ele carregar.

Por isso, vale assistir ao filme-documentário. Permita-se viajar pelas nuvens quase dançantes da Noite estrelada ou espantar-se com o amarelo vibrante dos Girassóis. Porém, o mais importante: pegue uma hora e vinte minutos para conhecer a história de um indivíduo respeitável, que via na arte a única forma de sobreviver e deixar uma marca forte em forma de tinta no mundo.

(Acima, o filme completo no youtube. Ative as legendas em português)

John Keating, um poeta morto

Prosa poética publicada no site Zona Crítica

john keatingA luz do conhecimento se insinua trêmula numa fala que vem dos deuses até os mais frágeis humanos. E cai sobre mim, que escrevo estas palavras do mais fundo buraco em que estou. Ao canto, em silêncio, sussurrando com uma vela acesa na mão. É aqui que eu, personagem, moro. Até que as pessoas me levem para o alto e eu possa viver um pouco dos seus dias.

O meu respirar é brando porque tento economizar um pouco da vida que acabei de ganhar ao voltar para cá. Eu vi a tristeza e a perda de meu criador. Mas eu existo em independência. Esperam muito de mim, já salvei almas de estudantes afoitos ou perdidos numa vida amortecida pelas regras da tradição. Mas de John Keating sei que sou apenas um professor que mora numa história. Talvez isso não seja muito. Ou há dias em que isso é o suficiente para preencher o espaço que existe para mim nessa vida que me comprime.

Posso ser professor, estudante, jovem, ator, e a palavra que falo. Minha vida é para colocar uma palavra ao lado da outra e sobreviver nessa fila que formo com elas. Penso que provavelmente você que está do outro lado faz o mesmo. Ou busca a mesma salvação. Quando eu era um estudante, ouvi uma professora me dizer, olhando diretamente nos meus olhos, decifrando aquilo que eu ainda estava revolvendo da terra, descobrindo sobre o poder doloroso e subversivo que surge após a ponta do lápis encostar no papel. “Escrever é questão de vida ou morte, como foi para Sherazade. Contar as histórias para não ser morta. Você precisa escrever para nunca deixar a página em branco da História. Um povo precisa falar.”

Eu peguei essas palavras e grudei na pele como se não pudesse mais soltá-las. E transmiti para outros jovens como eu fui um dia. As palavras dela me cortam até hoje, servem de consolo e subsistência. Um café para me despertar do estado letárgico em que por vezes me forçam a ficar. Escrevo agora para saudar aos estudantes que passaram pelos meus olhos, pelo estudante que fui, pelos estudantes que virão. O mundo deveria acolher os estudantes. Em contrapartida, o que ocorre é um mundo hostil a eles, duro, exigente para que engulam o mundo que existia antes deles.

Diante do desespero de ser esquecido, escrevo essas palavras. Lá em cima, misturado à luz do mundo, eu começo a ver a silhueta do público me chamando para ser novamente o John Keating que o cinema ama. Eu devo deixar esta vela ao canto. Ao voltar, encontrarei o mesmo silêncio onde moro. O silêncio do qual sou feito: um personagem que mora no imaginário dos homens. Um silêncio preenchido pelas histórias das pessoas lá de cima, das pessoas como você, que encontram em mim uma pequenina chama de sobrevivência. Posso residir no lugar-nenhum onde repousam as ideias e os sonhos, mas quando vejo você, leitor e espectador, eu ganho vida.

Posso ser louco, e sou louco. Mas sou um louco que respira para contribuir à vida com um verso. Sou louco como Whitman, sedento como Whitman pelo rompimento das regras em alcançar o infinito pela palavra. Sou um personagem que ganhou vida por um ator e que agora dorme aqui, à espera dos estudantes e do público. Venha em minha direção, não me esqueça. Tenho nas mãos a luz do conhecimento que me guia pela floresta até encontrar os seus olhos, a sua alma disposta a ouvir. Brado o mais profundo dos gritos para dizer ao mundo que me recebe: sou John Keating, sou um poeta morto, your captain, my captain.

Robin Williams, um ator de muitas facetas

Matéria publicada no site Literatortura

600full-robin-williamsA terça-feira amanheceu mais triste com a morte de Robin Williams. O ator foi encontrado morto na segunda (11) com suspeita de suicídio. É inegável a participação de Robin na infância de uma geração e na vida de muitos adultos. Ele era um ator ousado em compor personagens que se tornaram facilmente simbólicos no imaginário do cinema. Foi uma babá (quase perfeita!), um robô com emoções humanas em O homem bicentenário, Peter Pan, Popeye, o Gênio da lâmpada em Aladdin, um DJ irreverente que serve ao exército americano em Bom Dia Vietnã, o doce médico do filme Patch Adams que levou a alegria para inúmeros pacientes, um rapaz que se vê como peça de um jogo de tabuleiro em Jumanji.

E sem esquecer das representações memoráveis do ator como professor Sean Maguire em Gênio Indomável e John Keating. Ah, John Keating ainda é o meu ponto fraco. É o professor de A sociedade dos poetas mortos que clama aos seus alunos por Carpe Diem, pela poesia como modo de sobrevivência para uma vida baseada em paixões e palavras que podem mudar o mundo.

A Academia, que premia todo ano os melhores do cinema pelo Oscar, deixou uma singela homenagem ao ator no twitter. Robin interpretou o adorável e único Gênio da lampada, em Aladdin. Por isso, o perfil publicou a foto do personagem abraçando Aladdin com a frase “Genie, you’re free” (Gênio, você está livre). Para um personagem e um ator que cumpriu com os nossos desejos de vê-lo atuando em mais e mais filmes inesquecíveis.

Como Robin Williams se fez como ator? É só voltar e reler o parágrafo inicial. As expressões dos personagens estão frescas na memória. Muitos domingos, sessões da tarde e a tradição de assistir ao filme na tv quando se é criança acabou trazendo Robin para dentro de casa. Ele ocupava as minhas tardes e, principalmente, eu não lembro de assisti-lo sozinha. Eu chorava com Patch Adams junto com meus pais, eu me emocionava ao ver um robô chorando, junto com minha família. O Gênio passava a semana comigo. E aí no final de semana era a vez de sentar no sofá e ver estes filmes mais densos.

E aprendi a ver a poesia com naturalidade por esses primeiros momentos singelos ao entrar em contato com um filme. Robin me ensinou isso. Tanto que é difícil escolher um só filme para rever do ator.

A ironia ao ver a criança de ontem crescer é que hoje ela encontra a sua mais forte expressão no filme A sociedade dos poetas mortos. Jovens inseguros com os caminhos que precisam tomar, a autonomia que vai além dos 18 anos completos. Escrever acabou ganhando o mesmo significado que ressoa na voz de John Keating e se aprendi alguma coisa é que carpe diem precisa estar nas nossas mentes. Que pessoas vão e vem como os quadros dos mortos na parede. E que precisamos conhecê-los porque, um dia, eles se alimentaram da poesia como única forma de sobrevivência. Da mesma forma que, hoje, nós precisamos escrever para sobreviver.

Robin Williams também merece este espaço entre os atores do nosso imaginário. Para reencontrar a expressão mágica e doce de seus personagens poetas. Por isso, não é de se surpreender como o ator esteve presente com vivacidade nos nossos primeiros contatos com o cinema. Um grande mestre, um capitão, my captain.

Saiu o trailer de Into the Woods, musical da Disney com Meryl Streep

Notícia publicada no site Literatortura

meryl streep into the woodsEm 2013 começou a produção do filme Into the Woods. Quase dois anos de espera para saber o que seria dele. Agora um trailer foi divulgado só para aguçar a curiosidade. Into the Woods é uma adaptação da obra de Stephen Sondheim e do roteiro para a Broadway de James Lapine, vencedor do Tony Awards.

E a imprensa norte-americana já adianta: a Disney não será fiel ao musical. Conhecido por propor uma releitura dos contos de fada com linguagem adulta, o musical da Broadway teve algumas de suas cenas com mortes e sexo implícito cortadas para a versão da Disney.

No musical que estreou nos anos 80, dá-se a entender que a Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau tiveram um envolvimento e que a Rapunzel morria, mas isso não deverá acontecer no filme da Disney devido ao público-alvo.

Em entrevista ao The New Yorker, o autor do musical disse que “se fosse um executivo da Disney provavelmente faria a mesma coisa”. O que faz sentido, claro, já que não é o propósito dos estúdios de animação direcionado às crianças e adolescentes.

Porém, dá um pouquinho de receio ao pensar que, no fim das contas, o filme pode ser mais uma adaptação de contos de fadas. Nos últimos anos, o cinema foi povoado por eles, de Branca de Neve e o caçador à recente Malévola, da Disney. Ou por Cinderela que deve estrear em março de 2015. Ou a versão francesa de A Bela e a Fera, prevista para setembro de 2014. O gênero chama a atenção e não deixa de ser interessante ver novas propostas para os enredos clássicos.

Vale lembrar que Into the Woods, por conta da demora, acaba por surgir em um cenário que já se estabeleceu bastante entre os espectadores. Talvez até tenha se estabelecido tanto que o formato já se tornou meio óbvio. Ainda mais quando os cinemas os lançam um atrás do outro. Pode arrastar multidões para a sala e ser um grande sucesso, mas também pode deixar de apresentar algo novo ou ainda perder a chance de mostrar o enredo quase desconhecido de Into The Woods, que em si é inovador. E foi inovador nos anos 80 para o teatro.

O que deixa o espectador esperançoso é poder ver um musical voltar às telas e com um elenco respeitável. Dirigido por Rob Marshall, de Chicago, e do produtor de Wicked, o filme traz Meryl Streep, Anna Kendrick, Emily Blunt, Chris Pine, James Corden e…Johnny Depp. Que só mostra a sua mãozinha de lobo no trailer.

E Meryl Streep, vale ressaltar. Que, se quisesse, poderia fazer uma árvore muda durante todo o filme e se sairia bem. Mas está aqui como a bruxa que conduz e procura testar os personagens dos contos de fada. Nos bastidores teve até a brincadeira de que a atriz recebeu umas aulas de rap com o 50 Cent, porque foram vistos assistindo a um jogo de basquete.

Como diz o trailer, cuidado com o que você deseja. Eu, no momento, espero que o filme honre a espera. Pelo menos ele parece ser uma grande promessa. O filme está previso para 25 de dezembro de 2014 e 1º de janeiro de 2015 nos cinemas nacionais.

Veja o trailer AQUI 

Fontes: MSN Cinema  e C7nema

O que fazer quando você não sabe do que escrever

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Coluna semanal no Fashionatto 

Definitivamente isso já ocorreu com inúmeros humanos mundo afora. O terrível vazio não no espaço, mas nesse bloco branco que chega a sufocar porque dele não sai ficção. As ideias estão até anotadas, as premissas estão lá de possíveis personagens, mas e o clímax? Qual é a motivação do enredo? Não aparecem e não vem aquela vontade de escrever, perder o ar escrevendo uma história até que ela alcance o que você espera dela.

Lá no fundo da gaveta você acaba por encontrar um texto escrito às pressas, não-publicado, quase engolido pelo esquecimento. E fala justamente sobre o momento em que foge a motivação para escrever. Já aconteceu de eu ficar meses sem escrever uma prosa, um conto. E foi terrível, todo dia a culpa vinha e agora, quando escrevo todo dia, eu sei que não dá para deixar essa vontade morrer e voltar à letargia de antes.

E então você entende que ele retornou: o Monstrinho Que Devora a Vontade de Criar Um Texto Novo. Não vou dizer que é falta de inspiração, porque isso é falta de argumento. É verdade que a gente escreve quando está inclinado a escrever. Porém, isso não quer dizer que escrevemos quando os céus anunciam um raio de sol por entre as nuvens, quando os planetas se alinham, quando o horóscopo diz que a tendência é criar uma grande obra. Todo dia você se força a escrever um pequeno grupo de palavras. Começa a formulá-las como pequeninas joias. Não precisam ser brilhantes e perfeitinhas, soando bem bonitas, não. Elas precisam pulsar no texto. E aí depois você vai revendo, trabalhando com elas.

E olha só a ironia. O escritor, quando não tem muita ideia sobre o que escrever, quando está tateando em busca das palavras no escuro, elas não surgem gratuitamente. Você concede uma confiança a elas, tentando achar as palavras para narrar a própria busca por elas. E dá num texto como esse. A metalinguagem não é uma saída de emergência para prazos, não. Escrever sobre o próprio ato de escrever é a reunião daquilo que você pratica todo dia e pensa todo dia. Mas agora o ato virou palavras também.

Por isso, vamos transformar isso num personagem. Imagine que Paulo é o escritor desesperado por algumas linhas diárias. Ele vê seu corpo se retrair confuso na própria pele, está exposta a carne em pele, que faz a vez de esconder e mostrar o homem. Nesse mundo-intruso que ora se fecha e se abre em seu ser. Esse mundo o invade – obrigações, prazos, medos-, parece até desvendar a sua alma, o inominável. Depois se assusta, encapsula o maior dos segredos do homem, que nem ele se dá conta. Sorte daquele que o vê brilhar, ele pulsa vivo como nunca. Não dura sequer um segundo esse homem para voltar ao seu corpo. Parece inerte, mas pulsa o resquício dessa epifania. Pronta para chocar. Homem-epifania.

É uma existência que parece até supérflua. Há momentos em que os passos desse homem hesitam e ele tem medo. Uma voz interior diz que tudo irá fracassar e virar pó. As palavras saem titubeantes, como se fossem nuvens dispersas, incalculáveis. Esse é um homem qualquer, pode ser você, desamparado leitor que chegou até aqui nem sabe como, ou pode ser apenas uma conversa interna para quem escreve. O triunfo ao ser bem-sucedido em algo que se deseja muito, às vezes, se esvai. Por isso escrever é sobrevivência. E só queremos as palavras, para que pelo menos elas estejam pairando por aqui. Mas pode acontecer de até essas palavras virarem vilãs e irem embora.

A crise, talvez sirva como título provisório. Gosto de pensar que esse humano que somos, na verdade, vive em eterno aniquilamento e recuperação de si mesmo. Não precisa ocorrer grandes acontecimentos para isso. É uma epifania que empurra esse dia-a-dia perturbador. Sem a poesia ele faz do homem mera cápsula que recebe o que vier, mas que não armazena nada porque está cansado de tudo. E aí a poesia morre. Não, a poesia não é para poucos. É para todos. A questão é que ela sabe se esconder. Não pense que ela é ameaçadora. Só gosta de fingir que é reservada.

O que fazer quando não souber o que escrever? Escreva. As palavras não mordem, siga as páginas em branco sem hesitar.

White Blank Page, de Mumford and Sons

“A white blank page and a swelling rage, rage – Uma página em branco e uma inchada raiva, raiva
You did not think when you sent me to the brink, to the brink – Você não pensou quando me mandou para a beira do abismo, ao abismo
You desired my attention but denied my affections, my affections – Você desejou minha atenção mas negou minhas afeições, minhas afeições
(…)
Lead me to the truth and I will follow you with my whole life – Guie-me para a verdade e eu irei seguir você com toda a minha vida

 

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