Buraco negro|Cientistas criam um preto impossível de ser visto

calvin sky

Minha coluna semanal no Fashionatto

Após ter um sonho em que eu quase era engolida por um buraco negro, um dos quais eu descobri no sonho ter sido criado por mim mesma em laboratório, ler a notícia no The Independent sobre um novo tom de preto me causou espanto. E a sensação de que existe alguma realidade alternativa em que os sonhos possuem uma relação com a vida por aqui. Mas antes de crer nessa possibilidade, eu resolvi ler o anúncio do site.

Se você admira o pretinho básico na moda, pelo vestido de Audrey Hepburn, se idolatra o tom pelas peças de Coco Chanel ou crê que ele seja uma das representações mais belas e simples ao gótico e ao bizarro, chegou a hora de saber da verdade. O tom preto conseguiu se tornar ainda mais misterioso. De acordo com uma notícia divulgada no dia 13 de julho pelo site The Independent (aqui), uma companhia britânica produziu um material “estranho, alien” tão preto que isso absorve 0,035% da luz visual, alcançado um recorde mundial. Para contemplar esse preto tão misterioso deve-se saber que ele é feito de nanotubos de carbono – cada um 10.000 vezes mais fino que o cabelo humano – e é uma experiência realmente estranha. É tão, tão preto que o olho humano não pode entender o que está vendo. Contorno e formas estão perdidos, deixando nada, apenas uma sensação de terror e insegurança diante dos olhos.

Obviamente, não seria possível um vestido Chanel corporificar esse preto. Ficaria algo indefinível flutuando em torno da modelo, além de possuir um custo muito elevado que se recusam a divulgar. Portanto, tem sido considerado para uso militar, mas que o produtor Surrey NanoSystems não está permitido a falar sobre isso.

“Você espera ver os contornos e tudo o que você pode ver…é preto, como um buraco, como se não houvesse nada lá. Isso é muito estranho”, disse Bem Jensen, oficial técnico da empresa.

Certo, mas em que se pode utilizar essa tecnologia? Usos práticos do Vantablack incluem câmeras de calibração utilizadas para tirar fotografias dos objetos mais antigos do Universo. Para isso, aponta-se a câmera para algo tão preto quanto o material. Stephen Westland, professor da ciência da cor e tecnologia em Leeds University, disse que tradicionalmente o preto foi, na verdade, uma “cor da luz” e os cientistas estão transformando isso em algo além desse mundo.

“Muitas pessoas pensam que o preto é a ausência de luz. Eu discordo totalmente com isso. A menos que você esteja olhando para um buraco negro, ninguém tem visto na verdade algo sem luz”, ele diz. “Estes novos materiais são pretos como conseguimos captar, o mais próximo de um buraco negro que nós somos capazes de imaginar”.

Ler essa notícia, não apenas como uma confirmação estranha do meu sonho que ocorreu por coincidência no mesmo dia em que saiu a notícia, foi imaginar um mundo em que humanos entrariam em guerra para ver a cor-que-ninguém-vê. Esse preto tão intenso possui uma poeticidade imensa e amedrontadora. Chefes de estados se enfileirando para contemplar uma massa negra. O terror se instaurando no mundo por uma cor que passa como manto pelas cabeças humanas, retirando todos os tons das coisas. Discutir Arte perderia o sentido, se o preto tomasse todos os quadros. Cairíamos no relativismo nunca vivenciado, em que os contornos das formas não existiriam mais. Deixaríamos de discutir se a percepção no engana. Agora é tudo parte desse buraco negro! O cogito cartesiano, a suspensão do juízo pela dúvida, que Descartes propõe as suas Meditações Metafísicas, a existência pela capacidade de pensar a si mesmo, iria por água abaixo. Como suspender o juízo colocando a dúvida sobre o que se vê, se todas as formas que antes causavam a confusão humana agora são parte de um buraco negro?

Nações fariam de tudo para comprar a cor preta e eu não sei por quê. O olhar seria treinado para ver e buscar o encanto tão escondido, tão intrinsecamente oculto de nós, que seria logo convertido numa cegueira que deseja talvez aquilo que não existe. Multidões de poetas iriam enlouquecer diante do inenarrável. Há séculos o poeta fala sobre a essência da palavra. A questão é que desta vez o nada se anunciaria com tanta força que a palavra estaria morta de todas as formas. Não haveria um mundo oculto por trás da palavra. Só haveria mesmo esse buraco negro que ninguém vê. Os poetas se lançariam no buraco negro, buscando a morte como redenção. Mas nem isso eles iriam encontrar: a morte seria concluída pelo nada mais poderoso do que a palavra. Tanto que conseguiria negar até o gesto do artista. A comunicação se perderia. Nada no dicionário, nenhuma expressão corriqueira poderia anunciar a tentativa de encontrar a verdade sobre a cor.

O mundo faleceria num buraco negro. Justamente o buraco negro que eu vi no sonho e me surpreendera tê-lo produzido em laboratório. A surpresa desta vez, porém, é imaginar um mundo que não permitiria nem o caos. Estaria tudo mergulhado na escuridão permanente. Seria quase o mesmo que vivenciar o terror existente na obra O sonho da razão produz monstros, do Goya. Estaríamos condenados a dormir nessa escuridão enquanto a razão vestida de preto tão-incrível-porque-ninguém-vê se anunciaria como um avanço racional à ciência. Os cientistas criaram uma cor que ninguém vê. O propósito talvez não termine no mundo narrado logo acima. Mas o mistério que envolve esse preto é tão nebuloso que apenas o conhecimento que temos dele é que nunca conseguiríamos ver a sua plenitude. Isso é assustador.

Para tentar animar um pouco, mas nem tanto, olha aí o clipe Supermassive black hole, do Muse. Seríamos as pessoas com roupinhas estranhas virando buraco negro.

“(You set my soul) – Você acendeu minha alma
Glaciers melting in the dead of night – Geleiras derretendo na morte da noite
And the superstars sucked into the ‘supermassive’ – E as super-estrelas sugadas para o supermassivo”

Bonequinha de luxo: Uma crônica sobre a vivência de um clássico no cinema

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Coluna semanal no Fashionatto 

A tela de um cinema pode guardar os segredos de uma história mantidos por décadas e revelar quando bem entender. Foi essa a sensação de rever o filme Bonequinha de luxo na tela de um cinema. A iniciativa é das redes Cinemark, que abriu três sessões por semana exibindo alguns filmes considerados clássicos, como Taxi Driver, Pulp Fiction, Laranja Mecânica, Nos Embalos de sábado à noite, Grease e Bonequinha de luxo. É provável que tenha outras temporadas de mais clássicos nas telas.

A experiência de rever um clássico na tela parece reposicioná-lo no instante em que a obra é descoberta. Hoje o cinema já o consagrou, mas a exibição na tela renova a aura em torno das cenas. Uma sala lotada de jovens e alguns senhores e senhoras de meia-idade compunha o público que ia ver Audrey Hepburn na pele de Holly Golightly. A sua entrada triunfal na Quinta Avenida descendo de um taxi rumo à vitrine da Tiffany’s, o café da manhã diante das jóias e o ar tranquilo da personagem me pareceram ainda mais intensos do que pela primeira vez em que vi Bonequinha de luxo.

Claro, não dá para contar como um grande parâmetro a primeira vez em que o vi, com treze anos de idade. A questão é que nas outras vezes em que assisti ao filme, as belas roupas e a simpatia de Holly davam espaço ao texto simples e astuto presente no roteiro. Fui descobrir depois que esse era baseado no livro de Truman Capote. E ainda após ler a obra do autor, visualizar o filme agora conseguiu aprofundar ainda mais a relação com a composição dos personagens por seus criadores.

O texto de Capote está vivo no filme. Dificilmente se encontra adaptações que conseguem vivificar as palavras do autor de uma maneira nova, preservando o discurso e a intenção inicial dele, ao mesmo tempo em que se propõem cenas que conseguem acrescentar lirismo à criação literária. Muito do que Blake Edwards decidiu criar na direção de seu filme respeitava o espaço do autor que criou Holly. A fotografia limpa e simples diante do luxo que é Nova York, as transições de cenas feitas pela presença do gato, a trilha inspirada somente em Moon River foram elementos que, hoje, são impossíveis de desvincular do imaginário. Truman Capote também existe pela criação de Blake Edwards.

Nas telas de cinema, a direção de Blake Edwards me soou impecável. A cena bem construída da festa no apartamento de Holly cede um dinamismo maior que na obra literária. E a cena final da película se aproxima mais do ideário dos anos 50 e 60 do que o livro, ou seja, do que se esperava ver em um filme do gênero. Porém, isso não o faz ser uma opção fácil. Se no final de Capote há uma melancolia permanente, Blake Edwards a dividiu em pequenas porções em todo o filme, e pelas palavras do próprio Capote. Tanto o escritor quanto o diretor brincam com os sentimentos do leitor e espectador. Lidando com um tempo alinear, Capote nos faz voltar atrás na história para tentar tranquilizar o coração quanto ao destino de seus personagens. Blake Edwards parece nos colocar em desespero na cena final para, logo, nos recuperar.

De qualquer forma, Capote e Blake Edwards fazem boas jogadas na composição de suas histórias. Na tela do cinema, consegui me encantar ainda mais pela atuação leve e bem dosada de Audrey Hepburn. Entre a sala lotada, foi experimentada a sensação de que estávamos numa sala isolada presente em um tempo perdido o qual havia voltado por poucas horas. Nos trechos quase esquecidos de Bonequinha de luxo, percebi que a tela do cinema ainda consegue ceder um tipo de magia quase inexplicável.

Não estava lá um público apenas querendo ver o que havia idealizado de um filme, que se tornou um ícone respeitável pela tradição. Provavelmente estávamos para isso também. Mas havia uma expectativa tácita de rememorar as passagens que o agradaram em algum momento distante. E que agora poderia ser recuperado com um frescor raro. Assim, pude redescobrir um carinho por Bonequinha de luxo. Um carinho que talvez eu tenha cultivado com o tempo, mas que por essa recuperação viva, ele tenha se tornando um pedaço forte na minha memória.

 

Leia também:

Os 85 anos de Audrey Hepburn, Fashionatto

Bonequinha de luxo, de Truman Capote  em Indique um livro, site do Literatortura

A animação do poema O pássaro de azul, de Bukowski

Matéria publicada no site Literatortura

bluebird3O poema de Charles Bukowski, O Pássaro Azul, originalmente publicado na sua antologia de 1992 The Last Night of the Earth Poems, é uma meditação sutilmente profunda sobre uma faceta da condição humana que conhecemos muito bem. A compulsão, os vícios, o resultado de uma solidão que corrói diariamente, é a isso tudo que Bukowski consegue se referir – ou melhor, trazer à tona – com o seu poema.

O pássaro azul se mostra como a pureza que buscamos preservar na gaiola, proteger um dos sentimentos mais nobres diante de um mundo corrompido. Essa beleza pura, talvez o ímpeto que move o escritor a criar, pede para se mostrar, mas não é revelado pelo poeta, o qual se encontra à mercê das ofertas ambíguas do mundo. Na hora em que se deita e está sozinho, é na companhia desse pássaro guardado em si mesmo, que o poeta parece se recompor. Pelo menos um pouco, para suportar a dor e o desespero que existe sempre no dia seguinte.

A bela animação adapta o poema de Bukowski e foi criada por Monika Umba, estudante de Cambrigde School of Art. Com uma perfeição visual muito bem desenvolvida pela artista, a trilha de poucas notas dá o toque melancólico que soa na leitura. Os personagens possuem um corpo meio rígido, parecem feitos de recortes de jornal. Por isso, tem algo de cotidiano neles. O pássaro e o azul, os grandes protagonistas da animação, dão o tom aos eventos e brilham pela imagem, trazendo à vida a magia do poema.

Abaixo você pode conferir o poema de Bukowski e a animação:

O pássaro azul

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

in Textos autobiográficos, de Charles Bukowski, páginas 478/9. Tradução de Pedro Gonzaga. Porto Alegre, L&PM Editores, 2009.

Aqui o poema em inglês

Fonte

Bonequinha de luxo, de Truman Capote

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Resenha publicada no site Indique um livro

O famigerado tubinho preto e as pérolas elegantes, o fascínio pela Tiffany’s bem como o encanto de Holly Golightly que conhecemos por Audrey Hepburn em Bonequinha de luxo estão ainda mais vivos pela mão de Truman Capote, criador da obra adaptada ao cinema. É com surpresa e alívio que o leitor vai se deparar com muitas das cenas adoráveis do filme presentes logo de início na obra escrita. Claro que não haveria problema se fossem distintos, já que é possível um diretor recriar um enredo, assim como não dá para exigir do escritor a mesma imagem cinematográfica. Nem é justo. Mas vê-las pela escrita simples e exata de Capote re-significa a história que conhecemos.

Muitas vezes, durante a leitura, entendi por que a atriz Emilia Clarke (a Daenerys, de Game of Thrones) foi escolhida para a primeira versão da obra na Broadway. Não sei dizer se a adaptação foi bem-sucedida, mas o sorriso largo de Holly, o jeito debochado e a inocência que surpreende à primeira vista pelo contraste do seu discurso sem pudor existem de relance na presença da atriz.

Por que iniciar uma resenha falando sobre as atrizes que encarnaram Holly? É difícil tomar para si uma personagem que pode cair no erro se não for bem compreendida. Pela voz de um narrador quase inexistente, apelidado de Fred pela jovem, pois lembra o irmão dela, conhecemos Holly Golightly, uma mocinha de virtude duvidosa para os anos 50, deseja se casar e se casar bem. Ela é o que se nomeou de caça-dotes, uma bonequinha que estaria disponível para acompanhar os homens da high society, que preza pela beleza e a elegância simples. Um deles é até um diplomata brasileiro, veja só.

O olhar do narrador é o do escritor que ainda não sabe bem qual caminho traçar pela sua narrativa. Seus textos são insípidos e quando começa a contemplar a própria vida, encontra a musa inspiradora em carne e osso, ao seu lado. Por isso, ele se retira do enredo e se recoloca apenas para contar quem é a moça que ele admira, uma jovem desbocada e graciosa. Holly se torna para nós, então, uma espécie de ninfa contemporânea, que se veste com as melhores roupas para adornar o corpo que oculta ao seu admirador. Mas diferente da musa que se deixa ser vista, Holly ganha voz pela história de Capote. Mesmo que isso ocorra por meio do olhar masculino.

O exemplar da Companhia das Letras expõe Bonequinha de luxo e mais três contos que se interligam de uma maneira curiosa: todos os protagonistas são marginalizados pela sociedade. Capote não expõe o tema por uma escrita lamuriosa, que torna esses personagens coitados e, portanto, inferiores e dignos de pena do leitor. Eles engrandecem pela escrita de Capote, transformados em quase heróis decadentes, que se sustentam apesar da sensação de abandono.

Holly Golightly carrega certo dandismo na sua forma de se comportar. Característica do século XIX de um personagem bem presente nas figuras dos poetas e de George Brummel, o dândi se coloca na sociedade como um sujeito que preserva a sua elegância, a sua expressão artística pelo gesto que deixa na forma com que vive na sociedade. Contudo, essa se diverte com sua singularidade e o nega ao mesmo tempo. Holly é assim, a mocinha que agrada aos olhos masculinos, mas é rejeitada quando a sua reputação se torna exposta e duvidosa demais. E aqui, ela é mais uma mulher que vira a vítima das acusações de “vulgaridade”, “ataque à moral”.

Provavelmente Truman Capote deve ter vivenciado essa dificuldade em receber destaque como escritor, uma profissão que ganha um aspecto cult visto como intelectual admirável ao mesmo tempo em que pode ser a figura depreciada por aquilo que denuncia. Com uma ironia capaz de prezar pela leveza dos diálogos cotidianos, o autor dá uma cor intensa à Holly. Se Audrey conseguiu transmitir a elegância na decadência e o ímpeto em clamar por liberdade, a Holly de Capote é ainda mais moça, mais forte em seu espírito livre.

A leitura de Bonequinha de luxo flui como uma conversa informal e deixa um gosto de melancolia ao ser finalizado. Por ficarmos sem Holly e sem Capote. Porém, os contos ao final recompensam o leitor. Uma casa de flores conta com um enredo fantasioso de uma moça do Haiti que se apaixona e desiste da vida que levava para ficar ao lado do homem amado. Nele, Capote consegue dosar o movimento de dúvida entre quem domina e quem é o dominado no enredo, onde se pode encontrar a liberdade das formas mais inesperadas.

Um violão de diamante carrega um componente estético bem interessante. Da sua leitura fica novamente no ar até que ponto uma pessoa pode romper consigo mesmo para encontrar a liberdade. Essa dúvida paira tanto quanto o encanto pelo violão feito de diamantes no enredo. Por fim, Memória de Natal é uma pérola literária. Ao terminar de lê-lo, a vontade é de guardá-lo para não sentir novamente a tristeza dos personagens. No segundo seguinte, a vontade de relê-lo é quase inevitável. Não leia na época natalina, só o deixará mais triste. O conto possui uma carga autobiográfica, no qual se percebe que Capote pôs a sua alma e sua infância na forma mais bela possível de ser exposta. Os personagens possuem um quê de Charles Dickens e é difícil abrir o livro novamente sem se emocionar com as palavras do último conto.

Assim, Bonequinha de luxo é uma obra que vale ser lida e apresenta a grandiosidade que chamou a atenção do diretor Blake Edwards para a adaptação cinematográfica. Mais do que o ícone que Audrey Hepburn compôs com maestria, existe uma Holly Golightly viva no livro que merece ser conhecida.

O público fervilhante no Salão de 1868

HonoreDaumier

Coluna semanal no Fashionatto

Salon estava lotado naquele domingo. Vestidos feitos dos melhores tecidos, ou os melhores tecidos que as mulheres poderiam comprar dentro de suas possibilidades para seus vestidos, se encontravam farfalhando entre os passos demorados em mais uma edição do Salon, agora fervilhado de pessoas e olhares curiosos, críticos mal-humorados, artistas receosos querendo ver seus trabalhos nas paredes. Mais um Salon estava aberto, no ano de 1868. A cada ano as paredes eram alimentadas de obras e mais obras acadêmicas de artistas que iam construindo os seus nomes pela exposição, como Delacroix, Courbet, e a abertura do Salon era o evento que emanava a curiosidade e o gosto de comentar aos burburinhos as obras submetidas à Academia.

    “Este ano ainda Vênus….sempre Vênus…como se tivessem mulheres desse jeito!”

“Mais uma vez esse tema?”, “esse aí não sabe pintar”, “ele insiste em fazer mulheres sem ao menos saber pintar uma pele humana!”, “que vestido horrível, eu nunca o usaria, querido” eram algumas das possíveis frases que surgiam por entre a multidão. Os quadros, um acima do outro na parede, formavam um ambiente claustrofóbico de críticas, de desprezo, às vezes de encanto por mais uma execução excepcional naquele ano que tomavam os jornais exaltados diante do feito. Aquele espaço era muito pouco para a proposta e a vontade própria que emanava dos inúmeros quadros submetidos, deixados sozinhos para a mão em riste e a frase dura que poderia condená-los a um suposto fracasso em um ano.

Costurando as críticas proferidas aos cantos ou abertamente, desviando dos vestidos irritantes que insistiam em prender-se ao chão e ao caminho livre, estava um rapaz de terno simples, um tanto desgastado, com as mãos nos bolsos, olhando a sua volta com um meio sorriso divertido nos lábios. Todo ano ele insistia em visitar o Salon. Gostava de ver os tipos humanos, como muitos vestiam, juntamente às suas roupas feitas para impressionar, as melhores frases que tinham em mente para demonstrar que possuíam conhecimento sobre arte, sobre composição. Sem dúvida era um ótimo espaço para que a arte pudesse ser vista pelo público, e não morar apenas em um ateliê ou nas rodas intelectuais. Mas o jovem se surpreendia com a recusa categórica com que público e críticos viam as obras.

O jovem imaginava-os num julgamento, no qual cada integrante desse público admirador das normas que a Academia adorava presenteá-los com temas já estabelecidos, subia ao púlpito e defendia a sua tese em cinco linhas, concluindo com o som do martelo condenando o quadro exposto. Em 1865, provavelmente a obra mais julgada, que deve ter feito as massas xingarem, subirem raivosamente nesse púlpito que o jovem imaginava, dizendo que a obra era um atentado à moral parisiense, à nudez pura de Vênus, quem sabe até um ataque ao objetivo com que se fez um mero pincel – para criar o Belo!, deve ter sido Olympia, de Manet.  Chamada de mulher-gorila, corpo em putrefação disposto na cama (em um lençol que indicava a sua profissão de cortesã), Olympia foi atacada e esse ataque não foi esquecido pela posteridade.

Diante do quadro de Manet: “Por que diabos essa mulher robusta e negra numa camisa se chama Olympia?” “Mas meu amigo, talvez não seja a gata preta que se chama Olympia?”

Olympia, de Manet (1863)

Agora, em 1868, esse jovem rapaz achava curioso o silêncio daquele público fervoroso pela crítica, diante de Jeune Dame, também de Manet. Ele parava diante da obra, sozinho, via os olhares fugidios, as poucas críticas dos outros que, provavelmente, divertiram-se criticando Olympia. Não poderia ser apenas desinteresse. O jovem vira que, para aquele público, a jovem moça de camisola ao lado de um papagaio parecia não dizer nada. Quando ele se postava diante do quadro, o jovem que pouco sabia de arte, poderia afirmar que a moça ganhava vida, em um olhar hesitante para ele, e que a posição demarcada para o papagaio possuía um motivo a ser desvendado. Ele e a jovem se olhavam como se houvesse uma vitrine, e ela não parecia estar distante dele como as Vênus de peles alvas estavam no restante do salão.

Jeune Dame en 1866, Manet

O jovem ainda voltaria algumas vezes para ver Jeune Dame no Salon e para flanar por entre as obras à espera do desvelamento de alguns dos mistérios que o assombrava. E ainda reencontraria um artista simples, que se divertia esboçando croquis dos tipos humanos entre o público, olhando para Jeune Dame com a mesma curiosidade que ele tivera e a qual durava dias. Naquele momento, o mesmo jovem que ia ao Salon todos os anos, sentia que o espaço claustrofóbico parecia se esvaziar somente para o pequeno instante em que uma obra saía da delimitação da sua moldura e ganhava quase um brilho, que destacava o mistério que era a sua essência, pedindo para ser vista e voltando a se ocultar.

E ver o encanto de outro indivíduo pela mesma obra que seus olhos não queriam deixar de contemplar formava uma ligação invisível entre esse público antes virtual e a obra. Era por esse olhar que a jovem dama no quadro se aproximava, hesitava olhando nos olhos do seu observador. Parecia ser por esse olhar que todos os quadros se alimentavam, clamando por uma participação genuína do outro na recriação da obra de arte.

Resolvi transformar a minha pesquisa sobre Olympia e Jeune Dame em um conto. Lendo as críticas da época às obras, fiquei imaginando como seria estar entre o público do Salon observando as obras que, hoje, encontram um espaço aberto para o seu estudo. Por isso a existência do artista e do jovem curioso sobre arte (um flâneur, andarilho), no conto: para demarcar os possíveis tipos humanos que poderiam existir na multidão que enchia o Salon.

*imagens: croquis feitos por Honoré Daumier, nas suas visitas ao Salon de 1868.

As palavras mandam lutar neste semestre

imagem de capa lannister

Coluna semanal para o Fashionatto

Uma dor nas têmporas voltava a acometer aquele jovem de armadura. A dor voltara para visitá-lo, como se o simples bater da porta, o toque repentino nas têmporas, já denunciasse que a última tarefa de cada fim de semestre finalmente chegara. Eram seis meses no escuro, sem ter ideia do que poderia acontecer ao seu corpo e a sua alma, até que a proposta vinha – esperada, mas capaz de fazer o corpo tremer: havia o trabalho decisivo de fim de semestre.

Ele, como os demais jovens de sua idade, juntavam na pequena bolsa o pouco que lhe pertencia. A cada movimento em que ajustava a fivela das alças, o mesmo tremor passava pelas mãos feridas nas batalhas anteriores, a tendinite voltava a mostrar que apenas aguardava o momento certo para agir. Ele suspirava, o mesmo suspiro de resignação. Gostava da pequena ansiedade, gostava de ter escolhido aquele caminho. As tarefas moviam seu semestre. Mas não poderia deixar de afirmar que temia um pouco, a cada seis meses, para ver o que conquistara nos meses que se entrelaçavam um a um até o último nó.

A floresta de conhecimentos o aguardava ressonando. O jovem sempre preservava na memória o instante em que as árvores suspiravam em uníssono, tranquilas. Essas árvores viviam de promessas feitas por jovens estudantes. Aos poucos ela ganharia a vida que a fazia ser famigerada entre os reinos. Poderia assombrar seus alunos a cada fim de semestre com suas folhas riscadas de frases inesperadas capazes de conduzi-los à glória ou ao desfecho melancólico de um sucesso próximo a ser obtido escapando de suas mãos.

Com o esmagar do galho a sua frente pelo pé hesitante, era assim que cada jovem poderia despertar a floresta. Quase um olá tímido, que queria ser bem-vindo, mas que sabia o perigo de adentrar pelo labirinto de troncos. O tempo sugava o ar e sem neblina, sem vida ficava a floresta. Isso durava o segundo mais longo. A ação seguinte era a surpresa que a floresta de conhecimentos poderia causar no jovem. Ela já fizera chover a morte diante dos olhos inexperientes desses garotos e garotas que se preparavam para lutar apenas com uma espada. A morte vinha em forma de questões sussurradas que os humanos buscam esconder nos seus dias comuns. “Quem você espera ser?”, “Você salvaria o seu amigo se ele estivesse diante da glória que seria sua?”, “Vejo que você treme com a espada da mesma forma que treme com as palavras”, poderia sussurrar a árvore mais próxima. A morte não era literal. Porém, ela se fazia presente pela forma da dúvida, um alimento que provocava e estranhamente deixava com fome a alma desses estudantes.

A prova desse semestre seria algo ainda mais desafiador. Correndo, os jovens precisavam se desvencilhar das folhas escritas que caiam das árvores. Nelas, as frases que encapsulavam as grandes dúvidas, os grandes medos dos literatos cortavam quem encarava aquele trabalho somente como uma atividade passageira, que só deveriam sobreviver a ela. A floresta queria uma alma envolvida, que planejava e sentia cada trecho daquela prova. Ela desejava o acúmulo de experiências.

Ao segurar a espada com as duas mãos, o jovem mais destemido afastava as folhas. Dava uma espiada nas frases que continham. Engolia o choro, o medo. Diferente de alguns de seus colegas, ele sentia que precisava ver aquelas frases. Assim, ele as repetia dia após dia durante o semestre, até a próxima batalha. Ele era jovem, ainda estava aprendendo. A batalha era o único momento em que ele sentia estar no mundo exterior, era a sua única lembrança em vida. Ao ler aquelas frases, ele sentia que, apesar de produzir pequenos cortes em si mesmo a cada momento em que repetia uma frase, a palavra o recompensava. Por ela, o jovem alcançava a eternidade da floresta que ele, mesmo vivendo décadas, nunca teria.

Em um golpe final, escorrendo sangue e tinta negra da espada, ele feria as palavras que o feriam. Ele murmurava baixinho as respostas para aquelas perguntas, sabendo que nunca obteria a verdade. Ele passara pela prova daquele semestre. Enfrentar as folhas e golpeá-las não era o teste proposto pela floresta para que aqueles jovens destruíssem o conhecimento que os atingia. Era um confronto com a palavra e o discurso. Necessário a todo instante. Cansados, manchados de tinta, os estudantes descansavam na grama, encostavam-se nos troncos também cansados. A literatura havia acontecido. No alvorecer que espalhava o sol pelo labirinto de raízes e troncos, as folhas de perguntas davam trégua ao jovem. A batalha poderia recomeçar no despertar de uma próxima estação.

 

O conto é inspirado em Game of Thrones, mas uma forma de tornar épico os trabalhos de fim de semestre que devemos entregar na graduação. Não perdemos, literalmente, a cabeça com eles. Mesmo assim, às vezes chega a ser doloroso lidar com a soma de textos, as dúvidas e os prazos.

As imagens são do projeto Beautiful Death, trabalho excelente de ilustração do artista Robert M. Ball, com passagens de As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R.Martin, adaptadas para a série Game of Thrones.

Você já viu a única entrevista em vídeo de Sir Arthur Conan Doyle, autor de Sherlock Holmes?

Matéria publicada no site Literatortura

conan doyleEste vídeo é uma das melhores surpresas que a internet pode dar. O que você vai ver em seguida, nesse Sábado do Vídeo, é um registro histórico –e único!-  em vídeo de simplesmente o criador do maior detetive da Literatura. Sir Arthur Conan Doyle, numa entrevista gravada em 1927, fala sobre seu personagem Sherlock Holmes, o motivo que o levou a criar esse personagem tão fascinante.

Com um bigode e cabelos brancos, um sotaque arrastado, um ar bonachão e um humor simpático nos olhos pequeninos, Sir Arthur Conan Doyle se apresenta a nós em vídeo numa aparência e postura incrivelmente fortes. É como se realmente estivesse conversando conosco. O autor nunca iria imaginar que sua entrevista chegaria a um enorme público com a facilidade da internet. Parecia ser somente um pequeno vídeo, no auge do mistério que o cinema falado ainda causava na época.

O diálogo que ele propõe, enquanto entra em cena com o cachorrinho aos pés saltitando no que parece ser um chalé retirado onde ele reside, é muito próximo, aconchegante e desmistifica a aura que naturalmente criamos em torno dos escritores. É com simplicidade que Doyle explica que decidiu criar Holmes porque ele não aceitava o fato de que a maioria dos detetives, até então na literatura, deixavam de explicar o caminho que percorreram até a solução do caso. Parecia que o detetive era um sujeito à parte que descobria o segredo com naturalidade e nós só poderíamos ouvi-lo passivamente. Foi por isso que o autor resolveu criar um detetive que nos trouxesse ao enredo. No fim, participamos com Sherlock Holmes da descoberta do crime, caminhando na mesma linha de pensamento dele.

Essa ousadia de Conan Doyle em inserir o leitor na história explica a comoção que o detetive causou em Londres. É com humor que o escritor diz, no vídeo, que recebia cartas e mais cartas de pessoas que acreditavam na existência de Holmes, a ponto de enviar propostas de emprego. Muitas mulheres enviavam pedidos para ser governantas de Sherlock Holmes. Esse boato que atravessou os séculos e que hoje os fãs repetem está lá, registrado na voz de Doyle.

Além disso, o autor ainda expõe no vídeo a crença e a pesquisa que ele desenvolveu – e poucos conhecem – sobre o espiritismo. Nesse mês (18), o Estadão divulgou aqui a notícia de que uma carta exclusiva onde Doyle expõe a crença na religião se encontra hoje para ser consultada na biblioteca nacional do Reino Unido. Nela, Doyle se dirige à mãe, falando sobre a preocupação pelo filho dele ser soldado na Primeira Guerra Mundial. “Não tenho medo de sua morte. Desde que me converti em um espiritualista convencido, a morte se tornou algo desnecessário, porém temo enormemente pela dor e pela mutilação”.

Anúncio da época de uma das palestras do Doyle sobre Espiritualismo

 Após as mortes de sua esposa Louisa, do seu filho Kingsley, do seu irmão Innes, de seus dois cunhados e de seus dois netos logo após a Primeira Guerra Mundial, Conan Doyle mergulhou em profundo estado de depressão. Desafiando os críticos, em 1918 o autor passou a publicar suas primeiras obras sobre espiritismo, como A Nova Revelação, A Chegada das Fadas, História do Espiritismo. Longe de afirmar que o espiritismo seria apenas um conforto para o autor devastado. Foi um estudo muito cuidadoso de Doyle e, principalmente, que precisou sobreviver aos ataques de charlatanismo que a mídia impressa gostava de espalhar na época, como se Doyle fosse capaz de ter contato com os mortos por um misterioso artifício que, no fim, seria uma mentira e uma enganação. Isso gerou até caricaturas, como logo abaixo, de Doyle nas nuvens em sua crença insensata e Holmes ao lado, imponente no seu semblante concentrado, lógico e ao lado da verdade.

Soma-se à fama de Conan Doyle a defesa que ele fez da existência das fadas por meio de uma foto que, décadas depois, foi comprovado que eram simples fadas desenhadas no papel e coladas na grama. Elsie Wright (16 anos) e sua prima Frances Griffiths (10 anos) usaram uma simples câmera, e afirmaram que não possuíam qualquer conhecimento de fotografia ou truques fotográficos. O caso é interessante e até engraçado, pois houve uma comoção entre as pessoas diante da ilusão dessa foto já icônica, incluindo Doyle que não apenas aceitou estas fotos como genuínas, como até escreveu dois panfletos e um livro que atesta a autenticidade destas fotografias, incluindo um apêndice sobre o folclore das fadas. O que não pode acontecer é que o olhar crédulo e até ingênuo de Conan Doyle para as fadas destrua o seu comprometimento e estudo em relação ao espiritismo. Aqui não cabe delegar, com os olhos contemporâneos, que o autor foi tolo e, portanto, não vale ser lido. Cada época tem seus simulacros nos quais as pessoas acreditam. E sim, a leitura d’A Chegada das fadas deve ser, no mínimo, incomum!

Desta forma, o registro em vídeo de 10 minutos traz um Conan Doyle livre para defender a sua crença e contar diretamente ao leitor o processo de criação de Sherlock Holmes. A entrevista encapsula um contraste curioso de um autor que não foi somente criador de um detetive que seguia fervorosamente a lógica. Mas também um sujeito que, em sua vida, ia além das deduções e diagnósticos médicos do seu personagem, que acreditava na vida após a morte, no sobrenatural, incluindo fadas e magia. E isso, de forma alguma, o diminui. Só o engrandece, afinal, ninguém se faz somente por um tipo de ideal, crença ou personalidade.

Sir Arthur Conan Doyle, por vezes, acaba sendo ofuscado pelo personagem que criou. Por isso, assisti-lo nesse vídeo raro é dar uma chance para ver o autor como ele, de fato, era. Ouvir o seu discurso, suas propostas e como se divertia diante dos erros dos fãs com o possível Sherlock Holmes real. E ainda a crença que defendeu durante a sua vida, em um momento no qual o espiritismo não possuía o espaço e o respeito que recebe hoje. Venha conhecer Sir Arthur Conan Doyle, tão fascinante quanto Sherlock Holmes.

Clique AQUI para ver a entrevista!

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Mesmo que hoje a gente afirme que não há fadas, Doyle acreditou na existência delas pela história de duas irmãs que supostamente haviam fotografado as fadas. Leia aqui (em português)

aqui  outra matéria, em inglês, sobre o caso das fadas.

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