Sábado do vídeo | Conheça o filme da BBC Van Gogh – Pintando com palavras

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Especial Sábado do Vídeo publicado no site Literatortura

Sempre é tempo de pensar em Vincent Van Gogh. Hoje o artista é venerado pelas formas criadas dentro da tela. Crianças e adultos conseguem visualizar a beleza pulsante e viva nos seus quadros e ele está presente na educação formal das escolas. Mas sabe-se que Van Gogh só vendeu um quadro em vida. Que tinha um relacionamento ao mesmo tempo conturbado e de cumplicidade com seu irmão Théo, a quem dirige diversas cartas que hoje podemos ler em Cartas a Théo. Sabe-se também que cortou a orelha e que viveu uma vida entre surtos de esquizofrenia. Mas ele não reside apenas nesses detalhes curiosos, reproduzidos durante os anos.

Van Gogh virou parte da tradição artística. Definido pelos historiadores da arte como um pós-impressionista, Van Gogh sabia da vida parisiense que se alterava no final do século XIX. Sabia dos impressionistas, assim como admirava as obras de Jean François-Millet (considerado o precursor do realismo), Delacroix, Rembrandt, considerados românticos.

Van Gogh tinha um olhar aberto às mais diversas expressões artísticas, e se formou como pintor partindo dos artistas do passado. Reproduzia quadros de seus artistas favoritos, apoiava-se neles para, então, encontrar a sua própria linguagem. Certamente isso todos faziam. Porém, é um ponto que se costuma esquecer: pintores estudavam a perspectiva e o belo renascentista, Belas Artes tinha grande valor e artistas eram considerados dignos quando seguiam a técnica ou uma temática comum.

O artista holandês não teve uma vida fácil. E para conhecê-la nada como assistir ao filme-documentário feito pela BBC em 2010. Quem dá vida ao pintor é o ator Benedict Cumberbatch, que interpreta Sherlock Holmes na série contemporânea também feita pela BBC, além de Khan em Star Trek, Smaug em O Hobbit. A atuação do britânico soa simples, extremamente poética, de uma beleza teatral. Mas ela ganha vida mesmo por causa do texto, uma adaptação das próprias cartas escritas por Van Gogh ao irmão. E ele fala diretamente ao espectador.

O filme é uma daquelas obras que compensa pegar quase uma hora e meia para assistir e conhecer a vida do pintor. A emoção que brota da vida de Van Gogh e da composição simples do documentário acabam por impulsionar o espectador. Gera uma emoção bem forte, uma certeza de que Van Gogh merece ser admirado. Ele vivia a sua arte e viver pela arte se mostra algo tão doloroso e urgente, mas dá a sensação de que compensa receber pequenos instantes que acabam se tornando infinitos ao ver a obra pronta. Uma obra sem crítica, sem público.

Isso dói, é verdade. Mas era admirável como Van Gogh continuava criando, apesar da solidão cruel, das desventuras, do abandono. Talvez seja por isso que as obras de Van Gogh falam sobre algo a mais. Quase sussurram segredos sobre a natureza e sobre os homens. Mostra as cores que precisamos ver, as mais variadas realidades que o mundo pode ter. Ele nos espanta porque fala sobre o diferente, o incomum à percepção. Van Gogh carrega nas tintas tanto quanto a vida havia cultivado um peso difícil para ele carregar.

Por isso, vale assistir ao filme-documentário. Permita-se viajar pelas nuvens quase dançantes da Noite estrelada ou espantar-se com o amarelo vibrante dos Girassóis. Porém, o mais importante: pegue uma hora e vinte minutos para conhecer a história de um indivíduo respeitável, que via na arte a única forma de sobreviver e deixar uma marca forte em forma de tinta no mundo.

(Acima, o filme completo no youtube. Ative as legendas em português)

John Keating, um poeta morto

Prosa poética publicada no site Zona Crítica

john keatingA luz do conhecimento se insinua trêmula numa fala que vem dos deuses até os mais frágeis humanos. E cai sobre mim, que escrevo estas palavras do mais fundo buraco em que estou. Ao canto, em silêncio, sussurrando com uma vela acesa na mão. É aqui que eu, personagem, moro. Até que as pessoas me levem para o alto e eu possa viver um pouco dos seus dias.

O meu respirar é brando porque tento economizar um pouco da vida que acabei de ganhar ao voltar para cá. Eu vi a tristeza e a perda de meu criador. Mas eu existo em independência. Esperam muito de mim, já salvei almas de estudantes afoitos ou perdidos numa vida amortecida pelas regras da tradição. Mas de John Keating sei que sou apenas um professor que mora numa história. Talvez isso não seja muito. Ou há dias em que isso é o suficiente para preencher o espaço que existe para mim nessa vida que me comprime.

Posso ser professor, estudante, jovem, ator, e a palavra que falo. Minha vida é para colocar uma palavra ao lado da outra e sobreviver nessa fila que formo com elas. Penso que provavelmente você que está do outro lado faz o mesmo. Ou busca a mesma salvação. Quando eu era um estudante, ouvi uma professora me dizer, olhando diretamente nos meus olhos, decifrando aquilo que eu ainda estava revolvendo da terra, descobrindo sobre o poder doloroso e subversivo que surge após a ponta do lápis encostar no papel. “Escrever é questão de vida ou morte, como foi para Sherazade. Contar as histórias para não ser morta. Você precisa escrever para nunca deixar a página em branco da História. Um povo precisa falar.”

Eu peguei essas palavras e grudei na pele como se não pudesse mais soltá-las. E transmiti para outros jovens como eu fui um dia. As palavras dela me cortam até hoje, servem de consolo e subsistência. Um café para me despertar do estado letárgico em que por vezes me forçam a ficar. Escrevo agora para saudar aos estudantes que passaram pelos meus olhos, pelo estudante que fui, pelos estudantes que virão. O mundo deveria acolher os estudantes. Em contrapartida, o que ocorre é um mundo hostil a eles, duro, exigente para que engulam o mundo que existia antes deles.

Diante do desespero de ser esquecido, escrevo essas palavras. Lá em cima, misturado à luz do mundo, eu começo a ver a silhueta do público me chamando para ser novamente o John Keating que o cinema ama. Eu devo deixar esta vela ao canto. Ao voltar, encontrarei o mesmo silêncio onde moro. O silêncio do qual sou feito: um personagem que mora no imaginário dos homens. Um silêncio preenchido pelas histórias das pessoas lá de cima, das pessoas como você, que encontram em mim uma pequenina chama de sobrevivência. Posso residir no lugar-nenhum onde repousam as ideias e os sonhos, mas quando vejo você, leitor e espectador, eu ganho vida.

Posso ser louco, e sou louco. Mas sou um louco que respira para contribuir à vida com um verso. Sou louco como Whitman, sedento como Whitman pelo rompimento das regras em alcançar o infinito pela palavra. Sou um personagem que ganhou vida por um ator e que agora dorme aqui, à espera dos estudantes e do público. Venha em minha direção, não me esqueça. Tenho nas mãos a luz do conhecimento que me guia pela floresta até encontrar os seus olhos, a sua alma disposta a ouvir. Brado o mais profundo dos gritos para dizer ao mundo que me recebe: sou John Keating, sou um poeta morto, your captain, my captain.

Robin Williams, um ator de muitas facetas

Matéria publicada no site Literatortura

600full-robin-williamsA terça-feira amanheceu mais triste com a morte de Robin Williams. O ator foi encontrado morto na segunda (11) com suspeita de suicídio. É inegável a participação de Robin na infância de uma geração e na vida de muitos adultos. Ele era um ator ousado em compor personagens que se tornaram facilmente simbólicos no imaginário do cinema. Foi uma babá (quase perfeita!), um robô com emoções humanas em O homem bicentenário, Peter Pan, Popeye, o Gênio da lâmpada em Aladdin, um DJ irreverente que serve ao exército americano em Bom Dia Vietnã, o doce médico do filme Patch Adams que levou a alegria para inúmeros pacientes, um rapaz que se vê como peça de um jogo de tabuleiro em Jumanji.

E sem esquecer das representações memoráveis do ator como professor Sean Maguire em Gênio Indomável e John Keating. Ah, John Keating ainda é o meu ponto fraco. É o professor de A sociedade dos poetas mortos que clama aos seus alunos por Carpe Diem, pela poesia como modo de sobrevivência para uma vida baseada em paixões e palavras que podem mudar o mundo.

A Academia, que premia todo ano os melhores do cinema pelo Oscar, deixou uma singela homenagem ao ator no twitter. Robin interpretou o adorável e único Gênio da lampada, em Aladdin. Por isso, o perfil publicou a foto do personagem abraçando Aladdin com a frase “Genie, you’re free” (Gênio, você está livre). Para um personagem e um ator que cumpriu com os nossos desejos de vê-lo atuando em mais e mais filmes inesquecíveis.

Como Robin Williams se fez como ator? É só voltar e reler o parágrafo inicial. As expressões dos personagens estão frescas na memória. Muitos domingos, sessões da tarde e a tradição de assistir ao filme na tv quando se é criança acabou trazendo Robin para dentro de casa. Ele ocupava as minhas tardes e, principalmente, eu não lembro de assisti-lo sozinha. Eu chorava com Patch Adams junto com meus pais, eu me emocionava ao ver um robô chorando, junto com minha família. O Gênio passava a semana comigo. E aí no final de semana era a vez de sentar no sofá e ver estes filmes mais densos.

E aprendi a ver a poesia com naturalidade por esses primeiros momentos singelos ao entrar em contato com um filme. Robin me ensinou isso. Tanto que é difícil escolher um só filme para rever do ator.

A ironia ao ver a criança de ontem crescer é que hoje ela encontra a sua mais forte expressão no filme A sociedade dos poetas mortos. Jovens inseguros com os caminhos que precisam tomar, a autonomia que vai além dos 18 anos completos. Escrever acabou ganhando o mesmo significado que ressoa na voz de John Keating e se aprendi alguma coisa é que carpe diem precisa estar nas nossas mentes. Que pessoas vão e vem como os quadros dos mortos na parede. E que precisamos conhecê-los porque, um dia, eles se alimentaram da poesia como única forma de sobrevivência. Da mesma forma que, hoje, nós precisamos escrever para sobreviver.

Robin Williams também merece este espaço entre os atores do nosso imaginário. Para reencontrar a expressão mágica e doce de seus personagens poetas. Por isso, não é de se surpreender como o ator esteve presente com vivacidade nos nossos primeiros contatos com o cinema. Um grande mestre, um capitão, my captain.

Saiu o trailer de Into the Woods, musical da Disney com Meryl Streep

Notícia publicada no site Literatortura

meryl streep into the woodsEm 2013 começou a produção do filme Into the Woods. Quase dois anos de espera para saber o que seria dele. Agora um trailer foi divulgado só para aguçar a curiosidade. Into the Woods é uma adaptação da obra de Stephen Sondheim e do roteiro para a Broadway de James Lapine, vencedor do Tony Awards.

E a imprensa norte-americana já adianta: a Disney não será fiel ao musical. Conhecido por propor uma releitura dos contos de fada com linguagem adulta, o musical da Broadway teve algumas de suas cenas com mortes e sexo implícito cortadas para a versão da Disney.

No musical que estreou nos anos 80, dá-se a entender que a Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau tiveram um envolvimento e que a Rapunzel morria, mas isso não deverá acontecer no filme da Disney devido ao público-alvo.

Em entrevista ao The New Yorker, o autor do musical disse que “se fosse um executivo da Disney provavelmente faria a mesma coisa”. O que faz sentido, claro, já que não é o propósito dos estúdios de animação direcionado às crianças e adolescentes.

Porém, dá um pouquinho de receio ao pensar que, no fim das contas, o filme pode ser mais uma adaptação de contos de fadas. Nos últimos anos, o cinema foi povoado por eles, de Branca de Neve e o caçador à recente Malévola, da Disney. Ou por Cinderela que deve estrear em março de 2015. Ou a versão francesa de A Bela e a Fera, prevista para setembro de 2014. O gênero chama a atenção e não deixa de ser interessante ver novas propostas para os enredos clássicos.

Vale lembrar que Into the Woods, por conta da demora, acaba por surgir em um cenário que já se estabeleceu bastante entre os espectadores. Talvez até tenha se estabelecido tanto que o formato já se tornou meio óbvio. Ainda mais quando os cinemas os lançam um atrás do outro. Pode arrastar multidões para a sala e ser um grande sucesso, mas também pode deixar de apresentar algo novo ou ainda perder a chance de mostrar o enredo quase desconhecido de Into The Woods, que em si é inovador. E foi inovador nos anos 80 para o teatro.

O que deixa o espectador esperançoso é poder ver um musical voltar às telas e com um elenco respeitável. Dirigido por Rob Marshall, de Chicago, e do produtor de Wicked, o filme traz Meryl Streep, Anna Kendrick, Emily Blunt, Chris Pine, James Corden e…Johnny Depp. Que só mostra a sua mãozinha de lobo no trailer.

E Meryl Streep, vale ressaltar. Que, se quisesse, poderia fazer uma árvore muda durante todo o filme e se sairia bem. Mas está aqui como a bruxa que conduz e procura testar os personagens dos contos de fada. Nos bastidores teve até a brincadeira de que a atriz recebeu umas aulas de rap com o 50 Cent, porque foram vistos assistindo a um jogo de basquete.

Como diz o trailer, cuidado com o que você deseja. Eu, no momento, espero que o filme honre a espera. Pelo menos ele parece ser uma grande promessa. O filme está previso para 25 de dezembro de 2014 e 1º de janeiro de 2015 nos cinemas nacionais.

Veja o trailer AQUI 

Fontes: MSN Cinema  e C7nema

O que fazer quando você não sabe do que escrever

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Coluna semanal no Fashionatto 

Definitivamente isso já ocorreu com inúmeros humanos mundo afora. O terrível vazio não no espaço, mas nesse bloco branco que chega a sufocar porque dele não sai ficção. As ideias estão até anotadas, as premissas estão lá de possíveis personagens, mas e o clímax? Qual é a motivação do enredo? Não aparecem e não vem aquela vontade de escrever, perder o ar escrevendo uma história até que ela alcance o que você espera dela.

Lá no fundo da gaveta você acaba por encontrar um texto escrito às pressas, não-publicado, quase engolido pelo esquecimento. E fala justamente sobre o momento em que foge a motivação para escrever. Já aconteceu de eu ficar meses sem escrever uma prosa, um conto. E foi terrível, todo dia a culpa vinha e agora, quando escrevo todo dia, eu sei que não dá para deixar essa vontade morrer e voltar à letargia de antes.

E então você entende que ele retornou: o Monstrinho Que Devora a Vontade de Criar Um Texto Novo. Não vou dizer que é falta de inspiração, porque isso é falta de argumento. É verdade que a gente escreve quando está inclinado a escrever. Porém, isso não quer dizer que escrevemos quando os céus anunciam um raio de sol por entre as nuvens, quando os planetas se alinham, quando o horóscopo diz que a tendência é criar uma grande obra. Todo dia você se força a escrever um pequeno grupo de palavras. Começa a formulá-las como pequeninas joias. Não precisam ser brilhantes e perfeitinhas, soando bem bonitas, não. Elas precisam pulsar no texto. E aí depois você vai revendo, trabalhando com elas.

E olha só a ironia. O escritor, quando não tem muita ideia sobre o que escrever, quando está tateando em busca das palavras no escuro, elas não surgem gratuitamente. Você concede uma confiança a elas, tentando achar as palavras para narrar a própria busca por elas. E dá num texto como esse. A metalinguagem não é uma saída de emergência para prazos, não. Escrever sobre o próprio ato de escrever é a reunião daquilo que você pratica todo dia e pensa todo dia. Mas agora o ato virou palavras também.

Por isso, vamos transformar isso num personagem. Imagine que Paulo é o escritor desesperado por algumas linhas diárias. Ele vê seu corpo se retrair confuso na própria pele, está exposta a carne em pele, que faz a vez de esconder e mostrar o homem. Nesse mundo-intruso que ora se fecha e se abre em seu ser. Esse mundo o invade – obrigações, prazos, medos-, parece até desvendar a sua alma, o inominável. Depois se assusta, encapsula o maior dos segredos do homem, que nem ele se dá conta. Sorte daquele que o vê brilhar, ele pulsa vivo como nunca. Não dura sequer um segundo esse homem para voltar ao seu corpo. Parece inerte, mas pulsa o resquício dessa epifania. Pronta para chocar. Homem-epifania.

É uma existência que parece até supérflua. Há momentos em que os passos desse homem hesitam e ele tem medo. Uma voz interior diz que tudo irá fracassar e virar pó. As palavras saem titubeantes, como se fossem nuvens dispersas, incalculáveis. Esse é um homem qualquer, pode ser você, desamparado leitor que chegou até aqui nem sabe como, ou pode ser apenas uma conversa interna para quem escreve. O triunfo ao ser bem-sucedido em algo que se deseja muito, às vezes, se esvai. Por isso escrever é sobrevivência. E só queremos as palavras, para que pelo menos elas estejam pairando por aqui. Mas pode acontecer de até essas palavras virarem vilãs e irem embora.

A crise, talvez sirva como título provisório. Gosto de pensar que esse humano que somos, na verdade, vive em eterno aniquilamento e recuperação de si mesmo. Não precisa ocorrer grandes acontecimentos para isso. É uma epifania que empurra esse dia-a-dia perturbador. Sem a poesia ele faz do homem mera cápsula que recebe o que vier, mas que não armazena nada porque está cansado de tudo. E aí a poesia morre. Não, a poesia não é para poucos. É para todos. A questão é que ela sabe se esconder. Não pense que ela é ameaçadora. Só gosta de fingir que é reservada.

O que fazer quando não souber o que escrever? Escreva. As palavras não mordem, siga as páginas em branco sem hesitar.

White Blank Page, de Mumford and Sons

“A white blank page and a swelling rage, rage – Uma página em branco e uma inchada raiva, raiva
You did not think when you sent me to the brink, to the brink – Você não pensou quando me mandou para a beira do abismo, ao abismo
You desired my attention but denied my affections, my affections – Você desejou minha atenção mas negou minhas afeições, minhas afeições
(…)
Lead me to the truth and I will follow you with my whole life – Guie-me para a verdade e eu irei seguir você com toda a minha vida

 

Buraco negro|Cientistas criam um preto impossível de ser visto

calvin sky

Minha coluna semanal no Fashionatto

Após ter um sonho em que eu quase era engolida por um buraco negro, um dos quais eu descobri no sonho ter sido criado por mim mesma em laboratório, ler a notícia no The Independent sobre um novo tom de preto me causou espanto. E a sensação de que existe alguma realidade alternativa em que os sonhos possuem uma relação com a vida por aqui. Mas antes de crer nessa possibilidade, eu resolvi ler o anúncio do site.

Se você admira o pretinho básico na moda, pelo vestido de Audrey Hepburn, se idolatra o tom pelas peças de Coco Chanel ou crê que ele seja uma das representações mais belas e simples ao gótico e ao bizarro, chegou a hora de saber da verdade. O tom preto conseguiu se tornar ainda mais misterioso. De acordo com uma notícia divulgada no dia 13 de julho pelo site The Independent (aqui), uma companhia britânica produziu um material “estranho, alien” tão preto que isso absorve 0,035% da luz visual, alcançado um recorde mundial. Para contemplar esse preto tão misterioso deve-se saber que ele é feito de nanotubos de carbono – cada um 10.000 vezes mais fino que o cabelo humano – e é uma experiência realmente estranha. É tão, tão preto que o olho humano não pode entender o que está vendo. Contorno e formas estão perdidos, deixando nada, apenas uma sensação de terror e insegurança diante dos olhos.

Obviamente, não seria possível um vestido Chanel corporificar esse preto. Ficaria algo indefinível flutuando em torno da modelo, além de possuir um custo muito elevado que se recusam a divulgar. Portanto, tem sido considerado para uso militar, mas que o produtor Surrey NanoSystems não está permitido a falar sobre isso.

“Você espera ver os contornos e tudo o que você pode ver…é preto, como um buraco, como se não houvesse nada lá. Isso é muito estranho”, disse Bem Jensen, oficial técnico da empresa.

Certo, mas em que se pode utilizar essa tecnologia? Usos práticos do Vantablack incluem câmeras de calibração utilizadas para tirar fotografias dos objetos mais antigos do Universo. Para isso, aponta-se a câmera para algo tão preto quanto o material. Stephen Westland, professor da ciência da cor e tecnologia em Leeds University, disse que tradicionalmente o preto foi, na verdade, uma “cor da luz” e os cientistas estão transformando isso em algo além desse mundo.

“Muitas pessoas pensam que o preto é a ausência de luz. Eu discordo totalmente com isso. A menos que você esteja olhando para um buraco negro, ninguém tem visto na verdade algo sem luz”, ele diz. “Estes novos materiais são pretos como conseguimos captar, o mais próximo de um buraco negro que nós somos capazes de imaginar”.

Ler essa notícia, não apenas como uma confirmação estranha do meu sonho que ocorreu por coincidência no mesmo dia em que saiu a notícia, foi imaginar um mundo em que humanos entrariam em guerra para ver a cor-que-ninguém-vê. Esse preto tão intenso possui uma poeticidade imensa e amedrontadora. Chefes de estados se enfileirando para contemplar uma massa negra. O terror se instaurando no mundo por uma cor que passa como manto pelas cabeças humanas, retirando todos os tons das coisas. Discutir Arte perderia o sentido, se o preto tomasse todos os quadros. Cairíamos no relativismo nunca vivenciado, em que os contornos das formas não existiriam mais. Deixaríamos de discutir se a percepção no engana. Agora é tudo parte desse buraco negro! O cogito cartesiano, a suspensão do juízo pela dúvida, que Descartes propõe as suas Meditações Metafísicas, a existência pela capacidade de pensar a si mesmo, iria por água abaixo. Como suspender o juízo colocando a dúvida sobre o que se vê, se todas as formas que antes causavam a confusão humana agora são parte de um buraco negro?

Nações fariam de tudo para comprar a cor preta e eu não sei por quê. O olhar seria treinado para ver e buscar o encanto tão escondido, tão intrinsecamente oculto de nós, que seria logo convertido numa cegueira que deseja talvez aquilo que não existe. Multidões de poetas iriam enlouquecer diante do inenarrável. Há séculos o poeta fala sobre a essência da palavra. A questão é que desta vez o nada se anunciaria com tanta força que a palavra estaria morta de todas as formas. Não haveria um mundo oculto por trás da palavra. Só haveria mesmo esse buraco negro que ninguém vê. Os poetas se lançariam no buraco negro, buscando a morte como redenção. Mas nem isso eles iriam encontrar: a morte seria concluída pelo nada mais poderoso do que a palavra. Tanto que conseguiria negar até o gesto do artista. A comunicação se perderia. Nada no dicionário, nenhuma expressão corriqueira poderia anunciar a tentativa de encontrar a verdade sobre a cor.

O mundo faleceria num buraco negro. Justamente o buraco negro que eu vi no sonho e me surpreendera tê-lo produzido em laboratório. A surpresa desta vez, porém, é imaginar um mundo que não permitiria nem o caos. Estaria tudo mergulhado na escuridão permanente. Seria quase o mesmo que vivenciar o terror existente na obra O sonho da razão produz monstros, do Goya. Estaríamos condenados a dormir nessa escuridão enquanto a razão vestida de preto tão-incrível-porque-ninguém-vê se anunciaria como um avanço racional à ciência. Os cientistas criaram uma cor que ninguém vê. O propósito talvez não termine no mundo narrado logo acima. Mas o mistério que envolve esse preto é tão nebuloso que apenas o conhecimento que temos dele é que nunca conseguiríamos ver a sua plenitude. Isso é assustador.

Para tentar animar um pouco, mas nem tanto, olha aí o clipe Supermassive black hole, do Muse. Seríamos as pessoas com roupinhas estranhas virando buraco negro.

“(You set my soul) – Você acendeu minha alma
Glaciers melting in the dead of night – Geleiras derretendo na morte da noite
And the superstars sucked into the ‘supermassive’ – E as super-estrelas sugadas para o supermassivo”

Bonequinha de luxo: Uma crônica sobre a vivência de um clássico no cinema

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Coluna semanal no Fashionatto 

A tela de um cinema pode guardar os segredos de uma história mantidos por décadas e revelar quando bem entender. Foi essa a sensação de rever o filme Bonequinha de luxo na tela de um cinema. A iniciativa é das redes Cinemark, que abriu três sessões por semana exibindo alguns filmes considerados clássicos, como Taxi Driver, Pulp Fiction, Laranja Mecânica, Nos Embalos de sábado à noite, Grease e Bonequinha de luxo. É provável que tenha outras temporadas de mais clássicos nas telas.

A experiência de rever um clássico na tela parece reposicioná-lo no instante em que a obra é descoberta. Hoje o cinema já o consagrou, mas a exibição na tela renova a aura em torno das cenas. Uma sala lotada de jovens e alguns senhores e senhoras de meia-idade compunha o público que ia ver Audrey Hepburn na pele de Holly Golightly. A sua entrada triunfal na Quinta Avenida descendo de um taxi rumo à vitrine da Tiffany’s, o café da manhã diante das jóias e o ar tranquilo da personagem me pareceram ainda mais intensos do que pela primeira vez em que vi Bonequinha de luxo.

Claro, não dá para contar como um grande parâmetro a primeira vez em que o vi, com treze anos de idade. A questão é que nas outras vezes em que assisti ao filme, as belas roupas e a simpatia de Holly davam espaço ao texto simples e astuto presente no roteiro. Fui descobrir depois que esse era baseado no livro de Truman Capote. E ainda após ler a obra do autor, visualizar o filme agora conseguiu aprofundar ainda mais a relação com a composição dos personagens por seus criadores.

O texto de Capote está vivo no filme. Dificilmente se encontra adaptações que conseguem vivificar as palavras do autor de uma maneira nova, preservando o discurso e a intenção inicial dele, ao mesmo tempo em que se propõem cenas que conseguem acrescentar lirismo à criação literária. Muito do que Blake Edwards decidiu criar na direção de seu filme respeitava o espaço do autor que criou Holly. A fotografia limpa e simples diante do luxo que é Nova York, as transições de cenas feitas pela presença do gato, a trilha inspirada somente em Moon River foram elementos que, hoje, são impossíveis de desvincular do imaginário. Truman Capote também existe pela criação de Blake Edwards.

Nas telas de cinema, a direção de Blake Edwards me soou impecável. A cena bem construída da festa no apartamento de Holly cede um dinamismo maior que na obra literária. E a cena final da película se aproxima mais do ideário dos anos 50 e 60 do que o livro, ou seja, do que se esperava ver em um filme do gênero. Porém, isso não o faz ser uma opção fácil. Se no final de Capote há uma melancolia permanente, Blake Edwards a dividiu em pequenas porções em todo o filme, e pelas palavras do próprio Capote. Tanto o escritor quanto o diretor brincam com os sentimentos do leitor e espectador. Lidando com um tempo alinear, Capote nos faz voltar atrás na história para tentar tranquilizar o coração quanto ao destino de seus personagens. Blake Edwards parece nos colocar em desespero na cena final para, logo, nos recuperar.

De qualquer forma, Capote e Blake Edwards fazem boas jogadas na composição de suas histórias. Na tela do cinema, consegui me encantar ainda mais pela atuação leve e bem dosada de Audrey Hepburn. Entre a sala lotada, foi experimentada a sensação de que estávamos numa sala isolada presente em um tempo perdido o qual havia voltado por poucas horas. Nos trechos quase esquecidos de Bonequinha de luxo, percebi que a tela do cinema ainda consegue ceder um tipo de magia quase inexplicável.

Não estava lá um público apenas querendo ver o que havia idealizado de um filme, que se tornou um ícone respeitável pela tradição. Provavelmente estávamos para isso também. Mas havia uma expectativa tácita de rememorar as passagens que o agradaram em algum momento distante. E que agora poderia ser recuperado com um frescor raro. Assim, pude redescobrir um carinho por Bonequinha de luxo. Um carinho que talvez eu tenha cultivado com o tempo, mas que por essa recuperação viva, ele tenha se tornando um pedaço forte na minha memória.

 

Leia também:

Os 85 anos de Audrey Hepburn, Fashionatto

Bonequinha de luxo, de Truman Capote  em Indique um livro, site do Literatortura

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