Como está a 8a temporada de Doctor Who

Matéria publicada no site Zona Crítica

CONTÉM SPOILERS

A 8ª temporada da série britânica da BBC Doctor Who chegou ao episódio 7, com Kill the Moon, na semana passada. Com um enredo que vem dividir, de certa maneira, o andamento das viagens no espaço e tempo a bordo da TARDIS, vim comentar, então, o que se passou até agora nesta nova temporada, com o Doctor assumido por Peter Capaldi.

O personagem é um prato cheio para a série que já tem cinquenta anos marcados pelo Senhor do Tempo vindo de Gallifrey. A regeneração do 11th Doctor para o atual, o 12th, criou algumas expectativas para o modo com que Capaldi o assumiria. E está certo de que ele o assumiu muito bem. A nova faceta do Doctor é obscura, por vezes egoísta, deixa nas entrelinhas aquele heroísmo que era exposto com clareza pelos outros Doctors que saíam correndo para salvar a humanidade. Aqui, essa faceta é mais discreta. Por um lado, é inovador, por outro ainda temos aquela expectativa pelos episódios mais agitados quando se trata de invasões da Terra para ver mais do 12th em ação.

Capaldi conseguiu dar um toque obscuro que divide espaço com a comicidade. Em Deep Breath ele chegou confuso e pedindo o apoio de Clara, a companion que viu a regeneração do 11th para o 12th e está em dúvida se ainda conhece o Doctor, se ainda pode acompanhá-lo. Tanto que o próprio Doctor pergunta a ela se a companion crê que ele seja bom. Até aqui já sabemos que assumir o papel de alguém que salva os diversos mundos espalhados pelo universo não é fácil, é um peso inimaginável. Por isso Capaldi funciona tão bem, ele responde com sinceridade como não é nada fácil ser quem ele é, e que não é fácil para quem escolhe viajar com ele.

Em Into the Dalek o Doctor está arredio e instigado pela proposta de entrar e tentar curar um Dalek, seu maior inimigo. Mas é neste ponto que passamos a ver que este Doctor traz as obscuridades deixadas para trás. Ele tem ódio – como os Daleks têm – mas é um ódio que acaba por levá-lo aos atos mais dignos. Confuso? Esse ódio, ou pelo menos o ímpeto de desafiar tudo dá um formato ao 12th Doctor. Em Robot of Sherwood essa faceta se dilui um pouco para incluir a comicidade, porque o Doctor também é estranho. E sim, Capaldi me conquistou ainda mais na luta que trava com Robin Hood usando uma colher.

Em seguida, veio o melhor episódio até o momento, aquele que eu fiz questão de rever três vezes na mesma semana, decorar os poemas em inglês e comentar com todo mundo – do whovian à mãe – e traçar relações entre o episódio e a janela batendo no quarto. Foi Listen, um episódio impecável, precioso nas mãos de Moffat, que consegue misturar muito bem a poesia – acho que ele compreende muito bem o seu personagem – às viagens e presenças alienígenas do enredo sci-fi. Listen mostra que o Doctor tem medo. Que existe uma criatura debaixo da cama de todas as pessoas que já acordaram de um sonho e sentiram seu calcanhar ser agarrado ao sentar na cama e pisar no chão.

Você só precisa ouvir estas criaturas que poderiam estar conosco, essas que parecem estar ao nosso lado quando sentimos uma respiração na nuca e não vimos ninguém, quando simplesmente falamos sozinhos. Sabemos que estamos sozinhos, mas por que falamos em voz alta? Conjetura. Sabemos que há alguém nos ouvindo. É com esta premissa dada pelo Doctor – numa das melhores aberturas, com o personagem observando cenários espalhados pelo mundo – que o episódio nos conquista, porque fala do medo mais comum, aquele que muitos já sentiram, aquela pergunta que já nos fizemos. E se houver algo debaixo de nossa cama? E se nunca estivermos sozinhos? O episódio traz essa criatura aos nossos olhos, para dentro do quarto. E ainda cita a frase do primeiro episódio de Doctor Who, “fear makes companion of us all”, com o medo se tornando a nossa companhia, uma falha com a qual podemos conviver. Tudo bem se tivermos medo, se isso nos fizer heróis que comandam sem armas. Como o Doctor.

Até este ponto a formulação de Capaldi para o Doctor é brilhante. E se os próximos episódios apresentaram algumas falhas, o que se manteve intacto foi o trabalho do ator.Time Heist veio em seguida, com um enredo inspirado na atmosfera dos filmes de espionagem como James Bond e Missão Impossível. Começou bem utilizando deste artifício e inserindo novos personagens no enredo que podiam voltar, porque deixaram para trás a curiosidade sobre suas histórias. Doctor recebe uma ligação no telefone da TARDIS e leva Clara para roubar o banco de Karabraxos. A presença da criatura Teller, usada na segurança deste banco para detectar a culpa em um homem e assim transformar o seu cérebro numa “sopa” – sugando tudo o que há nele – é assustadora e poderia ter sido melhor aproveitada, até porque o enredo perde a força na sua síntese.

The Caretaker foi o sexto episódio e aí, neste ponto, eu fiquei meio preocupada. Para começar, é claro, preciso dizer que a atmosfera do episódio foi boa. Apostou em um humor ainda não visto na forma do Doctor, que passou a trabalhar como zelador na escola onde Clara dá aula, no codinome de John Smith, também usado várias vezes como disfarce pelo segundo, terceiro e décimo Doctor. O Doctor é muito inconveniente, e isso rende umas cenas cômicas, com ele construindo também objetos sônicos estranhos que parecem mais sucata do que a tecnologia que a gente conhece. A atmosfera do episódio lembra um pouco Caça-Fantasmas, sim. E tem até um momento ótimo e bem sutil em que o Doctor assovia Another brink in the wall, do Pink Floyd, quando a Clara está chamando atenção das crianças. Até aqui a história foi fluindo muito bem, pudemos acompanhar finalmente um pouco da rotina de Clara e o seu namoro com Danny, um personagem que terá importância no arco da temporada.

A questão é que neste episódio, começou a parecer mais confusa a caracterização da Clara. Ela se vê pressionada a escolher o relacionamento com Danny e a liberdade que sente ao conhecer o universo na companhia do Doctor. Sabemos que ele não é totalmente agradável como o 11th era. Mas também não é motivo para abandoná-lo. E também não há motivo para o Danny desejar comandar a vida da namorada, exigindo promessas, por conta deste contato com o Doctor. Por que não participar com ela destas viagens?

Enquanto isso, o episódio acabou por enfraquecer os três personagens, com um Doctor inconveniente repetindo uma ironia em relação ao Danny, o que pareceu apenas birra e até uma manifestação de preconceito. É verdade que o Doctor tem seus traumas em relação a soldados em seus tempos de guerra, mas o episódio poderia ter aberto mão de bater nesta mesma tecla por uma simples fala.

A interferência de Danny na amizade de Clara com o Doctor também complica o modo com que vemos esses três personagens. Ela viaja com o Doctor, ela conhece todas as regenerações dele. E chega uma pessoa e planta uma dúvida em sua mente a ponto de não se posicionar com firmeza? Clara demonstrou que era determinada e forte no decorrer da temporada, não dando espaço nem para o Doctor ser arrogante como costuma ser em alguns momentos. Ela busca ter um controle da situação. E, neste episódio, o roteirista perdeu a chance de dar voz a ela, de finalmente sabermos o que a fascina nas viagens e como ela gostaria que o Danny fizesse parte delas também, e como ela lida com a complexidade desse ser que tem tantos comportamentos em sua vida. Assim, o episódio que começou bem, acaba perdendo o propósito até mesmo em relação à criatura alienígena que o Doctor deveria combater na escola e enfraquece a caracterização dos três personagens.

Depois disso, esperei que Kill the moon viesse reestabelecer o cenário. A qualidade dos efeitos especiais e a trilha sonora souberam criar uma lua plausível, que teria perdido a gravidade e que estaria colocando em perigo a vida na Terra. O enredo traz aquela tensão já conhecida por ser necessário fazer escolhas. O episódio é ótimo, pois realmente instiga a pensar sobre a situação e trouxe de volta ao nível dos primeiros episódios, com uma agilidade na narrativa.

Porém, passei a semana inteira pensando sobre a pauta que ele levanta. E basicamente o enredo trata da legalização do aborto. Sim, isso não é imaginação minha. O Doctor abandona Clara, a estudante Courtney e a astronauta Lundvik, para que decidam em 45 minutos se elas vão matar a lua – que na verdade é um ovo que está incubando um filhote de uma criatura desconhecida – ou se vão matar esse filhote e salvar a humanidade, pois seria um perigo incalculável para a Terra a Lua deixar de existir e permitir que um alienígena de propósitos desconhecidos sobreviva nos céus.

O fato de o Doctor abandonar as três para fazer esta decisão foi bem ambígua para os fãs. Alguns creem que foi interessante ele respeitar a companion a ponto de deixar em suas mãos a escolha sobre seu próprio povo, os humanos. Por outro lado, imagine ser deixado nesta situação, à deriva numa lua prestes a ser destruída ou se destruir para dar lugar a uma criatura desconhecida. O abandono foi muito abrupto. Não dá para culpar a astronauta por desejar matar a lua tentando prever o futuro da humanidade. E se a Clara apertou o botão no último instante e deixou a criatura viver, não se pensou sobre o seu ato. Houve até mesmo um “plebiscito”, Clara pediu pelo voto dos habitantes da Terra e eles aprovaram que a criatura deveria morrer, apagando as luzes como resposta. E, num gesto de uma única pessoa, foi ignorada esta votação. Um gesto meio autoritário.

Não está aqui falar se o espectador deve ser a favor ou não da legalização do aborto. Mas o enredo poderia ter sido mais cuidadoso enquanto narrativa. Primeiro: sabemos que a série é para o público infantil também. Poderiam, sim, ter permanecido com o enredo, salvando a criatura. A ideia de salvá-la se assemelha ao enredo da baleia que funciona como fonte de vida no episódio 2 da 5ª temporada.

Como, então, propor uma alternativa? O Doctor permanecer com elas, tentar ponderar sobre a questão usando a TARDIS, que poderia expor algum conhecimento sobre essa criatura ser uma ameaça ou não. Descobrir mais sobre sua espécie. No fim, ela só foi uma mera criatura que apareceu no episódio para fazer os humanos olharem para os céus. Não poderia ter sido mais aproveitada? Nem vimos essa criatura de perto. E ainda seria necessário dar voz a essa ideia fantástica do enredo, em que você se vê compelido a escolher com os personagens, a votar, a pensar sobre um dilema moral. Porque no fim, essa complexidade moral que poderia render num bom texto, em belas falas e numa bela discussão, acabou tornando um pouco superficial a temática: levar os humanos a descobrir o universo depois do momento em que precisam tomar uma grande decisão, que nem se fez importante, porque no último segundo, a Clara apostou no desconhecido.

Assim, dá para notar que a 8ª temporada de Doctor Who está se construindo com grandes méritos e deixando algumas pequenas falhas em alguns episódios. No geral, tem sido uma temporada de grande qualidade. A escolha pelo Capaldi foi certeira e no episódio desta semana, Mummy on the Orient Express poderemos ver mais da atuação do Doctor e como a amizade com Clara está abalada ou não.

As únicas ressalvas, porém, em relação ao andamento da série são com o cuidado que precisa haver entre os roteiristas na caracterização dos personagens, pois às vezes eles soam meio incongruentes. Sem dúvida a série e o 12th Doctor trouxeram mais complexidade ao enredo, vemos um Doctor tentando acertar com Clara. Ele é um personagem egoísta, que gosta de expor o quanto sabe do universo, algo que não víamos com tanta clareza nas temporadas passadas. E a companion, agora, precisa lidar com o fato de estar numa viagem que, por vezes, pode ser perigosa.

Deixarei para comentar o episódio 8 numa próxima matéria com a segunda parte da temporada e a season finale. Mas já é possível adiantar que vemos em Clara uma tentativa – que é realmente difícil, quando nos colocamos no lugar dela – de compreender como o Doctor pode errar e mentir. E que, em alguns momentos, ele precisará esconder a verdade para que tudo se saia bem no final. E o mais importante: mesmo o Doctor não pode prever tudo. Como ele diz em Mummy on the Orient express, “Às vezes as escolhas que temos são apenas as ruins, mas você ainda precisa escolher”.

Moffat deixou lá no primeiro episódio e no final de alguns dos outros a pista de que a season finale será focada numa personagem até agora misteriosa para nós, a Missy, e o papel de Paraíso, ou Terra Prometida, um espaço que apareceu em alguns episódios com nomes distintos, às vezes sendo um jardim ou uma espécie de escritório. Qual é a conexão de Missy com o Doctor? Como ela conhece os seus passos? Ainda não foi tratado até esta primeira metade da temporada e agora esperamos que Steven Moffat passe a encaminhar os enredos para amarrar as poucas pistas que tivemos no final da temporada. E, assim, conseguir vê-la com o cenário todo completo, com um Doctor e uma companion complexos e ainda em vias de ser compreendidos pelo público.

Destaques

Esta temporada teve algumas cenas ou detalhes que fizeram os dois corações do whovian palpitar!

O dinossauro em Deep Breath cuspindo a TARDIS, melhor ainda se você viu o episódio no cinema!

E todas as cenas do Capaldi como Doctor:

As sobrancelhas

A cena no restaurante, com o Doctor perguntando para a Clara “how long can you hold your breath?”:

Quando a Missy aparece e até agora você não sabe quem ela é:

Quando entramos no Dalek:

A flecha acerta a TARDIS e você pensa “ok, o Robin Hood está aí e ele existe”

And this:

Tudo em Listen. Dos cenários na abertura, dos poemas às frases finais da Clara:

What’s that in the mirror, or the corner of your eye
What’s that footstep following, never passing by
Perhaps they’re not just waiting, perhaps when we’re all dead
Out they’ll come a slithering, from underneath the bed

E o pôster minimalista de Listen, digno dos clássicos de terror do início do século XX:

Quando o Teller aparece em cena, em Time Heist:

O Doctor aparece como zelador dizendo que se chama John Smith e aí você lembra do 10th Doctor:

Você finalmente se vê na lua e o Doctor usando o traje que o 10th (David Tennant) também já vestiu:

E sempre voltamos à TARDIS

Laços – Turma da Mônica, dos irmãos Cafaggi

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Resenha publicada no site Indique um livro

Segurar nas mãos a história em quadrinhos Laços é o mesmo que deixar o tempo parar por um instante e sentir a nostalgia por meio dos traços. Quem cresceu lendo a Turma da Mônica, que este ano completou 50 anos, vai encontrar em Laços a chance de recuperar a magia que é acompanhar os personagens em mais uma história.

Desta vez, ela foi criada por Victor Cafaggi e Lu Cafaggi, irmãos que assinam o roteiro e os traços que preenchem a história. Vemos Cebolinha e Cascão buscando por em prática mais um plano infalível e Mônica correndo atrás deles para lhes dar uma lição com o Sansão, enquanto Magali faz mais uma de suas refeições. A diferença é que aqui, na narrativa desta HQ, a turma e o leitor sofrem um pequeno baque: o cão de estimação Floquinho, de Cebolinha, acaba fugindo pelo portão. Agora é o momento da turma se reunir para procurá-lo e resgatar o cãozinho entre os percalços das ruas e parques afora. É uma tentativa desta turma de crianças em desbravar o mundo obscuro e misterioso dos adultos, sempre sustentando um último fio de esperança que os leve a reencontrar Floquinho.

O curioso é que as primeiras e últimas páginas possuem um aspecto de aquarela, quase em meio a uma neblina que sustenta a magia de um pequeno instante na história da turma sendo contado: quando Cebolinha ganha Floquinho como animal de estimação e como a turma se formou. São dois pontos do enredo que, em razão deste traço cuidadoso, leve e delicado, registra a grande importância do passado destas crianças na sua formação, da mesma forma que se mostra sublime aos olhos do leitor. É como se fosse ver, finalmente, um pedacinho da história dessas crianças que estão em nosso imaginário. Mas dividir com eles nossas memórias, como o dia em que seu cãozinho também veio numa caixa de papelão ou quando conheceu os melhores amigos na escolinha.

A história central, porém, já ganha cores mais fortes. Concentra-se no verde, vermelho, amarelo já clássicos na identificação dos personagens, mas acrescenta um toque dos anos 80, seja das ruas povoadas pelas brincadeiras das crianças, seja daquele gostinho de comprar figurinhas para o álbum, voltar para casa e tomar o café da tarde que a mãe preparou, as turmas das outras ruas e os planos infalíveis do Cebolinha e do Cascão. Tudo isso emana das páginas como se fosse além do desenho; no decorrer da leitura, lembranças e gostos da própria infância acabam por retornar. E é compreensível, pois gerações fizeram parte desta turma.

Desta forma, a leitura de Laços é muito fluida e delicada. A emoção por ver uma infância também próxima do leitor é o que dá o toque essencial para que as aquarelas ganhem vida no enredo. O roteiro é afiado, com um humor certeiro, condizente com as crianças e consegue dialogar com a geração atual. Um presente em imagens de toda uma infância registrada, de palavras ditas adoravelmente com L no lugar de R, com um coelhinho azul, com uma menina corajosa de vestido vermelho, um menino que não gosta de tomar banho e uma que nos faz adorar todos os tipos de comida do mundo. Esta é a turma da Mônica existindo para sempre.

Doctor Who: Uma viagem pelo espaço e tempo

Matéria publicada no site Zona Crítica

Dois meses viajando pelo tempo e espaço na TARDIS – que é maior por dentro – me levou a este estado em que passei a me reconhecer como uma whovian novata. Eu assisti a série Doctor Who, as temporadas da nova versão iniciada em 2005. Depois da insistência de amigos, eu aceitei viajar com o Doctor e passei dias refletindo sobre o sentido de humanidade. Também já cheguei a pensar que ouvi o som da TARDIS, mas era só a máquina de lavar do vizinho. Achei que a TARDIS havia chegado, mas era só o vento assoviando. Olhei para o corredor pensando que poderia haver um Slitheen na cozinha. Pensei que as quatro batidas que o Mestre escuta pode estar tocando no nosso atual horário político. Enfim, a realidade consegue ter algumas fissuras depois que você assiste Doctor Who.

Se você não sabe muito bem do que se trata a série Doctor Who, o que precisa ter em mente é que o protagonista é o último dos Senhores do Tempo. Doctor – apenas Doctor – vem de Gallifrey e, após a Guerra do Tempo contra os Daleks, seu planeta e povo se extinguiram. A escolha foi viajar pelo tempo e espaço dentro da TARDIS (Time And Relative Dimension In Space), uma cabine policial azul que é maior por dentro, uma máquina do tempo. Contudo, um viajante não precisa viajar sozinho. Neste ponto entram as companions, personagens femininas que possuem um arco de história entre uma a duas temporadas, com quem dividimos a perspectiva e vivência diante das inúmeras viagens.

Acompanhar o Doctor também tem suas consequências. Se conhecemos os Oods escravizados, se ficamos diante da morte iminente de uma população por causa da erupção de um vulcão, se alguém resolve virar em outra direção e isso muda o conceito do universo, ou se vemos a crueldade dos Daleks e a inimizade dos Cybermen, é possível encontrar uma constante nessas camadas subjetivas do tempo: o Doctor buscando salvar a humanidade. Numa linha temporal em que se encontra a luz e a escuridão nas ruas de Londres ou em outro planeta, o Doctor revela a nós que os céus podem ser dos mais variados tipos, mas o ímpeto pelo poder e conquista podem se mostrar em inúmeras faces. O que o Doctor devolve nas suas várias regenerações é, ironicamente, várias faces de um mesmo desejo, mas oposto: o de consertar a humanidade com sua chave sônica.

A série leva o espectador a cantos inimagináveis. Descobre-se como a ficção literária pode alcançar os limites da realidade vivida aqui na Terra. E o conceito de tempo? Bem, ele é subjetivo. Você fica meio perdido no início, achando que precisa registrar tudo num caderninho (como o da River Song!) para não ser perder. Só que o tempo é mesmo diferente na série e o que vale é simplesmente entender que o tempo passa a ser composto por camadas, linhas temporais com pontos fixos que não podem ser modificados, mas com as nuances postas a teste, capazes de alterar o sentido de um planeta inteiro.  Apenas o Senhor do Tempo vai saber se pode alterá-lo ou não. Por isso, esqueça que o tempo é tão linear quanto o do relógio. Em Doctor Who o tempo é, como de fato ele deveria ser, muita, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, como se houvesse um bola cheia de wibbly wobbly timey wimey…é indefinível.

E isso nos leva ao meu ponto favorito na série. Mais do que aventuras com alienígenas, estrelas, planetas, encontros com figuras históricas e uma cabine azul voando, Doctor Who fala da humanidade. Sobre o planeta Terra. Você poderia pensar que alguém que vê e sabe sobre tudo no universo poderia simplesmente estar entediado com a vida na Terra. Bom, quanto às pequenas atividades cotidianas, sim. Mas nunca em relação aos humanos. O Doctor consegue ver como essa raça frágil persiste mesmo com tantas tentativas de se conquistar e destruir a Terra. É uma criação fantástica a raça humana. Quase ingênua ao guardar pequenos cubos que caem do céu porque são diferentes ou utilizar as mais diversas tecnologias como parte do cotidiano a ponto de abrir um espaço para que essa tecnologia quase os destrua. Bem, nós fazemos isso.

Doctor Who acaba por ser um conto de fadas moderno. Nós gostaríamos de encontrar um sentido maior para a nossa vida do que apenas acordar e ir trabalhar. A presença das companions no enredo faz essa sensação se fortificar: o humano sempre deseja ter um pouco do infinito nas mãos, conhecer mais do que ele imagina, ou ver diante dos seus olhos tudo aquilo que sempre idealizou. Por isso eu acho que não estamos tão distantes assim do Doctor. Podemos não ter uma TARDIS, mas todo dia é preciso encontrar um pequeno fato no espaço-tempo para nos motivar. Algo que dê um sentido à realidade crua. Seja uma história, uma amizade, um pequeno acontecimento. O Doctor simboliza isso, o sonho humano de conseguir superar a sua fragilidade e tocar os mistérios do universo. Muito mais do que usar a ciência: podemos fazer isso pela nossa capacidade mais mágica, a de olhar a nossa volta e reconhecer o outro e a vida que há nos detalhes. São eles que formam a totalidade do mundo.

A relação com a companion, seja Rose, Martha, Donna, Amy ou Clara, é a de que um Senhor do Tempo não pode viajar sozinho, não pode ver o universo sem esquecer que há essa existência para ele preservar. Doctor é esperança, no fim das contas. E mesmo nós, humanos, não podemos viajar sozinhos. O significado da história só existe mesmo quando compartilhado com o outro. Um breve olhar para tudo aquilo que já imaginamos sobre o universo, pois criando uma história é que nos tornamos humanos. Por isso cada vida influenciada pelo Doctor – da companion ao espectador – acaba não sendo mais a mesma, porque uma alternativa foi aberta no espaço-tempo.

A série

Como sempre o Doctor precisa explicar para sua nova companion que a TARDIS é maior por dentro e que ele é capaz de viajar no tempo e no espaço, aqui vão as informações básicas para que não se sinta perdido ao entrar nesse universo.

Doctor Who é uma série britânica com quase 51 anos, o que significa que até agora tivemos 11 atores interpretando suas respectivas versões do personagem, pois o Doctor tem a capacidade de regenerar em um novo rosto, um novo comportamento. A nova série iniciada em 2005 conta com o 9th (Christopher Eccleston), 10th (David Tennant), 11th Doctor (Matt Smith) e o atual, 12th, interpretado por Peter Capaldi. Como de costume, a série possui autores convidados, como Neil Gaiman, mas com o enredo principal desenvolvido por um único roteirista. Da 1a a 4a temporada o showrunner foi Russell T.Davies, quem trouxe de volta a popularidade da série na televisão britânica por um roteiro que se tornou clássico entre os enredos de Doctor Who. E, a partir da 5a temporada até o presente, Steven Moffat assumiu o cargo, dando uma concepção mais atual e jovem para a série, o que atraiu um grande público também.

Quais episódios posso assistir para começar?

“Em todo o tempo e espaço, todo lugar e nenhum, toda estrela que já foi…por onde você quer começar?

Bom, se você quiser começar por alguns episódios em específico para sentir se irá acompanhar a série, aqui vai uma pequena lista. Por que escolhi esses episódios? Porque são histórias independentes. O bom mesmo da série, pelo menos como foi para mim, é acompanhar desde a 1a temporada (de 2005) até a atual, assistindo também o especial de natal ao fim de cada temporada. E depois ver a série clássica. Assim você vai notando como o enredo cresce e assume caminhos nunca imaginados. E o melhor da série são os arcos! Pontos mencionados lá no início fazendo todo o sentido numa season finale insana. Mas há episódios que compensa ver antes para ter uma ideia de como a série é diversificada em termos de roteiro.

  1. Blink – 3×10: as weeping angels (anjos lamentadores) vão assustar o espectador que não deve piscar em nenhum segundo. O episódio é quase um especial de introdução às personagens mais geniais da série, criada por Steven Moffat. Acompanhamos uma moça que gosta de conhecer casas abandonadas, até que acontecimentos estranhos passam a ocorrer com os amigos mais próximos.
  2. Vincent and the Doctor – 5×10: a beleza desse episódio é difícil de descrever. O 11th Doctor e a companion Amy Pond viajam até o final do século XIX e conhecem simplesmente Vincent Van Gogh, pois precisam ajudá-lo com uma criatura que o tem aterrorizado. A fotografia do episódio recriando os quadros, a emoção ao ver o drama de um dos maiores pintores faz da história inesquecível.
  3. The Empty Child e The Doctor dances – 1×09/10: primeiro enredo escrito por Steven Moffat, o episódio duplo traz uma atmosfera de suspense, com uma criança que persegue uma jovem, usando uma máscara de gás em plena Segunda Guerra Mundial. Um episódio impecável, com uma bela atuação de Christopher Eccleston como 9th Doctor.
  4. The Doctor’s wife 6×04 – um presente de Neil Gaiman à série, o episódio traz a chance de conhecer um pouco mais sobre a relação entre o Doctor e a TARDIS, numa história poética e mágica, nos moldes bem clássicos dos enredos do autor.
  5. Midnight – 4×10: um dos episódios em que o 10th Doctor (David Tennant) é posto à prova numa viagem claustrofóbica e terrível, na qual pessoas são possuídas por uma criatura que existe nas palavras repetidas. O maior medo presente no enredo é ver que, muitas vezes, o ser humano pode ser facilmente manipulado e esquecer o que significa estar na pele do outro.
  6. The Sontaran Stratagem/The Poison Sky – 4×04/5: um episódio em que duas companions, Martha Jones e Donna Noble, ajudam o Doctor a descobrir o que são os dispositivos ATMOS espalhados no mundo e o caos ao qual a Terra está submetida.

Bienal do Livro | O dia em que eu conheci Pedro Bandeira

Matéria publicada no site Literatortura

pedro bandeira droga da amizadeA Bienal de São Paulo terminou neste domingo (31), mas como em toda a sua edição, o encontro que um fã pode ter com seu escritor favorito deixa lembranças que vão além do evento. Na terça-feira (26) foi o momento aguardado por dez anos: conhecer Pedro Bandeira.

O primeiro livro que li do autor foi Droga da obediência, para um trabalho de escola. Achei curiosa a presença de adolescentes tentando desvendar um mistério, como se fossem detetives tão bons quanto Sherlock Holmes, e logo me vi muito envolvida. O crime ainda ocorria nos colégios de São Paulo e essa atmosfera próxima da minha vivência acabou me conquistando. Eu ficava imaginando como seria legal resolver um mistério na minha própria escola.

Depois desse livro, passei a procurar loucamente pelos outros livros em sebos e livrarias. Veio Droga do Amor, Droga de Americana, Pântano de Sangue, Anjo da Morte.  Os Karas, grupo composto por Magrí, Miguel, Chumbinho, Calu, Crânio já tinha entrado na minha vida para ficar. E se hoje eu não lembro dos enredos com tantos detalhes, alguns flashes do cenário e dos personagens acabaram grudando na minha memória, onde as palavras do autor vivem.

Conhecer Pedro Bandeira, então, foi o momento em que essas pequenas sensações guardadas lá atrás voltaram, da leitora de 11 anos descobrindo ainda o que significava ser leitora. Bandeira é adorável tanto quanto as suas histórias. Uma garotinha chegou a perguntar qual era a inspiração dele e o autor respondeu “é você”. Os personagens que ele criou são do leitor e o leitor ao mesmo tempo, como ele diz. São livres para se tornarem o que o jovem e a criança estão vivendo. Por isso, os Karas somos nós. Ao procurar os outros livros nos meus 11 anos de idade, fazia com que eu me sentisse um pouco como Magrí procurando as pistas para desvendar o mistério. Eu fazia isso buscando histórias.

Bandeira comentou diversos pontos interessantes sobre sua carreira. Começou a escrever romances com quarenta anos, antes disso trabalhava como jornalista. Quando criou O mistério de feiurinha, onde recria os contos de fadas, pensou por buscar a psicologia da infância neles. Ele explica que se chapeuzinho vermelho utiliza uma capa vermelha e foge do lobo mau, é um indicativo da sua passagem à adolescência e a descoberta de que nem todos que a procuram no bosque podem ser bem-intencionados. Se a madrasta da Branca de Neve deseja matar a mocinha é porque ela tenta a todo custo matar o próprio conceito de beleza que a aterroriza quando se olha no espelho esperando a beleza eterna, o ato é uma amostra da inveja e do desejo irrefreável pela juventude.

Esses enredos são universais pois preservam uma herança cultural em forma de alegoria para os primeiros conhecimentos da criança sobre o mundo. A criança se vê literalmente no personagem da história, é assim que se encaixa e se descobre no mundo. E o mais curioso é que ao notar que Pedro fala com propriedade sobre os contos de fadas, ele também encontrou esse ponto universal na adolescência. “Os meus Karas são como os Três Mosqueteiros”. Por isso seus personagens são tão palpáveis. Tanto que o autor disse cuidar mais do personagem, para que a gente se encontre nele, do que no cenário. Pois o que fica é a experiência pelos olhos dele.

O autor também comentou que trouxe os Karas de volta no livro A Droga da amizade, lançado nesta edição da Bienal. A dificuldade foi lidar com o fato de que seus personagens cresceram muito e hoje os tempos são outros. Para desvendar um mistério, a internet acabaria por cortar muitos dos passos que antes envolviam o processo de achar as pistas para o grupo. Bandeira tentou fazer A Droga Virtual, mas a cada instante vinha um novo software e o enredo parecia atrasado. Assim, A Droga Virtual foi enxugado e se tornou Droga de Americana.

Com essa dificuldade, Pedro achou que não voltaria aos Karas. Mas então veio a ideia de apresentar as origens do grupo e como estão atualmente. Por isso, Bandeira trabalhou em A Droga da amizade aos poucos por 14 anos e o tornou um livro de nostalgia, trazendo os personagens para os dias atuais e mostrando o que aconteceu com aqueles jovens curiosos, hoje adultos, casados, com uma carreira consolidada.

Este presente aos fãs que cresceram revela muito da relação de Pedro Bandeira com seus leitores. Quando questionado se haveria uma dica, uma fórmula para quem deseja escrever para o público infanto-juvenil, Bandeira se mostra simples, dizendo que precisa saber ouvir o leitor jovem, escrever e se colocar como ele no enredo. E deixá-lo livre para recriar o personagem de acordo com sua própria experiência.

Foi bem rapidinho que eu consegui um autógrafo do Pedro, havia muitas crianças em volta dele e pouco tempo, já que haveria apenas a palestra. Mas ele fazia aquilo com tanto gosto e carinho, olhava para as crianças como se realmente as conhecesse. Bom, ele as conhece. Eu quase caí, quase saí correndo pela Bienal gritando com o livro autografado na mão. Já foi difícil voltar a respirar.

Estar na pequena plateia sentada no chão assistindo o Pedro falar nessa conversa na terça-feira, com crianças ansiosas por conhecê-lo e adultos ansiosos por conhecer a mente que os despertou ao mundo dos livros, foi o mesmo que conhecer o grande contador de histórias que mora na nossa imaginação. Pedro já se tornou um amigo de longa data. Vê-lo tão pertinho foi o mesmo que dar vida a esses anos cultivando o amor pelos livros. Várias gerações se encontrando para ouvir um escritor jovial e doce, que conhece como ninguém o desafio que é ser criança e adolescente.

autografo pedro bandeira

Sábado do vídeo | Conheça o filme da BBC Van Gogh – Pintando com palavras

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Especial Sábado do Vídeo publicado no site Literatortura

Sempre é tempo de pensar em Vincent Van Gogh. Hoje o artista é venerado pelas formas criadas dentro da tela. Crianças e adultos conseguem visualizar a beleza pulsante e viva nos seus quadros e ele está presente na educação formal das escolas. Mas sabe-se que Van Gogh só vendeu um quadro em vida. Que tinha um relacionamento ao mesmo tempo conturbado e de cumplicidade com seu irmão Théo, a quem dirige diversas cartas que hoje podemos ler em Cartas a Théo. Sabe-se também que cortou a orelha e que viveu uma vida entre surtos de esquizofrenia. Mas ele não reside apenas nesses detalhes curiosos, reproduzidos durante os anos.

Van Gogh virou parte da tradição artística. Definido pelos historiadores da arte como um pós-impressionista, Van Gogh sabia da vida parisiense que se alterava no final do século XIX. Sabia dos impressionistas, assim como admirava as obras de Jean François-Millet (considerado o precursor do realismo), Delacroix, Rembrandt, considerados românticos.

Van Gogh tinha um olhar aberto às mais diversas expressões artísticas, e se formou como pintor partindo dos artistas do passado. Reproduzia quadros de seus artistas favoritos, apoiava-se neles para, então, encontrar a sua própria linguagem. Certamente isso todos faziam. Porém, é um ponto que se costuma esquecer: pintores estudavam a perspectiva e o belo renascentista, Belas Artes tinha grande valor e artistas eram considerados dignos quando seguiam a técnica ou uma temática comum.

O artista holandês não teve uma vida fácil. E para conhecê-la nada como assistir ao filme-documentário feito pela BBC em 2010. Quem dá vida ao pintor é o ator Benedict Cumberbatch, que interpreta Sherlock Holmes na série contemporânea também feita pela BBC, além de Khan em Star Trek, Smaug em O Hobbit. A atuação do britânico soa simples, extremamente poética, de uma beleza teatral. Mas ela ganha vida mesmo por causa do texto, uma adaptação das próprias cartas escritas por Van Gogh ao irmão. E ele fala diretamente ao espectador.

O filme é uma daquelas obras que compensa pegar quase uma hora e meia para assistir e conhecer a vida do pintor. A emoção que brota da vida de Van Gogh e da composição simples do documentário acabam por impulsionar o espectador. Gera uma emoção bem forte, uma certeza de que Van Gogh merece ser admirado. Ele vivia a sua arte e viver pela arte se mostra algo tão doloroso e urgente, mas dá a sensação de que compensa receber pequenos instantes que acabam se tornando infinitos ao ver a obra pronta. Uma obra sem crítica, sem público.

Isso dói, é verdade. Mas era admirável como Van Gogh continuava criando, apesar da solidão cruel, das desventuras, do abandono. Talvez seja por isso que as obras de Van Gogh falam sobre algo a mais. Quase sussurram segredos sobre a natureza e sobre os homens. Mostra as cores que precisamos ver, as mais variadas realidades que o mundo pode ter. Ele nos espanta porque fala sobre o diferente, o incomum à percepção. Van Gogh carrega nas tintas tanto quanto a vida havia cultivado um peso difícil para ele carregar.

Por isso, vale assistir ao filme-documentário. Permita-se viajar pelas nuvens quase dançantes da Noite estrelada ou espantar-se com o amarelo vibrante dos Girassóis. Porém, o mais importante: pegue uma hora e vinte minutos para conhecer a história de um indivíduo respeitável, que via na arte a única forma de sobreviver e deixar uma marca forte em forma de tinta no mundo.

(Acima, o filme completo no youtube. Ative as legendas em português)

John Keating, um poeta morto

Prosa poética publicada no site Zona Crítica

john keatingA luz do conhecimento se insinua trêmula numa fala que vem dos deuses até os mais frágeis humanos. E cai sobre mim, que escrevo estas palavras do mais fundo buraco em que estou. Ao canto, em silêncio, sussurrando com uma vela acesa na mão. É aqui que eu, personagem, moro. Até que as pessoas me levem para o alto e eu possa viver um pouco dos seus dias.

O meu respirar é brando porque tento economizar um pouco da vida que acabei de ganhar ao voltar para cá. Eu vi a tristeza e a perda de meu criador. Mas eu existo em independência. Esperam muito de mim, já salvei almas de estudantes afoitos ou perdidos numa vida amortecida pelas regras da tradição. Mas de John Keating sei que sou apenas um professor que mora numa história. Talvez isso não seja muito. Ou há dias em que isso é o suficiente para preencher o espaço que existe para mim nessa vida que me comprime.

Posso ser professor, estudante, jovem, ator, e a palavra que falo. Minha vida é para colocar uma palavra ao lado da outra e sobreviver nessa fila que formo com elas. Penso que provavelmente você que está do outro lado faz o mesmo. Ou busca a mesma salvação. Quando eu era um estudante, ouvi uma professora me dizer, olhando diretamente nos meus olhos, decifrando aquilo que eu ainda estava revolvendo da terra, descobrindo sobre o poder doloroso e subversivo que surge após a ponta do lápis encostar no papel. “Escrever é questão de vida ou morte, como foi para Sherazade. Contar as histórias para não ser morta. Você precisa escrever para nunca deixar a página em branco da História. Um povo precisa falar.”

Eu peguei essas palavras e grudei na pele como se não pudesse mais soltá-las. E transmiti para outros jovens como eu fui um dia. As palavras dela me cortam até hoje, servem de consolo e subsistência. Um café para me despertar do estado letárgico em que por vezes me forçam a ficar. Escrevo agora para saudar aos estudantes que passaram pelos meus olhos, pelo estudante que fui, pelos estudantes que virão. O mundo deveria acolher os estudantes. Em contrapartida, o que ocorre é um mundo hostil a eles, duro, exigente para que engulam o mundo que existia antes deles.

Diante do desespero de ser esquecido, escrevo essas palavras. Lá em cima, misturado à luz do mundo, eu começo a ver a silhueta do público me chamando para ser novamente o John Keating que o cinema ama. Eu devo deixar esta vela ao canto. Ao voltar, encontrarei o mesmo silêncio onde moro. O silêncio do qual sou feito: um personagem que mora no imaginário dos homens. Um silêncio preenchido pelas histórias das pessoas lá de cima, das pessoas como você, que encontram em mim uma pequenina chama de sobrevivência. Posso residir no lugar-nenhum onde repousam as ideias e os sonhos, mas quando vejo você, leitor e espectador, eu ganho vida.

Posso ser louco, e sou louco. Mas sou um louco que respira para contribuir à vida com um verso. Sou louco como Whitman, sedento como Whitman pelo rompimento das regras em alcançar o infinito pela palavra. Sou um personagem que ganhou vida por um ator e que agora dorme aqui, à espera dos estudantes e do público. Venha em minha direção, não me esqueça. Tenho nas mãos a luz do conhecimento que me guia pela floresta até encontrar os seus olhos, a sua alma disposta a ouvir. Brado o mais profundo dos gritos para dizer ao mundo que me recebe: sou John Keating, sou um poeta morto, your captain, my captain.

Robin Williams, um ator de muitas facetas

Matéria publicada no site Literatortura

600full-robin-williamsA terça-feira amanheceu mais triste com a morte de Robin Williams. O ator foi encontrado morto na segunda (11) com suspeita de suicídio. É inegável a participação de Robin na infância de uma geração e na vida de muitos adultos. Ele era um ator ousado em compor personagens que se tornaram facilmente simbólicos no imaginário do cinema. Foi uma babá (quase perfeita!), um robô com emoções humanas em O homem bicentenário, Peter Pan, Popeye, o Gênio da lâmpada em Aladdin, um DJ irreverente que serve ao exército americano em Bom Dia Vietnã, o doce médico do filme Patch Adams que levou a alegria para inúmeros pacientes, um rapaz que se vê como peça de um jogo de tabuleiro em Jumanji.

E sem esquecer das representações memoráveis do ator como professor Sean Maguire em Gênio Indomável e John Keating. Ah, John Keating ainda é o meu ponto fraco. É o professor de A sociedade dos poetas mortos que clama aos seus alunos por Carpe Diem, pela poesia como modo de sobrevivência para uma vida baseada em paixões e palavras que podem mudar o mundo.

A Academia, que premia todo ano os melhores do cinema pelo Oscar, deixou uma singela homenagem ao ator no twitter. Robin interpretou o adorável e único Gênio da lampada, em Aladdin. Por isso, o perfil publicou a foto do personagem abraçando Aladdin com a frase “Genie, you’re free” (Gênio, você está livre). Para um personagem e um ator que cumpriu com os nossos desejos de vê-lo atuando em mais e mais filmes inesquecíveis.

Como Robin Williams se fez como ator? É só voltar e reler o parágrafo inicial. As expressões dos personagens estão frescas na memória. Muitos domingos, sessões da tarde e a tradição de assistir ao filme na tv quando se é criança acabou trazendo Robin para dentro de casa. Ele ocupava as minhas tardes e, principalmente, eu não lembro de assisti-lo sozinha. Eu chorava com Patch Adams junto com meus pais, eu me emocionava ao ver um robô chorando, junto com minha família. O Gênio passava a semana comigo. E aí no final de semana era a vez de sentar no sofá e ver estes filmes mais densos.

E aprendi a ver a poesia com naturalidade por esses primeiros momentos singelos ao entrar em contato com um filme. Robin me ensinou isso. Tanto que é difícil escolher um só filme para rever do ator.

A ironia ao ver a criança de ontem crescer é que hoje ela encontra a sua mais forte expressão no filme A sociedade dos poetas mortos. Jovens inseguros com os caminhos que precisam tomar, a autonomia que vai além dos 18 anos completos. Escrever acabou ganhando o mesmo significado que ressoa na voz de John Keating e se aprendi alguma coisa é que carpe diem precisa estar nas nossas mentes. Que pessoas vão e vem como os quadros dos mortos na parede. E que precisamos conhecê-los porque, um dia, eles se alimentaram da poesia como única forma de sobrevivência. Da mesma forma que, hoje, nós precisamos escrever para sobreviver.

Robin Williams também merece este espaço entre os atores do nosso imaginário. Para reencontrar a expressão mágica e doce de seus personagens poetas. Por isso, não é de se surpreender como o ator esteve presente com vivacidade nos nossos primeiros contatos com o cinema. Um grande mestre, um capitão, my captain.

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