Bordel-Museu: O sonho raro e estranho registrado por Baudelaire

Matéria publicada no site Literatortura 

courbet_portrait_baudelaire_1848_mediumO medo pode residir no inesperado do sonho. Nas verdades ocultas nos signos de um cenário que vemos apenas entre sombras e por trás das cortinas. Nas palavras podem morar mundos. E são as sensações de mistério e quase impotência diante das verdades ocultas da existência humana que encontramos ao ler o sonho do bordel-museu, escrito pelo poeta Charles Baudelaire, e abordado no livro A Folie Baudelaire, de Roberto Calasso. Neste livro, o autor italiano analisa o sonho de Baudelaire e a edição lançada em 2012 pela Companhia das Letras traz provavelmente a única tradução disponível em português do sonho. Pouco se conhece sobre este sonho que Baudelaire teria escrito à mão, em um registro veloz, para não perder o frescor das últimas imagens que viu ao acordar. Por isso, nesta matéria, como comemoração do Halloween, você poderá lê-lo.

Mas antes de conhecê-lo é necessário saber que Baudelaire transcreveu este sonho numa carta para Asselineau, um amigo que, posteriormente, cuidaria de reunir seus papéis. No dia 13 de março de 1856, numa quinta-feira, Baudelaire é acordado de um sonho pelo arrastar dos móveis de Jeanne, a cortesã com quem mantinha um relacionamento. Por que é válido conhecê-lo? O sonho, na leitura de Roberto Calasso, irá revelar muito do próprio contexto que Baudelaire vivenciava na época. E o mais curioso é constatar, enquanto leitor de ambos, que o sonho revela muito mais do autor francês que existe em nosso imaginário.

Há vários pontos que podem ser vistos no capítulo O sonho do bordel-museu que Roberto Calasso desenvolve em seu livro.  Mas preferi abordar apenas alguns deles e, principalmente, deixar aqui o sonho de Baudelaire para ser lido, um ótimo achado para repensar o grotesco e o estranho que conseguem ser poéticos também. Depois do sonho transcrito, há uma breve exposição do que Calasso interpretou dele e como podemos entendê-lo.

“Eram (no meu sonho) 2 ou 3 horas da manhã, e eu passeava sozinho pelas ruas. Encontro Castille, que tinha, creio, várias incumbências a cumprir, e eu lhe digo que o acompanharei e aproveitarei a carruagem para executar um encargo pessoal. Então, tomamos uma carruagem. Eu considerava meu dever oferecer à dona de uma grande casa de prostituição um livro meu que acabava de sair. Ao olhar meu livro, que eu trazia na mão, aconteceu de ser um livro obsceno, o que me explicou a necessidade de oferecê-lo a essa mulher. Ademais, em minha mente, essa necessidade era no fundo um pretexto, uma oportunidade para trepar, já que estava ali, com uma das moças da casa, e isso implica que, sem a necessidade de oferecer o livro, eu não ousaria ir a semelhante casa. Não digo nada de tudo isso a Castille, mando a carruagem parar à porta daquela casa e deixo Castille na carruagem, prometendo a mim mesmo não fazê-lo esperar muito. Logo depois de tocar e entrar, percebo que meu pau pende da abertura desabotoada da calça, e julgo indecente me apresentar assim, mesmo num lugar daqueles. Além disso, ao sentir os pés muito molhados, percebo que tenho os pés nus, e que os meti numa poça úmida na base da escada. Bah! – digo a mim mesmo -, vou lavá-los antes de trepar, e antes de sair da casa. Subo. A partir desse momento, o livro não aparece mais.

Encontro-me em vastas galerias, comunicantes entre si – mal iluminadas -, de aspecto triste e decadente, como os velhos cafés, os antigos gabinetes de leitura, ou as casas de jogo vagabundas. As moças, espalhadas por essas vastas galerias, conversam com uns homens, entre os quais vejo alguns colegiais. Sinto-me muito triste e muito intimidado; temo que vejam meus pés. Olho para estes e percebo que um traz um sapato. Pouco depois, percebo que ambos estão calçados.

O que me impressiona é que as paredes dessas vastas galerias estão ornadas de desenhos de todo tipo – emoldurados. Nem todos são obscenos. Há até desenhos de arquitetura e figuras egípcias. Como me sinto cada vez mais intimidado, e não ouso abordar uma moça, divirto-me em examinar minuciosamente todos os desenhos.

Numa parte recuada de uma dessas galerias, encontro uma série muito singular. Em meio a uma multidão de pequenas molduras, vejo desenhos, miniaturas, provas fotográficas. Representam pássaros coloridos com plumagens muito brilhantes, e cujo olho é vivo. Às vezes, há somente metades de pássaros. Às vezes representam imagens de seres estranhos, monstruosos, quase amorfos, como aerólitos. No canto de cada desenho, há uma anotação. – Tal moça, de tal idade…, deu à luz este feto em tal ano – e outras anotações do gênero.

Vem-me a reflexão de que esse tipo de desenho não é nem um pouco feito para inspirar ideias de amor.

Outra reflexão é esta: Realmente só existe no mundo um jornal, e é Le Siècle, que possa ser suficientemente estúpido para abrir uma casa de prostituição e para instalar ali, ao mesmo tempo, uma espécie de museu médico. De fato, penso de repente, foi Le Siècle que financiou esta especulação de bordel, e o museu médico se explica por sua mania de progresso, de ciência, de difusão das luzes. Então reflito que a estupidez e a tolice modernas têm sua utilidade misteriosa, e que muitas vezes, por uma mecânica espiritual, aquilo que foi feito para o mal se transforma em bem.

Admiro em mim mesmo a justeza de meu espírito filosófico.

Mas, entre todos aqueles seres, há um que viveu. É um monstro nascido na casa, e que se mantém eternamente sobre um pedestal. Embora vivo, faz parte do museu. Não é feio. Seu aspecto é até gracioso, muito moreno, de uma cor oriental. Há nele muito rosa e muito verde. Está agachado, mas numa posição esquisita e contorcida. Além disso, há algo negrusco que faz várias voltas em torno dele e de seus membros, como uma grande serpente. Pergunto-lhe o que é aquilo, e ele me diz que é um apêndice monstruoso que parte de sua cabeça, algo elástico como borracha, e tão comprido, tão comprido, que se ele enrolasse na cabeça como se fossem cabelos, o peso seria muito grande e absolutamente impossível de aguentar, e que por isso é obrigado a enrolá-lo ao redor dos membros, o que, aliás, faz um efeito mais bonito. Converso longamente com o monstro. Ele me informa de seus tédios e de seus pesares. Já faz muitos anos que é obrigado a permanecer naquela sala, sobre aquele pedestal, para a curiosidade do público. Mas seu principal aborrecimento é a hora da ceia. Como é um ser vivo, é obrigado a cear com as moças do estabelecimento, a caminhar cambaleando, com seu apêndice de borracha, até a sala da ceia, onde precisa mantê-lo enrolado em torno de si ou instalá-lo como uma pilha de cordas sobre uma cadeira, porque, se o deixasse arrastar-se pelo chão, isso faria sua cabeça tombar para trás. Além disso, é obrigado, pequeno e atarracado como é, a comer ao lado de uma moça alta e bem-feita. De resto, me dá todas essas explicações sem amargura. Não ouso tocá-lo, mas me interesso por ele.

Nesse momento (isto já não é sonho), minha mulher faz barulho com um móvel em seu quarto, o que me acorda. Acordo exausto, prostrado, com as costas, as pernas e os flancos moídos. Presumo que estava dormindo na posição contorcida do monstro”.

 baudelaire 007

A interpretação de Roberto Calasso para o sonho

Primeiro, a leitura do sonho, quase um conto, deixa uma sensação densa quando terminado, como se estivéssemos contorcidos na cama igual a Baudelaire. Para entendê-lo, Roberto Calasso irá apontar algumas interpretações para os elementos encontrados no sonho. Há uma insegurança, por parte de Baudelaire, em adentrar no bordel com os pés descalços, o que indicaria uma fragilidade de sua exposição enquanto autor. Parece que ele deseja, no sonho, entregar a uma prostituta a obra Histórias extraordinárias, de Poe, a qual ele mesmo traduziu à época. Há três elementos que Calasso aponta serem de suma importância, e na própria leitura do sonho, se mostram urgentes: Baudelaire entra no bordel com o genital à mostra, com o “dever” de entregar um livro que, nas palavras dele, “aconteceu de ser um livro obsceno”; o segundo elemento é seus pés descalços, que Baudelaire se sente envergonhado por expor – mais do que o órgão sexual. Os pés descalços trazem uma obscenidade maior: Baudelaire tem vergonha de existir e de levar o seu livro para o bordel e, ao entrar no recinto, não sente que sua presença seja digna. E o terceiro elemento será a presença do monstro.

A questão colocada por Calasso, na sequência, é concluir que não se trata da obra de Poe traduzida, mas sim As Flores do Mal, que Baudelaire leva para o bordel. Numa casa de prostituição, onde não existe o pudor e tudo é permitido, Baudelaire se sente envergonhado por introduzir a obscenidade ao levar o seu livro. Irônico, não? Antes mesmo de ter concluído sua obra, o sonho já parecia indicar o interesse do autor pela temática. Mas indica também a complexidade em assumi-la, afinal, Baudelaire sentia o peso que seu livro tinha em suas mãos no sonho. E o curioso é que As Flores do Mal foi publicado posteriormente e condenado na época justamente por “obscenidade”.

Além disso, para Calasso, Baudelaire se sente exposto, e há até mesmo o receio de que seja interpretado como um mero exibicionista. Os pés aparecem nus, Baudelaire vê e deseja pelos sapatos que surgem no sonho, o que mostra a oscilação do sujeito na modernidade: Baudelaire mantém a dúvida sobre a sua criação, mas deseja apresentá-la sem deixar de encontrar o peso de uma possível crítica feroz à sua obra. E esta obra parece ser mais obscena, para Baudelaire, do que um bordel.

Eu acrescento à interpretação de Calasso que as paredes têm imagens que alternam entre a obscuridade e quase um registro médico da mesma forma que existe uma interferência da ciência enquanto progresso no século XIX. Aos poucos o ideário de progresso passa a mostrar que há um caminho tortuoso e até mesmo sombrio e excludente, mesmo com uma herança de esclarecimento das Luzes. É o que Baudelaire presencia, este submundo no qual prostitutas e poetas são recusados por um contexto que pede o “progresso”. E neste bordel, a verdade fica exposta nas paredes, as imagens de fetos estão lá para serem lembradas das inúmeras perdas dessas mulheres que encontram apenas um caminho tortuoso pela frente.

O artista se sente vulnerável, tal qual Baudelaire com seus pés nus, no cenário onde tudo se mescla em nuances muito difíceis de serem diferenciadas: há a mistura entre a figura do poeta e do monstro, as imagens na parede, a obscenidade no bordel e no gesto de Baudelaire.

Por isso, identifico no sonho-conto uma grande representação do cenário da modernidade. O poeta se depara com o monstro porque nele reside o encanto daquele que encontra a essencialidade do mundo pelas palavras. O sonho fala a Baudelaire por enigmas que ele mesmo busca quando escreve. E isso não é fácil de carregar, é tão obsceno quanto andar descalço para os críticos e até mesmo ao público geral. É obsceno porque ocasiona o incômodo por ter algo diante de você, na palavra escrita, que possui um significado, mas está oculto aos seus olhos. E mesmo assim, o significado está pulsando nas palavras. É quase um sabor deixado na boca.

Baudelaire se identifica como monstro, primeiramente, porque nele está o ar do ser curioso e esquisito que o artista ganha ao preservar sua singularidade na massa. O artista se sente também numa exposição constante porque encontra a oposição do outro e ainda parece dever a ele uma investigação sobre o mundo. Como aliar os dois? É isso o que Baudelaire procura no monstro. Como Calasso diz, o autor estaria vendo a si mesmo. Ou acrescentando um ponto à conclusão dele, Baudelaire está identificando as várias complexidades ao ser um escritor. Ele teme pela obscenidade, ousadia e efeitos de suas palavras no texto, mas consegue ver o peso que carrega e a dignidade em ser um artista.

A tradução e a primeira análise do conto foram encontrados no livro A Folie Baudelaire, de Roberto Calasso, editora Companhia das Letras, 2012.

Mickey Mouse e um zumbi no curta-metragem para o Dia das Bruxas

mickey

Matéria publicada no Zona Crítica

Na sexta-feira, dia 31, é comemorado o Halloween, o dia das bruxas. O costume é norte-americano, mas quando o mês de outubro se inicia, é quase inevitável a vontade de procurar por enredos sombrios. No caso, não é bem sombrio. O Halloween também pode ser comemorado ao aliar o humor das animações infantis às surpresas de uma criatura assustadora.

Mickey Mouse, o rato mais conhecido na história do cinema, ganhou um curta-metragem que retoma a atmosfera de suas histórias clássicas. O rato magrelo de calças vermelhas – que se tornavam pretas nas películas P&B – desta vez se vê face a face a uma versão zumbi do Pateta.

O curta-metragem “Amigo Zumbi” foi escrito e dirigido por Aaron Springer, para o especial anual de curtas para o Halloween. Mickey não encontra uma ferramenta para consertar o motor de seu carro, mas se depara com um zumbi despedaçado, com os ossos à mostra e incrivelmente lento. Os detalhes da animação, a sincronia entre a trilha e a corrida desesperada de Mickey dão o tom de humor já conhecido dos estúdios Walt Disney em seus curtas ao breve enredo. Uma boa forma de entrar no clima do Halloween!

Você pode assistir AQUI 

O Rei de amarelo, de Robert W. Chambers

rei-de-amarelo (1)

Resenha publicada no site Indique um livro

Uma peça que conduz o personagem ao desespero sem fim ao notar que, talvez, não haja saída para o próprio mundo. Que o encontro com a peça é o mesmo que o encontro com a morte na forma do Rei, do amarelo, de Carcosa. Palavras que supostamente atingem o ponto mais extremo do belo aproximam o leitor da loucura. Cada pessoa que se depara com a capa de amarelo pardo, quase peçonhento, se vê numa vida de sofrimento interminável. Esta é a história que permeia quatro dos dez contos do livro O Rei de Amarelo, escrito por Robert W. Chambers em 1895 e traduzido agora pela editora Intrínseca.

Os contos são interligados e apresentam personagens de diferentes épocas, as quais com muita atenção passamos a identificar como próximas ou distantes por elementos que aparecem em um ou outro conto. O livro de Chambers ficou reconhecido como um dos precursores do terror cósmico, da chamada weird fiction que apresenta uma mistura entre o terror e o gênero sci-fi. Ele inspirou autores como Lovecraft, Neil Gaiman, Stephen King, distopias do século XX e até mesmo a série True Detective.

E mais ainda: Chambers, neste único volume de contos do gênero publicado em 1895, constrói um enredo futurista com o espírito decadentista do XIX. O cenário é o que podemos considerar uma sociedade totalitária nos Estados Unidos, em que o governo instituiu uma Câmara Letal onde as pessoas podem se suicidar. É desta forma que somos apresentados ao primeiro conto, O reparador de reputações. Nele, ficamos horrorizados tanto por esse cenário – com a perspicácia do autor – e o sonho do protagonista, Castaigne, em desejar uma melhora de vida, aceitando participar de um projeto ambicioso com o misterioso Sr.Wilde, clara referência ao autor Oscar Wilde.

O cenário do primeiro conto retorna em pequenas nuances no segundo conto, mas parecendo ser uma realidade alternativa. Em A máscara, Chambers ironiza o formato das novelas românticas e a literatura policial, além de expor o avanço da ciência como uma proximidade ao vício pela imortalidade. É um conto com belas imagens na narrativa, como a presença do mármore, o lírio e a doçura de Geneviève. No Pátio do Dragão vemos um conto mais breve, que traz um jogo narrativo muito inteligente, pois aos poucos passamos a questionar o que pode ser real ao personagem.  Já O Emblema Amarelo é o melhor da coletânea e tem uma atmosfera bem mais sombria que os demais, alternando entre sonho e realidade como uma forma de mostrar que o terror pode estar em ambos os mundos.

Depois destes quatro contos, o livro segue com A Demoiselle d’Ys, o qual conduz o leitor a imaginar como seria Carcosa, o local onde reside o Rei, além de propor uma narrativa romântica em meio à viagem no tempo. Ele é seguido por uma pequena prosa chamada O paraíso do profeta, que precisa ser relida devido às mensagens nas entrelinhas para se compreender como o homem está sempre entregue à perdição.

Na sequência, a coletânea insere os quatro contos restantes que são independentes da trama dos quatro primeiros, pois são contos fantásticos e românticos, A rua dos Quatro Ventos, de escrita leve e delicada ao contar a rotina do protagonista com uma gata misteriosa, A rua da primeira bomba,com uma narrativa doce que se passa na Paris em pleno bombardeio prussiano entre 1870-1871, A rua da Nossa Senhora dos Campos, que apresenta uma riqueza de detalhes na descrição dos jardins onde o protagonista estuda, e por fim Rue Barrée, que conta com um desfecho inteligente e alegórico. Estes contos estão na coletânea, pois essa separação entre ruas também sugere as realidades alternativas e, dentro dos enredos, há determinados elementos que proporcionam pequenas infelicidades aos personagens que acabam por servir como uma referência à presença da peça. É como se o autor indicasse que em qualquer situação, haverá esse acaso infeliz. Porém, nestes últimos contos mais realistas, Chambers apresenta a possibilidade de se conviver isso, que a existência pode ser feita dessas camadas.

O Rei de Amarelo é uma obra que só foi traduzida este ano, pela primeira vez, ao português, numa bela edição da Intrínseca (e com cheiro de giz de cera, devo ressaltar, para quem gosta de cheiro de livros). A letra, a diagramação, a capa em amarelo pardo e o desenho com traços de art nouveaucompensam a espera por este livro que poucas pessoas conhecem.

É com facilidade que o leitor se vê absorto na leitura de O rei de amarelo. Além de ser próximo de um exercício investigativo, a obra bem construída por Chambers nos leva a desejar conhecer mais do mundo que parece estar debaixo da pele, vivo numa peça, na mente humana, nos pátios vazios e igrejas, no desejo por alcançar a perfeição ao criar uma obra. Os personagens dos contos são pintores porque eles estão próximos do belo e do intento de traduzir o indizível numa obra de arte. Carcosa, o lugar que pertenceria ao Rei, seduz porque é o desconhecido. O amarelo que reluz dela, na mente destes personagens que desejam ler a peça até o final, demonstra que é a ilusão a grande companheira da Morte. A loucura do próprio homem instável.

E uma dica: compensa bastante acompanhar a leitura com as notas de rodapé ao fim de cada conto, durante a leitura, pois elas são pistas para que você passe a identificar as nuances da narrativa que indicam a possibilidade de dimensões alternativas. Por isso, é bom ler a nota assim que ela for indicada no texto. E ainda há uma excelente introdução de Carlos Orsi no volume, que explica a dimensão da obra e a sua influência para outros autores.

13 animações essenciais para entrar no espírito do Halloween

4_spooky4

Matéria publicada no site Literatortura

Tempestades que levam a castelos e casas mal-assombradas, criaturas estranhas que usam máscaras, caveiras e fantasmas dançando, a loucura como a origem do pior medo. Estas são as mais diversas histórias que podemos encontrar no gênero do terror. E melhor ainda se forem carregadas pelo humor e pela atmosfera bizarra das animações criadas no século XX por grandes estúdios como Walt Disney.

Nesta matéria, você poderá conhecer curtas de animação de grandes estúdios que produziram filmes adoráveis inspirados nos mais diversos clichês que, pelo desenho, podem ou não assustar. É aí que reside a surpresa. Por que ver animações para entrar no espírito do Halloween? Porque em qualquer época do ano podemos ter interesse por essas narrativas. Mas quando o mês de outubro se inicia, paira um manto sombrio pelas mentes humanas capaz de aguçar a nossa curiosidade para o estranho, o desconhecido e a vontade de sentir o medo. Porque, afinal, o terror faz com que a gente se sinta no limite de nossas fragilidades, em quase uma aventura em que ficamos entre acreditar ou não numa nova realidade.

E as animações? Elas trazem a magia que a criança tem ao ver que o medo pode ser convertido em algo engraçado, que uma caveira pode, no fim, nos surpreender e dançar. E assim diluir os medos. A época é de histórias de terror, abóboras, doces, fantasmas, filmes, e animações para entrar no clima do mês do Halloween. Abra a porta, distribua os doces e se deixe assustar ou se divertir com as fantasias e histórias a seguir!

Clique no título de cada animação para assisti-las. Tem para todos os gostos, Disney, Coragem o cão covarde, Popeye, Grinch, e muito mais!

Disney: The Skeleton Dance (1929)

Esta curta é um dos mais clássicos da história da Disney. Criado em 1929, a inspiração é a lenda medieval Danse Macabre, na qual a Morte convida os corpos abandonados no cemitério a regressar ao mundo dos vivos para uma dança até o amanhecer. É com humor que a Disney toma o enredo, tornando-o divertido e espirituoso pelos gestos dos esqueletos que acompanham a música e os movimentos certeiros que os personagem trazem a cada trecho. Carl Stalling, compositor da música, numa entrevista em 1971, falou sobre sua inspiração “Desde que eu era criança eu desejava ver esqueletos reais dançando e eu sempre gostei de ver atos no vaudeville com esqueletos dançantes. Como criança, nós gostamos de todas essas imagens e histórias obscuras”. Veja os ossos estalarem!

Mickey Mouse: The Haunted House (1929)

A animação é quase uma celebração à Morte com Mickey. O curta, também de 1929, traz esqueletos dançantes. Ao entrar numa casa para se abrigar de uma tempestade, Mickey descobre que não fez uma boa escolha: é uma casa mal-assombrada. Nela, a Morte o orienta a tocar piano enquanto os esqueletos dançam graciosamente como se estivessem em um salão do século XIX até se apresentarem pelos passos do vaudeville. Destaque para o relógio que sacode a cintura para lá e para cá (quase no ritmo do próprio pêndulo!) e a Morte regendo a música e a festa. Esqueletos dançando e tocando acabou se tornando um clássico, por isso tem também o Skeleton Frolic, que você pode ver aqui 

Gasparzinho: Boo or not to boo? (1951)

Quem não lembra do Gasparzinho? Ou Casper, the friendly ghost. Aqui, o simpático fantasminha deseja fazer amigos, após ler um livro de autoajuda que o faz se sentir confiante para aproveitar o Halloween. Mas os vizinhos estão aterrorizados com ele e abandonam o pequeno na festividade. Em sua tristeza, Gasparzinho acaba conhecendo uma menina que não se mostra assustada com ele, convidando a dançar e revelando que possui mais em comum com ele do que Gasparzinho imagina. O charme da história começa pelo título, uma referência ao ser ou não ser de Hamlet, “assustar ou não assustar?” e as cenas dos vizinhos se assustando são ótimas e criativas.

Coragem o cão covarde: A Máscara

Para ilustrar o clima do Halloween dá para lembrar das aventuras vividas por Coragem em Lugar Nenhum, localizado em um ponto do Kansas, com seus donos Muriel e Eustácio. Na fazenda inóspita e solitária, Coragem via surgir alienígenas, assassinos, criaturas estranhas que desejavam apenas a morte. Para combatê-los, o cãozinho pesquisava no computador para descobrir o que deveria fazer, tentando alertar seus donos, que sempre o ignoravam. O desenho tem uma atmosfera sombria e pesada, com um mal-estar que permanece até o fim. E é com o episódio A Máscara que dá para notar como o desenho consegue trazer uns temas bem densos e adultos para o público infantil. Nele, Coragem é atormentado por uma criatura que se infiltra em sua casa usando uma máscara bem aterrorizante. Mas tem alguns outros que vale muito a pena conferir, que são mais leves, como o divertido O Demônio do Colchão , inspirado em O Exorcista.

Scooby Doo

O clássico cãozinho detetive e medroso – provavelmente a inspiração para o Coragem que veio antes nesta lista – foi a diversão de muitas tardes de sábado. A bordo de uma van toda psicodélica, Scooby ajudava os amigos Fred, Velma, Salsicha e Daphne a desvendar mistérios em pântanos, casas e castelos mal-assombrados. O grande mérito do desenho, além da comédia por parte de Scooby e Salsicha, era mostrar que nem toda criatura esquisita poderia, de fato, existir. Na maioria dos casos, ficava provado que em vez de contar com o sobrenatural, os crimes eram causados por humanos mal-intencionados. Há muitas versões e episódios de Scooby por aí, e que são difíceis de achar, por isso fica este aqui com as melhores cenas para recuperar a nostalgia de acompanhar esse grupo de detetives.

O Gato Félix: Halloween (1927)

Este é um vídeo bem curtinho de uma animação do Gato Félix, que resolve, na noite de Halloween, pregar peças nos amigos usando uma abóbora como máscara. Até que ele é assustado por um porco fingindo ser um fantasma. Um ótimo trocadilho com a expressão “espírito de porco”, além da bela sequência instrumental.

Popeye: Shiver Me Timbers! (1934)

Quem cresceu vendo o marinheiro Popeye se convenceu até mesmo de que espinafre podia garantir uma força heroica. Em Shiver Me Timbers (1934), Popeye se depara com um navio fantasma atracado na praia e resolve subir nele, mesmo que tenha uma placa avisando para ninguém entrar. A sincronia entre as cenas e os sons é bem calculada, com as tábuas do navio se deslocando a cada passo de Popeye ou as vezes em que ele se balança de um lado ao outro batendo no mastro do navio. Mas sempre ao fim Popeye come todo o espinafre de sua lata e fica forte para combater os perigos, até mesmo os sobrenaturais. O curta tem detalhes primorosos, como a onda raivosa que investe contra Popeye ou as luzes piscando vertiginosamente enquanto Popeye está entre fantasmas.

Mickey Mouse: The Mad Doctor (1933)

A tempestade inicial no curta de 1933 da Disney quase força o espectador contra o vento da mesma forma que faz com Mickey, de tão realista. Os relâmpagos sonoros e os raios prateados contrastam com o preto e branco da animação, para anunciar que o perigo está em um castelo, para onde Pluto é levado. Mickey chega até ele para salvar o cãozinho e presencia morcegos assustadores, vários obstáculos em um túnel, caveiras escondidas nos degraus da escada e um médico em um manto negro, que possui planos terríveis para Pluto em seu laboratório. O curta é bem criativoe cada obstáculo neste castelo começa a causar uma aflição e um pouco de desespero pelo Mickey não conseguir sair.animação possui uma atmosfera que o faz ser um dos melhores curtas com Mickey.

Grinch: Halloween is Grinch Night (1977)

Se Grinch tem o desejo de destruir o Natal, imagine se ele puder destruir uma época em que o horror já é bem-vindo como a atmosfera do Halloween. A animação musical de 1977 traz a estética psicodélica e surreal já conhecida nas ilustrações do personagem, preserva os trocadilhos inteligentes na língua inglesa e provocou medo nas crianças que não simpatizaram com Grinch.

The Devil’s Ball (1934)

Este aqui é mais uma animação para os amantes de cinema terem a chance de ver como é possível encontrar um curta em stop-motion criado em 1934, é uma preciosidade. Em preto e branco, a animação tem uns detalhes bem expressivos, como um diabo alto e magro, bonequinhas de porcelana, um misterioso esqueleto de peixe que flutua e uma adorável bailarina passando pó no rosto. A qualidade e o movimento dos personagens em cena, enquanto brinquedos, são ótimas. O curta foi realizado por Johnny Legend and Shout! Factory e, na verdade, The Devil’s Ball é uma pequena história que faz parte da animação The Mascot, a qual mais tarde foi reeditada em um único curta metragem.

Tom & Jerry: Wot a night (1931)

Não, não é o gato e o rato. Mas sim os dois motoristas de taxi que estrelaram curtas de animação entre 1931 e 1933. O curta em questão se inicia com uma ótima sequência na chuva, onde o táxi mergulha com fluidez em poças, as gotas são pequenos traços que cortam a cena, e os fantasmas no castelo dão o tom bizarro ao curta.

Pato Donald: Trick or Treat (1952)

Os sobrinhos do Pato Donald resolvem visitá-lo no Halloween com suas fantasias, enquanto são observados por uma bruxa. Porém, o Pato resolve aplicar umas travessuras de mau gosto em vez de dar os doces. Indignada, a bruxa resolve ajudar os pequenos tentando pregar um peça em Pato Donald.

The Tell Tale Heart, conto de Edgar Allan Poe (1953)

Para finalizar, Edgar Allan Poe não pode se ausentar da lista. No curta de 1953, é contada a história do conto O coração denunciador, em que o personagem passa a se sentir perseguido pelo olho de vidro de um velho, e resolve matá-lo para acabar com seu tormento. Porém, a loucura poderá afundá-lo ainda mais. O curta, diferente dos anteriores, possui uma atmosfera mais sombria e a narração é tão impecável que causa arrepios aos alternar entre os sussurros assustados e os gritos repentinos.

Fonte: aqui e aqui

Sábado do vídeo | Neil Gaiman comenta a sua obra e a experiência em clubes de leitura

Matéria publicada no site Literatortura 

No início de setembro, Neil Gaiman divulgou um vídeo que veio com a promessa de responder perguntas feitas por e sobre clubes de leituras. Para funcionar como um pacote completo. E já que praticamente toda entrevista ou vídeo liberado por Gaiman possui grandes frases que se tornam inesquecíveis, este é mais um daqueles momentos em que ele novamente sabe como conversar com seu leitor. E ainda, como tratar a literatura com simplicidade e um carinho genuíno.

Neil demonstra uma grande estima pelos clubes de leitura, pois foi a um deles que o escritor concedeu o seu livro Deuses Americanos, colocando os participantes como os primeiros leitores do livro que ainda não havia sido publicado. Mais do que um teste para saber quais perguntas os participantes deste clube fariam sobre a obra, foi um modo agradável de descobrir mais sobre a própria obra e a relação com o leitor. E não ficou apenas em Deuses Americanos. Gaiman também cedeu mais duas obras a esse clube do qual participava para que discutissem antes da publicação.

“Eu passava uma maravilhosa tarde com eles tomando chá, comendo cookies, respondendo às questões, o chá e os cookies eram obviamente um pouco mais importantes, com as questões em segundo lugar”, brinca Neil no vídeo. E ele acrescenta “Vocês que participam de clubes de leitura leem livros como algo coletivo e prazeroso, vocês possuem opiniões muito fortes e nunca são educados e se você é um entusiasta por respostas exatas ou possui um entusiasmo ao pensar que um livro não deveria ser apenas queimado, mas possivelmente explodido e alvejado por uma artilharia antes que ele se queime, você está sempre apaixonado”.

Esta é uma bela compreensão sobre o embate do leitor com o livro em um clube de leitura: a obra não deve receber uma única qualificação e ser “queimada” por isso. Mas sim ser posta na mesa, entre tantos leitores diferentes, e ser questionada, atacando-a por todas as partes antes que se cogite deixar a obra de lado – por ora – ou qualificá-la com uma resposta unilateral. E é o que fazemos em um clube de leitura, maravilhar-se com os diferentes caminhos que um livro pode ganhar.

Um exemplo disso. Eu participo de um clube focado em livros de arte e, até então, eu tinha uma visão um tanto limitada sobre Delacroix e Ingres. Foi só trazer à tona as observações do autor do livro e colocar os quadros na mesa, com as diferentes observações dos participantes, que a obra passou a existir para mim. Por isso, assistir ao vídeo do Neil Gaiman nos leva a entender como é bom perguntar. É um processo de investigação que precisa ser preservado não apenas em clubes, mas nas leituras diárias, a todo instante. E um escritor precisa abrir espaço para o diálogo com seus leitores.

E este é só o início do vídeo, o qual traz diversas respostas às perguntas dos leitores sobre o último livro publicado por Gaiman, O Oceano no fim do caminho. Foi questionado se ele se inspirou em alguma memória de infância, detalhes sobre possíveis nomes ao narrador, entre outras questões específicas do enredo. Uma resposta para o leitor que ficou instigado com o livro e um exercício para o autor saber o que sua obra trouxe à superfície, com diferentes perspectivas. No fim, esta é uma nova vida que se concede ao livro. Envia-se uma mensagem à espera da resposta do outro para que a obra expanda o seu universo em novas partículas em forma de ideias e novas histórias.

Para assistir ao vídeo, clique AQUI 

(O vídeo tem legenda em inglês para ser ativada. Há alguns errinhos, mas dá para acompanhar)

Sábado do Vídeo|8 curtas inspirados nas obras de Edgar Allan Poe

vincent burton

Matéria publicada no Literatortura

Tomada por um ímpeto de investigar o mundo existente no youtube, digitei “animation Edgar Allan Poe”. Um mundo de poeira, horror se abriu aos meus olhos numa descoberta que me causou uma vontade irrequieta, incessante, intensa em dividir com vocês neste Sábado do Vídeo.

Eu não conseguiria escolher apenas uma das minhas descobertas. Muitas dessas animações são bem desenvolvidas por animadores desconhecidos ou alguns já considerados clássicos, e preservam o horror psicológico guardado nas palavras emitidas por Poe. Ecoam no formato estranhamente infantil da animação, como um desejo de trazer à tona os pesadelos de uma criança que crê em monstros que moram debaixo da cama.

Apague a luz, coloque o fone de ouvido, dê o play e feche a janela. Não será agradável se ela bater com força no meio da animação. Mas se ela estiver fechada e bater com força, é motivo para se assustar. Ainda mais se um corvo pousar no parapeito.

É só clicar no título para assistir a cada curta-metragem!

1. The Tell Tale Heart (O coração denunciador), animação feita em 1953

É com uma elegância digna de textos de Poe que James Manson narra a história de um homem louco que não aguenta mais presenciar a vida pulsante em um velho que o encara com um olho de vidro.
“Yes, the eye, that eye. His eye staring. Milky white film. The eye, everywhere in everything!”

2. The Tell Tale Heart, numa versão mais moderna, de 2006

Annette Jung criou uma animação que consegue mostrar um humor cáustico diante do horror e expõe com riqueza de detalhes e num ritmo ágil a loucura do personagem.

3. Vincent, curta-metragem feito pelo diretor Tim Burton em 1982.

É com a épica narrativa de Vincent Price que o curta narra a história sobre um menino de 7 anos chamado Vincent, que deseja ser como Vincent Price. Ele vive no mundo criado por Edgar Allan Poe e crê que sua vida pode ser igual aos contos do autor. Toda a animação ainda é rimada com o mesmo ritmo encantador dos poemas de Poe.

4. Lenore, de Roman Dirge

Inspirado na personagem do poema Lenore, de Poe, Roman Dirge criou uma série de HQs sobre a adorável menininha morta. Há vários episódios disponíveis no youtube com as aventuras da garota zumbi, uma animação carregada de humor negro e um traço creepy.

5. The Oval Portrait, de Aidan McAteer, 2010

O Retrato Oval apresenta a história de um retrato misterioso de uma moça e as tragédias que se sucedem a partir da obra. A animação em preto e branco consegue recortar com simplicidade o horror presente no conto e os dilemas dos personagens.

6.The Black Cat, de Vít Přibyla and Noemi Valentíny (2011)

O Gato Preto, de Poe, narra a história de um homem atormentado por um gato preto. A atmosfera de horror e a condenação pelos atos do personagem faz com que seja um conto inesquecível. A animação é em stop motion e chama atenção os detalhes dos objetos produzidos para recriar o cenário da história.

7. The Raven, de Mariano Cattaneo e Nic Loreti (2011)

Numa voz sussurrante, Billy Drago dá vida ao personagem de O Corvo. A animação simples e obscura desenvolve bem a magia inexplicável dos versos clássicos de Poe, com um traço semelhante aos recortes das fotografias antigas de algum passado oculto e esquecido, talvez deixado lá atrás com Lenore. A atmosfera faz com que os versos ganhem vida em todos os trechos da animação.

“Once upon a midnight dreary, while I pondered weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
`’Tis some visitor,’ I muttered, `tapping at my chamber door -
Only this, and nothing more.'”

8.Annabel Lee

Um dos poemas mais tristes é Annabel Lee, sobre o lamento de um rapaz que perdeu o amor de sua vida, que repousa no reino à beira do mar. Mas é um amor que supera até mesmo os anjos do Paraíso e os demônios mergulhados no mar. A animação é bem simples, é a narrativa que ecoa pelos ouvidos o elemento que acaba conquistando, pois lembra o ritmo das águas, juntamente com o tom azulado e místico.

“It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me”.

A Morte, objetos inanimados e eleições: o clima de outubro pelas listas!

Outubro foi um mês cheio de muitas novidades – Mostra Internacional de Cinema, algumas estreias de terror e os debates das Eleições 2014. Por isso o Zona Crítica não podia ficar de fora. Toda semana a gente pega um tempinho e faz uma lista bem bonita com duas indicações de filmes por colaborador. Este mês foi particularmente divertido, principalmente resgatar na memória os filmes onde a Morte era personagem! Dá uma olhada abaixo, você pode conferir as minhas indicações mas também pode clicar em cada título para ver a lista completa.

A Morte é protagonista no Cinema

O Sétimo selo: A morte está em todos os cantos do enredo de O sétimo selo, de Bergman. Após retornar das Cruzadas, o cavaleiro Antonius se depara com uma população desolada, que aos poucos se esvai pelo horror da peste negra. O questionamento sobre o sentido da vida, a existência de Deus e do Diabo e a impossibilidade de uma vida além da morte permeia todo o filme pela resistência do protagonista, que encontra a Morte na praia e a desafia para um jogo de xadrez. Está posto aqui, então, a tentativa do cavaleiro em barganhar e descobrir a resposta pela boca daquela que está permanente na guerra e na peste. A Morte é irônica e carrega um meio sorriso que tende ao obscuro, ela quase nos seduz por ser instigante. Pelo jogo de xadrez, ela acaba se mostrando implacável: a Morte tem seus passos premeditados, sabendo quando deve convidar cada humano a dançar com ela.

Volver: No filme de Pedro Almodóvar a morte se mistura ao renascimento da vida. Raimunda sempre retorna à La Mancha para limpar o túmulo da mãe no Dia dos Mortos. E este início do filme dá o tom para todo o enredo que apresenta a família de Raimunda lidando com a morte como um dado de sua existência. Raimunda, precisando ocultar o segredo de ter matado o marido para proteger a própria filha, a irmã de Raimunda que teme os mortos, e Irene, mãe de Raimunda, que retorna dos mortos para tentar se reconciliar com a filha. No fim, se o filme contém apenas figuras femininas, a morte acaba sendo mais uma personagem inserida por Almodóvar, já que é ela quem sustenta, define, fragiliza e fortifica essas mulheres que sobrevivem numa melancolia que tem seus momentos sublimes de alegria entre a família. A morte acaba sendo o tom agridoce de suas vidas.

Harry Potter e as relíquias da morte – parte 1: O livro Contos de Beedle, o Bardo, deixado por Dumbledore à Hermione Granger, (livro esse que até J.K.Rowling publicou depois) é peça chave para a trama do filme. Há uma cena em que a garota lê para Harry e Rony o Conto dos três Irmãos, em que cada um deles pede um presente à Morte: a Varinha das Varinhas, a Capa da invisibilidade e a Pedra da Ressurreição. Destes presentes, o único que se mostrou simples, sem qualquer desejo de ambição, foi a Capa. Por causa dela, o irmão pôde viver até a velhice às escondidas da Morte, que demonstra respeito pelo irmão que a enganou para viver uma vida cheia de virtudes.

Objetos (in)animados no cinema

Frankenweenie: Desafiando os pais, os projetos comuns de ciência da escola e o processo natural da existência, um garotinho resolve trazer o seu cachorro de volta à vida. Esta é a história de Frankenweenie, uma animação em preto e branco de Tim Burton. Nela, presenciamos esse retorno à vida de uma criatura pelas mãos de um pequeno menino cientista – uma clara referência à Frankenstein – e até que ponto é possível dar vida a um animal de modo que o passado possa ser recuperado. Victor é fã de cinema e gosta de criar curtas e na companhia de seu cãozinho Sparky. Após um acidente, o garoto se vê perdido sem seu amigo. Então, num dia chuvoso, o cãozinho retorna pela eletricidade, na mesa de operação do garoto. Mas as consequências vêm logo em seguida. O filme de Burton é uma amostra poética do quanto todos gostariam de ter o poder de trazer os momentos e as pessoas de volta à vida, mas Sparky vem abanando o rabo e trazendo à tona também o peso que existiria nessas escolhas.

Casa Monstro: Bem lá no fundo você já passou em frente a uma casa abandonada, viu um movimento suspeito e cogitou que poderia ser mal-assombrada. O filme Casa Monstro trata disso literalmente. A casa ganha vida, engole triciclos, crianças, brinquedos e transeuntes da calçada. Na véspera do dia das bruxas, o menino DJ e seu amigo resolvem investigar, ao que veem a bola de basquete sumindo no terreno da casa. Assim, o filme nos leva a conhecer essa casa que possui uma alma e fome por tudo aquilo que passar pela sua frente.

Filmes e eleições

Milk – A voz da igualdade: Entre os debates políticos, a pauta LGBT tem se mostrado merecidamente urgente. Vimos o discurso homofóbico de Levy Fidélix e a voz dele soa, infelizmente, em outras mentes que ainda creem não ser justo aprovar a união homoafetiva. Nada como dar voz, então, a quem realmente merece. O filme Milk – A Voz da igualdade, traz a trajetória de Harvey Milk, considerado o primeiro gay assumido a alcançar um cargo público de importância nos Estados Unidos. Em 1977, após um intenso eleitorado, Milk consegue assumir um cargo no Quadro de Supervisor da cidade de San Francisco. Assim, o filme apresenta os seus dilemas e o preconceito que nega os direitos de exercer o uso de sua voz publicamente e ser integrado à sociedade.

Dama de Ferro: O grande mérito do filme é trazer a complexidade de Margaret Thatcher pela atuação de Meryl Streep. Em Dama de Ferro, conhecemos por flashbacks, a trajetória de uma das poucas mulheres que ganhou destaque no cenário político mundial. O filme busca se abster de um posicionamento forte e algumas vezes acaba por optar pela dicotomia esquerda-direita e focar no drama humano da personagem. Contudo, a atuação de Meryl Streep abre o campo para tentar entender quem foi Thatcher. Ela foi apelidada como dama de ferro em razão de seu conservadorismo, pulso firme ao governar a Inglaterra como Primeira-Ministra. Ela proibiu manifestações sindicais, houve um gasto excessivo com uma guerra ambígua e complicada como a Guerra das Malvinas, ainda teve seu governo marcado pela priva tização e a recessão econômica após a Crise do Petróleo de 1979. Ou seja, falar de Thatcher é complexo. Mas o filme é um bom começo para visualizar o cenário e o destaque dado à personagem.

 

Entradas Mais Antigas Anteriores

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 53 outros seguidores